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minha história mal contada

Fandom: minha vida

Criado: 02/06/2026

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Entre Laços de Sangue e Batidas de Coração

O sol de janeiro castigava o asfalto da pequena cidade, mas para Angélica, aquele calor parecia apenas um reflexo da intensidade das mensagens que trocava em seu celular. Aos doze anos, prestes a completar treze, ela vivia o que acreditava ser o maior romance de todos os tempos. Do outro lado da tela, Arthur Silva, de dezessete anos, retribuía cada palavra com uma maturidade que a encantava e, ao mesmo tempo, criava um abismo entre eles.

Eles sabiam que o mundo não entenderia. Como uma menina do 6º ano e um rapaz prestes a terminar o ensino médio poderiam sentir algo assim? As férias foram um refúgio de bytes e madrugadas silenciosas, onde o "nós" existia apenas no espaço virtual.

— Você acha que seus pais algum dia deixariam a gente tomar um sorvete, pelo menos como amigos? — a mensagem de Arthur brilhou na tela.

Angélica suspirou, deitada em sua cama enquanto o ventilador girava inutilmente no teto.

— Meu pai me mataria, Arthur. E os seus amigos iam rir de você por estar com uma "criança".

— Você não é uma criança para mim, Angel — ele respondeu quase instantaneamente. — Mas você tem razão. O mundo é barulhento demais para o que a gente sente.

As férias terminaram como um sonho interrompido pelo despertador. O início do ano letivo trouxe consigo o peso da realidade. Angélica agora estava no 7º ano, sentindo-se um pouco mais alta, um pouco mais dona de si, mas ainda carregando o segredo daquelas conversas de verão. Arthur, no entanto, parecia ter tomado uma decisão drástica durante o recesso.

No primeiro dia de aula, ele a esperou no portão da escola. Não com o olhar de um apaixonado clandestino, mas com a postura de um guardião.

— Oi, pequena — disse Arthur, aproximando-se enquanto ela descia do carro do pai.

Angélica sentiu o coração disparar, mas notou algo diferente na expressão dele. Havia uma barreira invisível, uma armadura que ele decidira vestir.

— Arthur? O que você está fazendo aqui? — perguntou ela, a voz falhando.

— Eu conversei com a minha mãe. E com a sua, por telefone, ontem à noite — ele disse, com uma seriedade que a assustou. — Nós decidimos que, a partir de agora, eu sou seu irmão de consideração. Vou te buscar todos os dias e garantir que ninguém chegue perto de você para te fazer mal.

— Irmão? — Angélica sentiu uma pontada no peito. — Mas e tudo o que a gente conversou?

— O que a gente conversou fica guardado no verão, Angel — ele disse, baixando o tom de voz para que ninguém ao redor ouvisse. — Eu tenho dezessete anos. Você tem doze. Se eu insistir nisso, eu destruo o seu futuro e o meu. Mas se eu for seu irmão, eu posso estar perto de você todos os dias. Eu prefiro te proteger de longe do que te perder por completo.

Aquelas palavras selaram um pacto silencioso. Arthur tornou-se a sombra protetora de Angélica. Ele afastava os meninos mais velhos que tentavam brincadeiras de mau gosto, ajudava-a com os livros e estava sempre a um olhar de distância no recreio. A paixão de Angélica por ele não morreu, mas se transformou em uma admiração dolorida, uma reverência ao sacrifício que ele fazia.

Os meses passaram e o 7º ano seguiu seu curso. Angélica celebrou seus treze anos com uma pequena festa onde Arthur foi o convidado de honra, ocupando o lugar de "irmão mais velho" com uma perfeição que chegava a irritá-la. Ele levava o papel a sério demais, agindo como um escudo contra qualquer um que ousasse olhar para ela por mais de dois segundos.

No entanto, o coração de uma adolescente é um território imprevisível.

No segundo semestre, um novo elemento surgiu na rotina escolar: Gabriel, um menino de quatorze anos, aluno do 9º ano. Ele era o oposto da intensidade silenciosa de Arthur. Gabriel era barulhento, jogava futebol no pátio e tinha um sorriso que parecia iluminar o corredor escuro das salas de aula.

