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Até o amanhecer
Fandom: Boys of tommen
Criado: 04/06/2026
Tags
RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoFatias de VidaSobrevivênciaTragédiaEstudo de Personagem
Sombras e Cicatrizes sob as Luzes de Cork
O som do metal batendo contra o metal era a única melodia que Lúcia permitia que ecoasse em sua mente durante o dia. Na oficina de Joey Lynch, o cheiro de graxa e óleo diesel servia como um perfume áspero que mascarava o odor de desespero que a seguia desde que as luzes de sua casa se apagaram para sempre.
Lúcia limpou o suor da testa com o dorso da mão, deixando um rastro preto sobre a pele pálida. Ela apertou a chave inglesa com mais força, sentindo a resistência do parafuso. Aos dezesseis anos, suas mãos não deveriam ser tão calejadas, nem seus olhos deveriam carregar o peso de uma tragédia que a cidade de Cork ainda sussurrava pelos cantos.
Pai mata mãe. Pai se mata. Órfã de dezesseis cuida de bebê de um. A manchete era um eco distante, mas a realidade era o peso de Otto no seu colo todas as noites, o choro de fome e a responsabilidade de manter um teto sobre a cabeça dele.
— Lúcia, você está apertando isso como se quisesse estrangular o carro — a voz de Joey Lynch surgiu acima dela, calma, mas carregada daquela compreensão silenciosa que só quem já viveu no inferno possui.
Lúcia relaxou os ombros, soltando um suspiro pesado. Ela saiu debaixo do chassi do Ford antigo.
— Preciso que ele fique pronto hoje, Joey. O bônus de entrega ajudaria com o estoque de fraldas do Otto.
Joey encostou-se na bancada, observando a menina que parecia ter envelhecido dez anos em apenas alguns meses. Ele sabia o que era carregar o mundo nas costas. Ele sabia o que era proteger irmãos quando os adultos falhavam.
— O bônus é seu, garota. Mas você precisa comer algo. Se desmaiar na oficina, o seguro não cobre — ele brincou, embora seus olhos estivessem sérios. — Como está o pequeno?
— Dormindo no fundo, no cercadinho que você montou — Lúcia deu um meio sorriso, o primeiro do dia. — Ele é calmo demais para um bebê de um ano. Às vezes acho que ele sabe que não podemos fazer barulho.
Joey assentiu, entregando-lhe um pano limpo.
— Vá se limpar. O turno da tarde está acabando. E Lúcia... não se esqueça de que você não precisa carregar tudo sozinha o tempo todo.
Ela não respondeu. Ela não podia acreditar nisso. A última vez que confiou em alguém, sua casa se tornou um cenário de crime.
Lúcia saiu da oficina quando o sol começava a se pôr, pintando o céu de Cork com tons de laranja e roxo. Ela carregava Otto no bebê conforto, o peso dele sendo o único que ela aceitava com prazer. Mas o trabalho na mecânica era apenas a primeira parte do seu dia. Para pagar a mensalidade da Tommen — um lugar onde ela era um fantasma, uma sombra que ninguém notava nos corredores — e para sustentar a casa, ela precisava de mais.
Duas horas depois, a Lúcia da graxa e do macacão sujo havia desaparecido.
No pequeno camarim improvisado do "The Rusty Anchor", um pub local que cheirava a cerveja derramada e fumaça de cigarro, ela se transformava. Ela vestia o cinto de moedas, a saia de seda leve e o top bordado. A maquiagem pesada nos olhos servia como uma máscara. Ali, ela não era a órfã da Tommen. Ela era apenas a dançarina sem nome.
— Você está atrasada cinco minutos, Lu — disse o dono do pub, um homem gordo que, apesar da aparência bruta, sempre garantia que ninguém tocasse nela durante as apresentações.
— O ônibus demorou. O Otto teve uma crise de choro — explicou ela, prendendo o véu nos cabelos escuros.
— Deixe ele com a minha esposa lá em cima. Ela adora o garoto. Agora vai, o público está inquieto.
Lúcia inspirou profundamente. O som do alaúde e do derbake começou a ecoar pelo pub. Ela entrou no pequeno palco, e o tilintar das moedas em seu quadril abafou o barulho das conversas. Ela dançava com uma técnica que aprendeu com a mãe, antes de tudo desmoronar. Era uma conexão com o que restava de sua linhagem, uma herança de beleza em meio à destruição.
