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entre a e s
Fandom: para sempre
Criado: 02/06/2026
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RomanceDramaFatias de VidaFofuraEstudo de PersonagemPhotoficCiúmesRealismoLirismo
O Labirinto entre o A e o S
O sinal para o intervalo ecoou pelos corredores da escola como um trovão, mas para Maya, ele soava mais como um aviso de perigo. Enquanto os alunos do 7º ano saíam em disparada, rindo e planejando quem pegaria a bola de vôlei primeiro, ela apertava as alças da mochila com tanta força que os nós dos seus dedos estavam brancos.
Maya tinha doze anos e uma habilidade extraordinária para observar o mundo em silêncio. Ela conhecia cada rachadura no piso do pátio e sabia exatamente quais árvores davam a melhor sombra. Mas, acima de tudo, ela sabia os horários exatos em que os alunos do 9º ano cruzavam o corredor central.
Eles eram como gigantes de outro planeta. O 9º ano carregava uma aura de maturidade que Maya achava inalcançável. E, no centro desse universo distante, estavam os dois motivos de sua insônia: Arthur e Samuel.
— Maya, você vem ou vai virar uma estátua de sal? — perguntou Bia, sua melhor amiga, parando na porta da sala e balançando o cabelo preso em um rabo de cavalo.
— Eu já vou — respondeu Maya, a voz saindo um pouco mais aguda do que o normal. — Só estou... guardando meu estojo de canetas em gel.
— Você está esperando eles passarem, não está? — Bia arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços. — Você gosta do Arthur desde o ano passado, mas agora toda vez que o Samuel passa, você fica vermelha igual a um pimentão. Decida-se, amiga!
— Eu não preciso decidir nada porque eu não vou falar com nenhum dos dois! — sussurrou Maya, sentindo o rosto queimar. — E fala baixo, as paredes têm ouvidos.
— As paredes não têm ouvidos, Maya, elas têm cartazes de matemática — debochou Bia, puxando a amiga pelo braço. — Vamos logo, antes que a cantina fique lotada.
Ao saírem para o pátio ensolarado, o coração de Maya deu um salto. Lá estavam eles, encostados na mureta perto da quadra de basquete. Arthur, com seu cabelo bagunçado e o sorriso de quem sempre sabia de uma piada interna, estava girando uma bola nos dedos. Ao lado dele, Samuel, mais sério, com fones de ouvido pendurados no pescoço e aquele olhar distraído que fazia Maya imaginar se ele estaria pensando em algo profundo ou apenas na prova de física.
Eles eram opostos. Arthur era o sol, radiante e barulhento. Samuel era a lua, calmo e misterioso. E Maya? Maya era apenas uma garota do 7º ano que sentia que, se tentasse dizer "oi", acabaria esquecendo como se respira.
— Olha lá — cutucou Bia. — O Arthur está vindo para cá.
O pânico se instalou. Maya tentou dar meia-volta, mas Bia a segurou firmemente pelo ombro.
— Ei, meninas! — exclamou Arthur, aproximando-se com aquela facilidade de quem domina o ambiente. — Vocês viram se o professor de educação física já abriu o almoxarifado?
Bia, sempre a mais corajosa, respondeu prontamente:
— Ainda não, Arthur. Acho que ele está na sala dos professores.
— Valeu, Bia! — Ele sorriu e, por um breve e aterrorizante segundo, seus olhos encontraram os de Maya. — Tudo bem, Maya? Você está muito quieta hoje.
Maya abriu a boca. Ela queria dizer que estava tudo bem. Queria fazer um comentário inteligente sobre o jogo de basquete da semana passada ou talvez mencionar que a camiseta dele era legal. Mas o que saiu foi um som abafado, algo entre um soluço e um espirro.
— Hum... é. Sim. — Ela baixou a cabeça, estudando intensamente a ponta de seus tênis.
— Legal — disse Arthur, parecendo um pouco confuso, mas mantendo o sorriso. — Vejo vocês por aí!
Ele se afastou, voltando para perto de Samuel. Maya sentiu vontade de que o chão se abrisse e a engolisse.
— "Hum... é. Sim"? — Bia repetiu, revirando os olhos. — Sério, Maya? Você parece um robô com defeito.