Angélica o viu pela primeira vez durante um treino de educação física. Ele marcou um gol e, ao comemorar, seus olhos se cruzaram com os dela na arquibancada.

— Ei, você é a irmã do Silva, né? — perguntou Gabriel, aproximando-se da grade, suado e ofegante.

— Sou... quer dizer, de consideração — respondeu Angélica, sentindo as bochechas queimarem.

— Legal. Me chamo Gabriel. Você é bem mais bonita que ele — ele piscou e voltou para o campo.

Aquelas poucas palavras foram o suficiente para plantar uma semente nova no peito de Angélica. Nos dias seguintes, ela se pegou procurando por Gabriel nos intervalos. A paixão por Arthur, que antes era um incêndio, tornou-se uma brasa morna, guardada em um lugar seguro da memória, enquanto o sentimento por Gabriel era como um fogo de artifício: explosivo e imediato.

Arthur, porém, percebeu a mudança no ar antes mesmo de Angélica admitir para si mesma.

— Quem é aquele garoto do 9º ano que fica te seguindo? — perguntou Arthur certa tarde, enquanto caminhavam para casa.

— O Gabriel? Ele não está me seguindo, Arthur. Ele é só... legal — respondeu ela, tentando parecer indiferente.

— Ele é um idiota, Angélica. Eu vi o jeito que ele olha para você. Ele não tem maturidade para lidar com alguém como você.

— E quem tem? — ela parou de andar e o encarou. — Você decidiu que seria meu irmão. Você desistiu da gente.

Arthur sentiu o golpe. Ele apertou as alças da mochila, os nós dos dedos ficando brancos.

— Eu não desisti de você. Eu escolhi te salvar — disse ele, a voz rouca. — Mas se você quer se apaixonar por um moleque que só pensa em videogame e futebol, a escolha é sua. Só não espere que eu fique sentado vendo ele te magoar.

— Você não pode mandar no meu coração, Arthur! — exclamou Angélica, sentindo as lágrimas arderem. — Você é meu "irmão", lembra? Irmãos dão conselhos, eles não proíbem.

— Eu proibo qualquer um de te fazer chorar — ele rebateu, aproximando-se um passo, a altura dele intimidando-a, mas não da forma que costumava fazer. — Especialmente um garoto que não sabe o valor que você tem.

Naquela semana, Gabriel chamou Angélica para conversar atrás do ginásio. O coração dela batia tão forte que ela achou que ele poderia ouvir.

— Então, Angel... eu queria saber se você não quer ir ao cinema no sábado. Tem um filme novo de terror — Gabriel disse, chutando uma pedrinha no chão, visivelmente nervoso.

— Eu adoraria, Gabriel, mas... — ela hesitou, olhando por cima do ombro, esperando ver a figura vigilante de Arthur a qualquer momento.

— Mas o quê? O seu "irmão"? — Gabriel riu, sem malícia. — Ele é meio assustador, confesso. Mas eu não tenho medo dele. Eu gosto de você de verdade.

Angélica sorriu. Era tão simples com Gabriel. Não havia o peso do "proibido", não havia a diferença de idade que os tornava um crime aos olhos da sociedade. Eram apenas dois adolescentes querendo ver um filme.

— Tudo bem. Eu vou falar com a minha mãe.

No sábado, porém, o plano encontrou um obstáculo chamado Arthur Silva. Ele apareceu na casa de Angélica trinta minutos antes do horário marcado para o encontro.

— O que você está fazendo aqui? — perguntou ela, já vestida com sua melhor saia jeans e uma blusa florida.

— Sua mãe me pediu para ficar aqui enquanto ela ia ao mercado — mentiu Arthur descaradamente, sentando-se no sofá e ligando a televisão. — E ela disse que você não vai a lugar nenhum com aquele menino sem um acompanhante.

— Arthur, você é um mentiroso! — Angélica gritou, furiosa. — Sai da minha casa!

— Não saio. E se o Gabriel chegar, ele vai ter que passar por mim.

