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Fandom: Nenhum
Criado: 03/06/2026
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RomanceDramaAngústiaFatias de VidaDor/ConfortoPsicológicoCiúmesEstudo de PersonagemSombrioLinguagem ExplícitaRealismoHistória DomésticaFofuraHumorHorrorHorror PsicológicoHorror de SobrevivênciaGótico SulistaSuspenseSobrevivênciaMistério
O Equilíbrio Frágil do Desejo
O estúdio de ballet no centro da cidade era um refúgio de paredes brancas, espelhos infinitos e o som suave de pianos que pareciam flutuar no ar. Para Eduarda, aquele era o seu mundo. Aos vinte anos, sua vida era pautada pela delicadeza dos movimentos e pela disciplina da dança. Ela se movia como uma pluma, o corpo esguio e leve deslizando pelo linóleo, os cabelos castanhos presos em um coque frouxo que deixava escapar algumas mechas sobre seu rosto de traços finos.
Naquela tarde, porém, a atenção de Eduarda não estava em sua própria técnica, mas na pequena figura sentada no chão, observando-a com olhos grandes e curiosos. Maya, com apenas oito meses, já demonstrava uma personalidade que fugia completamente ao caos vibrante de sua casa. Enquanto sua irmã gêmea, Ágata, era uma explosão de energia e barulho, Maya era o silêncio doce. Ela era manhosa, sensível e, desde o primeiro dia na aula de estimulação precoce através do ballet, havia escolhido Eduarda como seu porto seguro.
— Vem cá, pequena... — sussurrou Eduarda, aproximando-se da bebê.
Maya esticou os bracinhos gordinhos, emitindo um som manhoso que derreteu o coração da bailarina. Eduarda a pegou no colo, sentindo o cheiro de bebê e a confiança imediata que a menina depositava nela. Maya encostou a cabecinha no ombro de Eduarda, fechando os olhos, satisfeita.
A porta do estúdio se abriu com um estrondo, quebrando a harmonia do ambiente. Sara entrou como um furacão de saltos altos, perfume caro e uma presença que exigia atenção imediata. Loira, com o corpo moldado por procedimentos estéticos que ela exibia com orgulho em roupas justas e decotadas, Sara era o oposto absoluto da serenidade daquele lugar. Ela carregava Ágata em um dos braços, a bebê já vestida com um tutu de grife, olhando ao redor com uma expressão de superioridade que era um espelho fiel da mãe.
— Onde está a outra? Ah, claro, grudada em você de novo — disse Sara, a voz carregada de uma ironia vibrante. Ela caminhou até Eduarda, avaliando-a de cima a baixo com um olhar que não era de ódio, mas de uma superioridade quase compassiva. — Sinceramente, Eduarda, você está estragando a minha filha. Ela já é chorona por natureza, e você ainda incentiva essa melação toda.
Eduarda recuou um passo, instintivamente apertando Maya contra o peito. O tom de Sara sempre a deixava desconcertada.
— Ela só é sensível, Sara... O pediatra disse que o ballet ajudaria na expressão corporal e na confiança dela.
— O pediatra é um idiota sensimentalista — rebateu Sara, ajeitando Ágata no quadril. — Ágata não precisa dessas frescuras. Ela já sabe quem manda. Veja só, ela nem chora. É uma mini diva. Já a Maya... parece que saiu de um livro de poesias depressivas.
Antes que Eduarda pudesse responder, uma terceira presença preencheu o batente da porta. Emanuel estava parado ali, a figura alta e sólida criando um contraste imediato com a leveza do estúdio. Ele vestia uma camiseta preta simples que deixava à mostra algumas das tatuagens que subiam por seus braços — marcas de um império que ele construíra com agulhas, tinta e uma lógica implacável.
Seus olhos, normalmente cansados pelo peso de gerir dezenas de estúdios e negócios ao redor do mundo, fixaram-se na cena. De um lado, Sara, a mulher que ele amava com uma intensidade bruta, a parceira que administrava seus bens com uma competência feroz e que incendiava suas noites com uma paixão vulgar e direta. Do outro, Eduarda, a personificação de uma paz que ele não sabia que precisava até conhecê-la.
— Já terminamos por aqui? — perguntou Emanuel, sua voz grave ressoando pelo salão.
