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Entre nós.
Fandom: Flowers (TV serie) e Original Character
Criado: 03/06/2026
Tags
RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoPsicológicoHistória DomésticaEstudo de PersonagemAbuso de ÁlcoolCiúmes
O Silêncio Tem Gosto de Genebra e Chuva
A chuva batia no teto de zinco da casa de campo com uma insistência metálica, um som que, em outros tempos, Gabriele consideraria romântico. Agora, sentada à mesa de carvalho maciço, cercada por pilhas de processos e papéis timbrados, o som parecia apenas uma contagem regressiva para algo que ela não sabia explicar. O cheiro de papel velho misturava-se ao perfume caro de sândalo que ela usava, mas havia uma nota dissonante: o aroma acre do gim que ela mantinha em um copo de cristal, disfarçado entre as pastas de trabalho.
Do outro lado da sala, Hylda estava jogada em uma poltrona de couro surrada. Os óculos de leitura na ponta do nariz, um livro de Heidegger aberto no colo e uma caneta entre os lábios. O cabelo grisalho, cortado bem curto, estava bagunçado, e as tatuagens nos braços — memórias de uma vida que ela mal reconhecia mais — pareciam mais escuras sob a luz fraca do abajur.
— Você está bebendo de novo, Gabriele. — A voz de Hylda saiu rouca, sem tirar os olhos da página. Não era uma pergunta.
Gabriele não se moveu. Apenas ajeitou a mecha de cabelo castanho que caía sobre o rosto, escondendo os fios grisalhos que ela tanto detestava.
— É apenas um tônico, Hylda. Para a digestão.
Hylda soltou uma risada seca, fechando o livro com um baque. Ela se levantou, a postura rígida de quem carregava o peso de ser a "rocha" da relação por tempo demais.
— Um tônico que cheira a desespero e zimbro. — Hylda caminhou até a mesa, parando à frente da esposa. — Estamos aqui para descansar. Lorenzo nos emprestou este lugar para que pudéssemos nos reencontrar, não para você se enterrar em papelada e álcool.
— Lorenzo nos emprestou este lugar porque ele é um idiota sentimental que acha que o isolamento cura tudo — rebateu Gabriele, finalmente levantando o olhar. Seus olhos estavam nublados, uma frieza elegante que sempre fora sua armadura. — E eu tenho prazos. A Clara me enviou três e-mails hoje sobre o caso dos herdeiros. Ela está perdida sem mim.
Hylda bufou, cruzando os braços. A menção à estagiária sempre a deixava com um gosto amargo na boca.
— A Clara. Claro. A menina que olha para você como se você fosse a reencarnação da Virgem Maria, mas com um guarda-roupa melhor. Ela não está perdida, Gabriele. Ela só quer uma desculpa para ouvir sua voz.
— Deixe de ser infantil, Hylda. Ela é dedicada. — Gabriele sentiu um calafrio percorrer a espinha. A menção à "Virgem Maria" tocou em um nervo exposto. Ultimamente, os velhos pensamentos estavam voltando. O peso do pecado, a sensação de que cada gole de gim era uma afronta divina, de que seu corpo era um templo profanado.
Hylda percebeu a mudança na postura da esposa. A agressividade que vinha cultivando nos últimos meses — uma defesa contra a rejeição constante — suavizou-se por um segundo, mas logo voltou.
— Você está fazendo de novo. Se fechando. — Hylda se inclinou sobre a mesa. — Há quanto tempo não fazemos sexo, Gabriele? Dois meses? Três?
— Eu não estou com cabeça para isso. O mundo está desmoronando e você quer falar de... de carne.
— Eu quero falar de nós! — Hylda bateu a mão na mesa, fazendo o copo de gim tremer. — Eu sou sua esposa, não sua colega de quarto. Eu conheço cada centímetro desse seu corpo. Conheço a cicatriz pequena que você tem atrás da orelha, sei que você odeia quando o lençol não está esticado, sei que você reza escondida no banheiro quando acha que eu não estou ouvindo. Por que você está se escondendo de mim?
Gabriele levantou-se bruscamente, a elegância vacilando por um instante.
— Porque talvez eu sinta que estou sendo punida! — gritou Gabriele, a voz embargada. — Você não entende, Hylda. Você viveu sua vida de excessos e agora é uma professora de filosofia que acha que tem todas as respostas. Mas eu... eu sinto que há algo errado. Que Deus está me olhando e que esse nosso... esse nosso estilo de vida...