Seus movimentos eram fluidos, hipnóticos. Ela fechava os olhos e se imaginava em qualquer lugar, menos ali. Quando a música mudou para um tom mais lento, ela pegou o microfone. Sua voz era rouca, carregada de uma melancolia que silenciava os bêbados mais barulhentos.
Naquela noite, porém, algo estava diferente. No fundo do pub, em uma mesa sombreada, um grupo de garotos da Tommen estava sentado. Eles eram barulhentos, vestindo as jaquetas do time de rúgbi, celebrando alguma vitória insignificante. Entre eles, Patrick Feely ria de algo que um dos amigos dizia.
Patrick era o oposto de Lúcia. Ele era luz, barulho e energia. Ele era um dos rostos populares da escola, alguém que Lúcia via passar pelos corredores enquanto ela se encolhia contra os armários para não ser notada.
De repente, o olhar de Patrick se desviou dos amigos e caiu sobre o palco.
O riso dele morreu. Ele franziu a testa, observando a garota que cantava uma canção irlandesa antiga com uma tristeza que parecia arrancar o ar do peito dele. Havia algo familiar nela. Aqueles olhos... ele já os tinha visto em algum lugar. Mas onde? Na escola, todos eram tão vibrantes, tão cheios de vida fútil. Aquela garota no palco parecia feita de fragmentos de vidro e luar.
— Ei, Feely! — gritou um dos garotos, batendo no ombro dele. — Está hipnotizado pela cigana?
Patrick não respondeu de imediato. Ele não conseguia desviar o olhar.
— Ela é... diferente — murmurou ele, quase para si mesmo.
Lúcia terminou a música, fez uma reverência rápida e desapareceu atrás das cortinas antes que os aplausos pudessem alcançá-la. Ela não queria aplausos. Ela queria o envelope com o dinheiro e o silêncio do seu apartamento.
No dia seguinte, a Tommen High fervilhava com a energia de sempre. Lúcia caminhava de cabeça baixa, o capuz do moletom escondendo o rosto cansado. Suas pernas doíam da dança e seus dedos estavam manchados de óleo que o sabão não conseguiu remover completamente.
Ela parou diante do seu armário, tentando lembrar a combinação com a mente nublada pela falta de sono. Otto tivera febre durante a madrugada.
— Você deixou cair isso ontem.
A voz era calma, mas fez o coração de Lúcia disparar. Ela se virou lentamente e deu de cara com Patrick Feely. Ele estava encostado no armário ao lado, segurando um pequeno prendedor de cabelo com uma flor de metal — algo que ela usava para prender o véu.
Lúcia sentiu o sangue fugir do rosto.
— Não sei do que você está falando — disse ela, a voz falhando ligeiramente.
Patrick deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. Ele não tinha aquele sorriso convencido que costumava exibir para as garotas da escola. Seus olhos estavam curiosos, quase cautelosos.
— Eu estava no Rusty Anchor ontem à noite — disse ele em voz baixa, para que ninguém ao redor ouvisse. — Você canta bem, Lúcia.
O uso do nome dela a atingiu como um soco. Ninguém na Tommen sabia o nome dela. Ela era apenas "a garota esquisita do fundo da sala" ou, na maioria das vezes, ninguém.
— Você deve estar me confundindo com outra pessoa — ela respondeu, tentando pegar o prendedor da mão dele, mas ele fechou os dedos sobre o objeto.
— Eu não me confundo com vozes como a sua — Patrick insistiu. — Por que você se esconde aqui?
Lúcia olhou em volta, sentindo o pânico subir pela garganta. Se as pessoas descobrissem onde ela trabalhava, se o conselho tutelar ouvisse rumores de uma menina de dezesseis anos dançando em pubs para sustentar um bebê...
— Me deixa em paz, Feely — sussurrou ela, a voz carregada de uma urgência cortante. — Devolve isso e esquece que me viu.
Patrick percebeu o medo genuíno nos olhos dela. Não era o medo de uma fã tímida, era o medo de alguém que tinha algo precioso a perder. Ele abriu a mão, deixando que ela pegasse o prendedor.
— Eu não vou contar para ninguém — disse ele, a sinceridade suavizando seus traços. — Mas eu gostaria de ouvir você cantar de novo. Sem o barulho dos bêbados.
Lúcia não esperou para ouvir o resto. Ela pegou o objeto, fechou o armário com força e saiu apressada, desaparecendo na multidão de estudantes.
