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Fandom: Nenhum

Criado: 01/06/2026

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Equilíbrio de Vidro e Tinta

O estúdio principal de Emanuel, localizado no coração pulsante da cidade, exalava um aroma inconfundível de tinta fresca, álcool isopropílico e café caro. As paredes eram adornadas com esboços complexos que contavam a história de sua ascensão: de um jovem artista de rua a um magnata das tatuagens com estúdios espalhados de Londres a Tóquio.

Emanuel estava sentado em sua cadeira de couro, os olhos fixos em um projeto de fechamento de costas, mas sua mente estava a quilômetros dali. Ou melhor, estava dividida entre dois endereços.

A porta da sala privativa abriu-se sem cerimônia. Sara entrou com o impacto de um furacão de grife. Seus sapatos de salto alto estalavam contra o piso de concreto polido, e o perfume doce e marcante anunciava sua presença antes mesmo que ela falasse. No quadril, ela carregava a pequena Valentina, de apenas um ano. A bebê, uma cópia fiel da mãe com seus cachos loiros perfeitamente alinhados e um vestidinho de seda que custava mais que o aluguel de muita gente, olhava para o pai com um ar de tédio precoce, segurando um mordedor cravejado de cristais.

— Os relatórios da unidade de Milão estão uma bagunça, Emanuel — disse Sara, jogando um tablet sobre a mesa dele. Ela se inclinou, o decote generoso e as curvas acentuadas pelo vestido justo de couro sintético desafiando a gravidade. — Se eu não tivesse intervindo na contabilidade, aqueles italianos teriam passado a perna em você.

Emanuel suspirou, esfregando as têmporas. O estresse de gerenciar um império era constante, e Sara, apesar de sua postura vulgar e língua afiada, era a única pessoa em quem ele confiava plenamente para manter os números em ordem. Ela era brilhante, impulsiva e ferozmente leal.

— Obrigado, Sara. Eu não sei o que faria sem a sua gestão — ele murmurou, esticando o braço para acariciar a bochecha de Valentina. A bebê apenas deu um tapinha na mão dele e voltou a olhar para o próprio reflexo na tela do celular da mãe. — Ela está cada dia mais parecida com você. Uma mini diva.

— Claro que está. Genética de elite e bom gosto não se discutem — Sara sorriu, uma expressão de pura autoconfiança. Ela sabia o lugar que ocupava. Ela era a rainha do castelo, a mãe da herdeira, a mulher que entendia os negócios. — E então? Vai buscar a "pequena historiadora" hoje?

Emanuel endureceu os ombros. A menção a Eduarda sempre trazia uma mistura de ternura e tensão.

— Vou. Hoje é um dia importante.

Sara deu de ombros, sem demonstrar ciúme real. Para ela, Eduarda era como um animalzinho de estimação delicado que Emanuel havia adotado. Não era uma ameaça ao seu trono, apenas um passatempo doce para acalmar os nervos dele.

— Boa sorte com isso. Tente não assustar a menina. Ela parece que vai quebrar se a gente falar um pouco mais alto.

***

Duas horas depois, o ambiente mudou drasticamente. Emanuel estacionou seu SUV preto em frente à casa dos pais de Eduarda. Era um bairro arborizado, com casas que exalavam um conforto moderno e acolhedor. Os pais de Eduarda eram jovens, artistas plásticos de mente aberta que viam em Emanuel não um genro convencional, mas uma figura fascinante.

Eduarda o esperava na varanda. Ela usava um vestido de linho bege, os cabelos castanhos caindo em ondas naturais sobre os ombros esguios. Quando viu o carro, um sorriso tímido e radiante iluminou seu rosto delicado. Ela caminhou até ele com uma leveza que contrastava com a energia frenética de Sara.

— Você parece cansado — disse ela, assim que entrou no carro, aproximando-se para dar um beijo suave no canto dos lábios dele. — O trabalho foi muito pesado hoje?

— O de sempre, Duda — Emanuel relaxou o corpo no banco, sentindo a aura de paz que ela emanava. — Mas ver você ajuda.

Eles foram jantar em um restaurante reservado, onde a luz era baixa e a música, um jazz suave. Eduarda falava com entusiasmo sobre sua faculdade de História da Arte, descrevendo as pinceladas de Renoir como se fossem segredos divinos. Emanuel a observava, fascinado pela forma como ela se escondia atrás das mechas de cabelo quando percebia que ele a olhava demais.

Ele decidiu que era o momento. Tirou uma pequena caixa de veludo do bolso.

— Duda, faz quatro meses que você entrou na minha vida e mudou o ritmo das coisas. Eu quero que isso seja oficial. Quero que o mundo saiba que você é minha namorada.

Os olhos de Eduarda brilharam, uma umidade emocional surgindo instantaneamente. Ela aceitou o anel com as mãos levemente trêmulas.

— Sim, Emanuel... eu quero muito.

Ele sorriu, sentindo uma onda de triunfo. Mas o controle, sua característica mais forte, o impulsionou a dar o próximo passo que já havia planejado metodicamente.

— E tem mais uma coisa. Eu quero você perto de mim o tempo todo. A casa é grande, a Sara já concordou e a Valentina adora você, mesmo que não demonstre. Quero que você se mude para lá. Quero minhas duas mulheres sob o meu teto.

O silêncio que se seguiu foi pesado. O sorriso de Eduarda murchou lentamente, e ela baixou o olhar para o prato. Ela começou a brincar com o anel recém-colocado, um sinal claro de seu desconforto.

— Emanuel... — a voz dela era um sussurro manhoso, quase suplicante. — Eu fico tão feliz com o pedido de namoro, de verdade. Eu amo o tempo que passamos juntos.