— Nosso estilo de vida? — Hylda riu, uma risada amarga. — Você quer dizer o fato de sermos casadas? Gabriele, estamos em 2024. O único que está te julgando é esse fantasma religioso que você insiste em ressuscitar.
O celular de Hylda vibrou sobre a poltrona, cortando a tensão. Ela caminhou até lá e revirou os olhos ao ver a tela.
— É a Isabela. De novo. — Hylda suspirou. — Perguntando se eu terminei de corrigir o ensaio dela sobre o imperativo categórico. Essa menina tem medo de você, sabia? Ela me mandou uma mensagem ontem dizendo que sonhou que você a transformava em uma estátua de sal.
Gabriele deu um sorriso pálido, a primeira sombra de humor em dias.
— Ela tem bom gosto para pesadelos.
— Pelo menos ela me dá atenção — murmurou Hylda, voltando a olhar para a esposa. — Diferente de você, que prefere conversar com o fundo de uma garrafa ou com uma estagiária ruiva de vinte e poucos anos.
— Você está com ciúmes da Clara? Isso é patético.
— O que é patético é eu ter que implorar por um beijo que não pareça um cumprimento de negócios.
O silêncio voltou a reinar, preenchido apenas pelo som da chuva. Hylda deu um passo à frente, reduzindo a distância entre elas. Ela estendeu a mão e tocou o rosto de Gabriele, o polegar acariciando a mandíbula tensa.
— Eu sinto falta de você, Gabi. Da Gabi que ria das piadas idiotas do Lorenzo até perder o fôlego. Da Gabi que me beijava como se o mundo fosse acabar no minuto seguinte.
Gabriele fechou os olhos, lutando contra o desejo de se entregar àquele toque. O conflito interno era uma tempestade pior do que a que ocorria lá fora. Ela se sentia suja, culpada, e ao mesmo tempo, desesperadamente necessitada do calor de Hylda.
— Eu estou cansada, Hylda. Realmente cansada.
— Eu sei. — Hylda aproximou o rosto, o hálito quente contra a pele de Gabriele. — Mas você não precisa carregar o mundo nas costas. Deixe os processos para amanhã. Deixe a Clara se virar. E, por favor, deixe Deus de fora do nosso quarto por uma noite.
Gabriele abriu os olhos. A intensidade no olhar de Hylda era quase insuportável. Era uma mistura de desejo, raiva e uma lealdade inabalável que Gabriele sentia que não merecia.
— Você é impossível — sussurrou Gabriele.
— E você é teimosa. — Hylda sorriu levemente, a mão descendo para a nuca de Gabriele. — Mas você ainda é a mulher mais bonita que eu já vi. Mesmo com esse mau humor de madrasta de conto de fadas.
Nesse momento, o som de um carro se aproximando e pneus freando bruscamente no cascalho interrompeu o momento. Uma buzina escandalosa soou três vezes.
— Não pode ser... — Gabriele suspirou, reconhecendo o ritmo da buzina.
A porta da frente se abriu com um estrondo, e Lorenzo entrou, carregando um guarda-chuva quebrado e uma caixa de vinhos, completamente encharcado.
— Cheguei, minhas sáficas favoritas! — Lorenzo exclamou, sacudindo a água como um cachorro. — A cidade estava um tédio e eu decidi que vocês precisavam de um pouco de alegria masculina para iluminar esse retiro de freiras.
Hylda soltou Gabriele e caminhou até o amigo, pegando a caixa de vinho da mão dele.
— Lorenzo, seu imbecil, nós viemos para cá justamente para fugir de pessoas como você.
— Mentira, Hylda. Você me ama. — Lorenzo abraçou Hylda, molhando a camiseta dela. — E Gabriele! Você parece que saiu de um filme noir. Por que está com essa cara de quem acabou de condenar alguém à guilhotina?
— Eu estava tentando trabalhar, Lorenzo — disse Gabriele, recompondo a postura e cruzando os braços.
— Trabalhar? No chalé do prazer? — Lorenzo riu, servindo-se de um copo de água (que ele logo substituiu por vinho). — Eu vi a Clara hoje no escritório antes de sair. Ela me perguntou cinco vezes se você estava bem, Gabriele. Acho que ela tem um altar para você no armário dela.
