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Fandom: Nenhum
Criado: 02/06/2026
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RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoPsicológicoEstudo de PersonagemCiúmesRealismoFofuraHistória DomésticaFatias de VidaSuspenseCrimeSombrioConserto
O Peso do Equilíbrio e o Aroma de Antisséptico
O hospital particular de elite tinha um cheiro estéril que Emanuel já não suportava mais. O relógio de pulso marcava pouco depois das duas da manhã, e o cansaço pesava em seus ombros como uma armadura de chumbo. Ele caminhava pelo corredor de mármore polido, segurando a pequena Antonella no colo. A bebê, de apenas um ano, soltava choramingos baixos, com o rosto corado pela febre que se recusava a ceder.
Ao seu lado, Sara caminhava com passos firmes, o som de seus saltos ecoando de forma irritante pelo ambiente silencioso. Mesmo naquela hora da madrugada, ela parecia ter saído de um editorial de moda: o cabelo loiro platinado estava impecavelmente alinhado, e o conjunto de seda justo que usava realçava cada curva de seu corpo esculpido. Ela carregava a bolsa de grife da filha — uma peça personalizada que custava mais do que a maioria das pessoas ganhava em um ano — como se fosse um troféu.
— Eu já disse, Emanuel, o pediatra particular deveria ter vindo até a cobertura. É um absurdo termos que esperar aqui como se fôssemos qualquer um — reclamou Sara, a voz carregada de uma ironia ácida que ela usava como escudo sempre que perdia o controle.
— Sara, pelo amor de Deus, a menina está com trinta e nove de febre. O hospital tem a estrutura que ela precisa agora — Emanuel respondeu, a voz rouca e rígida. Ele estava no limite. O sucesso de seus estúdios de tatuagem e seus outros empreendimentos globais lhe davam poder, mas nada disso comprava a paciência necessária para lidar com o temperamento de Sara em uma crise.
— Ela é uma rainha, não deveria estar em um corredor de hospital — Sara rebateu, ajeitando a manta de grife que cobria a bebê. — Olha para ela, está abatida. Minha mini diva não merece isso.
Emanuel respirou fundo, fechando os olhos por um segundo para não explodir. Ele amava Sara; amava a competência dela na administração de seus negócios e a força que ela exalava, mas o narcisismo dela, refletido até na forma como criava a filha, era exaustivo.
Eles dobraram o corredor em direção à ala pediátrica quando Emanuel parou bruscamente.
A poucos metros de distância, em uma área de espera envidraçada que dava para a unidade de maternidade, ele a viu.
Eduarda estava sentada em uma poltrona de couro claro, segurando um urso de pelúcia pequeno e delicado contra o peito. Ela usava um vestido de malha leve em tom de lavanda e um cardigã bege, o cabelo castanho escuro caindo em ondas naturais sobre os ombros. Ela parecia uma miragem de suavidade em meio à tensão daquela noite.
Ela não os viu. Estava absorta, observando através do vidro um recém-nascido no berçário. O olhar de Eduarda era de uma ternura tão profunda que Emanuel sentiu um aperto no peito. Ela estava acompanhando a prima, que dera à luz horas antes.
— Ora, se não é a pequena ratinha de biblioteca — murmurou Sara, percebendo o olhar fixo de Emanuel. Ela não falou com ódio; havia uma espécie de condescendência divertida em sua voz. Sara não via Eduarda como uma ameaça real à sua posição de "primeira-dama", mas sim como um bichinho de estimação que Emanuel insistia em manter.
— Sara, agora não — avisou Emanuel, mas seus pés já o levavam em direção a ela, quase que por instinto.
Eduarda se sobressaltou quando a sombra dele cobriu o reflexo do vidro. Ela virou o rosto lentamente, os olhos grandes e expressivos revelando uma mistura de surpresa e alegria imediata ao vê-lo.
— Emanuel? — A voz dela era um sussurro doce. — O que você está fazendo aqui? Aconteceu alguma coisa?
— A Antonella está queimando em febre — explicou ele, aproximando-se. A presença de Eduarda agia como um sedativo para seus nervos. Ele sentiu uma vontade quase incontrolável de largar tudo e se esconder no abraço dela, onde o mundo era simples e silencioso.