— Eu não sei o que acontece! — protestou Maya, as lágrimas de frustração ameaçando surgir. — Na minha cabeça, eu sou super articulada. Eu escrevo poemas no meu diário, Bia! Eu sei usar metáforas! Mas quando eu olho para ele, ou para o Samuel, as palavras viram um nó na minha garganta.
— Você precisa se expressar de algum jeito — disse Bia, agora com um tom mais suave. — Se não consegue falar, escreve. Manda um bilhete.
— Bilhetes são tão... 5º ano — resmungou Maya.
— Então morra de silêncio — brincou a amiga, puxando-a em direção à fila do lanche.
Mais tarde, durante a aula de artes, o silêncio da sala permitiu que os pensamentos de Maya voassem longe. Ela olhava para a folha de papel em branco à sua frente. O professor havia pedido um desenho que representasse um sentimento.
Ela pegou o lápis grafite. Começou a desenhar duas figuras no topo de uma colina e uma terceira figura, menor, observando-as de longe, escondida atrás de uma árvore. As linhas eram delicadas, mas carregadas de uma melancolia que ela não sabia explicar.
A verdade era que Maya se sentia dividida. Ela admirava Arthur pela forma como ele fazia todo mundo se sentir incluído. Mas ela se sentia conectada a Samuel pelo silêncio dele, pela forma como ele parecia observar o mundo da mesma maneira que ela. Como expressar isso sem parecer uma boba? Como dizer que gostava da luz de um e da sombra do outro?
No final da aula, enquanto guardava suas coisas, Maya viu Samuel passar pelo corredor sozinho. Ele estava indo em direção à biblioteca. Era a chance perfeita. Não havia a pressão do grupo, não havia Bia para observar.
Ela o seguiu a uma distância segura. Ao entrar na biblioteca, o cheiro de papel antigo e a quietude habitual a acalmaram. Samuel estava em uma das mesas do fundo, folheando um livro de fotografia.
Maya respirou fundo. Ela tinha um pequeno pedaço de papel no bolso, onde tinha desenhado um detalhe rápido de uma árvore durante a aula. No verso, ela escreveu apenas três palavras: "Belo olhar, Samuel". Era simples, anônimo e seguro.
Ela caminhou lentamente, fingindo procurar um livro na estante ao lado dele. O coração batia tão forte que ela tinha certeza de que ele podia ouvir. Quando ela estava a poucos passos, Samuel levantou os olhos.
— Oi — disse ele, a voz profunda e calma.
Maya congelou. O papel em sua mão parecia pesar uma tonelada.
— Oi — respondeu ela, num fio de voz.
— Você é do 7º ano, né? Amiga da Bia? — Ele fechou o livro, mantendo o dedo entre as páginas para não perder o lugar.
— Sou. Maya.
— Eu sou o Samuel. Mas acho que você já sabe.
Houve um silêncio. Não era um silêncio desconfortável como o que ela sentia com Arthur, mas era carregado de uma expectativa que a deixava tonta.
— Você gosta de fotografia? — perguntou ela, apontando para o livro, surpresa com a própria coragem de iniciar uma conversa.
— Gosto. É um jeito de falar sem precisar abrir a boca — disse Samuel, com um meio sorriso. — Às vezes, as palavras estragam as coisas.
Maya sentiu um arrepio. Ele entendia.
— Eu sinto isso o tempo todo — confessou ela, esquecendo por um momento que estava falando com o garoto mais velho e misterioso da escola. — Eu tenho tanto para dizer, mas parece que as palavras não cabem na minha voz.
Samuel inclinou a cabeça, observando-a com uma curiosidade genuína.
— Então você deve ser uma artista. Artistas geralmente têm esse problema.
Maya sentiu o rosto esquentar, mas desta vez era um calor bom. Ela estendeu a mão e, sem pensar muito, colocou o pequeno desenho sobre a mesa, cobrindo-o com a palma da mão antes de empurrá-lo para ele.
— O que é isso? — perguntou ele, alcançando o papel.
— É... um jeito de não estragar as coisas com palavras — disse ela, o coração disparado.
Antes que ele pudesse abrir o papel e ler, Maya se virou e saiu da biblioteca quase correndo. Ela não olhou para trás. Seus pulmões ardiam, mas ela sentia uma leveza que nunca experimentara antes.
Ao chegar no pátio, ela deu de cara com Arthur, que estava vindo do vestiário, com a mochila jogada de lado.
— Ei, Maya! — chamou ele, correndo para alcançá-la. — Espera aí!