Hylda lançou um olhar de "eu te avisei" para Gabriele.
— Viu? Até o Lorenzo percebeu.
— Ah, não comecem — Lorenzo disse, sentando-se na mesa de trabalho de Gabriele, desarrumando os papéis. — Eu vim para animar as coisas. Isabela também não para de me mandar mensagens, Hylda. Ela quer saber se você "está em segurança com a fera". A fera, no caso, é você, Gabriele.
Gabriele sentou-se novamente, sentindo a dor de cabeça pulsar.
— Eu vou para o quarto.
— Ah, não vai não! — Hylda segurou o braço dela. — Lorenzo trouxe vinho. Vamos beber, vamos rir da desgraça alheia e você vai esquecer essa sua crise existencial por algumas horas.
— Eu não estou em crise — mentiu Gabriele, mas a mão de Hylda em seu braço era um âncora que ela não queria soltar.
— Está sim — disse Lorenzo, sério por um breve segundo. — Você está com aquele olhar de quando acha que vai ser arrebatada a qualquer momento. Relaxa, Gabi. Se o céu existir, eles não vão te levar agora. Você é sofisticada demais para as nuvens.
Gabriele olhou para os dois. Hylda, com sua presença bruta e protetora, e Lorenzo, com sua leveza irritante. Ela sentiu o peso no peito diminuir um pouco, a psicose religiosa recuando para as sombras, pelo menos por enquanto.
— Só um copo — cedeu Gabriele.
— Essa é a minha garota! — Hylda exclamou, servindo o vinho.
A noite avançou entre risadas e piadas ácidas. Lorenzo contava fofocas do escritório, enquanto Hylda zombava das crises existenciais de seus alunos. Por um momento, a tensão entre o casal pareceu se dissolver na embriaguez leve e na camaradagem.
No entanto, quando Lorenzo finalmente desmaiou no sofá da sala, o silêncio retornou à casa, trazendo consigo a eletricidade não resolvida entre as duas mulheres.
Hylda ajudou Gabriele a subir as escadas. No quarto, a luz da lua filtrava-se pelas janelas, iluminando a chuva que ainda caía. Gabriele sentou-se na beira da cama, retirando os sapatos caros com movimentos lentos.
Hylda parou atrás dela, as mãos repousando nos ombros de Gabriele.
— Você está melhor? — perguntou em voz baixa.
— Um pouco. Lorenzo tem um jeito de tornar tudo trivial.
— Ele é um idiota, mas é o nosso idiota. — Hylda começou a massagear os ombros tensos de Gabriele. — Mas ele tem razão sobre uma coisa. Você precisa parar de se punir por ser feliz.
Gabriele inclinou a cabeça para trás, encostando-a no abdômen de Hylda.
— E se eu não souber como ser feliz sem sentir que devo algo em troca?
Hylda contornou a cama e ajoelhou-se entre as pernas de Gabriele. Ela segurou as mãos da esposa, as mãos que tantas vezes se apertavam em oração ou em torno de um copo.
— Você não deve nada a ninguém, Gabriele. Nem a Deus, nem à Clara, nem aos seus pais que já se foram. Você só deve a si mesma a chance de sentir algo que não seja culpa.
Hylda aproximou-se, beijando o pescoço de Gabriele, bem onde o pulso batia acelerado. O cheiro de Gabriele — uma mistura de sândalo, vinho e aquele toque de gim — era inebriante para ela.
— Sinta isso — sussurrou Hylda contra a pele dela. — Isso é real. O resto é barulho.
Gabriele soltou um suspiro trêmulo. A mão de Hylda subiu pela coxa de Gabriele, por baixo da saia de seda. O toque era firme, possessivo, mas carregado de uma ternura que só quem compartilhava anos de intimidade poderia ter.
— Hylda... — Gabriele tentou protestar, mas a voz saiu fraca.
— Shhh. Não pense. Só sinta.
Pela primeira vez em meses, Gabriele permitiu que a barreira caísse. Ela puxou Hylda para um beijo desesperado, um beijo que carregava toda a fome, a frustração e o amor que as palavras não conseguiam mais expressar. Era uma reconciliação silenciosa, um pacto selado na penumbra do quarto de campo.
