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Família complicada
Fandom: Revenge of the Iron-Blooded Sword Hound
Criado: 02/06/2026
Tags
FantasiaAçãoDramaAventuraFofuraHumorHistória DomésticaEstudo de PersonagemCenário Canônico
Sombras de Ferro e Laços de Sangue
A rotina na Academia Colosso era, para Vikir van Baskerville, um exercício de paciência e supressão. Sob a fachada de um plebeu comum, ele se movia pelos corredores como uma sombra entre luzes ofuscantes. Seus olhos, frios como o gelo das montanhas do norte, observavam tudo, mas raramente revelavam algo. Para seus colegas de classe, ele era apenas o jovem talentoso, porém reservado, que parecia não ter grandes ambições além de sobreviver às aulas.
Contudo, a paz monótona da academia foi estilhaçada quando os monitores mágicos do grande salão e das áreas comuns ganharam vida simultaneamente. O brasão dos Baskerville — os cães de caça de ferro — preencheu as telas, emanando uma aura de autoridade que fez o ar parecer mais pesado.
— O que é isso? — murmurou Tudor, os olhos arregalados enquanto limpava o suor do treino. — A Família Baskerville fazendo uma transmissão direta para a Colosso? Isso nunca aconteceu antes.
Vikir, encostado em uma coluna de mármore ao fundo, não disse nada. Ele apenas cruzou os braços, sentindo um leve tremor de pressentimento na base da nuca.
A imagem mudou. Hugo van Baskerville, o patriarca temido e implacável, apareceu no centro. Ao seu lado, Osiris, o herdeiro primogênito, mantinha uma postura impecável, embora houvesse um brilho de diversão perigosa em seu olhar.
— Estudantes da Academia Colosso — a voz de Hugo ecoou, profunda e vibrante. — A linhagem Baskerville decidiu que a próxima geração de heróis deste império está lamentavelmente amolecida. Em três dias, chegaremos à academia. Ficaremos por um ano. Treinaremos cada um de vocês até que estejam aceitáveis... ou até que quebrem.
Um silêncio sepulcral caiu sobre o salão, seguido por sussurros de pânico. Os Baskerville eram conhecidos por seus métodos de treinamento que faziam as fronteiras entre a vida e a morte desaparecerem.
— Eles vão nos matar — balbuciou Sancho, empalidecendo. — Vikir, você ouviu isso? Por que você está tão calmo?
Vikir apenas desviou o olhar para a tela, onde algo inesperado estava acontecendo. A câmera, que deveria focar na seriedade militar da família, subitamente tremeu e baixou de ângulo.
— Não, Pomeria! — a voz de Hugo, antes severa, agora soava estranhamente desesperada e... doce? — O vovô está falando com os soldados agora.
— Mas vovô, a Peri precisa decidir! — Uma voz infantil e mandona surgiu.
A tela agora mostrava Pomeria, a sobrinha de Vikir, puxando a capa de Hugo com uma mão, enquanto a outra segurava a mão de uma menina menor.
Peri.
A filha adotiva de Vikir, a pequena menina muda que ele resgatara das sombras, estava ali. Seus cabelos loiros brilhavam sob as luzes do castelo e seus olhos azuis, grandes e curiosos, olhavam diretamente para a lente mágica. Ela estava em silêncio, como sempre, mas segurava um pequeno coelho de pelúcia que Vikir mesmo havia costurado para ela antes de partir.
— Veja, vovô! — Pomeria apontava para Peri. — Ela precisa de uma coroa de verdade e um vestido de princesa rosa. Combinam com o cabelo e os olhos dela. Ela não pode ir para a academia de qualquer jeito. Se o "Tio Sombra" ver ela sem estar bonita, ele vai ficar triste!
Vikir sentiu uma veia saltar em sua têmpora. "Tio Sombra". Ele sabia exatamente quem havia ensinado aquele apelido para as crianças. Seus olhos se moveram para Osiris, que agora tentava esconder um sorriso atrás da mão enluvada.