Eduarda levantou-se rapidamente, a preocupação nublando suas feições delicadas. Ela estendeu a mão, tocando levemente o braço de Emanuel antes de olhar para a bebê no colo dele.
— Oh, meu Deus, pobrezinha... — Eduarda se aproximou da bebê, fazendo um som suave com os lábios, tentando confortar a pequena. — Ela parece tão cansadinha.
— Ela está péssima, Eduarda. E o seu namorado aqui está sendo um ogro racional como sempre — interrompeu Sara, aproximando-se e ocupando o espaço com sua presença vibrante e o perfume caro que lutava contra o cheiro de álcool do hospital.
Eduarda recuou um passo, a timidez voltando a assumir o controle. Ela sempre se sentia pequena perto de Sara, como se a loira fosse feita de cores neon e ela de tons de aquarela.
— Oi, Sara — disse Eduarda, baixando o olhar. — Sinto muito pela bebê. Eu... eu estava aqui com a minha prima. O bebê dela nasceu faz três horas. É um menino.
Emanuel observou as duas. O contraste era doloroso. Sara, a mulher que vivia com ele, que geria seus milhões com mão de ferro e criava sua filha para ser uma extensão de sua própria vaidade. E Eduarda, a estudante de História da Arte que ainda morava com os pais, que preferia museus a festas e que se recusava a se mudar para a sua cobertura, por mais que ele implorasse.
— Um bebê? Que fofo — disse Sara, sem nenhum interesse real, enquanto checava o próprio reflexo na tela do celular. — Mas agora temos que ir, o médico já deve estar nos esperando na sala VIP. Emanuel, vamos?
Emanuel não se moveu imediatamente. Ele olhou para Eduarda, vendo a hesitação em seus olhos.
— Duda, por que você não vem conosco? — pediu ele, a voz soando mais como um apelo do que como um convite. — Fica lá na sala de espera comigo. Eu preciso... eu preciso que você esteja lá.
Eduarda mordeu o lábio inferior, um gesto tipicamente manhoso que sempre desarmava Emanuel.
— Eu não sei, Emanuel... Meus pais estão vindo buscar a minha tia, e eu prometi que ficaria aqui até eles chegarem. E a Sara... eu não quero atrapalhar.
— Você não atrapalha, querida — Sara disse, com um sorriso de lado, guardando o celular. — Na verdade, você pode até ajudar a distrair a Antonella enquanto eu lido com a papelada da internação. Você é ótima com essas coisas delicadas e... infantis.
Emanuel sentiu a pontada de sarcasmo nas palavras de Sara, mas estava exausto demais para mediar. Ele apenas estendeu a mão livre para Eduarda.
— Por favor.
Eduarda cedeu, como sempre fazia quando se tratava dele. Ela deslizou a mão pequena na dele, sentindo os calos e a firmeza da mão de um homem que passava horas segurando uma máquina de tatuar.
Enquanto caminhavam para a área privativa, o silêncio era preenchido apenas pelo som dos passos. Emanuel se sentia como um homem caminhando sobre uma corda bamba. De um lado, a força impetuosa de Sara, que exigia sua atenção e seu respeito profissional; do outro, a fragilidade de Eduarda, que exigia sua proteção e seu carinho mais puro.
Ao chegarem na suíte VIP, Sara imediatamente começou a ditar ordens para a enfermeira que os recebeu, exigindo atualizações imediatas e questionando a competência da equipe. Emanuel sentou-se no sofá de couro, ainda com a filha no colo.
Eduarda sentou-se ao lado dele, encostando o ombro no dele de forma tímida. Ela começou a acariciar a mãozinha da bebê, que parecia se acalmar com o toque suave.
— Ela vai ficar bem, Emanuel — sussurrou Eduarda. — Crianças têm febre por qualquer coisa. Tente relaxar um pouco.
— Como relaxar, Duda? — Ele passou a mão pelo rosto, sentindo a barba por fazer. — É tudo sempre um caos. O estúdio em Londres está com problemas na alfândega, a Sara quer reformar a casa de novo, e agora a Antonella... E você, que se recusa a vir morar comigo de uma vez. Eu não aguento mais ter que dirigir quilômetros só para te ver por duas horas.
