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Fandom: miraculous brasil

Criado: 03/06/2026

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O Uivo do Cerrado no Asfalto

O sol de fim de tarde no Rio de Janeiro não pedia licença; ele simplesmente incendiava o asfalto e fazia a umidade grudar na pele como uma segunda camiseta. Guilherme, no entanto, parecia alheio ao calor enquanto equilibrava o celular no ombro e tentava, sem muito sucesso, ajeitar a alça da mochila que insistia em escorregar.

— Eu tô te falando, Juju! — exclamou ele, rindo enquanto desviava de um grupo de turistas no calçadão. — Se o professor de história perguntar de novo sobre o Tratado de Tordesilhas, eu vou responder que a única divisão que eu conheço é a do meu lanche com você. E olha que eu sou generoso, hein?

A risada do outro lado da linha era o combustível de Guilherme. Ele era assim: o coração do grupo, o mestre das piadas de tiozão e o tipo de garoto que pedia desculpas até para o poste se esbarrasse nele. Sua empatia era sua maior virtude, mas também seu calcanhar de Aquiles; bastava um olhar triste para que Guilherme entregasse seu último real ou fizesse um favor que o deixaria sobrecarregado.

— Você é muito bobo, Gui — respondeu Julia, entre risos. — Só não esquece que a gente tem que entregar o trabalho amanhã. Passa lá em casa?

— Passo sim, chefia. Só vou dar uma volta na Praça Seca pra ver se encontro aquele fone que eu perdi. Até logo!

Guilherme desligou o celular e suspirou, sentindo o peso da mochila. Ele caminhou em direção a uma área mais arborizada, onde o som do trânsito era abafado pelo canto dos pássaros e pelo balançar das folhas. Foi quando algo chamou sua atenção.

Perto de um banco de pedra antigo, um senhor de aparência frágil, vestindo uma camisa de linho excessivamente engomada para o calor carioca, tentava alcançar uma bengala que havia escorregado para debaixo do assento. O homem parecia exausto, e ninguém ao redor parecia notar sua dificuldade.

O instinto de Guilherme disparou antes mesmo de seu cérebro processar.

— Opa, deixa que eu pego pro senhor! — disse ele, abaixando-se com agilidade.

Ele resgatou a bengala, que tinha um entalhe curioso na ponta — algo que lembrava uma pata de animal —, e a entregou com um sorriso largo, revelando os dentes brancos que contrastavam lindamente com sua pele retinta.

— O senhor está bem? Quer que eu chame alguém ou pegue uma água? — perguntou Guilherme, genuinamente preocupado.

O idoso o observou com olhos que pareciam carregar séculos de histórias. Eram olhos astutos, que analisavam a alma de Guilherme.

— Você tem um coração muito aberto, meu jovem — disse o senhor, com uma voz rouca, mas firme. — Em um mundo de lobos, ser bom é um ato de coragem. Ou de loucura.

Guilherme coçou a nuca, um pouco sem jeito.

— Ah, sabe como é, né? Minha vó sempre diz que onde come um, comem dois, e onde um ajuda, todo mundo sai ganhando. O senhor mora por aqui?

— Eu moro onde a necessidade me chama — respondeu o homem com um sorriso enigmático. — Mas hoje, acho que encontrei o que procurava. Tome isto.

Ele estendeu a mão, revelando uma pequena caixa de madeira escura, adornada com entalhes de flores de ipê. Antes que Guilherme pudesse protestar ou perguntar o que era, o senhor colocou a caixa na palma da mão do garoto.

— Um presente por sua gentileza. Mas cuidado: grandes pernas trazem grandes responsabilidades.

Guilherme piscou, confuso com a frase que parecia uma versão distorcida do Homem-Aranha.

— Espera, eu não posso aceitar... — começou ele, mas ao levantar o olhar, o banco estava vazio.

O senhor havia sumido. Não havia rastro dele entre as árvores ou no caminho de pedra. O coração de Guilherme acelerou. Ele olhou para a caixa em sua mão, sentindo um calor estranho emanar da madeira.

— Credo, será que eu tô num episódio de Linha Direta? — murmurou para si mesmo, sentindo um arrepio.

Curioso e um pouco trêmulo, ele se sentou no banco e abriu a caixa.

Um brilho alaranjado, intenso como o pôr do sol no cerrado, explodiu de dentro do objeto. Guilherme protegeu os olhos com o braço, soltando um grito abafado. Quando a luz diminuiu, uma pequena criatura flutuava diante de seu rosto.