— Finalmente! — exclamou Sara, caminhando até ele e selando seus lábios em um beijo possessivo. — Essa melação de ballet está me dando dor de cabeça. Vamos, Emanuel, temos aquela reunião com os fornecedores de Berlim daqui a pouco.
Emanuel retribuiu o beijo, mas seus olhos escaparam para Eduarda por cima do ombro de Sara. Ele viu a forma como Eduarda acariciava as costas de Maya, o jeito como ela parecia pequena e vulnerável diante da energia transbordante de sua namorada.
— Oi, Eduarda — disse ele, desvencilhando-se gentilmente de Sara.
— Oi, Emanuel — respondeu ela, a voz quase um sussurro. Ela sentiu o calor subir pelo pescoço. A presença dele a intimidava, mas de uma forma que a fazia querer se esconder e, ao mesmo tempo, ser notada.
Emanuel aproximou-se e pegou Maya do colo de Eduarda. A bebê, que normalmente choraria com qualquer um que não fosse a bailarina, apenas suspirou, reconhecendo o toque do pai.
— Ela se comportou? — perguntou ele, mantendo o olhar fixo no de Eduarda.
— Sim... ela é um anjo. É a aluna mais dedicada, mesmo sendo tão pequena. Ela sente a música de um jeito especial.
Sara soltou uma risada nasalada, revirando os olhos azuis perfeitamente maquiados.
— "Sente a música", poupe-me. Ela só é lenta, Emanuel. Igualzinha à professora. Se eu não soubesse que eu mesma pari as duas, diria que a Maya é filha da Eduarda. Elas têm esse mesmo ar de quem vai desmaiar se alguém falar mais alto.
— Sara, chega — disse Emanuel, o tom firme, embora sem agressividade. Ele estava acostumado com o jeito sem filtro da mulher.
— Ai, não comece com esse tom de protetor, querido. Eu não odeio a menina, só acho que ela precisa de um choque de realidade. Mas enfim... — Sara se aproximou de Eduarda e tocou o ombro da bailarina com uma unha longa e bem feita. — Você é uma fofa, Eduarda. Sério. Continue cuidando da minha pequena "sensível". Pelo menos assim ela não me dá trabalho enquanto eu trabalho de verdade.
Sara saiu do estúdio saltitando com Ágata, o som de seus passos ecoando no corredor. Emanuel, no entanto, permaneceu por um momento. O silêncio que se seguiu foi denso, carregado de algo que nenhum dos dois tinha coragem de nomear.
— Ela não faz por mal — disse Emanuel, tentando justificar o comportamento de Sara, embora soubesse que a lógica raramente funcionava para explicar a personalidade da namorada. — É o jeito dela de lidar com o mundo.
— Eu sei — respondeu Eduarda, baixando os olhos para as próprias sapatilhas. — Eu não levo para o lado pessoal. Ela só é... intensa.
— E você é o oposto — comentou ele, dando um passo involuntário em direção a ela. — O que, às vezes, é exatamente o que eu preciso para não enlouquecer.
Eduarda sentiu o coração disparar. Ela sabia que Emanuel era um homem comprometido, pai de duas filhas, um titã em seu ramo. Mas a forma como ele a olhava — como se ela fosse um oásis no meio de um deserto de estresse e cobranças — a deixava sem defesas.
— Você parece cansado, Emanuel.
— Eu sempre estou cansado, Duda. Mas vir buscar a Maya aqui... ver vocês duas juntas... — Ele parou, apertando a mandíbula. — Isso me acalma.
Ele estendeu a mão livre e tocou o rosto de Eduarda, o polegar roçando a pele macia de sua bochecha. Foi um toque breve, mas carregado de uma tensão elétrica. Eduarda inclinou o rosto levemente para o toque, fechando os olhos por um segundo. Era a confirmação silenciosa de uma conexão que crescia nas sombras.
— Emanuel! Você vem ou eu tenho que dirigir esse carro sozinha? — o grito de Sara veio do corredor, impaciente.
Emanuel suspirou, a rigidez voltando aos seus ombros.
— Preciso ir.
— Eu sei. Até a próxima aula?
— Até amanhã — corrigiu ele. — Vou trazer a Maya pessoalmente.
Ele saiu, deixando para trás o perfume amadeirado e a sensação de um conflito iminente. Eduarda ficou parada no centro do estúdio, sentindo-se pequena e, pela primeira vez, desejando algo que não deveria.
