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Fandom: Nenhum

Criado: 02/06/2026

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Entre o Silêncio e o Salto Alto

O crepúsculo caía sobre a cobertura luxuosa de Emanuel, tingindo os móveis de design minimalista com tons de laranja e violeta. O silêncio da sala era quebrado apenas pelo som rítmico das teclas do notebook de Sara e pelo murmúrio baixo que vinha do tapete felpudo, onde Eduarda estava sentada.

Emanuel observava a cena da porta do escritório, com uma caneca de café esquecida na mão. Ele sentia o peso habitual nos ombros — o estresse de gerenciar dez estúdios de tatuagem internacionais e uma rede de investimentos que parecia nunca dormir. Mas ali, naquele espaço, o conflito era de outra natureza. Era o equilíbrio precário entre duas mulheres que eram os pilares opostos de sua vida.

No centro do tapete, Maya, a gêmea de oito meses com cabelos castanhos e olhos expressivos, estava praticamente fundida ao colo de Eduarda. A bebê soltava pequenos sons manhosos, escondendo o rosto no pescoço da jovem estudante de História da Arte. Eduarda a ninava com uma delicadeza quase etérea, seus dedos finos acariciando as costas da criança.

— Ela está com soninho, Emanuel — sussurrou Eduarda, sem desviar os olhos da bebê. Seu tom era doce, carregado daquela sensibilidade que sempre desarmava a rigidez dele. — O dia foi agitado para ela.

Do sofá, Sara soltou um suspiro audível, fechando o notebook com um estalo seco. Ela estava impecável, como sempre: os cabelos loiros platinados perfeitamente moldados, um vestido justo que acentuava suas curvas e o brilho do silicone sob o decote generoso. Ela se levantou, caminhando com a confiança de quem é dona do mundo, e parou diante de Eduarda, olhando para a própria filha com uma mistura de amor e irritação contida.

— Ela está manhosa, isso sim — retrucou Sara, a voz carregada de uma ironia vibrante. — Maya puxou esse seu jeito de "não me toque que eu quebro", Duda. É impressionante. Oito meses e já parece que vai chorar se o vento bater forte demais.

Eduarda encolheu os ombros levemente, abraçando Maya com mais força. Ela não gostava de confrontos, e a energia expansiva de Sara sempre a fazia se sentir pequena.

— Ela só é sensível, Sara... Não tem nada de errado nisso.

— Sensibilidade não paga as contas, querida — Sara rebateu, embora sem maldade real, apenas com sua habitual crueza. Ela se virou para Emanuel. — Manu, você viu o relatório da unidade de Berlim? Os lucros subiram 15%, mas o gerente é um idiota completo. Já mandei o e-mail de advertência.

Emanuel suspirou, aproximando-se e deixando a caneca sobre uma mesa lateral. Ele passou a mão pelo rosto cansado, os olhos alternando entre a praticidade agressiva de Sara e a suavidade vulnerável de Eduarda.

— Vi, Sara. Bom trabalho. Mas agora não quero falar de Berlim.

Ele se sentou no chão, ao lado de Eduarda, e estendeu a mão para tocar o rosto de Maya. A bebê, ao sentir o toque do pai, apenas se apertou mais contra Eduarda, buscando o porto seguro daquela que exalava a mesma paz que ela.

— Ela realmente prefere você, não é? — Emanuel comentou, a voz baixa, direcionada a Eduarda. Havia uma ponta de frustração em seu tom, mas não com a bebê, e sim com a distância que Eduarda ainda mantinha dele. — Se você morasse aqui, ela não precisaria sofrer toda vez que você vai embora.

Eduarda baixou o olhar, as bochechas ganhando um tom rosado.

— Emanuel, já conversamos sobre isso... Meus pais, a faculdade... Eu ainda não estou pronta para essa mudança definitiva.

— Não está pronta ou tem medo de dividir o mesmo teto que eu e a "barbie loira" aqui em tempo integral? — Sara provocou, pegando Ágata, a outra gêmea, que estava sentada em seu andajá de luxo.

Ágata era a imagem escarrada de Sara: loirinha, de olhos alertas e uma expressão que já parecia julgar o ambiente. Ao contrário da irmã, Ágata raramente chorava; ela exigia atenção com pequenos estalidos de língua e uma postura de "mini diva" que encantava Sara.

