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Fandom: Nenhum
Criado: 03/06/2026
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RomanceDramaAngústiaFatias de VidaDor/ConfortoPsicológicoRealismoEstudo de PersonagemCiúmesHistória Doméstica
Entre o Silêncio e o Salto Alto
O estúdio de tatuagem de Emanuel, localizado na cobertura de um dos prédios mais luxuosos da capital, exalava um aroma de tinta fresca e antisséptico caro. Para Emanuel, aquele era o único lugar onde ele sentia que as rédeas da vida estavam firmemente em suas mãos. Aos vinte e cinco anos, ele não era apenas um tatuador; era um império. Mas, enquanto limpava uma de suas máquinas rotativas, o vinco entre suas sobrancelhas denunciava que o controle que ele tanto prezava estava escapando por entre os dedos assim que o expediente terminava.
A porta de vidro se abriu com um estrépito familiar. O som de saltos agulha batendo contra o piso de porcelanato anunciou a chegada de Sara antes mesmo que seu perfume importado e doce inundasse o ambiente. Ela usava um vestido de seda vermelho, curto e justo o suficiente para desafiar a gravidade, realçando cada curva moldada por cirurgias plásticas das quais ela se orgulhava imensamente.
— Emanuel, querido, os relatórios da unidade de Londres estão uma bagunça, mas já dei um jeito com o pessoal do financeiro — disse Sara, jogando a bolsa de grife sobre a mesa de centro. Ela se aproximou dele, envolvendo o pescoço do homem com os braços, ignorando qualquer protocolo profissional. — Você precisa de férias. Ou de uma massagem. Ou de mim.
Emanuel soltou um suspiro pesado, permitindo-se um breve momento de relaxamento ao sentir o toque dela. Sara era eficiente, explosiva e, acima de tudo, uma presença que não podia ser ignorada.
— Obrigado, Sara. Eu não sei o que faria sem sua mão de ferro na administração — ele respondeu, a voz rouca pelo cansaço. — As meninas estão com a babá?
— Estão no carro com o motorista, lá embaixo. Ágata está impossível hoje, queria usar meu batom novo e quase destruiu o closet — Sara riu, uma risada anasalada e confiante. — Já a Maya... bem, a Maya está naquele estado melancólico de sempre. Choramingando pelos cantos.
O rosto de Emanuel se contraiu levemente. Ele amava as filhas gêmeas com uma intensidade feroz, mas a diferença abismal entre as duas de apenas dois anos era um reflexo constante das duas mulheres em sua vida. Ágata era a extensão de Sara: altiva, exigente e vibrante. Maya, por outro lado, era o espelho de Eduarda: sensível, silenciosa e de uma doçura que, para Sara, beirava a irritação.
— A Duda está vindo para cá? — perguntou Emanuel, tentando manter a voz neutra, embora a expectativa brilhasse em seus olhos.
Sara revirou os olhos, afastando-se para acender um cigarro eletrônico.
— A "sua" Duda deve estar saindo da aula de balé agora. Ou da faculdade de História da Arte. Sinceramente, Emanuel, como você aguenta tanta lerdeza? Ela é uma fofa, eu admito, mas às vezes sinto vontade de dar um sacode nela para ver se ela acorda para a vida.
— Não fale assim dela, Sara — Emanuel advertiu, o tom subindo uma oitava. — A sensibilidade da Eduarda é o que mantém o equilíbrio nessa casa. Ou manteria, se ela finalmente aceitasse morar conosco.
— E por que ela aceitaria? — Sara soltou uma nuvem de vapor perfumado. — Ela prefere o conforto do ninho dos pais "moderninhos" dela. Ela não tem estofo para a nossa rotina, Emanuel. Ela é uma boneca de porcelana. Eu sou a que resolve seus problemas, ela é a que você usa para descansar a cabeça.
Antes que Emanuel pudesse retrucar, a porta abriu-se novamente, mas desta vez de forma quase inaudível. Eduarda entrou, parecendo uma visão de outro mundo em comparação à agressividade estética de Sara. Ela usava uma saia midi de tule rosa pálido, uma sapatilha simples e um cardigã leve. O cabelo castanho estava preso em um coque frouxo, e alguns fios emolduravam seu rosto delicado, marcado por uma expressão de timidez crônica.
— Oi... — sussurrou Eduarda, abraçando os próprios braços. — Atrapalho?