— É verdade, meu pai — disse Osiris, sua voz carregada de uma ironia que só Vikir entenderia. — A pequena Peri merece o melhor. Afinal, o "pai" dela é muito exigente com a proteção de seus tesouros. Ele é o tipo de homem que mataria um exército se um fio de cabelo dela fosse tocado, mas que prefere se esconder no anonimato como um... plebeu qualquer.
Osiris olhou diretamente para a câmera, como se pudesse ver Vikir através da transmissão.
— Talvez esse "plebeu" devesse parar de se preocupar tanto com disfarces e aceitar que o sangue Baskerville sempre acaba manchando o tapete, não importa o quanto se limpe.
— Que estranho — comentou Bianca, aproximando-se de Vikir e estreitando os olhos para a tela. — Aquele homem, Osiris, parece estar falando com alguém específico. E quem são aquelas crianças? Eu achei que os Baskerville fossem monstros devoradores de carne.
— São apenas crianças — respondeu Vikir, sua voz saindo mais fria do que o normal.
— Você não parece nem um pouco assustado, Vikir — observou Tudor, desconfiado. — Todo mundo aqui está prestes a ter um colapso nervoso só de pensar no treinamento do Patriarca Hugo, e você está aí, agindo como se estivesse assistindo a uma peça de teatro chata.
— O medo não muda o resultado — disse Vikir, saindo de perto do grupo. — Se eles vêm, eles vêm.
Enquanto caminhava em direção aos dormitórios, a transmissão continuava ao fundo. Ele podia ouvir Hugo discutindo com os alfaiates reais sobre o tom exato de rosa para o vestido de Peri, enquanto Osiris fazia piadas sobre como "certos cães de caça gostam de brincar de casinha".
A discrição que Vikir tanto prezava estava por um fio.
***
Nos dois dias seguintes, a academia entrou em estado de sítio preventivo. Os professores estavam nervosos, os alunos treinavam até a exaustão para não passarem vergonha diante dos Baskerville, e os rumores sobre a "Princesa de Ferro" — como começaram a chamar a pequena Peri — se espalharam.
Vikir tentava manter a cabeça baixa, mas era difícil quando seus amigos o seguiam para todo lado, tentando decifrar sua falta de reação.
— Admita, Vikir — disse Sancho enquanto jantavam no refeitório. — Você conhece alguém daquela família. Você é do Norte, não é? Talvez tenha trabalhado nas cavalariças deles?
— Eu já disse que sou apenas um plebeu que teve sorte com uma bolsa de estudos — mentiu Vikir, cortando seu bife com uma precisão cirúrgica que fez Bianca arquear uma sobrancelha.
— Plebeus não cortam carne como se estivessem realizando uma autópsia — notou ela. — E plebeus certamente não têm o olhar de alguém que já viu o fim do mundo e bocejou.
Antes que Vikir pudesse responder, o som de trombetas ecoou pelos portões principais. O chão tremeu rítmico, como se um exército de gigantes estivesse marchando.
— Eles chegaram — sussurrou Tudor. — Um dia antes do esperado!
A massa de estudantes correu para o pátio central. Vikir foi arrastado por seus amigos. Lá, uma visão que desafiava a lógica da Academia Colosso se desdobrava.
Uma carruagem negra, decorada com espinhos de ferro e o brasão do cão de caça, parou no centro do pátio. Atrás dela, uma legião de cavaleiros de elite em armaduras completas mantinha uma formação impecável.
A porta da carruagem se abriu. Hugo van Baskerville desceu, sua presença esmagadora fazendo os alunos da primeira fila recuarem instintivamente. Logo atrás dele, Osiris surgiu, elegante e letal.
Mas o que silenciou o pátio não foi o poder dos guerreiros. Foi o que veio depois.
Hugo estendeu a mão grande e calejada para dentro da carruagem. De lá, saltou Pomeria, vestida com um traje de montaria refinado, e logo depois, Peri.