— Não é isso — murmurou Eduarda, a voz quase sumindo. — É que... as coisas são complicadas.

— Complicado é o meu cronograma de logística — cortou Emanuel, a irritação começando a vazar por sua fachada racional. — Ter você morando com os pais aos vinte anos, enquanto eu tenho que mandar um motorista te buscar e levar todo dia, é ineficiente. Eu quero minha família unida, sob o meu controle, sob o meu teto.

— Família unida é um conceito elástico, Manu — Sara disse, ajeitando Ágata no quadril. Ela olhou para Eduarda com uma ponta de simpatia desdenhosa. — Deixa a menina, se ela quer viver no mundo da lua dos pais modernos dela, o problema é dela. Só não reclama quando a Maya começar a chamar a Eduarda de mãe e eu for a "tia legal que trabalha".

— Você sabe que eu nunca faria isso, Sara — Eduarda disse, ganhando um pouco de coragem. — Eu respeito o seu lugar.

— Eu sei que respeita, doce — Sara deu de ombros, caminhando até o bar da sala para se servir de uma taça de vinho. — Você é boa demais para o seu próprio bem. É por isso que o Emanuel é obcecado por você. Ele precisa de alguém que não morda de volta, já que eu passo o dia arrancando pedaços dele nos negócios.

Emanuel se levantou, o corpo alto e firme criando uma sombra sobre as duas.

— Chega de discussões hipotéticas. Eduarda, você fica para o jantar. E vai dormir aqui hoje. Não aceito um "não".

Eduarda olhou para ele, vendo a rigidez em seus ombros. Ela sabia que, quando ele ficava assim, era melhor ceder do que iniciar uma disputa lógica que ela certamente perderia. Ela apenas assentiu, sentindo o peso do olhar de Sara sobre elas.

O jantar foi uma coreografia de tensões silenciosas. Sara falava sobre estratégias de marketing e como a nova linha de tintas orgânicas estava revolucionando o mercado, enquanto Emanuel ouvia com atenção profissional, embora seus olhos estivessem constantemente voltados para o outro lado da mesa. Lá, Eduarda tentava comer com uma mão enquanto Maya, recusando-se a ficar no cadeirão, permanecia em seu colo.

— Você mima demais essa criança — comentou Sara, apontando o garfo para a cena. — Ágata come sozinha desde os seis meses, praticamente.

— Cada uma tem seu tempo — defendeu-se Eduarda, limpando o cantinho da boca de Maya com um guardanapo de linho. — A Maya só precisa de um pouco mais de segurança.

— Ela precisa de disciplina — Emanuel interveio, a voz autoritária. — Mas a Eduarda tem razão em um ponto, Sara. Elas são diferentes. Assim como vocês duas.

Ele estendeu as mãos, pegando a mão direita de Sara e a esquerda de Eduarda. Era um gesto de posse, mas também de uma necessidade profunda de conexão. Emanuel amava Sara pela sua força, pela sua competência e pela chama que ela mantinha acesa em sua vida ambiciosa. Mas ele precisava de Eduarda para não esquecer como se sentia o silêncio e a ternura.

— Eu não funcionaria sem nenhuma das duas — ele admitiu, em um raro momento de vulnerabilidade. — Mas essa divisão... essa distância da Eduarda... isso está me desgastando.

— Você é um controlador nato, Manu — Sara disse, tomando um gole de vinho e sorrindo de lado, aquele sorriso que misturava deboche e carinho. — Quer todas as suas peças no tabuleiro ao mesmo tempo.

— E você quer ser a rainha do tabuleiro — ele rebateu.

— Eu *sou* a rainha. A Eduarda é a bispa... ou talvez aquela peça que a gente quer proteger a todo custo.

Eduarda sentiu um nó na garganta. Ela gostava de Sara, de certa forma. Admirava a coragem da loira em ser exatamente quem era, sem filtros ou desculpas. Mas a convivência era exaustiva. Ser a "outra" namorada, mesmo que aceita e amada, trazia uma carga de insuficiência que ela lutava para superar.