Do lado de fora, no carro de luxo, Sara já estava no banco do carona, retocando o batom enquanto Ágata brincava com um pingente de ouro no banco de trás. Quando Emanuel entrou e colocou Maya na cadeirinha, Sara nem sequer desviou o olhar do espelho.
— Demorou, hein? Aposto que estava ouvindo mais sermões sobre a "alma artística" da nossa filha.
— Ela é apenas uma criança, Sara. E a Eduarda faz um bom trabalho.
— Eu sei que faz. Por isso pago o que ela pede sem reclamar — disse Sara, fechando o estojo de maquiagem com um clique seco. Ela se inclinou e mordeu o lóbulo da orelha de Emanuel, um gesto de domínio puro. — Mas não ache que eu não percebo o jeito que você olha para aquela mosquinha morta.
Emanuel congelou por um milésimo de segundo, mas manteve a expressão neutra.
— Você está imaginando coisas.
— Oh, eu não imagino nada, meu amor. Eu sou formada em administração, lido com números e fatos — Sara sorriu, um sorriso predatório e confiante. — Ela é bonitinha, de um jeito sem graça e virginal. Se você quiser brincar de casinha com ela de vez em quando para relaxar esse seu cérebro tenso, eu não me importo. Desde que você lembre quem é a dona da porra toda.
Emanuel ligou o motor, as mãos apertando o volante com força. Ele amava Sara. Amava a ambição dela, a falta de escrúpulos, a forma como ela não se deixava abater por nada. Ela era o seu pilar de sustentação no mundo real. Mas, em sua mente, a imagem de Eduarda — doce, manhosa, cuidando de sua filha como se fosse dela — criava uma fenda em sua armadura.
Ele não queria escolher. Ele não operava sob a lógica da perda, mas da conquista. Se Sara era o fogo que o mantinha alerta, Eduarda era a água que o impedia de queimar até as cinzas.
— Vamos para casa — disse ele, a voz firme.
Enquanto o carro se afastava, Maya, no banco de trás, olhava pela janela para o prédio do estúdio, apertando contra o peito um pequeno laço de fita rosa que havia caído do cabelo de Eduarda. A pequena bebê, em sua sabedoria silenciosa, parecia ser a única a entender que o coração de seu pai agora estava dividido entre o brilho ofuscante do ouro e a suavidade eterna da seda.
E para Emanuel, o plano já estava se formando. Ele era um homem que conseguia tudo o que queria. E ele queria as duas. Uma para enfrentar o mundo ao seu lado, e a outra para ajudá-lo a esquecer que o mundo existia. O conflito era inevitável, a tensão seria sua nova rotina, mas ele estava disposto a pagar o preço para manter aquele equilíbrio frágil sob seu controle absoluto.
Naquela tarde, porém, a atenção de Eduarda não estava em sua própria técnica, mas na pequena figura sentada no chão, observando-a com olhos grandes e curiosos. Maya, com apenas oito meses, já demonstrava uma personalidade que fugia completamente ao caos vibrante de sua casa. Enquanto sua irmã gêmea, Ágata, era uma explosão de energia e barulho, Maya era o silêncio doce. Ela era manhosa, sensível e, desde o primeiro dia na aula de estimulação precoce através do ballet, havia escolhido Eduarda como seu porto seguro.
— Vem cá, pequena... — sussurrou Eduarda, aproximando-se da bebê.
Maya esticou os bracinhos gordinhos, emitindo um som manhoso que derreteu o coração da bailarina. Eduarda a pegou no colo, sentindo o cheiro de bebê e a confiança imediata que a menina depositava nela. Maya encostou a cabecinha no ombro de Eduarda, fechando os olhos, satisfeita.
A porta do estúdio se abriu com um estrondo, quebrando a harmonia do ambiente. Sara entrou como um furacão de saltos altos, perfume caro e uma presença que exigia atenção imediata. Loira, com o corpo moldado por procedimentos estéticos que ela exibia com orgulho em roupas justas e decotadas, Sara era o oposto absoluto da serenidade daquele lugar. Ela carregava Ágata em um dos braços, a bebê já vestida com um tutu de grife, olhando ao redor com uma expressão de superioridade que era um espelho fiel da mãe.
— Onde está a outra? Ah, claro, grudada em você de novo — disse Sara, a voz carregada de uma ironia vibrante. Ela caminhou até Eduarda, avaliando-a de cima a baixo com um olhar que não era de ódio, mas de uma superioridade quase compassiva. — Sinceramente, Eduarda, você está estragando a minha filha. Ela já é chorona por natureza, e você ainda incentiva essa melação toda.