Ela parou, tentando recuperar o fôlego.
— Oi, Arthur.
— Eu queria te pedir desculpas se te deixei sem jeito mais cedo — disse ele, coçando a nuca, parecendo subitamente tímido. — Às vezes eu falo demais e não percebo que as pessoas têm ritmos diferentes.
Maya olhou para ele, surpresa. O "sol" da escola também tinha suas inseguranças?
— Tudo bem, Arthur. Eu só sou... devagar para responder.
— Entendi. Mas olha, eu e o pessoal vamos tomar sorvete depois da saída na sexta. A Bia vai. Você queria ir também? — Ele sorriu, e desta vez o sorriso não era para a plateia, era só para ela. — Eu prometo que vou tentar falar menos para você ter espaço para falar também.
Maya sentiu o conflito interno. De um lado, o mistério compartilhado com Samuel na biblioteca; do outro, o convite solar de Arthur. Ela ainda não sabia como se expressar plenamente, ainda se sentia um labirinto de emoções confusas e frases inacabadas.
Mas, pela primeira vez, o labirinto não parecia um lugar onde ela estava perdida. Parecia um lugar que valia a pena explorar.
— Eu... eu vou pensar, Arthur. Posso te dar a resposta amanhã?
— Claro! — Ele deu um tapinha amigável no ombro dela. — Amanhã, no mesmo lugar. Não foge de mim, hein?
Ele se foi, deixando Maya sozinha no corredor que agora começava a se esvaziar. Ela encostou as costas na parede fria e fechou os olhos.
Ela ainda era a garota do 7º ano que não sabia falar o que sentia. Ela ainda era a menina que preferia o silêncio ao barulho. Mas, naquele dia, ela tinha entregado um desenho e recebido um convite.
No final das contas, talvez a expressão não precisasse ser perfeita. Talvez ela não precisasse escolher entre o A e o S naquele exato momento. Talvez o segredo não fosse saber o que dizer, mas sim ter a coragem de deixar que os outros vissem o que ela estava tentando dizer, mesmo que fosse através de um gaguejo, de um desenho ou de um simples "vou pensar".
Maya caminhou em direção ao portão da escola, sentindo o sol da tarde no rosto. Ela ainda tinha muito o que aprender sobre o amor e sobre si mesma, mas uma coisa era certa: o silêncio dela nunca mais seria o mesmo. Ele agora tinha cores, tinha nomes e, acima de tudo, tinha uma voz que, embora baixa, começava finalmente a ser ouvida.
Maya tinha doze anos e uma habilidade extraordinária para observar o mundo em silêncio. Ela conhecia cada rachadura no piso do pátio e sabia exatamente quais árvores davam a melhor sombra. Mas, acima de tudo, ela sabia os horários exatos em que os alunos do 9º ano cruzavam o corredor central.
Eles eram como gigantes de outro planeta. O 9º ano carregava uma aura de maturidade que Maya achava inalcançável. E, no centro desse universo distante, estavam os dois motivos de sua insônia: Arthur e Samuel.
— Maya, você vem ou vai virar uma estátua de sal? — perguntou Bia, sua melhor amiga, parando na porta da sala e balançando o cabelo preso em um rabo de cavalo.
— Eu já vou — respondeu Maya, a voz saindo um pouco mais aguda do que o normal. — Só estou... guardando meu estojo de canetas em gel.
— Você está esperando eles passarem, não está? — Bia arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços. — Você gosta do Arthur desde o ano passado, mas agora toda vez que o Samuel passa, você fica vermelha igual a um pimentão. Decida-se, amiga!
— Eu não preciso decidir nada porque eu não vou falar com nenhum dos dois! — sussurrou Maya, sentindo o rosto queimar. — E fala baixo, as paredes têm ouvidos.
— As paredes não têm ouvidos, Maya, elas têm cartazes de matemática — debochou Bia, puxando a amiga pelo braço. — Vamos logo, antes que a cantina fique lotada.
Ao saírem para o pátio ensolarado, o coração de Maya deu um salto. Lá estavam eles, encostados na mureta perto da quadra de basquete. Arthur, com seu cabelo bagunçado e o sorriso de quem sempre sabia de uma piada interna, estava girando uma bola nos dedos. Ao lado dele, Samuel, mais sério, com fones de ouvido pendurados no pescoço e aquele olhar distraído que fazia Maya imaginar se ele estaria pensando em algo profundo ou apenas na prova de física.