Peri estava exatamente como Pomeria havia exigido na transmissão: um vestido rosa bufante, cheio de rendas e fitas, e uma pequena coroa de ouro cravejada de safiras que combinavam com seus olhos. Ela segurava a mão de Hugo com confiança, olhando ao redor com uma expressão de curiosidade silenciosa.
— Onde ele está? — perguntou Pomeria em voz alta, ignorando completamente os diretores da academia que faziam reverências. — Eu sei que ele está aqui!
Osiris caminhou até a frente, seus olhos varrendo a multidão de estudantes uniformizados até pararem em um ponto específico. Um sorriso predatório surgiu em seu rosto.
— A recepção é calorosa, mas estamos procurando por alguém — disse Osiris. — Um certo "estudante" que tem negligenciado suas responsabilidades familiares em favor de... estudos acadêmicos.
Os amigos de Vikir olharam para ele. Vikir permaneceu imóvel, a expressão vazia, embora internamente estivesse calculando as rotas de fuga mais rápidas.
— Vikir... — sussurrou Bianca. — Por que o herdeiro dos Baskerville está olhando para você como se quisesse te dar uma surra ou um abraço?
— Provavelmente a surra — murmurou Vikir.
Peri, cujos olhos vagavam pela multidão, subitamente parou. Ela soltou a mão de Hugo e, antes que qualquer guarda pudesse reagir, correu em direção aos estudantes.
— Peri, espere! — gritou Hugo, mas sua voz não tinha autoridade, apenas a preocupação de um avô babão.
A pequena menina passou por entre os alunos, que se afastavam como se ela fosse uma bomba prestes a explodir. Ela correu em linha reta até Vikir e abraçou suas pernas com força, escondendo o rosto em suas calças de uniforme.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Nem mesmo o vento ousava soprar.
Tudor abriu a boca, mas nenhum som saiu. Sancho deixou cair o escudo que carregava. Bianca apenas alternava o olhar entre Vikir e o Patriarca Hugo, que agora caminhava em direção a eles com passos que faziam o concreto rachar.
Vikir suspirou. Ele sabia que o disfarce tinha acabado. Ele colocou a mão gentilmente sobre a cabeça de Peri, desfazendo um pouco do penteado elaborado que Pomeria certamente levara horas para fazer.
— Você está usando muito rosa — disse Vikir em voz baixa, mas o silêncio do pátio fez com que todos ouvissem.
Peri olhou para cima e sorriu, apontando para a coroa e depois para ele, fazendo um gesto que significava "para você gostar".
— Eu vi — ele respondeu, sua voz suavizando apenas um milímetro, o suficiente para ser notado por quem o conhecia.
Hugo parou a dois metros de Vikir. O ar ao redor deles fervilhava com mana. Os alunos ao redor sentiram os joelhos fraquejarem sob a pressão, mas Vikir nem sequer piscou.
— Você — disse Hugo, a voz roncando como um trovão. — Deixou sua filha e sua sobrinha chorando por semanas porque "tinha que estudar".
— Eu estava em uma missão de infiltração, senhor — respondeu Vikir, mantendo a etiqueta, mas sem a submissão esperada de um plebeu.
— Infiltração? — Osiris se aproximou, rindo. — Você está vivendo em um dormitório comum e comendo comida de refeitório. Isso não é infiltração, Vikir, é masoquismo.
— Vikir? — Tudor finalmente recuperou a voz. — Vikir... van Baskerville? Você é um deles? O Cão de Caça que diziam ter morrido ou desaparecido?
Vikir olhou para o amigo de soslaios.
— Eu disse que era um plebeu. Não disse que era um plebeu honesto.
Hugo bufou, cruzando os braços.
— Chega de teatro. O treinamento começa amanhã. E você — Hugo apontou o dedo para Vikir —, você vai cuidar da Peri enquanto eu treino esses molengas. Ela se recusou a comer vegetais desde que você saiu. Se ela perder um grama de peso, eu vou pessoalmente destruir este campus.