Era um bichinho de orelhas longas e pretas, com uma pelagem laranja vibrante e patas que pareciam vestir meias escuras. Tinha uma cauda felpuda e olhos grandes e expressivos.

— Mas que... que tipo de hamster voador é você?! — exclamou Guilherme, caindo para trás e batendo as costas no encosto do banco.

— Hamster? Que falta de modos! — a criatura falou, sua voz era aguda e cheia de energia. — Eu sou Guará, o kwami da Intuição e da Persistência! E você, pelo que vejo, é o meu novo portador. Prazer, sou o espírito do Lobo Guará.

Guilherme ficou paralisado, os olhos arregalados.

— Você fala. Você voa. E você é um lobo de bolso. — Guilherme respirou fundo, tentando processar. — Eu devo ter batido a cabeça naquele treino de basquete. É isso. Concussão.

— Nada de concussão, garoto! — Guará voou em círculos ao redor da cabeça de Guilherme. — O Brasil está em perigo. Energias negativas estão se acumulando nas sombras das cidades, e os Miraculous brasileiros precisam de guardiões. O Mestre viu em você algo especial.

— Especial? Eu? — Guilherme riu, uma risada nervosa. — Cara, eu sou o cara que se perde dentro do shopping. Eu sou manipulável, qualquer um me convence a comprar um bilhete de loteria premiado falso! Eu não sou herói.

— Você é empático — disse Guará, pousando suavemente no ombro de Guilherme. — Você sente o que os outros sentem. E o lobo guará não é um caçador agressivo, ele é um observador, um andarilho que conhece o terreno. Você tem as pernas longas para correr onde os outros cansam e o coração grande para proteger quem não pode se defender.

Guilherme olhou para o pequeno ser. Dentro da caixa, havia agora um bracelete feito de contas de madeira e uma pedra central que brilhava em âmbar.

— E o que eu tenho que fazer? — perguntou Guilherme, a curiosidade começando a vencer o medo.

— Coloque o bracelete e diga as palavras: "Guará, as patas no chão!" — explicou o kwami. — Isso vai te transformar. Você terá agilidade sobre-humana, sentidos aguçados e o poder do "Uivo Rastreador", que permite localizar qualquer injustiça ou perigo num raio de quilômetros.

Guilherme pegou o bracelete. Ele sentiu uma conexão instantânea, como se aquela peça sempre devesse estar ali. Ele o prendeu no pulso.

— Isso é muito louco... — sussurrou ele.

De repente, um estrondo ecoou vindo da direção da avenida principal. Gritos de pânico cortaram o ar. Uma fumaça roxa e densa começou a subir acima dos prédios.

— Parece que o seu primeiro teste chegou mais cedo do que o esperado — disse Guará, ficando sério. — Alguém foi infectado por uma sombra de mágoa. Você está pronto?

Guilherme olhou para as próprias mãos, depois para a direção do barulho. Ele pensou em Julia, em sua avó, nas pessoas que estavam correndo perigo agora. Sua hesitação evaporou, substituída por aquela vontade inata de ajudar que sempre o definira.

— Acho que sim. Vamos lá.

Ele se levantou, sentindo uma energia elétrica percorrer sua espinha.

— Guará, as patas no chão!

A transformação foi um borrão de luz laranja e sombras pretas. Guilherme sentiu suas roupas serem substituídas por um traje de tecido tecnológico, leve e resistente, nas cores do lobo guará. Uma máscara laranja cobriu seus olhos, e ele sentiu o peso de um bastão acoplado às suas costas, que lembrava um cajado de caminhada, mas feito de um material indestrutível. Suas botas eram pretas e longas, dando-lhe uma estatura ainda mais imponente.

Ele olhou para suas mãos, agora cobertas por luvas pretas que terminavam em pontas reforçadas.

— Caraca... eu tô muito estiloso! — ele disse, sua voz agora soando um pouco mais profunda, mas ainda carregando seu tom brincalhão.

Ele deu um salto experimental e, para sua surpresa, atingiu o topo de um muro de três metros com a facilidade de quem sobe um degrau. Seus sentidos estavam em alerta máximo; ele conseguia ouvir o bater de asas de um pássaro a metros de distância e o cheiro de queimado vindo da confusão.

— Certo, lobinho — disse para si mesmo, ajustando a máscara. — Hora de ver se esse uivo realmente faz barulho.

Com um impulso potente das pernas longas, Guilherme saltou em direção aos telhados, cruzando o céu do Rio como um vulto alaranjado. O Lobo Guará havia despertado, e a cidade maravilhosa nunca mais seria a mesma.
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