Patrick ficou parado, observando-a ir embora. Ele sempre achou que conhecia todo mundo naquela escola, que a vida em Cork era um livro aberto. Mas Lúcia era um capítulo arrancado, uma história escrita em uma língua que ele ainda não entendia.
Mais tarde, na oficina, Joey notou o silêncio ainda mais profundo de Lúcia.
— Algum problema na escola? — perguntou ele, enquanto passava uma graxa nas engrenagens.
— Alguém me viu ontem — Lúcia respondeu, sem parar de lixar a peça em suas mãos.
— Um aluno?
— Patrick Feely.
Joey soltou um assobio baixo.
— O garoto do rúgbi? Aquele ali é um bom rapaz, Lúcia. O pai dele é um homem decente.
— Decente ou não, ele é um risco — Lúcia parou, olhando para as próprias mãos. — Se ele começar a fazer perguntas... se ele descobrir sobre o Otto...
— Talvez ele só tenha ficado impressionado — Joey sugeriu. — Nem todo mundo quer destruir o que você construiu, pequena. Algumas pessoas só querem admirar a força que você tem.
Lúcia não acreditava nisso. Para ela, o mundo era um lugar onde a admiração se transformava em posse e a posse se transformava em violência. Ela aprendeu isso da pior maneira possível, vendo o sangue de sua mãe no chão da cozinha.
A semana passou como um borrão de cansaço extremo. Patrick não se aproximou dela novamente na escola, mas Lúcia sentia o olhar dele. Ele não era invasivo, era apenas... presente. Ele se sentava em mesas próximas no refeitório, passava por ela nos corredores e, às vezes, apenas acenava com a cabeça.
Na sexta-feira à noite, Lúcia estava exausta. Otto estava com o nascimento dos dentes, o que significava que ela não dormia há três dias. Seus movimentos no palco do pub estavam mais lentos, sua voz mais trêmula.
Quando ela terminou sua apresentação e saiu pelos fundos para pegar um pouco de ar frio, encontrou Patrick sentado no capô de um carro velho no beco.
Ela parou, o susto a fazendo recuar.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou ela, cruzando os braços sobre o figurino fino, tremendo com o vento frio de Cork.
— Eu disse que queria ouvir você cantar de novo — Patrick pulou do carro, caminhando em direção a ela. Ele tirou a jaqueta do time e a estendeu. — Você está tremendo.
— Eu não quero sua jaqueta, Patrick. Vá para casa. Vá para suas festas.
— Não tem festa hoje — ele disse, ainda segurando a jaqueta. — E eu não vou a lugar nenhum até ter certeza de que você está bem. Você parecia que ia desmaiar lá dentro.
Lúcia sentiu as lágrimas arderem em seus olhos, um sinal perigoso de fraqueza.
— Eu estou bem. Eu sempre estou bem. Eu tenho que estar.
— Ninguém tem que estar bem o tempo todo, Lúcia — Patrick deu mais um passo. Ele era muito maior que ela, mas não parecia ameaçador. Ele parecia um porto seguro em meio à tempestade que era a vida dela. — Por que você trabalha tanto? Por que se esconde?
— Você não entenderia — ela desviou o olhar. — Sua vida é rúgbi, notas boas e jantares em família. Minha vida é... sobrevivência.
— Então me ensina — disse ele, a voz baixa e séria. — Me ensina a entender.
Lúcia olhou para ele, e por um breve segundo, a barreira que ela construiu em volta do seu coração tremeu. Ela viu nos olhos de Patrick não pena, mas um interesse genuíno, uma curiosidade que não buscava tirar nada dela, apenas estar ali.
— Eu tenho um irmão — ela confessou, a voz mal saindo. — Ele tem um ano. Meus pais... eles se foram. Se alguém descobrir que eu estou sozinha com ele, eles o levam de mim. Eles o colocam no sistema. E eu sou a única coisa que ele tem.
Patrick ficou em silêncio por um longo tempo. O peso daquela revelação pairou entre eles no beco escuro. Ele não disse "sinto muito", porque sabia que palavras assim eram vazias para alguém como ela.
— Ele gosta de música? — perguntou Patrick, finalmente.
Lúcia piscou, surpresa pela pergunta.
— Ele gosta quando eu canto para ele dormir.
Patrick sorriu, um sorriso pequeno e gentil.