Lá fora, a tempestade continuava, mas dentro daquele quarto, as sombras religiosas e as cobranças do mundo pareciam, finalmente, ter perdido a força diante da realidade do toque de quem realmente a conhecia. E Hylda, apesar de toda a sua agressividade defensiva, cuidou de Gabriele com uma delicadeza que dizia, sem precisar de uma única palavra de filosofia: "Eu estou aqui, e eu não vou deixar você se perder".
Do outro lado da sala, Hylda estava jogada em uma poltrona de couro surrada. Os óculos de leitura na ponta do nariz, um livro de Heidegger aberto no colo e uma caneta entre os lábios. O cabelo grisalho, cortado bem curto, estava bagunçado, e as tatuagens nos braços — memórias de uma vida que ela mal reconhecia mais — pareciam mais escuras sob a luz fraca do abajur.
— Você está bebendo de novo, Gabriele. — A voz de Hylda saiu rouca, sem tirar os olhos da página. Não era uma pergunta.
Gabriele não se moveu. Apenas ajeitou a mecha de cabelo castanho que caía sobre o rosto, escondendo os fios grisalhos que ela tanto detestava.
— É apenas um tônico, Hylda. Para a digestão.
Hylda soltou uma risada seca, fechando o livro com um baque. Ela se levantou, a postura rígida de quem carregava o peso de ser a "rocha" da relação por tempo demais.
— Um tônico que cheira a desespero e zimbro. — Hylda caminhou até a mesa, parando à frente da esposa. — Estamos aqui para descansar. Lorenzo nos emprestou este lugar para que pudéssemos nos reencontrar, não para você se enterrar em papelada e álcool.
— Lorenzo nos emprestou este lugar porque ele é um idiota sentimental que acha que o isolamento cura tudo — rebateu Gabriele, finalmente levantando o olhar. Seus olhos estavam nublados, uma frieza elegante que sempre fora sua armadura. — E eu tenho prazos. A Clara me enviou três e-mails hoje sobre o caso dos herdeiros. Ela está perdida sem mim.
Hylda bufou, cruzando os braços. A menção à estagiária sempre a deixava com um gosto amargo na boca.
— A Clara. Claro. A menina que olha para você como se você fosse a reencarnação da Virgem Maria, mas com um guarda-roupa melhor. Ela não está perdida, Gabriele. Ela só quer uma desculpa para ouvir sua voz.
— Deixe de ser infantil, Hylda. Ela é dedicada. — Gabriele sentiu um calafrio percorrer a espinha. A menção à "Virgem Maria" tocou em um nervo exposto. Ultimamente, os velhos pensamentos estavam voltando. O peso do pecado, a sensação de que cada gole de gim era uma afronta divina, de que seu corpo era um templo profanado.
Hylda percebeu a mudança na postura da esposa. A agressividade que vinha cultivando nos últimos meses — uma defesa contra a rejeição constante — suavizou-se por um segundo, mas logo voltou.
— Você está fazendo de novo. Se fechando. — Hylda se inclinou sobre a mesa. — Há quanto tempo não fazemos sexo, Gabriele? Dois meses? Três?
— Eu não estou com cabeça para isso. O mundo está desmoronando e você quer falar de... de carne.
— Eu quero falar de nós! — Hylda bateu a mão na mesa, fazendo o copo de gim tremer. — Eu sou sua esposa, não sua colega de quarto. Eu conheço cada centímetro desse seu corpo. Conheço a cicatriz pequena que você tem atrás da orelha, sei que você odeia quando o lençol não está esticado, sei que você reza escondida no banheiro quando acha que eu não estou ouvindo. Por que você está se escondendo de mim?
Gabriele levantou-se bruscamente, a elegância vacilando por um instante.
— Porque talvez eu sinta que estou sendo punida! — gritou Gabriele, a voz embargada. — Você não entende, Hylda. Você viveu sua vida de excessos e agora é uma professora de filosofia que acha que tem todas as respostas. Mas eu... eu sinto que há algo errado. Que Deus está me olhando e que esse nosso... esse nosso estilo de vida...
— Nosso estilo de vida? — Hylda riu, uma risada amarga. — Você quer dizer o fato de sermos casadas? Gabriele, estamos em 2024. O único que está te julgando é esse fantasma religioso que você insiste em ressuscitar.