Eduarda recuou um passo, instintivamente apertando Maya contra o peito. O tom de Sara sempre a deixava desconcertada.
— Ela só é sensível, Sara... O pediatra disse que o ballet ajudaria na expressão corporal e na confiança dela.
— O pediatra é um idiota sensimentalista — rebateu Sara, ajeitando Ágata no quadril. — Ágata não precisa dessas frescuras. Ela já sabe quem manda. Veja só, ela nem chora. É uma mini diva. Já a Maya... parece que saiu de um livro de poesias depressivas.
Antes que Eduarda pudesse responder, uma terceira presença preencheu o batente da porta. Emanuel estava parado ali, a figura alta e sólida criando um contraste imediato com a leveza do estúdio. Ele vestia uma camiseta preta simples que deixava à mostra algumas das tatuagens que subiam por seus braços — marcas de um império que ele construíra com agulhas, tinta e uma lógica implacável.
Seus olhos, normalmente cansados pelo peso de gerir dezenas de estúdios e negócios ao redor do mundo, fixaram-se na cena. De um lado, Sara, a mulher que ele amava com uma intensidade bruta, a parceira que administrava seus bens com uma competência feroz e que incendiava suas noites com uma paixão vulgar e direta. Do outro, Eduarda, a personificação de uma paz que ele não sabia que precisava até conhecê-la.
— Já terminamos por aqui? — perguntou Emanuel, sua voz grave ressoando pelo salão.
— Finalmente! — exclamou Sara, caminhando até ele e selando seus lábios em um beijo possessivo. — Essa melação de ballet está me dando dor de cabeça. Vamos, Emanuel, temos aquela reunião com os fornecedores de Berlim daqui a pouco.
Emanuel retribuiu o beijo, mas seus olhos escaparam para Eduarda por cima do ombro de Sara. Ele viu a forma como Eduarda acariciava as costas de Maya, o jeito como ela parecia pequena e vulnerável diante da energia transbordante de sua namorada.
— Oi, Eduarda — disse ele, desvencilhando-se gentilmente de Sara.
— Oi, Emanuel — respondeu ela, a voz quase um sussurro. Ela sentiu o calor subir pelo pescoço. A presença dele a intimidava, mas de uma forma que a fazia querer se esconder e, ao mesmo tempo, ser notada.
Emanuel aproximou-se e pegou Maya do colo de Eduarda. A bebê, que normalmente choraria com qualquer um que não fosse a bailarina, apenas suspirou, reconhecendo o toque do pai.
— Ela se comportou? — perguntou ele, mantendo o olhar fixo no de Eduarda.
— Sim... ela é um anjo. É a aluna mais dedicada, mesmo sendo tão pequena. Ela sente a música de um jeito especial.
Sara soltou uma risada nasalada, revirando os olhos azuis perfeitamente maquiados.
— "Sente a música", poupe-me. Ela só é lenta, Emanuel. Igualzinha à professora. Se eu não soubesse que eu mesma pari as duas, diria que a Maya é filha da Eduarda. Elas têm esse mesmo ar de quem vai desmaiar se alguém falar mais alto.
— Sara, chega — disse Emanuel, o tom firme, embora sem agressividade. Ele estava acostumado com o jeito sem filtro da mulher.
— Ai, não comece com esse tom de protetor, querido. Eu não odeio a menina, só acho que ela precisa de um choque de realidade. Mas enfim... — Sara se aproximou de Eduarda e tocou o ombro da bailarina com uma unha longa e bem feita. — Você é uma fofa, Eduarda. Sério. Continue cuidando da minha pequena "sensível". Pelo menos assim ela não me dá trabalho enquanto eu trabalho de verdade.
Sara saiu do estúdio saltitando com Ágata, o som de seus passos ecoando no corredor. Emanuel, no entanto, permaneceu por um momento. O silêncio que se seguiu foi denso, carregado de algo que nenhum dos dois tinha coragem de nomear.
— Ela não faz por mal — disse Emanuel, tentando justificar o comportamento de Sara, embora soubesse que a lógica raramente funcionava para explicar a personalidade da namorada. — É o jeito dela de lidar com o mundo.