— Então você tem o público mais importante do mundo.
Ele colocou a jaqueta sobre os ombros dela desta vez, e Lúcia não protestou. O calor do tecido e o cheiro de sabão em pó e algo que era puramente Patrick a envolveram.
— Eu não vou contar a ninguém, Lúcia. Seu segredo está seguro comigo. E se você precisar de ajuda... com a mecânica, com o bar, ou apenas com o Otto... eu estou aqui.
— Por que você faria isso? — ela perguntou, genuinamente confusa. — Você nem me conhece.
— Eu acho que conheço o suficiente — ele respondeu, tocando levemente a ponta dos dedos no ombro dela. — Eu conheço a garota que não desiste. E eu gostaria de conhecer a garota por trás de toda essa graxa e seda.
Lúcia o observou se afastar, desaparecendo na escuridão do beco. Pela primeira vez em muito tempo, o peso em seus ombros pareceu um pouco mais leve. Ela sabia que o caminho seria longo, que a confiança era um luxo que ela não podia pagar facilmente, mas enquanto caminhava de volta para buscar Otto, ela não se sentia tão sozinha.
O romance entre eles não seria como os dos livros que ela lia escondida na biblioteca. Não haveria grandes gestos imediatos ou declarações apaixonadas sob a chuva. Seria construído no silêncio dos corredores da Tommen, nas trocas de olhares na oficina de Joey e na proteção silenciosa que Patrick começava a oferecer.
Era um começo lento. Um degrau de cada vez, em uma escada que Lúcia tinha medo de subir, mas que Patrick estava disposto a escalar ao lado dela, sem pressa, apenas esperando que ela permitisse que ele segurasse sua mão.
Ao chegar em casa, Lúcia tirou a jaqueta de Patrick e a dobrou cuidadosamente sobre a poltrona. Ela pegou Otto no colo, que resmungava em seu sono, e o apertou contra o peito.
— Vai ficar tudo bem, pequeno — sussurrou ela, embora não soubesse se estava mentindo. — Talvez existam pessoas boas, afinal.
Lá fora, a chuva de Cork começou a cair, lavando as ruas, mas as manchas de óleo nas mãos de Lúcia e as cicatrizes em seu coração permaneceriam. No entanto, pela primeira vez, ela não sentia que precisava escondê-las de todo o mundo. Patrick as tinha visto, e ele não tinha ido embora.
E para Lúcia, isso era o começo de algo que ela nunca se atreveu a sonhar: esperança.
Lúcia limpou o suor da testa com o dorso da mão, deixando um rastro preto sobre a pele pálida. Ela apertou a chave inglesa com mais força, sentindo a resistência do parafuso. Aos dezesseis anos, suas mãos não deveriam ser tão calejadas, nem seus olhos deveriam carregar o peso de uma tragédia que a cidade de Cork ainda sussurrava pelos cantos.
Pai mata mãe. Pai se mata. Órfã de dezesseis cuida de bebê de um. A manchete era um eco distante, mas a realidade era o peso de Otto no seu colo todas as noites, o choro de fome e a responsabilidade de manter um teto sobre a cabeça dele.
— Lúcia, você está apertando isso como se quisesse estrangular o carro — a voz de Joey Lynch surgiu acima dela, calma, mas carregada daquela compreensão silenciosa que só quem já viveu no inferno possui.
Lúcia relaxou os ombros, soltando um suspiro pesado. Ela saiu debaixo do chassi do Ford antigo.
— Preciso que ele fique pronto hoje, Joey. O bônus de entrega ajudaria com o estoque de fraldas do Otto.
Joey encostou-se na bancada, observando a menina que parecia ter envelhecido dez anos em apenas alguns meses. Ele sabia o que era carregar o mundo nas costas. Ele sabia o que era proteger irmãos quando os adultos falhavam.
— O bônus é seu, garota. Mas você precisa comer algo. Se desmaiar na oficina, o seguro não cobre — ele brincou, embora seus olhos estivessem sérios. — Como está o pequeno?
— Dormindo no fundo, no cercadinho que você montou — Lúcia deu um meio sorriso, o primeiro do dia. — Ele é calmo demais para um bebê de um ano. Às vezes acho que ele sabe que não podemos fazer barulho.
Joey assentiu, entregando-lhe um pano limpo.
— Vá se limpar. O turno da tarde está acabando. E Lúcia... não se esqueça de que você não precisa carregar tudo sozinha o tempo todo.
