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tempo para o amor
Fandom: vida real
Criado: 02/06/2026
Tags
RomanceFatias de VidaFofuraHumorHistória DomésticaEstudo de PersonagemCenário CanônicoRealismo
O Aroma de Pipoca e a Tensão de Dez Anos
O apartamento de Letícia sempre teve um cheiro característico de baunilha e organização, mas naquela noite, o aroma estava mascarado pelo cheiro forte de pipoca com manteiga e o caos generalizado de sete adultos tentando agir como se ainda tivessem dezessete. A sala estava forrada de colchões, mantas de microfibra e almofadas estrategicamente posicionadas.
Yasmin ajeitou os óculos no rosto, tentando manter sua postura seriamente composta enquanto Anna, em um surto de energia típico, tentava equilibrar três fatias de pizza empilhadas.
— Anna, se essa gordura cair no tapete da Letícia, ela vai transformar seu rosto em uma arte digital abstrata antes que o Miguel consiga abrir o Photoshop — alertou Yasmin, com a voz grave, mas um brilho de riso nos olhos.
— Deixa ela, Yas! — gritou Sophia do outro lado da sala, onde estava praticamente deitada sobre Luigi, que lia um livro de bolso ignorando o barulho ao redor. — A noite é de festa! Faz dez anos que a gente não se junta assim sem ter que falar de boletos.
Leticia, a anfitriã e autoproclamada "mãe do grupo", saiu da cozinha com uma bacia de brigadeiro.
— Regra número um: ninguém dorme antes das três da manhã. Regra número dois: Kendi, pare de tentar ensinar o Miguel a fazer malabarismo com os controles da TV.
Kendi, que estava no canto com Miguel, deu um sorriso largo e travesso. Ele vestia um pijama de flanela que o deixava com um ar ainda mais jovial, realçando os traços japoneses e os olhos que sempre pareciam estar planejando uma peça.
— Eu não estou ensinando, Leti. Estou testando a coordenação motora de um artista — ele piscou para Yasmin, que sentiu o estômago dar aquela reviravolta familiar que ela tentava ignorar desde o ensino médio.
— Yasmin, você está muito tensa — Kendi disse, aproximando-se dela e sentando-se no colchão vizinho. — É a pressão de ser a única adulta funcional aqui?
— Alguém tem que ser, Kendi. Se eu me soltar, esse prédio cai — ela respondeu, tentando manter a expressão neutra, embora o coração estivesse batendo contra as costelas.
— Ah, é? — Ele se inclinou um pouco mais, o perfume de colônia cítrica invadindo o espaço pessoal dela. — Eu adoraria ver os escombros.
A conversa foi interrompida pelo grito entusiasmado de Anna.
— Chega de papo furado! Vamos pro que interessa. Verdade ou Desafio. Agora!
Um gemido coletivo, misturado com risadas, ecoou pela sala. Luigi finalmente fechou o livro, suspirando, enquanto Sophia batia palmas. Eles se sentaram em um círculo irregular no chão. Uma garrafa vazia de vinho foi colocada no centro.
— Eu começo — anunciou Anna, girando a garrafa com uma força desnecessária.
A garrafa girou freneticamente até parar em Letícia perguntando para Sophia.
— Sophia, verdade ou desafio? — Letícia perguntou, com um sorriso de quem sabia demais.
— Verdade, porque eu sou uma mulher honesta.
— É verdade que você só aceitou namorar o Luigi porque ele prometeu que faria todos os seus trabalhos de faculdade de estatística?
Sophia soltou uma gargalhada, abraçando o pescoço de Luigi.
— Isso é uma calúnia! Eu aceitei porque ele é lindo. Mas os gráficos de pizza que ele faz... ah, esses ajudaram muito.
A roda continuou por alguns minutos, com desafios bobos como "comer uma colher de canela" ou "ligar para o ex e desligar", até que a garrafa, movida por algum tipo de destino irônico, apontou de Sophia para Yasmin.
— Yasmin, minha querida amiga séria... verdade ou desafio? — Sophia perguntou, com um olhar que Yasmin conhecia bem. Era o olhar de "eu sei quem você gosta".