Eduarda encolheu os ombros, escondendo o rosto no cardigã.
— Você sabe que eu não estou pronta para essa vida, Emanuel. Sua casa é... é muito agitada. Tem sempre gente, tem a Sara, tem as câmeras de segurança... Eu gosto do meu quarto, do meu silêncio.
— Mas eu preciso de você lá — ele insistiu, a voz ficando mais rígida. — Eu quero minhas duas mulheres sob o mesmo teto. A Sara já concordou, ela não se importa. Por que você tem que ser tão difícil?
— Eu não sou difícil — Eduarda disse, uma lágrima solitária escapando e brilhando em sua bochecha. — Eu só sou... diferente. Eu me sinto perdida naquele seu mundo de luxo e pressa.
Sara, que terminava de falar ao telefone no canto da sala, virou-se para eles.
— Emanuel, deixe a menina. Se ela quer viver com os pais "moderninhos" dela até os trinta, o problema é dela. Ela é uma bonequinha de porcelana, não aguenta o tranco de administrar uma vida de verdade.
— Sara, chega — rosnou Emanuel.
— O quê? Eu estou sendo sincera! — Sara caminhou até eles, parando na frente de Eduarda. — Escuta aqui, Duda. O Emanuel é um homem poderoso. Ele precisa de estabilidade. Eu dou a ele a estrutura, o trabalho e a herdeira. Você dá o... o que quer que seja esse dengo que você faz. Mas se você o amasse tanto quanto diz, facilitaria as coisas para ele.
Eduarda abaixou a cabeça, as mãos tremendo levemente sobre o colo. Ela não tinha a língua afiada de Sara. Ela não sabia como lutar aquela guerra de palavras.
— Eu amo o Emanuel — murmurou Eduarda, quase inaudível.
— Então prove — disse Sara, cruzando os braços, o que realçava ainda mais o silicone sob o tecido fino. — Mude-se na semana que vem. Eu mesma decoro um quarto para você, bem longe do meu, para você ter seu "silêncio".
Emanuel olhou de Sara para Eduarda. Ele sabia que Sara estava provocando, testando os limites da paciência de Eduarda, mas, no fundo, ele concordava com a conclusão. Ele queria o controle total. Queria poder esticar o braço à noite e encontrar a pele macia de Eduarda de um lado e a presença vibrante de Sara do outro.
— O que você me diz, Duda? — Emanuel perguntou, a voz suavizando, mas ainda mantendo aquele tom de comando que ele usava em seus estúdios. — A Antonella gosta de você. Eu preciso de você. Não me faça esperar mais.
Eduarda olhou para a bebê, que agora dormia um sono inquieto, e depois para Emanuel. O amor que ela sentia por ele era imenso, mas o medo de ser engolida por aquela dinâmica era igualmente grande.
— Eu vou pensar, Emanuel... eu prometo que vou pensar com carinho — ela disse, buscando a proteção do braço dele, apoiando a cabeça em seu ombro.
Sara soltou um suspiro de impaciência e revirou os olhos, sentando-se na poltrona em frente a eles.
— "Pensar com carinho". Você é tão previsível que chega a dar sono — alfinetou a loira, mas logo em seguida abriu um sorriso predatório. — Mas tudo bem. Enquanto você pensa, eu vou decidindo a cor das paredes do seu novo quarto. Vai ser um cinza bem pálido, para combinar com a sua personalidade.
Emanuel fechou os olhos, sentindo o perfume de flores de Eduarda e o perfume importado de Sara se misturarem no ar, criando uma fragrância confusa e inebriante. Ele tinha tudo o que um homem poderia desejar: riqueza, sucesso e duas mulheres que, cada uma à sua maneira, eram devotas a ele.
No entanto, ali, naquela sala de hospital fria, ele percebeu que manter aquele equilíbrio era como tatuar uma linha reta em uma pele que não parava de se mexer. Era um trabalho constante, exaustivo e, por vezes, doloroso.
— Só fiquem aqui — pediu Emanuel, a voz quase sumindo. — As duas. Só por esta noite, fiquem aqui comigo.
Sara deu de ombros, pegando uma revista de moda sobre a mesa de centro, enquanto Eduarda apertou a mão dele, transmitindo todo o apoio silencioso que ele tanto buscava.