O celular de Hylda vibrou sobre a poltrona, cortando a tensão. Ela caminhou até lá e revirou os olhos ao ver a tela.
— É a Isabela. De novo. — Hylda suspirou. — Perguntando se eu terminei de corrigir o ensaio dela sobre o imperativo categórico. Essa menina tem medo de você, sabia? Ela me mandou uma mensagem ontem dizendo que sonhou que você a transformava em uma estátua de sal.
Gabriele deu um sorriso pálido, a primeira sombra de humor em dias.
— Ela tem bom gosto para pesadelos.
— Pelo menos ela me dá atenção — murmurou Hylda, voltando a olhar para a esposa. — Diferente de você, que prefere conversar com o fundo de uma garrafa ou com uma estagiária ruiva de vinte e poucos anos.
— Você está com ciúmes da Clara? Isso é patético.
— O que é patético é eu ter que implorar por um beijo que não pareça um cumprimento de negócios.
O silêncio voltou a reinar, preenchido apenas pelo som da chuva. Hylda deu um passo à frente, reduzindo a distância entre elas. Ela estendeu a mão e tocou o rosto de Gabriele, o polegar acariciando a mandíbula tensa.
— Eu sinto falta de você, Gabi. Da Gabi que ria das piadas idiotas do Lorenzo até perder o fôlego. Da Gabi que me beijava como se o mundo fosse acabar no minuto seguinte.
Gabriele fechou os olhos, lutando contra o desejo de se entregar àquele toque. O conflito interno era uma tempestade pior do que a que ocorria lá fora. Ela se sentia suja, culpada, e ao mesmo tempo, desesperadamente necessitada do calor de Hylda.
— Eu estou cansada, Hylda. Realmente cansada.
— Eu sei. — Hylda aproximou o rosto, o hálito quente contra a pele de Gabriele. — Mas você não precisa carregar o mundo nas costas. Deixe os processos para amanhã. Deixe a Clara se virar. E, por favor, deixe Deus de fora do nosso quarto por uma noite.
Gabriele abriu os olhos. A intensidade no olhar de Hylda era quase insuportável. Era uma mistura de desejo, raiva e uma lealdade inabalável que Gabriele sentia que não merecia.
— Você é impossível — sussurrou Gabriele.
— E você é teimosa. — Hylda sorriu levemente, a mão descendo para a nuca de Gabriele. — Mas você ainda é a mulher mais bonita que eu já vi. Mesmo com esse mau humor de madrasta de conto de fadas.
Nesse momento, o som de um carro se aproximando e pneus freando bruscamente no cascalho interrompeu o momento. Uma buzina escandalosa soou três vezes.
— Não pode ser... — Gabriele suspirou, reconhecendo o ritmo da buzina.
A porta da frente se abriu com um estrondo, e Lorenzo entrou, carregando um guarda-chuva quebrado e uma caixa de vinhos, completamente encharcado.
— Cheguei, minhas sáficas favoritas! — Lorenzo exclamou, sacudindo a água como um cachorro. — A cidade estava um tédio e eu decidi que vocês precisavam de um pouco de alegria masculina para iluminar esse retiro de freiras.
Hylda soltou Gabriele e caminhou até o amigo, pegando a caixa de vinho da mão dele.
— Lorenzo, seu imbecil, nós viemos para cá justamente para fugir de pessoas como você.
— Mentira, Hylda. Você me ama. — Lorenzo abraçou Hylda, molhando a camiseta dela. — E Gabriele! Você parece que saiu de um filme noir. Por que está com essa cara de quem acabou de condenar alguém à guilhotina?
— Eu estava tentando trabalhar, Lorenzo — disse Gabriele, recompondo a postura e cruzando os braços.
— Trabalhar? No chalé do prazer? — Lorenzo riu, servindo-se de um copo de água (que ele logo substituiu por vinho). — Eu vi a Clara hoje no escritório antes de sair. Ela me perguntou cinco vezes se você estava bem, Gabriele. Acho que ela tem um altar para você no armário dela.
Hylda lançou um olhar de "eu te avisei" para Gabriele.
— Viu? Até o Lorenzo percebeu.
— Ah, não comecem — Lorenzo disse, sentando-se na mesa de trabalho de Gabriele, desarrumando os papéis. — Eu vim para animar as coisas. Isabela também não para de me mandar mensagens, Hylda. Ela quer saber se você "está em segurança com a fera". A fera, no caso, é você, Gabriele.