— Ela não gosta de brócolis — disse Vikir, calmamente. — Você deveria ter tentado misturar com o purê, como eu ensinei.
— Você ousa dar instruções de culinária para o Patriarca? — Osiris provocou, cutucando o ombro de Vikir. — Senti saudades de sua arrogância gelada, irmãozinho.
Os estudantes da Colosso assistiam à cena em choque total. O "plebeu" mais talentoso da escola não era apenas um nobre; ele era o centro de gravidade da família mais perigosa do império. E, aparentemente, a única pessoa capaz de fazer o temido Hugo van Baskerville discutir sobre dietas infantis.
— Vikir — Bianca disse, sua voz tremendo levemente. — Se você é um Baskerville... isso significa que o treinamento de "um ano" que eles mencionaram...
Vikir olhou para seus amigos, e pela primeira vez, eles viram um lampejo de algo que parecia... piedade?
— Se eu fosse vocês — disse Vikir, pegando Peri no colo e ajustando a coroa torta na cabeça dela —, eu começaria a correr agora. Meu pai não estava brincando sobre a parte de "quebrar".
— Exatamente! — rugiu Hugo, retomando sua postura de comando. — Todos vocês! Em formação! A diversão acabou. Vikir, leve as crianças para a tenda principal. Temos muito o que discutir sobre sua "aposentadoria" temporária.
Vikir começou a caminhar, carregando Peri, enquanto Pomeria corria ao seu lado, tagarelando sobre como o vestido rosa tinha sido caro. Ele passou pelos seus amigos, que ainda pareciam estátuas de sal.
— Vejo vocês na aula de esgrima amanhã — disse Vikir por cima do ombro. — Tentem não morrer no aquecimento.
Naquele dia, a Academia Colosso aprendeu duas lições valiosas. Primeira: nunca confie na simplicidade de um plebeu talentoso. Segunda: se você vir um Baskerville carregando uma criança de vestido rosa, não se engane. Eles ainda são cães de caça, e agora, eles têm algo muito precioso para proteger.
Vikir, por sua vez, apenas olhou para Peri em seus braços e suspirou. O disfarce fora divertido enquanto durou, mas o ferro, afinal, sempre volta para a forja. E ele tinha uma coroa para polir e um império para, silenciosamente, vigiar.
Contudo, a paz monótona da academia foi estilhaçada quando os monitores mágicos do grande salão e das áreas comuns ganharam vida simultaneamente. O brasão dos Baskerville — os cães de caça de ferro — preencheu as telas, emanando uma aura de autoridade que fez o ar parecer mais pesado.
— O que é isso? — murmurou Tudor, os olhos arregalados enquanto limpava o suor do treino. — A Família Baskerville fazendo uma transmissão direta para a Colosso? Isso nunca aconteceu antes.
Vikir, encostado em uma coluna de mármore ao fundo, não disse nada. Ele apenas cruzou os braços, sentindo um leve tremor de pressentimento na base da nuca.
A imagem mudou. Hugo van Baskerville, o patriarca temido e implacável, apareceu no centro. Ao seu lado, Osiris, o herdeiro primogênito, mantinha uma postura impecável, embora houvesse um brilho de diversão perigosa em seu olhar.
— Estudantes da Academia Colosso — a voz de Hugo ecoou, profunda e vibrante. — A linhagem Baskerville decidiu que a próxima geração de heróis deste império está lamentavelmente amolecida. Em três dias, chegaremos à academia. Ficaremos por um ano. Treinaremos cada um de vocês até que estejam aceitáveis... ou até que quebrem.
Um silêncio sepulcral caiu sobre o salão, seguido por sussurros de pânico. Os Baskerville eram conhecidos por seus métodos de treinamento que faziam as fronteiras entre a vida e a morte desaparecerem.
— Eles vão nos matar — balbuciou Sancho, empalidecendo. — Vikir, você ouviu isso? Por que você está tão calmo?