A noite seria longa, e a febre da filha era apenas o menor dos problemas que Emanuel teria que gerenciar. No mundo que ele construiu, o amor nunca era simples; era uma colcha de retalhos feita de seda, espinhos e a eterna busca por um controle que, no fundo, ele sabia que nunca teria totalmente.
Ao seu lado, Sara caminhava com passos firmes, o som de seus saltos ecoando de forma irritante pelo ambiente silencioso. Mesmo naquela hora da madrugada, ela parecia ter saído de um editorial de moda: o cabelo loiro platinado estava impecavelmente alinhado, e o conjunto de seda justo que usava realçava cada curva de seu corpo esculpido. Ela carregava a bolsa de grife da filha — uma peça personalizada que custava mais do que a maioria das pessoas ganhava em um ano — como se fosse um troféu.
— Eu já disse, Emanuel, o pediatra particular deveria ter vindo até a cobertura. É um absurdo termos que esperar aqui como se fôssemos qualquer um — reclamou Sara, a voz carregada de uma ironia ácida que ela usava como escudo sempre que perdia o controle.
— Sara, pelo amor de Deus, a menina está com trinta e nove de febre. O hospital tem a estrutura que ela precisa agora — Emanuel respondeu, a voz rouca e rígida. Ele estava no limite. O sucesso de seus estúdios de tatuagem e seus outros empreendimentos globais lhe davam poder, mas nada disso comprava a paciência necessária para lidar com o temperamento de Sara em uma crise.
— Ela é uma rainha, não deveria estar em um corredor de hospital — Sara rebateu, ajeitando a manta de grife que cobria a bebê. — Olha para ela, está abatida. Minha mini diva não merece isso.
Emanuel respirou fundo, fechando os olhos por um segundo para não explodir. Ele amava Sara; amava a competência dela na administração de seus negócios e a força que ela exalava, mas o narcisismo dela, refletido até na forma como criava a filha, era exaustivo.
Eles dobraram o corredor em direção à ala pediátrica quando Emanuel parou bruscamente.
A poucos metros de distância, em uma área de espera envidraçada que dava para a unidade de maternidade, ele a viu.
Eduarda estava sentada em uma poltrona de couro claro, segurando um urso de pelúcia pequeno e delicado contra o peito. Ela usava um vestido de malha leve em tom de lavanda e um cardigã bege, o cabelo castanho escuro caindo em ondas naturais sobre os ombros. Ela parecia uma miragem de suavidade em meio à tensão daquela noite.
Ela não os viu. Estava absorta, observando através do vidro um recém-nascido no berçário. O olhar de Eduarda era de uma ternura tão profunda que Emanuel sentiu um aperto no peito. Ela estava acompanhando a prima, que dera à luz horas antes.
— Ora, se não é a pequena ratinha de biblioteca — murmurou Sara, percebendo o olhar fixo de Emanuel. Ela não falou com ódio; havia uma espécie de condescendência divertida em sua voz. Sara não via Eduarda como uma ameaça real à sua posição de "primeira-dama", mas sim como um bichinho de estimação que Emanuel insistia em manter.
— Sara, agora não — avisou Emanuel, mas seus pés já o levavam em direção a ela, quase que por instinto.
Eduarda se sobressaltou quando a sombra dele cobriu o reflexo do vidro. Ela virou o rosto lentamente, os olhos grandes e expressivos revelando uma mistura de surpresa e alegria imediata ao vê-lo.
— Emanuel? — A voz dela era um sussurro doce. — O que você está fazendo aqui? Aconteceu alguma coisa?
— A Antonella está queimando em febre — explicou ele, aproximando-se. A presença de Eduarda agia como um sedativo para seus nervos. Ele sentiu uma vontade quase incontrolável de largar tudo e se esconder no abraço dela, onde o mundo era simples e silencioso.
Eduarda levantou-se rapidamente, a preocupação nublando suas feições delicadas. Ela estendeu a mão, tocando levemente o braço de Emanuel antes de olhar para a bebê no colo dele.
— Oh, meu Deus, pobrezinha... — Eduarda se aproximou da bebê, fazendo um som suave com os lábios, tentando confortar a pequena. — Ela parece tão cansadinha.