Yasmin ponderou. Verdade era perigoso. Desafio era imprevisível.
— Desafio — ela disse, tentando soar corajosa.
Sophia sorriu, trocando um olhar rápido com Anna.
— Eu desafio você a passar as próximas três rodadas sentada no colo do Kendi. E tem que ser de um jeito confortável, viu?
O silêncio caiu sobre a sala, apenas para ser quebrado pelo "uhhh" prolongado de Anna. Yasmin sentiu o rosto queimar instantaneamente. Ela olhou para Kendi, esperando que ele fizesse alguma piada para aliviar o clima, mas ele apenas deu de ombros, com um sorriso de canto que parecia estranhamente satisfeito.
— Um desafio é um desafio, Yas — disse Kendi, dando um tapinha em suas próprias coxas. — Não queremos quebrar as regras da casa da Letícia, não é?
Yasmin, querendo manter a dignidade, levantou-se e caminhou até ele. Ela se acomodou de lado em seu colo, sentindo o calor do corpo dele e a firmeza de seus braços quando ele, instintivamente, circulou a cintura dela para que ela não caísse.
— Você está tremendo — ele sussurrou perto do ouvido dela, de modo que apenas ela ouvisse.
— É o ar-condicionado — mentiu ela, embora soubesse que ele não acreditava.
A garrafa girou novamente. Desta vez, Miguel perguntou para Kendi.
— Kendi... verdade ou desafio?
— Verdade — respondeu ele prontamente, sem soltar a mão da cintura de Yasmin.
— É verdade que existe uma pessoa nesta sala que você sempre quis beijar, mas nunca teve coragem porque é um covarde? — Miguel perguntou, com sua voz calma e letal.
O clima na sala mudou de brincalhão para elétrico em um segundo. Yasmin sentiu a respiração de Kendi falhar por um milésimo de segundo.
— Sim, é verdade — ele respondeu, a voz mais grave do que o normal. — Mas eu não diria que sou um covarde. Eu diria que estava esperando o momento certo.
— E esse momento já chegou? — Anna provocou, inclinando-se para frente.
— Talvez — Kendi olhou para Yasmin, que estava paralisada em seu colo, olhando fixamente para a garrafa no chão.
A rodada seguinte foi uma confusão de risadas, mas Yasmin não conseguia se concentrar em nada que não fosse o polegar de Kendi fazendo círculos lentos e quase imperceptíveis em sua cintura. Quando a terceira rodada acabou, ela fez menção de se levantar, mas a mão dele apertou suavemente sua cintura, mantendo-a ali.
— O desafio acabou, Yas — ele disse baixinho. — Mas você não precisa ir se não quiser.
— As pessoas estão olhando — ela murmurou, embora não fizesse nenhum esforço real para sair.
— Deixa eles olharem. Eles já sabem mesmo.
Do outro lado da sala, Letícia observava os dois com um sorriso de satisfação materna, enquanto servia mais refrigerante para Luigi.
— Alguém quer mais pipoca? — perguntou Letícia, sabendo que ninguém estava prestando atenção na comida.
— Eu quero é que a garrafa gire logo para o Kendi desafiar a Yasmin — Anna comentou, sem filtro.
Dito e feito. A garrafa parou. Kendi para Yasmin.
— Yasmin... — Kendi começou, a voz carregada de uma diversão perigosa. — Verdade ou desafio?
Yasmin olhou para os amigos. Todos estavam em silêncio, esperando. Ela olhou para Kendi, vendo o brilho de expectativa naqueles olhos escuros que a perseguiam em seus sonhos desde os dezesseis anos.
— Desafio — ela disse, a voz firme pela primeira vez naquela noite.
Kendi se aproximou, o rosto a centímetros do dela.
— Eu desafio você a me dizer o que você sente. Agora. Na frente de todo mundo. Ou... — ele fez uma pausa dramática — você pode escolher a punição.
— Qual é a punição? — Yasmin perguntou, a voz falhando.
— Dez minutos no armário de vassouras da Letícia comigo. Sem câmeras, sem público.