Ela não respondeu. Ela não podia acreditar nisso. A última vez que confiou em alguém, sua casa se tornou um cenário de crime.
Lúcia saiu da oficina quando o sol começava a se pôr, pintando o céu de Cork com tons de laranja e roxo. Ela carregava Otto no bebê conforto, o peso dele sendo o único que ela aceitava com prazer. Mas o trabalho na mecânica era apenas a primeira parte do seu dia. Para pagar a mensalidade da Tommen — um lugar onde ela era um fantasma, uma sombra que ninguém notava nos corredores — e para sustentar a casa, ela precisava de mais.
Duas horas depois, a Lúcia da graxa e do macacão sujo havia desaparecido.
No pequeno camarim improvisado do "The Rusty Anchor", um pub local que cheirava a cerveja derramada e fumaça de cigarro, ela se transformava. Ela vestia o cinto de moedas, a saia de seda leve e o top bordado. A maquiagem pesada nos olhos servia como uma máscara. Ali, ela não era a órfã da Tommen. Ela era apenas a dançarina sem nome.
— Você está atrasada cinco minutos, Lu — disse o dono do pub, um homem gordo que, apesar da aparência bruta, sempre garantia que ninguém tocasse nela durante as apresentações.
— O ônibus demorou. O Otto teve uma crise de choro — explicou ela, prendendo o véu nos cabelos escuros.
— Deixe ele com a minha esposa lá em cima. Ela adora o garoto. Agora vai, o público está inquieto.
Lúcia inspirou profundamente. O som do alaúde e do derbake começou a ecoar pelo pub. Ela entrou no pequeno palco, e o tilintar das moedas em seu quadril abafou o barulho das conversas. Ela dançava com uma técnica que aprendeu com a mãe, antes de tudo desmoronar. Era uma conexão com o que restava de sua linhagem, uma herança de beleza em meio à destruição.
Seus movimentos eram fluidos, hipnóticos. Ela fechava os olhos e se imaginava em qualquer lugar, menos ali. Quando a música mudou para um tom mais lento, ela pegou o microfone. Sua voz era rouca, carregada de uma melancolia que silenciava os bêbados mais barulhentos.
Naquela noite, porém, algo estava diferente. No fundo do pub, em uma mesa sombreada, um grupo de garotos da Tommen estava sentado. Eles eram barulhentos, vestindo as jaquetas do time de rúgbi, celebrando alguma vitória insignificante. Entre eles, Patrick Feely ria de algo que um dos amigos dizia.
Patrick era o oposto de Lúcia. Ele era luz, barulho e energia. Ele era um dos rostos populares da escola, alguém que Lúcia via passar pelos corredores enquanto ela se encolhia contra os armários para não ser notada.
De repente, o olhar de Patrick se desviou dos amigos e caiu sobre o palco.
O riso dele morreu. Ele franziu a testa, observando a garota que cantava uma canção irlandesa antiga com uma tristeza que parecia arrancar o ar do peito dele. Havia algo familiar nela. Aqueles olhos... ele já os tinha visto em algum lugar. Mas onde? Na escola, todos eram tão vibrantes, tão cheios de vida fútil. Aquela garota no palco parecia feita de fragmentos de vidro e luar.
— Ei, Feely! — gritou um dos garotos, batendo no ombro dele. — Está hipnotizado pela cigana?
Patrick não respondeu de imediato. Ele não conseguia desviar o olhar.
— Ela é... diferente — murmurou ele, quase para si mesmo.
Lúcia terminou a música, fez uma reverência rápida e desapareceu atrás das cortinas antes que os aplausos pudessem alcançá-la. Ela não queria aplausos. Ela queria o envelope com o dinheiro e o silêncio do seu apartamento.
No dia seguinte, a Tommen High fervilhava com a energia de sempre. Lúcia caminhava de cabeça baixa, o capuz do moletom escondendo o rosto cansado. Suas pernas doíam da dança e seus dedos estavam manchados de óleo que o sabão não conseguiu remover completamente.
Ela parou diante do seu armário, tentando lembrar a combinação com a mente nublada pela falta de sono. Otto tivera febre durante a madrugada.
— Você deixou cair isso ontem.
A voz era calma, mas fez o coração de Lúcia disparar. Ela se virou lentamente e deu de cara com Patrick Feely. Ele estava encostado no armário ao lado, segurando um pequeno prendedor de cabelo com uma flor de metal — algo que ela usava para prender o véu.