Emanuel imediatamente largou o que estava fazendo e caminhou até ela. A rigidez em seus ombros desapareceu, substituída por uma necessidade quase instintiva de proteção.
— Claro que não, Duda. Chegou na hora certa.
Ele a envolveu em um abraço apertado. Eduarda se aninhou no peito dele, aspirando o cheiro de tabaco e loção pós-barba. Ela era pequena e esguia, parecendo desaparecer nos braços do homem que comandava um império.
— Oi, Sara — disse Eduarda, com a voz mansa, olhando por cima do ombro de Emanuel.
— Oi, boneca — Sara respondeu, sem muita animosidade, mas com aquele tom de superioridade que sempre usava. — Chegou a tempo de pegar sua seguidora. Maya está lá embaixo perguntando pela "mamãe Duda" há meia hora. Ágata nem notou que você existe, estava ocupada demais tentando calçar meu scarpin.
Eduarda deu um sorriso triste, mas genuíno.
— Eu senti falta delas.
— Emanuel — Eduarda chamou baixinho, puxando levemente a camisa dele —, meus pais perguntaram se eu posso levar a Maya para passar o final de semana com a gente. Eles compraram um cavalete novo para ela brincar de pintar.
O rosto de Emanuel escureceu. A questão da moradia era o ponto de ruptura de sua paciência.
— De novo, Eduarda? Você passa mais tempo na casa dos seus pais do que aqui. Eu já te disse cem vezes: mude-se para cá de uma vez. Temos espaço, temos estrutura. Eu quero minhas duas mulheres e minhas duas filhas sob o mesmo teto. Onde eu possa ver vocês. Onde eu possa controlar a segurança de vocês.
Eduarda baixou o olhar, as bochechas corando.
— Eu ainda não estou pronta, Emanuel... É tudo muito intenso. A rotina da Sara, os negócios, o movimento... Eu preciso do meu silêncio às vezes.
— O silêncio que você encontra longe de mim — Emanuel disparou, a frustração transbordando. — Você usa a Maya como desculpa para fugir da responsabilidade de ser parte integral desta família.
— Isso não é verdade! — A voz de Eduarda falhou, e seus olhos se encheram de lágrimas instantaneamente. — Eu amo a Maya. Eu amo a Ágata. E amo você. Só... me dê mais um pouco de tempo.
Sara, que observava a cena com uma mistura de tédio e diversão, interveio.
— Ah, deixa a menina, Emanuel. Se ela quer levar a Maya para a casa dos vovôs hippies, que leve. Pelo menos assim eu tenho um pouco de paz daquele choro manhoso. A Maya fica insuportável quando quer atenção, igualzinha à "mamãe" dela.
Emanuel olhou de Sara para Eduarda. A dinâmica era exaustiva. Sara era o fogo que impulsionava seus negócios e sua libido, a mulher que não tinha medo de enfrentar o mundo ao seu lado. Eduarda era o bálsamo, a doçura que o impedia de se tornar um homem frio e cínico, a mulher que ele sentia que precisava resgatar de um mundo que era agressivo demais para ela.
— Tudo bem — Emanuel cedeu, embora o tom de sua voz fosse gélido. — Leve a Maya. Mas eu vou deixar vocês lá e eu vou buscar. E na segunda-feira, Eduarda, vamos ter uma conversa séria sobre o contrato do novo apartamento que eu comprei no seu nome.
Eduarda assentiu, engolindo em seco. Ela sabia que Emanuel não aceitava "não" como resposta por muito tempo.
Eles desceram para o estacionamento subterrâneo, onde o SUV blindado de Emanuel aguardava. Assim que as portas se abriram, o caos infantil tomou conta.
— Mamãe Duda! — O grito agudo de Maya ecoou. A menina, de cabelos castanhos e olhos grandes e expressivos, soltou-se da babá e correu em direção a Eduarda com os braços estendidos.
Eduarda se ajoelhou no chão, ignorando a sujeira do piso, e recebeu a pequena em um abraço desesperado. Maya enterrou o rosto no pescoço de Eduarda, soluçando baixinho de pura emoção.
— Oi, meu amor... A mamãe está aqui — sussurrou Eduarda, beijando o topo da cabeça da menina.
Enquanto isso, Ágata, uma miniatura loira de Sara, com um vestidinho de grife e uma expressão de tédio precoce, permanecia ao lado do carro.
— Mãe, a Maya é muito bebê — disse Ágata, cruzando os bracinhos e olhando para Sara. — Ela chora por tudo. Eu quero ir no shopping comprar aquele brilho labial que a gente viu.