— O armário é apertado, gente! — Letícia gritou da cozinha. — Cuidado com o balde!
Yasmin sentiu um ímpeto de coragem que raramente a visitava. Ela sempre fora a "séria", a que pensava antes de agir, a que calculava os riscos. Mas Kendi era a única variável que ela nunca conseguira resolver.
— Eu escolho a punição — disse ela, levantando-se e puxando-o pela mão.
O grupo explodiu em assobios e gritos enquanto os dois caminhavam em direção ao pequeno corredor de serviço. Letícia apenas acenou com a mão, rindo.
— Não quebrem nada!
Quando a porta do armário se fechou, a escuridão era quase total, quebrada apenas por um filete de luz que vinha da fresta inferior. O espaço era minúsculo, forçando-os a ficarem colados um ao outro. O cheiro de desinfetante de limão e o perfume de Kendi criavam uma mistura embriagante.
— Então... — começou Kendi, a voz ecoando no espaço reduzido. — O armário é bem pequeno mesmo.
— Você planejou isso? — Yasmin perguntou, suas mãos descansando no peito dele, sentindo o coração dele batendo tão rápido quanto o dela.
— Eu não giro a garrafa com telecinese, Yas. Mas eu esperava que algo assim acontecesse.
— Por que agora, Kendi? Depois de tanto tempo?
Ele suspirou, e ela sentiu o hálito quente dele em seu rosto.
— Porque estamos com vinte e três anos. Porque eu cansei de ser o "amigo brincalhão" que você só vê como uma distração. E porque eu vi o jeito que você me olhou quando eu cheguei.
— Como eu olhei?
— Como se você estivesse com sede e eu fosse o único copo d'água no deserto — ele riu baixinho, mas o tom era terno. — Eu gosto de você, Yasmin. Não é uma brincadeira de Verdade ou Desafio. É verdade.
Yasmin sentiu as lágrimas arderem nos olhos, mas ela as engoliu. Ela não queria chorar; ela queria agir.
— Eu odeio o fato de você sempre saber o que eu estou pensando — ela disse, aproximando-se mais, se é que era possível.
— Não tudo. Por exemplo, agora eu não sei se você vai me bater por ter te arrastado para um armário de vassouras ou se vai finalmente me beijar.
Yasmin não respondeu com palavras. Ela se inclinou, encontrando os lábios dele no escuro. O beijo começou hesitante, uma exploração de anos de desejo reprimido, mas logo se tornou intenso e urgente. As mãos de Kendi subiram para o rosto dela, segurando-a como se ela fosse algo precioso e frágil, enquanto Yasmin se perdia na sensação de finalmente estar onde deveria estar.
Lá fora, a voz de Anna podia ser ouvida acima da música baixa.
— Já se passaram cinco minutos! Será que eles estão lutando com o rodo?
— Cala a boca, Anna! — Sophia repreendeu, rindo. — Deixa eles.
Dentro do armário, Kendi interrompeu o beijo por um segundo, encostando a testa na dela.
— Isso conta como um desafio cumprido?
— Isso conta como o início de algo que você vai ter que levar a sério, Kendi — ela disse, com seu tom sério característico, mas com um sorriso que ele podia sentir. — Se você brincar com meu coração como brinca com os controles da TV, eu te mato.
— Prometo ser o homem mais sério do mundo quando se tratar de nós dois — ele disse, antes de puxá-la para outro beijo. — Mas só quando se tratar de nós dois. O resto do mundo ainda precisa das minhas piadas.
Quando eles finalmente saíram do armário, dez minutos depois, estavam com os cabelos levemente desalinhados e os rostos corados. O grupo ficou em silêncio por um segundo antes de explodir em perguntas.
Yasmin apenas caminhou até seu lugar original, ajeitou os óculos e pegou um pedaço de pizza fria.
— Próxima rodada — disse ela, com uma autoridade renovada. — De quem é a vez de girar?
Kendi sentou-se ao lado dela, desta vez passando o braço abertamente por seus ombros. Miguel sorriu para o papel de desenho em seu colo, esboçando algo que parecia muito com dois bonequinhos em um armário.