Lúcia sentiu o sangue fugir do rosto.
— Não sei do que você está falando — disse ela, a voz falhando ligeiramente.
Patrick deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. Ele não tinha aquele sorriso convencido que costumava exibir para as garotas da escola. Seus olhos estavam curiosos, quase cautelosos.
— Eu estava no Rusty Anchor ontem à noite — disse ele em voz baixa, para que ninguém ao redor ouvisse. — Você canta bem, Lúcia.
O uso do nome dela a atingiu como um soco. Ninguém na Tommen sabia o nome dela. Ela era apenas "a garota esquisita do fundo da sala" ou, na maioria das vezes, ninguém.
— Você deve estar me confundindo com outra pessoa — ela respondeu, tentando pegar o prendedor da mão dele, mas ele fechou os dedos sobre o objeto.
— Eu não me confundo com vozes como a sua — Patrick insistiu. — Por que você se esconde aqui?
Lúcia olhou em volta, sentindo o pânico subir pela garganta. Se as pessoas descobrissem onde ela trabalhava, se o conselho tutelar ouvisse rumores de uma menina de dezesseis anos dançando em pubs para sustentar um bebê...
— Me deixa em paz, Feely — sussurrou ela, a voz carregada de uma urgência cortante. — Devolve isso e esquece que me viu.
Patrick percebeu o medo genuíno nos olhos dela. Não era o medo de uma fã tímida, era o medo de alguém que tinha algo precioso a perder. Ele abriu a mão, deixando que ela pegasse o prendedor.
— Eu não vou contar para ninguém — disse ele, a sinceridade suavizando seus traços. — Mas eu gostaria de ouvir você cantar de novo. Sem o barulho dos bêbados.
Lúcia não esperou para ouvir o resto. Ela pegou o objeto, fechou o armário com força e saiu apressada, desaparecendo na multidão de estudantes.
Patrick ficou parado, observando-a ir embora. Ele sempre achou que conhecia todo mundo naquela escola, que a vida em Cork era um livro aberto. Mas Lúcia era um capítulo arrancado, uma história escrita em uma língua que ele ainda não entendia.
Mais tarde, na oficina, Joey notou o silêncio ainda mais profundo de Lúcia.
— Algum problema na escola? — perguntou ele, enquanto passava uma graxa nas engrenagens.
— Alguém me viu ontem — Lúcia respondeu, sem parar de lixar a peça em suas mãos.
— Um aluno?
— Patrick Feely.
Joey soltou um assobio baixo.
— O garoto do rúgbi? Aquele ali é um bom rapaz, Lúcia. O pai dele é um homem decente.
— Decente ou não, ele é um risco — Lúcia parou, olhando para as próprias mãos. — Se ele começar a fazer perguntas... se ele descobrir sobre o Otto...
— Talvez ele só tenha ficado impressionado — Joey sugeriu. — Nem todo mundo quer destruir o que você construiu, pequena. Algumas pessoas só querem admirar a força que você tem.
Lúcia não acreditava nisso. Para ela, o mundo era um lugar onde a admiração se transformava em posse e a posse se transformava em violência. Ela aprendeu isso da pior maneira possível, vendo o sangue de sua mãe no chão da cozinha.
A semana passou como um borrão de cansaço extremo. Patrick não se aproximou dela novamente na escola, mas Lúcia sentia o olhar dele. Ele não era invasivo, era apenas... presente. Ele se sentava em mesas próximas no refeitório, passava por ela nos corredores e, às vezes, apenas acenava com a cabeça.
Na sexta-feira à noite, Lúcia estava exausta. Otto estava com o nascimento dos dentes, o que significava que ela não dormia há três dias. Seus movimentos no palco do pub estavam mais lentos, sua voz mais trêmula.
Quando ela terminou sua apresentação e saiu pelos fundos para pegar um pouco de ar frio, encontrou Patrick sentado no capô de um carro velho no beco.
Ela parou, o susto a fazendo recuar.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou ela, cruzando os braços sobre o figurino fino, tremendo com o vento frio de Cork.
— Eu disse que queria ouvir você cantar de novo — Patrick pulou do carro, caminhando em direção a ela. Ele tirou a jaqueta do time e a estendeu. — Você está tremendo.