Sara soltou uma gargalhada e pegou Ágata no colo, ajeitando a menina no quadril com a naturalidade de quem carregava uma bolsa cara.
— É assim que se fala, minha diva. Deixa a sua irmã com a tia Duda. Nós temos coisas mais importantes para fazer.
Emanuel observava a cena, sentindo o peso daquela divisão. Ele se aproximou de Eduarda e Maya, colocando a mão sobre a cabeça de ambas.
— Ela está cada dia mais parecida com você, Duda — ele comentou, o tom suavizando. — O mesmo jeito de se esconder do mundo.
— Ela não está se escondendo, Emanuel — Eduarda defendeu, olhando para ele com firmeza incomum. — Ela só sente demais. O mundo é barulhento para quem tem o coração sensível.
Sara bufou, já entrando no carro.
— O mundo é barulhento para quem não sabe gritar, isso sim. Vamos logo, Emanuel. Tenho uma reunião com os fornecedores de pigmentos às seis e não quero me atrasar por causa de drama familiar no estacionamento.
Emanuel suspirou, sentindo a tensão acumulada na nuca. Ele beijou a testa de Eduarda e depois a de Maya.
— Eu te levo até a casa dos seus pais agora. Mas lembre-se do que eu disse. Eu não vou esperar para sempre, Eduarda. Eu quero minha família completa.
Eduarda entrou no banco de trás com Maya no colo, a menina já se acalmando ao toque suave da bailarina. No banco da frente, Sara retocava o batom vermelho vibrante, enquanto Ágata brincava com o celular da mãe.
O trajeto foi marcado pelo contraste absoluto. Na frente, Sara falava ao telefone sobre milhões de reais, prazos e logística, sua voz firme e autoritária preenchendo o espaço. Atrás, Eduarda cantava baixinho uma canção de ninar para Maya, que observava as luzes da cidade passando pela janela com um olhar sonhador.
Emanuel, no volante, era o ponto de convergência de dois universos paralelos. Ele olhou pelo retrovisor, vendo o rosto sereno de Eduarda, e depois para o lado, vendo a determinação feroz de Sara. Ele sabia que a maioria dos homens não entenderia sua vida, mas para ele, aquela dualidade era necessária. Ele precisava da guerra de Sara para sobreviver e da paz de Eduarda para viver.
Ao chegarem à casa dos pais de Eduarda — um sobrado charmoso e cheio de plantas em um bairro tranquilo —, o desembarque foi rápido.
— Tchau, tia Duda! Tchau, Maya chorona! — gritou Ágata da janela do carro.
— Ágata, modos! — Emanuel repreendeu, embora sem muita convicção.
Eduarda desceu com Maya, que segurava firmemente sua mão.
— Obrigada por deixar ela vir, Sara — disse Eduarda, aproximando-se da janela do passageiro.
Sara deu um sorriso de lado, um lampejo de empatia genuína cruzando seus olhos azuis por um breve segundo.
— Cuida bem da minha pequena sensível, Duda. E vê se ensina ela a não ter medo de sombra. Se ela continuar assim, o mundo vai engolir ela viva.
— Eu vou ensinar ela que não há problema em ser quem ela é — Eduarda respondeu com doçura.
Emanuel saiu do carro para dar um último beijo em Maya e um abraço demorado em Eduarda.
— Segunda-feira, Eduarda. Sem desculpas.
— Vamos ver, Emanuel... — ela sussurrou, fazendo-o sorrir contra sua vontade pela teimosia silenciosa dela.
O SUV partiu, deixando para trás o silêncio do bairro residencial. Eduarda caminhou em direção à porta de seus pais, sentindo o peso da decisão que Emanuel estava forçando-a a tomar. Ela amava aquele homem com cada fibra de seu ser, e estranhamente, havia aprendido a respeitar o furacão que era Sara. Mas a ideia de perder sua individualidade naquele mundo de luxo, controle e exposição a assustava.
Dentro do carro, Sara ligou o rádio em uma música pop agitada.
— Ela nunca vai se mudar, você sabe disso, não sabe? — Sara perguntou, olhando para Emanuel.
— Ela vai — ele respondeu, apertando o volante. — Eu vou garantir que ela se sinta segura o suficiente para isso.
— Você é um otimista incurável quando se trata dela, Emanuel. Mas tudo bem. Enquanto ela cuidar da Maya e você cuidar de mim, eu posso fingir que essa nossa configuração é normal.