Vikir apenas desviou o olhar para a tela, onde algo inesperado estava acontecendo. A câmera, que deveria focar na seriedade militar da família, subitamente tremeu e baixou de ângulo.
— Não, Pomeria! — a voz de Hugo, antes severa, agora soava estranhamente desesperada e... doce? — O vovô está falando com os soldados agora.
— Mas vovô, a Peri precisa decidir! — Uma voz infantil e mandona surgiu.
A tela agora mostrava Pomeria, a sobrinha de Vikir, puxando a capa de Hugo com uma mão, enquanto a outra segurava a mão de uma menina menor.
Peri.
A filha adotiva de Vikir, a pequena menina muda que ele resgatara das sombras, estava ali. Seus cabelos loiros brilhavam sob as luzes do castelo e seus olhos azuis, grandes e curiosos, olhavam diretamente para a lente mágica. Ela estava em silêncio, como sempre, mas segurava um pequeno coelho de pelúcia que Vikir mesmo havia costurado para ela antes de partir.
— Veja, vovô! — Pomeria apontava para Peri. — Ela precisa de uma coroa de verdade e um vestido de princesa rosa. Combinam com o cabelo e os olhos dela. Ela não pode ir para a academia de qualquer jeito. Se o "Tio Sombra" ver ela sem estar bonita, ele vai ficar triste!
Vikir sentiu uma veia saltar em sua têmpora. "Tio Sombra". Ele sabia exatamente quem havia ensinado aquele apelido para as crianças. Seus olhos se moveram para Osiris, que agora tentava esconder um sorriso atrás da mão enluvada.
— É verdade, meu pai — disse Osiris, sua voz carregada de uma ironia que só Vikir entenderia. — A pequena Peri merece o melhor. Afinal, o "pai" dela é muito exigente com a proteção de seus tesouros. Ele é o tipo de homem que mataria um exército se um fio de cabelo dela fosse tocado, mas que prefere se esconder no anonimato como um... plebeu qualquer.
Osiris olhou diretamente para a câmera, como se pudesse ver Vikir através da transmissão.
— Talvez esse "plebeu" devesse parar de se preocupar tanto com disfarces e aceitar que o sangue Baskerville sempre acaba manchando o tapete, não importa o quanto se limpe.
— Que estranho — comentou Bianca, aproximando-se de Vikir e estreitando os olhos para a tela. — Aquele homem, Osiris, parece estar falando com alguém específico. E quem são aquelas crianças? Eu achei que os Baskerville fossem monstros devoradores de carne.
— São apenas crianças — respondeu Vikir, sua voz saindo mais fria do que o normal.
— Você não parece nem um pouco assustado, Vikir — observou Tudor, desconfiado. — Todo mundo aqui está prestes a ter um colapso nervoso só de pensar no treinamento do Patriarca Hugo, e você está aí, agindo como se estivesse assistindo a uma peça de teatro chata.
— O medo não muda o resultado — disse Vikir, saindo de perto do grupo. — Se eles vêm, eles vêm.
Enquanto caminhava em direção aos dormitórios, a transmissão continuava ao fundo. Ele podia ouvir Hugo discutindo com os alfaiates reais sobre o tom exato de rosa para o vestido de Peri, enquanto Osiris fazia piadas sobre como "certos cães de caça gostam de brincar de casinha".
A discrição que Vikir tanto prezava estava por um fio.
***
Nos dois dias seguintes, a academia entrou em estado de sítio preventivo. Os professores estavam nervosos, os alunos treinavam até a exaustão para não passarem vergonha diante dos Baskerville, e os rumores sobre a "Princesa de Ferro" — como começaram a chamar a pequena Peri — se espalharam.
Vikir tentava manter a cabeça baixa, mas era difícil quando seus amigos o seguiam para todo lado, tentando decifrar sua falta de reação.