A noite continuou, entre risadas, confissões e o calor de uma amizade que agora carregava uma nova camada de significado. Para Yasmin, o apartamento de Letícia nunca pareceu tão acolhedor, e a vida, apesar de todas as suas seriedades, nunca pareceu tão divertida.
Yasmin ajeitou os óculos no rosto, tentando manter sua postura seriamente composta enquanto Anna, em um surto de energia típico, tentava equilibrar três fatias de pizza empilhadas.
— Anna, se essa gordura cair no tapete da Letícia, ela vai transformar seu rosto em uma arte digital abstrata antes que o Miguel consiga abrir o Photoshop — alertou Yasmin, com a voz grave, mas um brilho de riso nos olhos.
— Deixa ela, Yas! — gritou Sophia do outro lado da sala, onde estava praticamente deitada sobre Luigi, que lia um livro de bolso ignorando o barulho ao redor. — A noite é de festa! Faz dez anos que a gente não se junta assim sem ter que falar de boletos.
Leticia, a anfitriã e autoproclamada "mãe do grupo", saiu da cozinha com uma bacia de brigadeiro.
— Regra número um: ninguém dorme antes das três da manhã. Regra número dois: Kendi, pare de tentar ensinar o Miguel a fazer malabarismo com os controles da TV.
Kendi, que estava no canto com Miguel, deu um sorriso largo e travesso. Ele vestia um pijama de flanela que o deixava com um ar ainda mais jovial, realçando os traços japoneses e os olhos que sempre pareciam estar planejando uma peça.
— Eu não estou ensinando, Leti. Estou testando a coordenação motora de um artista — ele piscou para Yasmin, que sentiu o estômago dar aquela reviravolta familiar que ela tentava ignorar desde o ensino médio.
— Yasmin, você está muito tensa — Kendi disse, aproximando-se dela e sentando-se no colchão vizinho. — É a pressão de ser a única adulta funcional aqui?
— Alguém tem que ser, Kendi. Se eu me soltar, esse prédio cai — ela respondeu, tentando manter a expressão neutra, embora o coração estivesse batendo contra as costelas.
— Ah, é? — Ele se inclinou um pouco mais, o perfume de colônia cítrica invadindo o espaço pessoal dela. — Eu adoraria ver os escombros.
A conversa foi interrompida pelo grito entusiasmado de Anna.
— Chega de papo furado! Vamos pro que interessa. Verdade ou Desafio. Agora!
Um gemido coletivo, misturado com risadas, ecoou pela sala. Luigi finalmente fechou o livro, suspirando, enquanto Sophia batia palmas. Eles se sentaram em um círculo irregular no chão. Uma garrafa vazia de vinho foi colocada no centro.
— Eu começo — anunciou Anna, girando a garrafa com uma força desnecessária.
A garrafa girou freneticamente até parar em Letícia perguntando para Sophia.
— Sophia, verdade ou desafio? — Letícia perguntou, com um sorriso de quem sabia demais.
— Verdade, porque eu sou uma mulher honesta.
— É verdade que você só aceitou namorar o Luigi porque ele prometeu que faria todos os seus trabalhos de faculdade de estatística?
Sophia soltou uma gargalhada, abraçando o pescoço de Luigi.
— Isso é uma calúnia! Eu aceitei porque ele é lindo. Mas os gráficos de pizza que ele faz... ah, esses ajudaram muito.
A roda continuou por alguns minutos, com desafios bobos como "comer uma colher de canela" ou "ligar para o ex e desligar", até que a garrafa, movida por algum tipo de destino irônico, apontou de Sophia para Yasmin.
— Yasmin, minha querida amiga séria... verdade ou desafio? — Sophia perguntou, com um olhar que Yasmin conhecia bem. Era o olhar de "eu sei quem você gosta".
Yasmin ponderou. Verdade era perigoso. Desafio era imprevisível.
— Desafio — ela disse, tentando soar corajosa.
Sophia sorriu, trocando um olhar rápido com Anna.
— Eu desafio você a passar as próximas três rodadas sentada no colo do Kendi. E tem que ser de um jeito confortável, viu?