Emanuel não respondeu. Ele apenas acelerou, cortando o trânsito da noite, tentando ignorar a sensação de que, não importa o quanto ele ganhasse ou o quanto tentasse controlar, sua vida sempre seria um equilíbrio precário entre o salto alto de uma e a sapatilha de outra. E, no fundo, ele não mudaria absolutamente nada.
A porta de vidro se abriu com um estrépito familiar. O som de saltos agulha batendo contra o piso de porcelanato anunciou a chegada de Sara antes mesmo que seu perfume importado e doce inundasse o ambiente. Ela usava um vestido de seda vermelho, curto e justo o suficiente para desafiar a gravidade, realçando cada curva moldada por cirurgias plásticas das quais ela se orgulhava imensamente.
— Emanuel, querido, os relatórios da unidade de Londres estão uma bagunça, mas já dei um jeito com o pessoal do financeiro — disse Sara, jogando a bolsa de grife sobre a mesa de centro. Ela se aproximou dele, envolvendo o pescoço do homem com os braços, ignorando qualquer protocolo profissional. — Você precisa de férias. Ou de uma massagem. Ou de mim.
Emanuel soltou um suspiro pesado, permitindo-se um breve momento de relaxamento ao sentir o toque dela. Sara era eficiente, explosiva e, acima de tudo, uma presença que não podia ser ignorada.
— Obrigado, Sara. Eu não sei o que faria sem sua mão de ferro na administração — ele respondeu, a voz rouca pelo cansaço. — As meninas estão com a babá?
— Estão no carro com o motorista, lá embaixo. Ágata está impossível hoje, queria usar meu batom novo e quase destruiu o closet — Sara riu, uma risada anasalada e confiante. — Já a Maya... bem, a Maya está naquele estado melancólico de sempre. Choramingando pelos cantos.
O rosto de Emanuel se contraiu levemente. Ele amava as filhas gêmeas com uma intensidade feroz, mas a diferença abismal entre as duas de apenas dois anos era um reflexo constante das duas mulheres em sua vida. Ágata era a extensão de Sara: altiva, exigente e vibrante. Maya, por outro lado, era o espelho de Eduarda: sensível, silenciosa e de uma doçura que, para Sara, beirava a irritação.
— A Duda está vindo para cá? — perguntou Emanuel, tentando manter a voz neutra, embora a expectativa brilhasse em seus olhos.
Sara revirou os olhos, afastando-se para acender um cigarro eletrônico.
— A "sua" Duda deve estar saindo da aula de balé agora. Ou da faculdade de História da Arte. Sinceramente, Emanuel, como você aguenta tanta lerdeza? Ela é uma fofa, eu admito, mas às vezes sinto vontade de dar um sacode nela para ver se ela acorda para a vida.
— Não fale assim dela, Sara — Emanuel advertiu, o tom subindo uma oitava. — A sensibilidade da Eduarda é o que mantém o equilíbrio nessa casa. Ou manteria, se ela finalmente aceitasse morar conosco.
— E por que ela aceitaria? — Sara soltou uma nuvem de vapor perfumado. — Ela prefere o conforto do ninho dos pais "moderninhos" dela. Ela não tem estofo para a nossa rotina, Emanuel. Ela é uma boneca de porcelana. Eu sou a que resolve seus problemas, ela é a que você usa para descansar a cabeça.
Antes que Emanuel pudesse retrucar, a porta abriu-se novamente, mas desta vez de forma quase inaudível. Eduarda entrou, parecendo uma visão de outro mundo em comparação à agressividade estética de Sara. Ela usava uma saia midi de tule rosa pálido, uma sapatilha simples e um cardigã leve. O cabelo castanho estava preso em um coque frouxo, e alguns fios emolduravam seu rosto delicado, marcado por uma expressão de timidez crônica.
— Oi... — sussurrou Eduarda, abraçando os próprios braços. — Atrapalho?
Emanuel imediatamente largou o que estava fazendo e caminhou até ela. A rigidez em seus ombros desapareceu, substituída por uma necessidade quase instintiva de proteção.
— Claro que não, Duda. Chegou na hora certa.
Ele a envolveu em um abraço apertado. Eduarda se aninhou no peito dele, aspirando o cheiro de tabaco e loção pós-barba. Ela era pequena e esguia, parecendo desaparecer nos braços do homem que comandava um império.