— Eu sei — respondeu Eduarda, baixando os olhos para as próprias sapatilhas. — Eu não levo para o lado pessoal. Ela só é... intensa.
— E você é o oposto — comentou ele, dando um passo involuntário em direção a ela. — O que, às vezes, é exatamente o que eu preciso para não enlouquecer.
Eduarda sentiu o coração disparar. Ela sabia que Emanuel era um homem comprometido, pai de duas filhas, um titã em seu ramo. Mas a forma como ele a olhava — como se ela fosse um oásis no meio de um deserto de estresse e cobranças — a deixava sem defesas.
— Você parece cansado, Emanuel.
— Eu sempre estou cansado, Duda. Mas vir buscar a Maya aqui... ver vocês duas juntas... — Ele parou, apertando a mandíbula. — Isso me acalma.
Ele estendeu a mão livre e tocou o rosto de Eduarda, o polegar roçando a pele macia de sua bochecha. Foi um toque breve, mas carregado de uma tensão elétrica. Eduarda inclinou o rosto levemente para o toque, fechando os olhos por um segundo. Era a confirmação silenciosa de uma conexão que crescia nas sombras.
— Emanuel! Você vem ou eu tenho que dirigir esse carro sozinha? — o grito de Sara veio do corredor, impaciente.
Emanuel suspirou, a rigidez voltando aos seus ombros.
— Preciso ir.
— Eu sei. Até a próxima aula?
— Até amanhã — corrigiu ele. — Vou trazer a Maya pessoalmente.
Ele saiu, deixando para trás o perfume amadeirado e a sensação de um conflito iminente. Eduarda ficou parada no centro do estúdio, sentindo-se pequena e, pela primeira vez, desejando algo que não deveria.
Do lado de fora, no carro de luxo, Sara já estava no banco do carona, retocando o batom enquanto Ágata brincava com um pingente de ouro no banco de trás. Quando Emanuel entrou e colocou Maya na cadeirinha, Sara nem sequer desviou o olhar do espelho.
— Demorou, hein? Aposto que estava ouvindo mais sermões sobre a "alma artística" da nossa filha.
— Ela é apenas uma criança, Sara. E a Eduarda faz um bom trabalho.
— Eu sei que faz. Por isso pago o que ela pede sem reclamar — disse Sara, fechando o estojo de maquiagem com um clique seco. Ela se inclinou e mordeu o lóbulo da orelha de Emanuel, um gesto de domínio puro. — Mas não ache que eu não percebo o jeito que você olha para aquela mosquinha morta.
Emanuel congelou por um milésimo de segundo, mas manteve a expressão neutra.
— Você está imaginando coisas.
— Oh, eu não imagino nada, meu amor. Eu sou formada em administração, lido com números e fatos — Sara sorriu, um sorriso predatório e confiante. — Ela é bonitinha, de um jeito sem graça e virginal. Se você quiser brincar de casinha com ela de vez em quando para relaxar esse seu cérebro tenso, eu não me importo. Desde que você lembre quem é a dona da porra toda.
Emanuel ligou o motor, as mãos apertando o volante com força. Ele amava Sara. Amava a ambição dela, a falta de escrúpulos, a forma como ela não se deixava abater por nada. Ela era o seu pilar de sustentação no mundo real. Mas, em sua mente, a imagem de Eduarda — doce, manhosa, cuidando de sua filha como se fosse dela — criava uma fenda em sua armadura.
Ele não queria escolher. Ele não operava sob a lógica da perda, mas da conquista. Se Sara era o fogo que o mantinha alerta, Eduarda era a água que o impedia de queimar até as cinzas.
— Vamos para casa — disse ele, a voz firme.
Enquanto o carro se afastava, Maya, no banco de trás, olhava pela janela para o prédio do estúdio, apertando contra o peito um pequeno laço de fita rosa que havia caído do cabelo de Eduarda. A pequena bebê, em sua sabedoria silenciosa, parecia ser a única a entender que o coração de seu pai agora estava dividido entre o brilho ofuscante do ouro e a suavidade eterna da seda.
E para Emanuel, o plano já estava se formando. Ele era um homem que conseguia tudo o que queria. E ele queria as duas. Uma para enfrentar o mundo ao seu lado, e a outra para ajudá-lo a esquecer que o mundo existia. O conflito era inevitável, a tensão seria sua nova rotina, mas ele estava disposto a pagar o preço para manter aquele equilíbrio frágil sob seu controle absoluto.