Gabriele sentou-se novamente, sentindo a dor de cabeça pulsar.
— Eu vou para o quarto.
— Ah, não vai não! — Hylda segurou o braço dela. — Lorenzo trouxe vinho. Vamos beber, vamos rir da desgraça alheia e você vai esquecer essa sua crise existencial por algumas horas.
— Eu não estou em crise — mentiu Gabriele, mas a mão de Hylda em seu braço era um âncora que ela não queria soltar.
— Está sim — disse Lorenzo, sério por um breve segundo. — Você está com aquele olhar de quando acha que vai ser arrebatada a qualquer momento. Relaxa, Gabi. Se o céu existir, eles não vão te levar agora. Você é sofisticada demais para as nuvens.
Gabriele olhou para os dois. Hylda, com sua presença bruta e protetora, e Lorenzo, com sua leveza irritante. Ela sentiu o peso no peito diminuir um pouco, a psicose religiosa recuando para as sombras, pelo menos por enquanto.
— Só um copo — cedeu Gabriele.
— Essa é a minha garota! — Hylda exclamou, servindo o vinho.
A noite avançou entre risadas e piadas ácidas. Lorenzo contava fofocas do escritório, enquanto Hylda zombava das crises existenciais de seus alunos. Por um momento, a tensão entre o casal pareceu se dissolver na embriaguez leve e na camaradagem.
No entanto, quando Lorenzo finalmente desmaiou no sofá da sala, o silêncio retornou à casa, trazendo consigo a eletricidade não resolvida entre as duas mulheres.
Hylda ajudou Gabriele a subir as escadas. No quarto, a luz da lua filtrava-se pelas janelas, iluminando a chuva que ainda caía. Gabriele sentou-se na beira da cama, retirando os sapatos caros com movimentos lentos.
Hylda parou atrás dela, as mãos repousando nos ombros de Gabriele.
— Você está melhor? — perguntou em voz baixa.
— Um pouco. Lorenzo tem um jeito de tornar tudo trivial.
— Ele é um idiota, mas é o nosso idiota. — Hylda começou a massagear os ombros tensos de Gabriele. — Mas ele tem razão sobre uma coisa. Você precisa parar de se punir por ser feliz.
Gabriele inclinou a cabeça para trás, encostando-a no abdômen de Hylda.
— E se eu não souber como ser feliz sem sentir que devo algo em troca?
Hylda contornou a cama e ajoelhou-se entre as pernas de Gabriele. Ela segurou as mãos da esposa, as mãos que tantas vezes se apertavam em oração ou em torno de um copo.
— Você não deve nada a ninguém, Gabriele. Nem a Deus, nem à Clara, nem aos seus pais que já se foram. Você só deve a si mesma a chance de sentir algo que não seja culpa.
Hylda aproximou-se, beijando o pescoço de Gabriele, bem onde o pulso batia acelerado. O cheiro de Gabriele — uma mistura de sândalo, vinho e aquele toque de gim — era inebriante para ela.
— Sinta isso — sussurrou Hylda contra a pele dela. — Isso é real. O resto é barulho.
Gabriele soltou um suspiro trêmulo. A mão de Hylda subiu pela coxa de Gabriele, por baixo da saia de seda. O toque era firme, possessivo, mas carregado de uma ternura que só quem compartilhava anos de intimidade poderia ter.
— Hylda... — Gabriele tentou protestar, mas a voz saiu fraca.
— Shhh. Não pense. Só sinta.
Pela primeira vez em meses, Gabriele permitiu que a barreira caísse. Ela puxou Hylda para um beijo desesperado, um beijo que carregava toda a fome, a frustração e o amor que as palavras não conseguiam mais expressar. Era uma reconciliação silenciosa, um pacto selado na penumbra do quarto de campo.
Lá fora, a tempestade continuava, mas dentro daquele quarto, as sombras religiosas e as cobranças do mundo pareciam, finalmente, ter perdido a força diante da realidade do toque de quem realmente a conhecia. E Hylda, apesar de toda a sua agressividade defensiva, cuidou de Gabriele com uma delicadeza que dizia, sem precisar de uma única palavra de filosofia: "Eu estou aqui, e eu não vou deixar você se perder".