Após o jantar, o ambiente relaxou um pouco. As bebês foram colocadas para dormir. Ágata apagou imediatamente em seu berço de carvalho escuro, mas Maya só aceitou fechar os olhos quando Eduarda cantou baixinho, sentada na poltrona do quarto infantil.

Quando Eduarda saiu do quarto, encontrou Emanuel e Sara na varanda, observando as luzes da cidade. Sara estava encostada no peito dele, e ele mantinha um braço em volta de sua cintura. Era uma imagem de estabilidade que sempre fazia Eduarda hesitar.

— Ela dormiu? — Emanuel perguntou, estendendo o outro braço para que Eduarda se aproximasse.

Ela caminhou timidamente e se encaixou no abraço dele, sentindo o perfume amadeirado de seu pescoço. Sara não se afastou; pelo contrário, estendeu a mão e tocou o cabelo de Eduarda, um gesto raro de afeto físico.

— Você tem mãos de fada, Duda — Sara confessou, a voz mais baixa, desprovida de sua habitual vulgaridade performática. — Às vezes eu olho para a Maya e sinto que ela te pertence mais do que a mim. E isso me irrita... me irrita muito. Mas eu sei que ela está em boas mãos.

— Ela é sua filha, Sara — Eduarda disse com sinceridade. — Eu sou apenas alguém que a ama muito.

— Você é parte disso aqui — Emanuel afirmou, apertando as duas contra si. — Se você viesse de vez, Eduarda... não haveria mais essa lacuna. Eu sinto que estou sempre tentando buscar uma parte de mim que está na casa dos seus pais.

— Eu vou pensar... eu prometo — Eduarda sussurrou, embora soubesse que o medo daquela intensidade ainda a freava.

— Pensa logo — Sara disse, recuperando o tom provocador. — Porque se o Emanuel continuar estressado desse jeito porque você não mora aqui, ele vai acabar tendo um infarto, e eu não estou a fim de administrar o império dele sozinha enquanto cuido de duas crianças.

Emanuel soltou uma risada curta, a primeira da noite.

— Você daria conta, Sara. Você sempre dá.

— É claro que daria. Mas prefiro ter você aqui para reclamar do meu batom nas suas camisas.

A noite avançou com uma calma frágil. Emanuel levou Eduarda para o quarto de hóspedes que já era, na prática, o quarto dela, decorado com cores claras e tecidos macios que contrastavam com o restante da casa. Ele a beijou com uma fome contida, uma mistura de desejo e a necessidade de marcar território em sua alma.

— Fica comigo hoje — ele pediu, a voz rouca.

— Eu estou aqui, Emanuel.

— Não. Fica de verdade. Não só por uma noite.

Eduarda não respondeu com palavras, apenas o abraçou, escondendo o rosto em seu peito. Ela era o porto, Sara era a tempestade, e Emanuel era o capitão tentando navegar em águas que ele mesmo escolhera tornar complexas.

Mais tarde, enquanto a casa mergulhava no silêncio profundo da madrugada, Sara passou pelo corredor e viu a porta do quarto de Eduarda entreaberta. Ela viu Emanuel dormindo entre os travesseiros claros, com Eduarda aninhada em seu braço.

Sara sorriu para si mesma, um sorriso amargo e doce ao mesmo tempo. Ela ajeitou o próprio robe de seda, sentindo o peso do silicone e a força de sua própria presença. Ela sabia que era a base prática da vida de Emanuel, a mulher que entendia seus negócios e dividia suas ambições. Mas, ao olhar para aquela cena, ela também entendia por que ele precisava de Eduarda.

Afinal, até o homem mais poderoso do mundo precisava de um lugar onde pudesse ser apenas humano, sem precisar lutar por controle.

Ela caminhou até o quarto das filhas, parando diante do berço de Maya. A bebê se mexeu no sono, soltando um suspiro manhoso que era a cópia fiel dos trejeitos de Eduarda.

— Você vai ser um problema, pequena — Sara sussurrou, cobrindo a filha. — Mas, pelo menos, você tem duas mães para te ensinar a lidar com esse pai teimoso que você tem.

Sara saiu do quarto, seus saltos ecoando suavemente no mármore, pronta para enfrentar mais um dia de poder, enquanto o silêncio de Eduarda continuava a ser o único som que realmente acalmava o coração de Emanuel.
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