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Fora de jogo

Fandom: Futebol

Criado: 02/06/2026

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Sangue, Gramado e Salto Alto

O Allianz Parque fervia. O sol de domingo em São Paulo não dava trégua, refletindo intensamente no verde vibrante do gramado e no concreto das arquibancadas lotadas. Para qualquer torcedor comum, aquele era apenas mais um clássico decisivo entre Palmeiras e Flamengo. Para Luisa Jardim, era uma questão de honra familiar e uma batalha tática.

Sentada na área VIP, Luisa ajustou os óculos escuros de grife e conferiu o ângulo do celular. Com quase dois milhões de seguidores, a "nepo baby" favorita da torcida rubro-negra sabia exatamente como engajar seu público. O fato de ser filha do técnico do Flamengo apenas alimentava o mito de sua inteligência sagaz; ela não era apenas um rosto bonito em posts de luxo, ela entendia de esquemas táticos tanto quanto entendia de anatomia humana, dada a pressão do seu curso de Medicina.

— O posicionamento do Erick está impecável hoje — murmurou Luisa para si mesma, focando a câmera do celular no campo. — Ele está fechando os espaços como ninguém.

— Ele está tentando fechar, você quer dizer — uma voz gélida e pausada cortou o raciocínio de Luisa.

Luisa nem precisou olhar para o lado para saber quem era. O perfume importado, discreto e caro, denunciava a presença de Isabela Ferreira. Se Luisa era a luz do sol e o caos das redes sociais, Isabela era a lua cheia em uma noite de inverno: fria, calculista e absurdamente inteligente. Filha do técnico do Palmeiras, Isabela também cursava Medicina, mas sua dedicação beirava o perfeccionismo cirúrgico.

— Isabela. Que surpresa desagradável — disse Luisa, sem tirar os olhos do campo. — Achei que estivesse ocupada demais decorando o Tratado de Fisiologia para vir ver seu time perder.

— O conhecimento nunca é demais, Luisa. Diferente da sua atenção, que parece sempre dividida entre o Reels e o jogo — Isabela ajeitou a postura, o olhar fixo no camisa 27 do Palmeiras. — O Richard vai engolir o seu meio de campo. Observe.

No campo, o clima não estava menos tenso. Richard Ríos movia-se com uma elegância felina, a bola parecendo colada aos seus pés enquanto ele ditava o ritmo do Verdão. Do outro lado, Erick Pulgar era a muralha silenciosa do Flamengo, o pulmão que mantinha o time vivo, desarmando com precisão e distribuindo passes com uma calma irritante para os adversários.

Aos trinta minutos do primeiro tempo, o jogo parou após uma falta dura. Richard e Erick ficaram frente a frente. A tensão era palpável. Richard limpou o suor da testa, o olhar desafiador voltado para o chileno.

— Você não vai passar por aqui hoje, Richard — disse Pulgar, a voz baixa e firme.

— Veremos, Erick. O jogo é longo e o seu fôlego tem limite — respondeu Ríos com um sorriso de canto, aquele que Isabela conhecia bem.

Na arquibancada, as duas jovens sentiam cada faísca. Para Luisa, Erick era mais que um jogador do time de seu pai; era o amigo que a ouvia reclamar das provas de patologia enquanto dividiam um açaí após os treinos. Para Isabela, Richard era o confidente que entendia a pressão de carregar um sobrenome de peso no esporte.

— O Richard está provocando — comentou Luisa, com um sorriso sarcástico. — Típico. Quando falta técnica, sobra marra.

— Marra? — Isabela soltou uma risada curta e seca. — Chama-se confiança. Algo que o Pulgar claramente não tem, já que precisa de três zagueiros para se sentir seguro. O Richard joga sozinho se for preciso.

— Ele joga para a torcida, Isabela. O Erick joga para o time. É por isso que meu pai confia nele de olhos fechados.

— E é por isso que o meu pai vai explorar cada brecha que essa "confiança" deixar — rebateu Isabela, cruzando as pernas de forma elegante. — Aliás, soube que você tirou um B em Anatomia Cardiovascular. Que descuido, não?

Luisa sentiu o sangue subir ao rosto. Isabela sempre sabia onde cutucar.

— Foi um B+ e eu estava focada no estágio na ala de trauma. Coisas que exigem ação rápida, sabe? Diferente de você, que parece preferir a teoria dos livros porque tem medo de sangue de verdade.

— Eu não tenho medo de sangue, Luisa. Eu apenas prefiro não desperdiçá-lo — Isabela voltou o olhar para o campo no exato momento em que Richard Ríos deu um drible desconcertante em dois jogadores do Flamengo.

A torcida do Palmeiras explodiu. Richard levantou a cabeça e, por um breve segundo, seu olhar buscou a área VIP. Ele encontrou Isabela e piscou. Ela apenas assentiu com a cabeça, um gesto quase imperceptível de aprovação.

Luisa bufou, pegando o celular para gravar um story rápido, disfarçando a irritação.