— Oi, Sara — disse Eduarda, com a voz mansa, olhando por cima do ombro de Emanuel.
— Oi, boneca — Sara respondeu, sem muita animosidade, mas com aquele tom de superioridade que sempre usava. — Chegou a tempo de pegar sua seguidora. Maya está lá embaixo perguntando pela "mamãe Duda" há meia hora. Ágata nem notou que você existe, estava ocupada demais tentando calçar meu scarpin.
Eduarda deu um sorriso triste, mas genuíno.
— Eu senti falta delas.
— Emanuel — Eduarda chamou baixinho, puxando levemente a camisa dele —, meus pais perguntaram se eu posso levar a Maya para passar o final de semana com a gente. Eles compraram um cavalete novo para ela brincar de pintar.
O rosto de Emanuel escureceu. A questão da moradia era o ponto de ruptura de sua paciência.
— De novo, Eduarda? Você passa mais tempo na casa dos seus pais do que aqui. Eu já te disse cem vezes: mude-se para cá de uma vez. Temos espaço, temos estrutura. Eu quero minhas duas mulheres e minhas duas filhas sob o mesmo teto. Onde eu possa ver vocês. Onde eu possa controlar a segurança de vocês.
Eduarda baixou o olhar, as bochechas corando.
— Eu ainda não estou pronta, Emanuel... É tudo muito intenso. A rotina da Sara, os negócios, o movimento... Eu preciso do meu silêncio às vezes.
— O silêncio que você encontra longe de mim — Emanuel disparou, a frustração transbordando. — Você usa a Maya como desculpa para fugir da responsabilidade de ser parte integral desta família.
— Isso não é verdade! — A voz de Eduarda falhou, e seus olhos se encheram de lágrimas instantaneamente. — Eu amo a Maya. Eu amo a Ágata. E amo você. Só... me dê mais um pouco de tempo.
Sara, que observava a cena com uma mistura de tédio e diversão, interveio.
— Ah, deixa a menina, Emanuel. Se ela quer levar a Maya para a casa dos vovôs hippies, que leve. Pelo menos assim eu tenho um pouco de paz daquele choro manhoso. A Maya fica insuportável quando quer atenção, igualzinha à "mamãe" dela.
Emanuel olhou de Sara para Eduarda. A dinâmica era exaustiva. Sara era o fogo que impulsionava seus negócios e sua libido, a mulher que não tinha medo de enfrentar o mundo ao seu lado. Eduarda era o bálsamo, a doçura que o impedia de se tornar um homem frio e cínico, a mulher que ele sentia que precisava resgatar de um mundo que era agressivo demais para ela.
— Tudo bem — Emanuel cedeu, embora o tom de sua voz fosse gélido. — Leve a Maya. Mas eu vou deixar vocês lá e eu vou buscar. E na segunda-feira, Eduarda, vamos ter uma conversa séria sobre o contrato do novo apartamento que eu comprei no seu nome.
Eduarda assentiu, engolindo em seco. Ela sabia que Emanuel não aceitava "não" como resposta por muito tempo.
Eles desceram para o estacionamento subterrâneo, onde o SUV blindado de Emanuel aguardava. Assim que as portas se abriram, o caos infantil tomou conta.
— Mamãe Duda! — O grito agudo de Maya ecoou. A menina, de cabelos castanhos e olhos grandes e expressivos, soltou-se da babá e correu em direção a Eduarda com os braços estendidos.
Eduarda se ajoelhou no chão, ignorando a sujeira do piso, e recebeu a pequena em um abraço desesperado. Maya enterrou o rosto no pescoço de Eduarda, soluçando baixinho de pura emoção.
— Oi, meu amor... A mamãe está aqui — sussurrou Eduarda, beijando o topo da cabeça da menina.
Enquanto isso, Ágata, uma miniatura loira de Sara, com um vestidinho de grife e uma expressão de tédio precoce, permanecia ao lado do carro.
— Mãe, a Maya é muito bebê — disse Ágata, cruzando os bracinhos e olhando para Sara. — Ela chora por tudo. Eu quero ir no shopping comprar aquele brilho labial que a gente viu.
Sara soltou uma gargalhada e pegou Ágata no colo, ajeitando a menina no quadril com a naturalidade de quem carregava uma bolsa cara.
— É assim que se fala, minha diva. Deixa a sua irmã com a tia Duda. Nós temos coisas mais importantes para fazer.
