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Fandom: miraculous brasil
Criado: 03/06/2026
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O Uivo do Cerrado
A tarde em Belo Horizonte estava abafada, daquele jeito que só quem vive entre montanhas entende. Guilherme caminhava pelo Parque Municipal, chutando algumas pedrinhas no caminho e sentindo o suor escorrer pela nuca. Aos dezesseis anos, sua maior preocupação deveria ser a prova de matemática ou o fato de ser "legal demais" a ponto de as pessoas abusarem da sua boa vontade, mas algo no ar parecia diferente naquele dia.
Ele parou perto de uma área mais densa de vegetação para amarrar o cadarço. Guilherme era o tipo de garoto que pedia desculpas até para o vento se batesse nele. Sua empatia era sua maior virtude, mas também sua maior fraqueza; ele era facilmente levado pelas ideias dos outros, sempre querendo agradar, sempre tentando ser o elo de paz do grupo.
— Ei, moleque! — Uma voz rouca, mas suave, ecoou por trás de uma mangueira centenária.
Guilherme deu um pulo, quase tropeçando nos próprios pés.
— Ai, meu Deus! Desculpa, eu não queria invadir seu espaço, eu só estava... — Ele começou a gesticular freneticamente, com as mãos espalmadas.
À sombra da árvore, um senhor de aparência muito antiga, vestindo uma camisa de linho bordada com padrões que lembravam as tramas indígenas, sorria para ele. O homem segurava uma pequena caixa de madeira escura, esculpida com detalhes que pareciam se mexer sob a luz do sol.
— Calma, Guilherme. Você não fez nada de errado — disse o senhor, aproximando-se com passos leves que não faziam barulho nas folhas secas.
— O senhor sabe meu nome? — Guilherme inclinou a cabeça, confuso. — A gente se conhece de algum lugar? Da feira? Da igreja da minha tia?
O velho soltou uma risada curta e estendeu a caixa.
— O Brasil é um lugar de muitas cores e muitos segredos. Às vezes, as joias mais preciosas não estão nas minas, mas nos corações daqueles que sentem o mundo com intensidade. Você tem um coração bom, garoto. Mas precisa aprender a uivar quando o mundo tentar te calar.
Antes que Guilherme pudesse formular uma pergunta sobre o que diabos aquilo significava, o homem depositou a caixa nas mãos dele e, com uma agilidade impossível para sua idade aparente, desapareceu entre os arbustos.
— Ei! Senhor! O senhor esqueceu sua... — Guilherme olhou em volta, mas estava sozinho. — Ótimo, agora eu sou cúmplice de algum mistério arqueológico.
Curioso e com o coração batendo na garganta, ele abriu a caixa. Dentro, repousava um bracelete de couro trançado com uma pedra de cor âmbar no centro, que brilhava como os olhos de um animal sob o luar. Assim que seus dedos tocaram o objeto, uma explosão de luz laranja e marrom inundou o ambiente.
Guilherme caiu sentado, protegendo os olhos. Quando a luz diminuiu, uma pequena criatura flutuava à sua frente. Tinha orelhas grandes, pernas longas e finas, e uma pelagem avermelhada com "meias" pretas nas patas. Parecia um lobo-guará em miniatura, mas com olhos grandes e expressivos.
— Salve, salve! — exclamou a criaturinha, dando uma pirueta no ar. — Finalmente um ar fresco! Aquele lugar era apertado, viu?
Guilherme arregalou os olhos, a boca aberta em um "O" perfeito.
— Você... você é um rato gigante? Um Pokémon? — Ele recuou, mas a curiosidade foi maior que o medo. — Espera, você falou?
— Rato não, respeito é bom e eu gosto! — O pequeno ser cruzou os bracinhos. — Eu sou Guará, o Kwami da Preservação e da Intuição. E você, Guilherme, foi escolhido para portar o Miraculous do Lobo-Guará.
— Miraculous? Tipo aqueles heróis de Paris? A joaninha e o gato? — Guilherme se levantou, limpando a calça. — Mas eu não sou herói, Guará. Eu sou o cara que as pessoas pedem para segurar a mochila e esquecem de voltar para buscar. Eu sou manipulável, minha mãe sempre diz isso.
Guará voou até ficar na altura do nariz de Guilherme, encarando-o com seriedade.
— Você não é manipulável, Guilherme. Você é empático. Você sente o que os outros sentem, e isso é um poder, não uma falha. O lobo-guará não caça em matilha como os outros lobos; ele é um andarilho solitário que conhece cada palmo do seu território. Ele protege o cerrado em silêncio. O Brasil precisa de proteção, e as energias negativas estão começando a despertar por aqui também.
Guilherme olhou para o bracelete. O peso da responsabilidade parecia esmagador, mas havia algo na voz de Guará que o fazia se sentir, pela primeira vez, importante.
— E o que eu tenho que fazer? — perguntou o jovem, com a voz ainda trêmula.
— É simples. Quando o perigo surgir, você diz: "Guará, as patas no chão!". Para usar seu poder especial, o "Uivo Guia", você precisa se concentrar na verdade por trás das mentiras. Mas cuidado, você só tem alguns minutos antes de se transformar de volta.