O silêncio caiu sobre a sala, apenas para ser quebrado pelo "uhhh" prolongado de Anna. Yasmin sentiu o rosto queimar instantaneamente. Ela olhou para Kendi, esperando que ele fizesse alguma piada para aliviar o clima, mas ele apenas deu de ombros, com um sorriso de canto que parecia estranhamente satisfeito.
— Um desafio é um desafio, Yas — disse Kendi, dando um tapinha em suas próprias coxas. — Não queremos quebrar as regras da casa da Letícia, não é?
Yasmin, querendo manter a dignidade, levantou-se e caminhou até ele. Ela se acomodou de lado em seu colo, sentindo o calor do corpo dele e a firmeza de seus braços quando ele, instintivamente, circulou a cintura dela para que ela não caísse.
— Você está tremendo — ele sussurrou perto do ouvido dela, de modo que apenas ela ouvisse.
— É o ar-condicionado — mentiu ela, embora soubesse que ele não acreditava.
A garrafa girou novamente. Desta vez, Miguel perguntou para Kendi.
— Kendi... verdade ou desafio?
— Verdade — respondeu ele prontamente, sem soltar a mão da cintura de Yasmin.
— É verdade que existe uma pessoa nesta sala que você sempre quis beijar, mas nunca teve coragem porque é um covarde? — Miguel perguntou, com sua voz calma e letal.
O clima na sala mudou de brincalhão para elétrico em um segundo. Yasmin sentiu a respiração de Kendi falhar por um milésimo de segundo.
— Sim, é verdade — ele respondeu, a voz mais grave do que o normal. — Mas eu não diria que sou um covarde. Eu diria que estava esperando o momento certo.
— E esse momento já chegou? — Anna provocou, inclinando-se para frente.
— Talvez — Kendi olhou para Yasmin, que estava paralisada em seu colo, olhando fixamente para a garrafa no chão.
A rodada seguinte foi uma confusão de risadas, mas Yasmin não conseguia se concentrar em nada que não fosse o polegar de Kendi fazendo círculos lentos e quase imperceptíveis em sua cintura. Quando a terceira rodada acabou, ela fez menção de se levantar, mas a mão dele apertou suavemente sua cintura, mantendo-a ali.
— O desafio acabou, Yas — ele disse baixinho. — Mas você não precisa ir se não quiser.
— As pessoas estão olhando — ela murmurou, embora não fizesse nenhum esforço real para sair.
— Deixa eles olharem. Eles já sabem mesmo.
Do outro lado da sala, Letícia observava os dois com um sorriso de satisfação materna, enquanto servia mais refrigerante para Luigi.
— Alguém quer mais pipoca? — perguntou Letícia, sabendo que ninguém estava prestando atenção na comida.
— Eu quero é que a garrafa gire logo para o Kendi desafiar a Yasmin — Anna comentou, sem filtro.
Dito e feito. A garrafa parou. Kendi para Yasmin.
— Yasmin... — Kendi começou, a voz carregada de uma diversão perigosa. — Verdade ou desafio?
Yasmin olhou para os amigos. Todos estavam em silêncio, esperando. Ela olhou para Kendi, vendo o brilho de expectativa naqueles olhos escuros que a perseguiam em seus sonhos desde os dezesseis anos.
— Desafio — ela disse, a voz firme pela primeira vez naquela noite.
Kendi se aproximou, o rosto a centímetros do dela.
— Eu desafio você a me dizer o que você sente. Agora. Na frente de todo mundo. Ou... — ele fez uma pausa dramática — você pode escolher a punição.
— Qual é a punição? — Yasmin perguntou, a voz falhando.
— Dez minutos no armário de vassouras da Letícia comigo. Sem câmeras, sem público.
— O armário é apertado, gente! — Letícia gritou da cozinha. — Cuidado com o balde!
Yasmin sentiu um ímpeto de coragem que raramente a visitava. Ela sempre fora a "séria", a que pensava antes de agir, a que calculava os riscos. Mas Kendi era a única variável que ela nunca conseguira resolver.