— Admita, Vikir — disse Sancho enquanto jantavam no refeitório. — Você conhece alguém daquela família. Você é do Norte, não é? Talvez tenha trabalhado nas cavalariças deles?
— Eu já disse que sou apenas um plebeu que teve sorte com uma bolsa de estudos — mentiu Vikir, cortando seu bife com uma precisão cirúrgica que fez Bianca arquear uma sobrancelha.
— Plebeus não cortam carne como se estivessem realizando uma autópsia — notou ela. — E plebeus certamente não têm o olhar de alguém que já viu o fim do mundo e bocejou.
Antes que Vikir pudesse responder, o som de trombetas ecoou pelos portões principais. O chão tremeu rítmico, como se um exército de gigantes estivesse marchando.
— Eles chegaram — sussurrou Tudor. — Um dia antes do esperado!
A massa de estudantes correu para o pátio central. Vikir foi arrastado por seus amigos. Lá, uma visão que desafiava a lógica da Academia Colosso se desdobrava.
Uma carruagem negra, decorada com espinhos de ferro e o brasão do cão de caça, parou no centro do pátio. Atrás dela, uma legião de cavaleiros de elite em armaduras completas mantinha uma formação impecável.
A porta da carruagem se abriu. Hugo van Baskerville desceu, sua presença esmagadora fazendo os alunos da primeira fila recuarem instintivamente. Logo atrás dele, Osiris surgiu, elegante e letal.
Mas o que silenciou o pátio não foi o poder dos guerreiros. Foi o que veio depois.
Hugo estendeu a mão grande e calejada para dentro da carruagem. De lá, saltou Pomeria, vestida com um traje de montaria refinado, e logo depois, Peri.
Peri estava exatamente como Pomeria havia exigido na transmissão: um vestido rosa bufante, cheio de rendas e fitas, e uma pequena coroa de ouro cravejada de safiras que combinavam com seus olhos. Ela segurava a mão de Hugo com confiança, olhando ao redor com uma expressão de curiosidade silenciosa.
— Onde ele está? — perguntou Pomeria em voz alta, ignorando completamente os diretores da academia que faziam reverências. — Eu sei que ele está aqui!
Osiris caminhou até a frente, seus olhos varrendo a multidão de estudantes uniformizados até pararem em um ponto específico. Um sorriso predatório surgiu em seu rosto.
— A recepção é calorosa, mas estamos procurando por alguém — disse Osiris. — Um certo "estudante" que tem negligenciado suas responsabilidades familiares em favor de... estudos acadêmicos.
Os amigos de Vikir olharam para ele. Vikir permaneceu imóvel, a expressão vazia, embora internamente estivesse calculando as rotas de fuga mais rápidas.
— Vikir... — sussurrou Bianca. — Por que o herdeiro dos Baskerville está olhando para você como se quisesse te dar uma surra ou um abraço?
— Provavelmente a surra — murmurou Vikir.
Peri, cujos olhos vagavam pela multidão, subitamente parou. Ela soltou a mão de Hugo e, antes que qualquer guarda pudesse reagir, correu em direção aos estudantes.
— Peri, espere! — gritou Hugo, mas sua voz não tinha autoridade, apenas a preocupação de um avô babão.
A pequena menina passou por entre os alunos, que se afastavam como se ela fosse uma bomba prestes a explodir. Ela correu em linha reta até Vikir e abraçou suas pernas com força, escondendo o rosto em suas calças de uniforme.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Nem mesmo o vento ousava soprar.
Tudor abriu a boca, mas nenhum som saiu. Sancho deixou cair o escudo que carregava. Bianca apenas alternava o olhar entre Vikir e o Patriarca Hugo, que agora caminhava em direção a eles com passos que faziam o concreto rachar.
Vikir suspirou. Ele sabia que o disfarce tinha acabado. Ele colocou a mão gentilmente sobre a cabeça de Peri, desfazendo um pouco do penteado elaborado que Pomeria certamente levara horas para fazer.