De repente, um estrondo vindo da avenida principal do parque interrompeu a explicação. Gritos de pânico ecoaram. Uma nuvem de poeira subiu perto da fonte, e uma figura gigantesca, que parecia feita de concreto e lixo urbano, começou a arremessar bancos de praça para longe.
— É a sua deixa, Gui! — Guará incentivou, apontando para o caos.
Guilherme respirou fundo. Ele sentiu o medo, mas sentiu também uma vontade súbita de não deixar ninguém se machucar. Ele colocou o bracelete no pulso.
— Tá legal... Eu espero não me arrepender disso. Guará, as patas no chão!
A transformação foi uma sensação eletrizante. O couro do bracelete se expandiu, cobrindo seu corpo com um traje de tecido tecnológico e resistente, em tons de laranja terroso com detalhes em preto nas botas e luvas. Uma máscara laranja cobriu seus olhos, e ele sentiu orelhas pontiagudas surgirem no topo da cabeça, captando sons a quilômetros de distância. Em suas costas, um bastão longo que lembrava um cajado de pastor, mas feito de um material metálico escuro.
— Caramba... — Guilherme olhou para as próprias mãos. — Eu tô... eu tô muito maneiro!
Ele correu em direção ao monstro. Para sua surpresa, seus passos eram leves e ele conseguia saltar distâncias incríveis. Ao chegar à fonte, viu que o monstro era, na verdade, um homem transformado — um gari que parecia furioso com a sujeira deixada pelos frequentadores do parque.
— Ninguém respeita o meu trabalho! — gritava o vilão, cujas mãos eram grandes blocos de cimento. — Se querem lixo, eu vou transformar tudo em lixo!
— Ei, amigão! — Guilherme gritou, pousando em cima de um poste de luz com um equilíbrio que ele nunca teve na vida. — Vamos conversar? Eu sei que o pessoal é meio sem noção com o lixo, mas destruir o parque não vai ajudar na limpeza, né?
O monstro rugiu e lançou um pedaço de asfalto na direção dele. Guilherme saltou, girando o bastão para se defender.
— Ok, a diplomacia falhou — murmurou o herói. — Vamos para o plano B.
Ele começou a lutar, usando sua agilidade para desviar dos golpes pesados. No entanto, sua natureza empática o fazia hesitar. Ele via a dor nos olhos do homem sob a forma de monstro. Ele não queria machucá-lo.
— Ele está sendo controlado, Guilherme! — A voz de Guará ecoou em sua mente. — Use o Uivo!
Guilherme recuou, fincou o bastão no chão e fechou os olhos. Ele buscou o centro de sua calma, ignorando o barulho das pessoas correndo.
— Uivo Guia! — exclamou ele.
Um som poderoso e melódico saiu de sua garganta, uma onda sonora invisível que se propagou pelo ar em tons de âmbar. O som não feriu os ouvidos de ninguém, mas quando atingiu o monstro, a ilusão de poder começou a fraquejar. Guilherme conseguiu "ver" o objeto que guardava a energia sombria: um apito de metal pendurado no pescoço do homem.
— Ali! — Guilherme avançou com uma velocidade estonteante, passando por baixo das pernas de concreto do gigante e, com um movimento preciso do bastão, arrebentou o cordão do apito.
Assim que o objeto tocou o chão e se quebrou, uma fumaça escura se dissipou e o gigante voltou a ser apenas um homem cansado, sentado no chão e confuso.
Guilherme pousou suavemente ao lado dele.
— O senhor está bem? — perguntou, estendendo a mão.
O homem olhou para ele, admirado.
— Quem... quem é você?
Guilherme sorriu por trás da máscara. Ele sentia uma confiança que nunca havia experimentado antes. Ele não era mais apenas o garoto manipulável; ele era o guardião daquele território.
— Pode me chamar de Lobo-Guará — respondeu ele, ouvindo o bip do seu bracelete avisando que a transformação estava acabando. — E, por favor, não esqueça de jogar o lixo na lixeira da próxima vez. Ajuda muito.
Com um salto acrobático, ele desapareceu entre as árvores, voltando para o local escondido onde tudo começara. Ao se destransformar, Guará caiu exausto em suas mãos.
— Você foi bem, garoto. Muito bem — disse o Kwami, mastigando um pedaço de goiaba que Guilherme milagrosamente tinha na mochila.
— Eu consegui, Guará. Eu realmente ajudei alguém — Guilherme sentou-se no chão, sentindo o peso do cansaço, mas com um sorriso enorme no rosto. — Mas agora, como eu explico para a minha mãe que eu perdi o horário do jantar porque virei um lobo místico?
Guará apenas riu.
— Bem-vindo à vida de herói, Guilherme. A parte dos monstros é a mais fácil. Difícil é o resto.
Guilherme olhou para o bracelete no pulso, agora um simples acessório de couro. Ele sabia que sua vida tinha mudado para sempre. O cerrado tinha um novo protetor, e ele, finalmente, tinha encontrado sua própria voz.