— Ela está péssima, Eduarda. E o seu namorado aqui está sendo um ogro racional como sempre — interrompeu Sara, aproximando-se e ocupando o espaço com sua presença vibrante e o perfume caro que lutava contra o cheiro de álcool do hospital.
Eduarda recuou um passo, a timidez voltando a assumir o controle. Ela sempre se sentia pequena perto de Sara, como se a loira fosse feita de cores neon e ela de tons de aquarela.
— Oi, Sara — disse Eduarda, baixando o olhar. — Sinto muito pela bebê. Eu... eu estava aqui com a minha prima. O bebê dela nasceu faz três horas. É um menino.
Emanuel observou as duas. O contraste era doloroso. Sara, a mulher que vivia com ele, que geria seus milhões com mão de ferro e criava sua filha para ser uma extensão de sua própria vaidade. E Eduarda, a estudante de História da Arte que ainda morava com os pais, que preferia museus a festas e que se recusava a se mudar para a sua cobertura, por mais que ele implorasse.
— Um bebê? Que fofo — disse Sara, sem nenhum interesse real, enquanto checava o próprio reflexo na tela do celular. — Mas agora temos que ir, o médico já deve estar nos esperando na sala VIP. Emanuel, vamos?
Emanuel não se moveu imediatamente. Ele olhou para Eduarda, vendo a hesitação em seus olhos.
— Duda, por que você não vem conosco? — pediu ele, a voz soando mais como um apelo do que como um convite. — Fica lá na sala de espera comigo. Eu preciso... eu preciso que você esteja lá.
Eduarda mordeu o lábio inferior, um gesto tipicamente manhoso que sempre desarmava Emanuel.
— Eu não sei, Emanuel... Meus pais estão vindo buscar a minha tia, e eu prometi que ficaria aqui até eles chegarem. E a Sara... eu não quero atrapalhar.
— Você não atrapalha, querida — Sara disse, com um sorriso de lado, guardando o celular. — Na verdade, você pode até ajudar a distrair a Antonella enquanto eu lido com a papelada da internação. Você é ótima com essas coisas delicadas e... infantis.
Emanuel sentiu a pontada de sarcasmo nas palavras de Sara, mas estava exausto demais para mediar. Ele apenas estendeu a mão livre para Eduarda.
— Por favor.
Eduarda cedeu, como sempre fazia quando se tratava dele. Ela deslizou a mão pequena na dele, sentindo os calos e a firmeza da mão de um homem que passava horas segurando uma máquina de tatuar.
Enquanto caminhavam para a área privativa, o silêncio era preenchido apenas pelo som dos passos. Emanuel se sentia como um homem caminhando sobre uma corda bamba. De um lado, a força impetuosa de Sara, que exigia sua atenção e seu respeito profissional; do outro, a fragilidade de Eduarda, que exigia sua proteção e seu carinho mais puro.
Ao chegarem na suíte VIP, Sara imediatamente começou a ditar ordens para a enfermeira que os recebeu, exigindo atualizações imediatas e questionando a competência da equipe. Emanuel sentou-se no sofá de couro, ainda com a filha no colo.
Eduarda sentou-se ao lado dele, encostando o ombro no dele de forma tímida. Ela começou a acariciar a mãozinha da bebê, que parecia se acalmar com o toque suave.
— Ela vai ficar bem, Emanuel — sussurrou Eduarda. — Crianças têm febre por qualquer coisa. Tente relaxar um pouco.
— Como relaxar, Duda? — Ele passou a mão pelo rosto, sentindo a barba por fazer. — É tudo sempre um caos. O estúdio em Londres está com problemas na alfândega, a Sara quer reformar a casa de novo, e agora a Antonella... E você, que se recusa a vir morar comigo de uma vez. Eu não aguento mais ter que dirigir quilômetros só para te ver por duas horas.
Eduarda encolheu os ombros, escondendo o rosto no cardigã.
— Você sabe que eu não estou pronta para essa vida, Emanuel. Sua casa é... é muito agitada. Tem sempre gente, tem a Sara, tem as câmeras de segurança... Eu gosto do meu quarto, do meu silêncio.