— Vejam só esse exibicionismo — disse ela para a câmera, mas num tom que Isabela ouvisse. — Futebol é gol, não é dança de salão.

O intervalo chegou com o placar em 0 a 0. O clima entre as duas era de guerra fria. Elas se dirigiram ao lounge VIP para buscar água, caminhando como se estivessem em uma passarela, ignorando os olhares de admiração que recebiam.

— Você sabe que o Richard não vai aguentar a pressão no segundo tempo — disse Luisa, parando em frente ao espelho para retocar o batom. — O Erick vai começar a subir mais. Meu pai deu a instrução.

— Seu pai dá instruções, o meu dá xeque-mante — respondeu Isabela, lavando as mãos com uma calma exasperante. — O Richard está guardando energia. Ele sabe exatamente onde o Pulgar cansa. No flanco esquerdo, onde você costuma se perder quando tenta explicar um eletrocardiograma.

— Você se acha tão superior, Isabela. Mas no fundo, morre de inveja porque eu consigo viver além dos livros.

— Inveja? — Isabela se aproximou, ficando a poucos centímetros de Luisa. — Eu sinto pena. Você é um subproduto da fama do seu pai. Eu sou a sucessora da mente do meu.

O segundo tempo começou com uma intensidade dobrada. O jogo ficou físico, ríspido. Aos 15 minutos, Erick Pulgar fez uma interceptação limpa, mas Richard Ríos, na tentativa de recuperar, acabou atingindo o chileno. O juiz não marcou nada, e o jogo seguiu sob os protestos da torcida carioca.

Luisa estava de pé, as unhas cravadas no parapeito.

— Isso foi falta! Ele quase quebrou o Erick! — gritou ela, esquecendo por um momento a pose de influencer.

— Foi ombro com ombro, deixe de ser dramática — disse Isabela, embora seus olhos estivessem semicerrados, analisando a queda de Richard logo em seguida.

Aos 30 minutos, o momento decisivo. Pulgar recuperou a bola no meio de campo e viu a brecha. Ele avançou, ignorando a marcação. Richard Ríos veio em sua direção como um trem bala. O choque foi inevitável. Ambos caíram, mas Pulgar conseguiu soltar a bola para o atacante, que chutou rasteiro. A bola bateu na trave e saiu.

O estádio deu um suspiro coletivo de "quase". No chão, Richard e Erick se encaravam. Pulgar estendeu a mão para o colombiano.

— Boa jogada — disse o chileno, ofegante.

Richard aceitou a mão, puxando-se para cima.

— Você é duro na queda, Pulgar. Eu te dou isso.

Nas arquibancadas, Luisa e Isabela se olharam. Havia um respeito mútuo e silencioso entre os jogadores que as duas se recusavam a admitir entre si.

— O Erick é o melhor volante em atividade nesse país — afirmou Luisa, a voz carregada de orgulho.

— O Richard é o jogador mais completo que já pisou nesse gramado nesta temporada — retrucou Isabela. — Mas acho que podemos concordar em uma coisa.

Luisa arqueou a sobrancelha.

— O quê?

— Que essa prova de Farmacologia na terça-feira vai ser um desastre se continuarmos perdendo neurônios com esse jogo — disse Isabela, um raríssimo esboço de sorriso surgindo em seus lábios gélidos.

Luisa riu, uma risada genuína que surpreendeu a si mesma.

— Pela primeira vez, você está certa, Ferreira. Mas não se acostume. O Flamengo ainda vai marcar.

— Sonhar é de graça, Jardim. Mas a realidade é verde.

O jogo terminou em um empate sem gols, um resultado que deixava ambos os pais vivos na disputa pelo título, mas que mantinha a chama da rivalidade acesa entre as filhas. Na saída, Richard e Erick trocaram camisas no centro do campo, um gesto de cavalheirismo que Luisa e Isabela observaram de longe.

— Ele fica bem de verde — comentou Luisa, observando Erick.

— O Richard fica bem em qualquer cor — respondeu Isabela, já pegando seu tablet para revisar as anotações da aula. — Vamos? Tenho um artigo sobre neurocirurgia para terminar.

— Vá em frente, CDF. Eu ainda tenho que postar o resumo do jogo e explicar para os meus seguidores por que o seu time deu sorte hoje.

Isabela parou e olhou por cima do ombro.

— Sorte é o que você vai precisar na prova de terça, Luisa. Porque na Medicina, não existe empate.

Luisa sorriu, vendo a rival se afastar. O clássico havia acabado no campo, mas nos corredores da faculdade e na vida, a batalha de mentes entre a luz e o gelo estava apenas começando. Ela pegou o celular e começou a digitar: "O jogo de hoje provou que a inteligência tática supera a força bruta...".

Enquanto escrevia, ela sabia que Isabela estaria lendo cada palavra, pronta para dissecar seu argumento com a precisão de um bisturi. E, no fundo, Luisa não queria que fosse de outra forma.
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