— Mas? — O tom dele subiu um oitavo, a rigidez começando a transparecer em sua postura.

— Mas só faz quatro meses — ela disse, buscando coragem em sua intuição emocional. — Eu ainda estou na faculdade, meus pais... eles são maravilhosos, mas eu não me sinto pronta para sair de casa assim. E a sua casa... é muito intensa. A Sara é uma força da natureza, e eu ainda estou aprendendo a lidar com tudo isso.

— Eu posso proteger você — Emanuel insistiu, a voz ficando mais firme, quase autoritária. — Eu controlo as coisas lá. Você teria seu próprio espaço, seu estúdio de estudos...

— Não se trata de espaço físico, Emanuel. Se trata de tempo — ela esticou a mão sobre a mesa, tocando os dedos dele com suavidade. — Por favor, tenha paciência comigo. Eu sou mais devagar que você. Eu preciso que a gente construa isso com calma. Eu não estou pronta para morar com outra família ainda.

Emanuel sentiu a irritação borbulhar. Ele estava acostumado a comandar impérios, a coordenar equipes e a ter Sara executando suas visões de negócios com precisão cirúrgica. Ele queria a ordem perfeita: a eficiência de Sara e a doçura de Eduarda, ambas sob seu domínio e proteção, vinte e quatro horas por dia.

— É uma questão de lógica, Eduarda. Seria mais fácil para mim, para a logística da nossa relação.

— Mas não é uma questão de lógica para o meu coração — ela respondeu, os olhos expressivos fixos nos dele, transbordando uma honestidade que o desarmava. — Você me ama por quem eu sou, não é? Então aceite que eu preciso de um pouco mais de tempo no meu ninho antes de voar para o seu.

Emanuel soltou um suspiro pesado, recostando-se na cadeira. Ele odiava perder o controle, odiava quando os planos não se encaixavam nas caixas que ele construía.

— Tudo bem — ele disse, embora o tom fosse rígido. — Eu vou esperar. Mas não sou um homem conhecido pela paciência infinita, Duda.

— Eu sei — ela sorriu, voltando a ficar manhosa, inclinando a cabeça de lado. — E é por isso que eu vou fazer cada momento que passarmos juntos valer a pena.

***

Quando Emanuel chegou em casa, já passava da meia-noite. O apartamento de cobertura era um monumento ao luxo moderno. Ele encontrou Sara na sala, bebendo uma taça de vinho tinto enquanto examinava planilhas em um notebook. Ela ainda usava a maquiagem impecável, mas estava descalça.

— Pela sua cara, o plano de "harém unificado" falhou — provocou ela, sem desviar os olhos da tela.

— Ela quer tempo — Emanuel resmungou, jogando a chave do carro sobre o aparador de mármore. — Diz que quatro meses é pouco.

Sara soltou uma risada curta e irônica, levantando-se e caminhando até ele com a elegância de uma predadora.

— Ela é esperta, Emanuel. Ou talvez apenas lenta demais para o seu ritmo. Eu te avisei que ela é um passarinho assustado. Você tenta prender em uma gaiola de ouro e ela entra em choque.

— Eu não quero prendê-la, Sara. Quero cuidar dela.

— Dá no mesmo para homens como você — ela passou os braços pelo pescoço dele, o cheiro de vinho e perfume caro o envolvendo. — Relaxa. Deixa a menina no canto dela por enquanto. Você já tem a mim para resolver seus problemas e a Valentina para gastar seu dinheiro. Deixa a historiadora ler os livros dela em paz até ela sentir falta de um homem de verdade por perto.

Emanuel olhou para Sara, a mulher que era sua rocha e seu caos ao mesmo tempo. Depois pensou em Eduarda, a doçura que ele desejava proteger do mundo, mas que acabara de lhe impor um limite que ele não esperava.

— Ela aceitou o namoro — ele disse, como se precisasse de uma pequena vitória.

— Ótimo. Agora você tem uma namorada oficial e uma... — ela fez uma pausa dramática, sorrindo com malícia — ... como você me chama mesmo nos documentos da empresa? Sócia-diretora? Mãe da sua filha?

— Você é muito mais que isso e sabe bem — ele a puxou pela cintura, sentindo a tensão do dia começar a se dissipar sob o toque possessivo de Sara.

— Eu sei. Por isso não me importo que você traga flores para ela. Desde que os diamantes continuem vindo para mim e para a Valentina.

Emanuel a beijou com uma intensidade nascida da frustração e do desejo. Ele tinha tudo o que um homem poderia querer: riqueza, poder e duas mulheres fascinantes que, de formas opostas, preenchiam os vazios de sua alma racional.

No andar de cima, a babá eletrônica mostrou Valentina se mexendo no berço, a bebê esnobe dormindo com a tranquilidade de quem já nasceu sabendo que o mundo estava aos seus pés.

Emanuel sabia que a convivência civilizada entre Sara e Eduarda era um equilíbrio de vidro. Por enquanto, as peças estavam inteiras. Mas ele também sabia que, em seu mundo de tinta e controle, a paciência era uma virtude que ele teria que aprender a cultivar, mesmo que isso significasse aceitar que nem tudo podia ser tatuado conforme o seu desenho original.

— Ela vai acabar cedendo — murmurou Emanuel contra o pescoço de Sara.

— Ou você vai acabar aprendendo que não pode ter tudo do seu jeito, "chefe" — Sara rebateu, afastando-se com um olhar desafiador. — Agora vem. Vamos dormir. Amanhã temos que decidir se compramos aquele estúdio em Miami ou se investimos na galeria de arte que a sua pequena tanto comentou.

Emanuel sorriu pela primeira vez naquela noite. Sara sempre sabia como misturar negócios com o prazer de manter todos sob sua órbita. O jogo estava apenas começando.
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