Emanuel observava a cena, sentindo o peso daquela divisão. Ele se aproximou de Eduarda e Maya, colocando a mão sobre a cabeça de ambas.
— Ela está cada dia mais parecida com você, Duda — ele comentou, o tom suavizando. — O mesmo jeito de se esconder do mundo.
— Ela não está se escondendo, Emanuel — Eduarda defendeu, olhando para ele com firmeza incomum. — Ela só sente demais. O mundo é barulhento para quem tem o coração sensível.
Sara bufou, já entrando no carro.
— O mundo é barulhento para quem não sabe gritar, isso sim. Vamos logo, Emanuel. Tenho uma reunião com os fornecedores de pigmentos às seis e não quero me atrasar por causa de drama familiar no estacionamento.
Emanuel suspirou, sentindo a tensão acumulada na nuca. Ele beijou a testa de Eduarda e depois a de Maya.
— Eu te levo até a casa dos seus pais agora. Mas lembre-se do que eu disse. Eu não vou esperar para sempre, Eduarda. Eu quero minha família completa.
Eduarda entrou no banco de trás com Maya no colo, a menina já se acalmando ao toque suave da bailarina. No banco da frente, Sara retocava o batom vermelho vibrante, enquanto Ágata brincava com o celular da mãe.
O trajeto foi marcado pelo contraste absoluto. Na frente, Sara falava ao telefone sobre milhões de reais, prazos e logística, sua voz firme e autoritária preenchendo o espaço. Atrás, Eduarda cantava baixinho uma canção de ninar para Maya, que observava as luzes da cidade passando pela janela com um olhar sonhador.
Emanuel, no volante, era o ponto de convergência de dois universos paralelos. Ele olhou pelo retrovisor, vendo o rosto sereno de Eduarda, e depois para o lado, vendo a determinação feroz de Sara. Ele sabia que a maioria dos homens não entenderia sua vida, mas para ele, aquela dualidade era necessária. Ele precisava da guerra de Sara para sobreviver e da paz de Eduarda para viver.
Ao chegarem à casa dos pais de Eduarda — um sobrado charmoso e cheio de plantas em um bairro tranquilo —, o desembarque foi rápido.
— Tchau, tia Duda! Tchau, Maya chorona! — gritou Ágata da janela do carro.
— Ágata, modos! — Emanuel repreendeu, embora sem muita convicção.
Eduarda desceu com Maya, que segurava firmemente sua mão.
— Obrigada por deixar ela vir, Sara — disse Eduarda, aproximando-se da janela do passageiro.
Sara deu um sorriso de lado, um lampejo de empatia genuína cruzando seus olhos azuis por um breve segundo.
— Cuida bem da minha pequena sensível, Duda. E vê se ensina ela a não ter medo de sombra. Se ela continuar assim, o mundo vai engolir ela viva.
— Eu vou ensinar ela que não há problema em ser quem ela é — Eduarda respondeu com doçura.
Emanuel saiu do carro para dar um último beijo em Maya e um abraço demorado em Eduarda.
— Segunda-feira, Eduarda. Sem desculpas.
— Vamos ver, Emanuel... — ela sussurrou, fazendo-o sorrir contra sua vontade pela teimosia silenciosa dela.
O SUV partiu, deixando para trás o silêncio do bairro residencial. Eduarda caminhou em direção à porta de seus pais, sentindo o peso da decisão que Emanuel estava forçando-a a tomar. Ela amava aquele homem com cada fibra de seu ser, e estranhamente, havia aprendido a respeitar o furacão que era Sara. Mas a ideia de perder sua individualidade naquele mundo de luxo, controle e exposição a assustava.
Dentro do carro, Sara ligou o rádio em uma música pop agitada.
— Ela nunca vai se mudar, você sabe disso, não sabe? — Sara perguntou, olhando para Emanuel.
— Ela vai — ele respondeu, apertando o volante. — Eu vou garantir que ela se sinta segura o suficiente para isso.
— Você é um otimista incurável quando se trata dela, Emanuel. Mas tudo bem. Enquanto ela cuidar da Maya e você cuidar de mim, eu posso fingir que essa nossa configuração é normal.
Emanuel não respondeu. Ele apenas acelerou, cortando o trânsito da noite, tentando ignorar a sensação de que, não importa o quanto ele ganhasse ou o quanto tentasse controlar, sua vida sempre seria um equilíbrio precário entre o salto alto de uma e a sapatilha de outra. E, no fundo, ele não mudaria absolutamente nada.