— Você está usando muito rosa — disse Vikir em voz baixa, mas o silêncio do pátio fez com que todos ouvissem.
Peri olhou para cima e sorriu, apontando para a coroa e depois para ele, fazendo um gesto que significava "para você gostar".
— Eu vi — ele respondeu, sua voz suavizando apenas um milímetro, o suficiente para ser notado por quem o conhecia.
Hugo parou a dois metros de Vikir. O ar ao redor deles fervilhava com mana. Os alunos ao redor sentiram os joelhos fraquejarem sob a pressão, mas Vikir nem sequer piscou.
— Você — disse Hugo, a voz roncando como um trovão. — Deixou sua filha e sua sobrinha chorando por semanas porque "tinha que estudar".
— Eu estava em uma missão de infiltração, senhor — respondeu Vikir, mantendo a etiqueta, mas sem a submissão esperada de um plebeu.
— Infiltração? — Osiris se aproximou, rindo. — Você está vivendo em um dormitório comum e comendo comida de refeitório. Isso não é infiltração, Vikir, é masoquismo.
— Vikir? — Tudor finalmente recuperou a voz. — Vikir... van Baskerville? Você é um deles? O Cão de Caça que diziam ter morrido ou desaparecido?
Vikir olhou para o amigo de soslaios.
— Eu disse que era um plebeu. Não disse que era um plebeu honesto.
Hugo bufou, cruzando os braços.
— Chega de teatro. O treinamento começa amanhã. E você — Hugo apontou o dedo para Vikir —, você vai cuidar da Peri enquanto eu treino esses molengas. Ela se recusou a comer vegetais desde que você saiu. Se ela perder um grama de peso, eu vou pessoalmente destruir este campus.
— Ela não gosta de brócolis — disse Vikir, calmamente. — Você deveria ter tentado misturar com o purê, como eu ensinei.
— Você ousa dar instruções de culinária para o Patriarca? — Osiris provocou, cutucando o ombro de Vikir. — Senti saudades de sua arrogância gelada, irmãozinho.
Os estudantes da Colosso assistiam à cena em choque total. O "plebeu" mais talentoso da escola não era apenas um nobre; ele era o centro de gravidade da família mais perigosa do império. E, aparentemente, a única pessoa capaz de fazer o temido Hugo van Baskerville discutir sobre dietas infantis.
— Vikir — Bianca disse, sua voz tremendo levemente. — Se você é um Baskerville... isso significa que o treinamento de "um ano" que eles mencionaram...
Vikir olhou para seus amigos, e pela primeira vez, eles viram um lampejo de algo que parecia... piedade?
— Se eu fosse vocês — disse Vikir, pegando Peri no colo e ajustando a coroa torta na cabeça dela —, eu começaria a correr agora. Meu pai não estava brincando sobre a parte de "quebrar".
— Exatamente! — rugiu Hugo, retomando sua postura de comando. — Todos vocês! Em formação! A diversão acabou. Vikir, leve as crianças para a tenda principal. Temos muito o que discutir sobre sua "aposentadoria" temporária.
Vikir começou a caminhar, carregando Peri, enquanto Pomeria corria ao seu lado, tagarelando sobre como o vestido rosa tinha sido caro. Ele passou pelos seus amigos, que ainda pareciam estátuas de sal.
— Vejo vocês na aula de esgrima amanhã — disse Vikir por cima do ombro. — Tentem não morrer no aquecimento.
Naquele dia, a Academia Colosso aprendeu duas lições valiosas. Primeira: nunca confie na simplicidade de um plebeu talentoso. Segunda: se você vir um Baskerville carregando uma criança de vestido rosa, não se engane. Eles ainda são cães de caça, e agora, eles têm algo muito precioso para proteger.
Vikir, por sua vez, apenas olhou para Peri em seus braços e suspirou. O disfarce fora divertido enquanto durou, mas o ferro, afinal, sempre volta para a forja. E ele tinha uma coroa para polir e um império para, silenciosamente, vigiar.