— Mas eu preciso de você lá — ele insistiu, a voz ficando mais rígida. — Eu quero minhas duas mulheres sob o mesmo teto. A Sara já concordou, ela não se importa. Por que você tem que ser tão difícil?
— Eu não sou difícil — Eduarda disse, uma lágrima solitária escapando e brilhando em sua bochecha. — Eu só sou... diferente. Eu me sinto perdida naquele seu mundo de luxo e pressa.
Sara, que terminava de falar ao telefone no canto da sala, virou-se para eles.
— Emanuel, deixe a menina. Se ela quer viver com os pais "moderninhos" dela até os trinta, o problema é dela. Ela é uma bonequinha de porcelana, não aguenta o tranco de administrar uma vida de verdade.
— Sara, chega — rosnou Emanuel.
— O quê? Eu estou sendo sincera! — Sara caminhou até eles, parando na frente de Eduarda. — Escuta aqui, Duda. O Emanuel é um homem poderoso. Ele precisa de estabilidade. Eu dou a ele a estrutura, o trabalho e a herdeira. Você dá o... o que quer que seja esse dengo que você faz. Mas se você o amasse tanto quanto diz, facilitaria as coisas para ele.
Eduarda abaixou a cabeça, as mãos tremendo levemente sobre o colo. Ela não tinha a língua afiada de Sara. Ela não sabia como lutar aquela guerra de palavras.
— Eu amo o Emanuel — murmurou Eduarda, quase inaudível.
— Então prove — disse Sara, cruzando os braços, o que realçava ainda mais o silicone sob o tecido fino. — Mude-se na semana que vem. Eu mesma decoro um quarto para você, bem longe do meu, para você ter seu "silêncio".
Emanuel olhou de Sara para Eduarda. Ele sabia que Sara estava provocando, testando os limites da paciência de Eduarda, mas, no fundo, ele concordava com a conclusão. Ele queria o controle total. Queria poder esticar o braço à noite e encontrar a pele macia de Eduarda de um lado e a presença vibrante de Sara do outro.
— O que você me diz, Duda? — Emanuel perguntou, a voz suavizando, mas ainda mantendo aquele tom de comando que ele usava em seus estúdios. — A Antonella gosta de você. Eu preciso de você. Não me faça esperar mais.
Eduarda olhou para a bebê, que agora dormia um sono inquieto, e depois para Emanuel. O amor que ela sentia por ele era imenso, mas o medo de ser engolida por aquela dinâmica era igualmente grande.
— Eu vou pensar, Emanuel... eu prometo que vou pensar com carinho — ela disse, buscando a proteção do braço dele, apoiando a cabeça em seu ombro.
Sara soltou um suspiro de impaciência e revirou os olhos, sentando-se na poltrona em frente a eles.
— "Pensar com carinho". Você é tão previsível que chega a dar sono — alfinetou a loira, mas logo em seguida abriu um sorriso predatório. — Mas tudo bem. Enquanto você pensa, eu vou decidindo a cor das paredes do seu novo quarto. Vai ser um cinza bem pálido, para combinar com a sua personalidade.
Emanuel fechou os olhos, sentindo o perfume de flores de Eduarda e o perfume importado de Sara se misturarem no ar, criando uma fragrância confusa e inebriante. Ele tinha tudo o que um homem poderia desejar: riqueza, sucesso e duas mulheres que, cada uma à sua maneira, eram devotas a ele.
No entanto, ali, naquela sala de hospital fria, ele percebeu que manter aquele equilíbrio era como tatuar uma linha reta em uma pele que não parava de se mexer. Era um trabalho constante, exaustivo e, por vezes, doloroso.
— Só fiquem aqui — pediu Emanuel, a voz quase sumindo. — As duas. Só por esta noite, fiquem aqui comigo.
Sara deu de ombros, pegando uma revista de moda sobre a mesa de centro, enquanto Eduarda apertou a mão dele, transmitindo todo o apoio silencioso que ele tanto buscava.
A noite seria longa, e a febre da filha era apenas o menor dos problemas que Emanuel teria que gerenciar. No mundo que ele construiu, o amor nunca era simples; era uma colcha de retalhos feita de seda, espinhos e a eterna busca por um controle que, no fundo, ele sabia que nunca teria totalmente.