A campainha tocou. O sangue de Angélica gelou. Ela correu para a porta, mas Arthur foi mais rápido. Ele abriu a porta e deu de cara com Gabriel, que segurava uma única rosa vermelha, parecendo deslocado.

— Boa tarde — disse Gabriel, tentando manter a postura. — Vim buscar a Angélica.

— Ela não vai — disse Arthur, cruzando os braços.

— Arthur, para com isso! — Angélica tentou empurrá-lo, mas ele era como uma rocha.

Gabriel olhou de Arthur para Angélica. Ele viu o conflito nos olhos dela e a fúria nos olhos do rapaz mais velho.

— Olha, cara — começou Gabriel —, eu sei que você protege ela. Eu respeito isso. Mas eu só quero levar ela para ver um filme. Eu juro que ela volta às seis em ponto.

Arthur olhou para a rosa na mão de Gabriel. Depois olhou para Angélica. Ele viu nela uma luz que ele mesmo tinha ajudado a apagar quando decidiu que eles não poderiam ficar juntos. Ele viu a sede de viver algo que fosse simples, algo que pertencesse à idade dela.

O silêncio na sala era sufocante. Arthur sentia o peso de sua promessa de proteção lutando contra o que ainda restava de seu sentimento por ela. Se ele a amava, deveria deixá-la ir? Ou protegê-la significava mantê-la em uma redoma de vidro onde só ele tinha a chave?

— Se ela chegar um minuto atrasada — disse Arthur, sua voz baixando de tom, carregada de uma ameaça real —, eu vou atrás de você na escola, no treino, onde quer que você esteja. Entendeu?

Gabriel engoliu em seco e assentiu rapidamente.

— Entendido, Silva. Com certeza.

Arthur se afastou da porta, dando passagem. Angélica passou por ele, mas parou por um segundo. Ela tocou o braço dele, um gesto rápido de agradecimento e despedida.

— Obrigada, "irmão" — ela sussurrou.

Arthur ficou parado na porta, observando os dois caminharem até o portão. Ele viu Gabriel entregar a rosa para Angélica e viu o sorriso dela, um sorriso que ele não via há meses.

Ele entrou e fechou a porta, encostando a cabeça na madeira fria. O papel de irmão de consideração era o mais difícil que ele já tivera que interpretar. Ele a amava o suficiente para ser seu escudo, mas agora precisava aprender a amá-la o suficiente para ser apenas a sombra que garante que ela possa caminhar sob o sol, mesmo que de mãos dadas com outro.

Naquela noite, Angélica voltou exatamente às seis. Ela encontrou Arthur ainda sentado no sofá, lendo um livro de física para o vestibular.

— Foi bom? — perguntou ele, sem desviar os olhos da página.

— Foi perfeito — respondeu ela, sentando-se ao lado dele. — O filme era péssimo, mas a pipoca estava boa.

— Que bom, Angel.

Eles ficaram em silêncio por um longo tempo. A televisão estava desligada, e apenas o som dos grilos lá fora preenchia o espaço.

— Arthur? — chamou ela baixinho.

— Oi.

— Você ainda me ama?

Arthur fechou o livro devagar. Ele olhou para a menina à sua frente, agora com treze anos, começando a descobrir o mundo e o amor de formas que ele não poderia proporcionar.

— Eu vou sempre te amar, Angélica. Mas de um jeito que ninguém pode estragar. Eu sou seu irmão agora, lembra? E irmãos nunca vão embora.

Angélica encostou a cabeça no ombro dele. Ela sabia que o que viveu com Arthur no verão seria uma história que guardaria para sempre, como um segredo precioso. Mas ela também sabia que o futuro estava lá fora, nos sorrisos de Gabriel e nos corredores da escola.

Arthur Silva cumpriu sua promessa. Ele se tornou a fortaleza de Angélica de 13 anos. E, embora o coração dele ainda doesse às vezes ao vê-la crescer, ele sabia que a maior prova de amor que poderia dar era justamente aquela: ser o porto seguro para onde ela sempre poderia voltar quando o mundo lá fora se tornasse complicado demais.
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