— Eu não quero sua jaqueta, Patrick. Vá para casa. Vá para suas festas.
— Não tem festa hoje — ele disse, ainda segurando a jaqueta. — E eu não vou a lugar nenhum até ter certeza de que você está bem. Você parecia que ia desmaiar lá dentro.
Lúcia sentiu as lágrimas arderem em seus olhos, um sinal perigoso de fraqueza.
— Eu estou bem. Eu sempre estou bem. Eu tenho que estar.
— Ninguém tem que estar bem o tempo todo, Lúcia — Patrick deu mais um passo. Ele era muito maior que ela, mas não parecia ameaçador. Ele parecia um porto seguro em meio à tempestade que era a vida dela. — Por que você trabalha tanto? Por que se esconde?
— Você não entenderia — ela desviou o olhar. — Sua vida é rúgbi, notas boas e jantares em família. Minha vida é... sobrevivência.
— Então me ensina — disse ele, a voz baixa e séria. — Me ensina a entender.
Lúcia olhou para ele, e por um breve segundo, a barreira que ela construiu em volta do seu coração tremeu. Ela viu nos olhos de Patrick não pena, mas um interesse genuíno, uma curiosidade que não buscava tirar nada dela, apenas estar ali.
— Eu tenho um irmão — ela confessou, a voz mal saindo. — Ele tem um ano. Meus pais... eles se foram. Se alguém descobrir que eu estou sozinha com ele, eles o levam de mim. Eles o colocam no sistema. E eu sou a única coisa que ele tem.
Patrick ficou em silêncio por um longo tempo. O peso daquela revelação pairou entre eles no beco escuro. Ele não disse "sinto muito", porque sabia que palavras assim eram vazias para alguém como ela.
— Ele gosta de música? — perguntou Patrick, finalmente.
Lúcia piscou, surpresa pela pergunta.
— Ele gosta quando eu canto para ele dormir.
Patrick sorriu, um sorriso pequeno e gentil.
— Então você tem o público mais importante do mundo.
Ele colocou a jaqueta sobre os ombros dela desta vez, e Lúcia não protestou. O calor do tecido e o cheiro de sabão em pó e algo que era puramente Patrick a envolveram.
— Eu não vou contar a ninguém, Lúcia. Seu segredo está seguro comigo. E se você precisar de ajuda... com a mecânica, com o bar, ou apenas com o Otto... eu estou aqui.
— Por que você faria isso? — ela perguntou, genuinamente confusa. — Você nem me conhece.
— Eu acho que conheço o suficiente — ele respondeu, tocando levemente a ponta dos dedos no ombro dela. — Eu conheço a garota que não desiste. E eu gostaria de conhecer a garota por trás de toda essa graxa e seda.
Lúcia o observou se afastar, desaparecendo na escuridão do beco. Pela primeira vez em muito tempo, o peso em seus ombros pareceu um pouco mais leve. Ela sabia que o caminho seria longo, que a confiança era um luxo que ela não podia pagar facilmente, mas enquanto caminhava de volta para buscar Otto, ela não se sentia tão sozinha.
O romance entre eles não seria como os dos livros que ela lia escondida na biblioteca. Não haveria grandes gestos imediatos ou declarações apaixonadas sob a chuva. Seria construído no silêncio dos corredores da Tommen, nas trocas de olhares na oficina de Joey e na proteção silenciosa que Patrick começava a oferecer.
Era um começo lento. Um degrau de cada vez, em uma escada que Lúcia tinha medo de subir, mas que Patrick estava disposto a escalar ao lado dela, sem pressa, apenas esperando que ela permitisse que ele segurasse sua mão.
Ao chegar em casa, Lúcia tirou a jaqueta de Patrick e a dobrou cuidadosamente sobre a poltrona. Ela pegou Otto no colo, que resmungava em seu sono, e o apertou contra o peito.
— Vai ficar tudo bem, pequeno — sussurrou ela, embora não soubesse se estava mentindo. — Talvez existam pessoas boas, afinal.
Lá fora, a chuva de Cork começou a cair, lavando as ruas, mas as manchas de óleo nas mãos de Lúcia e as cicatrizes em seu coração permaneceriam. No entanto, pela primeira vez, ela não sentia que precisava escondê-las de todo o mundo. Patrick as tinha visto, e ele não tinha ido embora.
E para Lúcia, isso era o começo de algo que ela nunca se atreveu a sonhar: esperança.