Eles eram opostos. Arthur era o sol, radiante e barulhento. Samuel era a lua, calmo e misterioso. E Maya? Maya era apenas uma garota do 7º ano que sentia que, se tentasse dizer "oi", acabaria esquecendo como se respira.
— Olha lá — cutucou Bia. — O Arthur está vindo para cá.
O pânico se instalou. Maya tentou dar meia-volta, mas Bia a segurou firmemente pelo ombro.
— Ei, meninas! — exclamou Arthur, aproximando-se com aquela facilidade de quem domina o ambiente. — Vocês viram se o professor de educação física já abriu o almoxarifado?
Bia, sempre a mais corajosa, respondeu prontamente:
— Ainda não, Arthur. Acho que ele está na sala dos professores.
— Valeu, Bia! — Ele sorriu e, por um breve e aterrorizante segundo, seus olhos encontraram os de Maya. — Tudo bem, Maya? Você está muito quieta hoje.
Maya abriu a boca. Ela queria dizer que estava tudo bem. Queria fazer um comentário inteligente sobre o jogo de basquete da semana passada ou talvez mencionar que a camiseta dele era legal. Mas o que saiu foi um som abafado, algo entre um soluço e um espirro.
— Hum... é. Sim. — Ela baixou a cabeça, estudando intensamente a ponta de seus tênis.
— Legal — disse Arthur, parecendo um pouco confuso, mas mantendo o sorriso. — Vejo vocês por aí!
Ele se afastou, voltando para perto de Samuel. Maya sentiu vontade de que o chão se abrisse e a engolisse.
— "Hum... é. Sim"? — Bia repetiu, revirando os olhos. — Sério, Maya? Você parece um robô com defeito.
— Eu não sei o que acontece! — protestou Maya, as lágrimas de frustração ameaçando surgir. — Na minha cabeça, eu sou super articulada. Eu escrevo poemas no meu diário, Bia! Eu sei usar metáforas! Mas quando eu olho para ele, ou para o Samuel, as palavras viram um nó na minha garganta.
— Você precisa se expressar de algum jeito — disse Bia, agora com um tom mais suave. — Se não consegue falar, escreve. Manda um bilhete.
— Bilhetes são tão... 5º ano — resmungou Maya.
— Então morra de silêncio — brincou a amiga, puxando-a em direção à fila do lanche.
Mais tarde, durante a aula de artes, o silêncio da sala permitiu que os pensamentos de Maya voassem longe. Ela olhava para a folha de papel em branco à sua frente. O professor havia pedido um desenho que representasse um sentimento.
Ela pegou o lápis grafite. Começou a desenhar duas figuras no topo de uma colina e uma terceira figura, menor, observando-as de longe, escondida atrás de uma árvore. As linhas eram delicadas, mas carregadas de uma melancolia que ela não sabia explicar.
A verdade era que Maya se sentia dividida. Ela admirava Arthur pela forma como ele fazia todo mundo se sentir incluído. Mas ela se sentia conectada a Samuel pelo silêncio dele, pela forma como ele parecia observar o mundo da mesma maneira que ela. Como expressar isso sem parecer uma boba? Como dizer que gostava da luz de um e da sombra do outro?
No final da aula, enquanto guardava suas coisas, Maya viu Samuel passar pelo corredor sozinho. Ele estava indo em direção à biblioteca. Era a chance perfeita. Não havia a pressão do grupo, não havia Bia para observar.
Ela o seguiu a uma distância segura. Ao entrar na biblioteca, o cheiro de papel antigo e a quietude habitual a acalmaram. Samuel estava em uma das mesas do fundo, folheando um livro de fotografia.
Maya respirou fundo. Ela tinha um pequeno pedaço de papel no bolso, onde tinha desenhado um detalhe rápido de uma árvore durante a aula. No verso, ela escreveu apenas três palavras: "Belo olhar, Samuel". Era simples, anônimo e seguro.
Ela caminhou lentamente, fingindo procurar um livro na estante ao lado dele. O coração batia tão forte que ela tinha certeza de que ele podia ouvir. Quando ela estava a poucos passos, Samuel levantou os olhos.
— Oi — disse ele, a voz profunda e calma.
Maya congelou. O papel em sua mão parecia pesar uma tonelada.
— Oi — respondeu ela, num fio de voz.