— Eu escolho a punição — disse ela, levantando-se e puxando-o pela mão.
O grupo explodiu em assobios e gritos enquanto os dois caminhavam em direção ao pequeno corredor de serviço. Letícia apenas acenou com a mão, rindo.
— Não quebrem nada!
Quando a porta do armário se fechou, a escuridão era quase total, quebrada apenas por um filete de luz que vinha da fresta inferior. O espaço era minúsculo, forçando-os a ficarem colados um ao outro. O cheiro de desinfetante de limão e o perfume de Kendi criavam uma mistura embriagante.
— Então... — começou Kendi, a voz ecoando no espaço reduzido. — O armário é bem pequeno mesmo.
— Você planejou isso? — Yasmin perguntou, suas mãos descansando no peito dele, sentindo o coração dele batendo tão rápido quanto o dela.
— Eu não giro a garrafa com telecinese, Yas. Mas eu esperava que algo assim acontecesse.
— Por que agora, Kendi? Depois de tanto tempo?
Ele suspirou, e ela sentiu o hálito quente dele em seu rosto.
— Porque estamos com vinte e três anos. Porque eu cansei de ser o "amigo brincalhão" que você só vê como uma distração. E porque eu vi o jeito que você me olhou quando eu cheguei.
— Como eu olhei?
— Como se você estivesse com sede e eu fosse o único copo d'água no deserto — ele riu baixinho, mas o tom era terno. — Eu gosto de você, Yasmin. Não é uma brincadeira de Verdade ou Desafio. É verdade.
Yasmin sentiu as lágrimas arderem nos olhos, mas ela as engoliu. Ela não queria chorar; ela queria agir.
— Eu odeio o fato de você sempre saber o que eu estou pensando — ela disse, aproximando-se mais, se é que era possível.
— Não tudo. Por exemplo, agora eu não sei se você vai me bater por ter te arrastado para um armário de vassouras ou se vai finalmente me beijar.
Yasmin não respondeu com palavras. Ela se inclinou, encontrando os lábios dele no escuro. O beijo começou hesitante, uma exploração de anos de desejo reprimido, mas logo se tornou intenso e urgente. As mãos de Kendi subiram para o rosto dela, segurando-a como se ela fosse algo precioso e frágil, enquanto Yasmin se perdia na sensação de finalmente estar onde deveria estar.
Lá fora, a voz de Anna podia ser ouvida acima da música baixa.
— Já se passaram cinco minutos! Será que eles estão lutando com o rodo?
— Cala a boca, Anna! — Sophia repreendeu, rindo. — Deixa eles.
Dentro do armário, Kendi interrompeu o beijo por um segundo, encostando a testa na dela.
— Isso conta como um desafio cumprido?
— Isso conta como o início de algo que você vai ter que levar a sério, Kendi — ela disse, com seu tom sério característico, mas com um sorriso que ele podia sentir. — Se você brincar com meu coração como brinca com os controles da TV, eu te mato.
— Prometo ser o homem mais sério do mundo quando se tratar de nós dois — ele disse, antes de puxá-la para outro beijo. — Mas só quando se tratar de nós dois. O resto do mundo ainda precisa das minhas piadas.
Quando eles finalmente saíram do armário, dez minutos depois, estavam com os cabelos levemente desalinhados e os rostos corados. O grupo ficou em silêncio por um segundo antes de explodir em perguntas.
Yasmin apenas caminhou até seu lugar original, ajeitou os óculos e pegou um pedaço de pizza fria.
— Próxima rodada — disse ela, com uma autoridade renovada. — De quem é a vez de girar?
Kendi sentou-se ao lado dela, desta vez passando o braço abertamente por seus ombros. Miguel sorriu para o papel de desenho em seu colo, esboçando algo que parecia muito com dois bonequinhos em um armário.
A noite continuou, entre risadas, confissões e o calor de uma amizade que agora carregava uma nova camada de significado. Para Yasmin, o apartamento de Letícia nunca pareceu tão acolhedor, e a vida, apesar de todas as suas seriedades, nunca pareceu tão divertida.