— Você é do 7º ano, né? Amiga da Bia? — Ele fechou o livro, mantendo o dedo entre as páginas para não perder o lugar.
— Sou. Maya.
— Eu sou o Samuel. Mas acho que você já sabe.
Houve um silêncio. Não era um silêncio desconfortável como o que ela sentia com Arthur, mas era carregado de uma expectativa que a deixava tonta.
— Você gosta de fotografia? — perguntou ela, apontando para o livro, surpresa com a própria coragem de iniciar uma conversa.
— Gosto. É um jeito de falar sem precisar abrir a boca — disse Samuel, com um meio sorriso. — Às vezes, as palavras estragam as coisas.
Maya sentiu um arrepio. Ele entendia.
— Eu sinto isso o tempo todo — confessou ela, esquecendo por um momento que estava falando com o garoto mais velho e misterioso da escola. — Eu tenho tanto para dizer, mas parece que as palavras não cabem na minha voz.
Samuel inclinou a cabeça, observando-a com uma curiosidade genuína.
— Então você deve ser uma artista. Artistas geralmente têm esse problema.
Maya sentiu o rosto esquentar, mas desta vez era um calor bom. Ela estendeu a mão e, sem pensar muito, colocou o pequeno desenho sobre a mesa, cobrindo-o com a palma da mão antes de empurrá-lo para ele.
— O que é isso? — perguntou ele, alcançando o papel.
— É... um jeito de não estragar as coisas com palavras — disse ela, o coração disparado.
Antes que ele pudesse abrir o papel e ler, Maya se virou e saiu da biblioteca quase correndo. Ela não olhou para trás. Seus pulmões ardiam, mas ela sentia uma leveza que nunca experimentara antes.
Ao chegar no pátio, ela deu de cara com Arthur, que estava vindo do vestiário, com a mochila jogada de lado.
— Ei, Maya! — chamou ele, correndo para alcançá-la. — Espera aí!
Ela parou, tentando recuperar o fôlego.
— Oi, Arthur.
— Eu queria te pedir desculpas se te deixei sem jeito mais cedo — disse ele, coçando a nuca, parecendo subitamente tímido. — Às vezes eu falo demais e não percebo que as pessoas têm ritmos diferentes.
Maya olhou para ele, surpresa. O "sol" da escola também tinha suas inseguranças?
— Tudo bem, Arthur. Eu só sou... devagar para responder.
— Entendi. Mas olha, eu e o pessoal vamos tomar sorvete depois da saída na sexta. A Bia vai. Você queria ir também? — Ele sorriu, e desta vez o sorriso não era para a plateia, era só para ela. — Eu prometo que vou tentar falar menos para você ter espaço para falar também.
Maya sentiu o conflito interno. De um lado, o mistério compartilhado com Samuel na biblioteca; do outro, o convite solar de Arthur. Ela ainda não sabia como se expressar plenamente, ainda se sentia um labirinto de emoções confusas e frases inacabadas.
Mas, pela primeira vez, o labirinto não parecia um lugar onde ela estava perdida. Parecia um lugar que valia a pena explorar.
— Eu... eu vou pensar, Arthur. Posso te dar a resposta amanhã?
— Claro! — Ele deu um tapinha amigável no ombro dela. — Amanhã, no mesmo lugar. Não foge de mim, hein?
Ele se foi, deixando Maya sozinha no corredor que agora começava a se esvaziar. Ela encostou as costas na parede fria e fechou os olhos.
Ela ainda era a garota do 7º ano que não sabia falar o que sentia. Ela ainda era a menina que preferia o silêncio ao barulho. Mas, naquele dia, ela tinha entregado um desenho e recebido um convite.
No final das contas, talvez a expressão não precisasse ser perfeita. Talvez ela não precisasse escolher entre o A e o S naquele exato momento. Talvez o segredo não fosse saber o que dizer, mas sim ter a coragem de deixar que os outros vissem o que ela estava tentando dizer, mesmo que fosse através de um gaguejo, de um desenho ou de um simples "vou pensar".
Maya caminhou em direção ao portão da escola, sentindo o sol da tarde no rosto. Ela ainda tinha muito o que aprender sobre o amor e sobre si mesma, mas uma coisa era certa: o silêncio dela nunca mais seria o mesmo. Ele agora tinha cores, tinha nomes e, acima de tudo, tinha uma voz que, embora baixa, começava finalmente a ser ouvida.
