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A dualidade do passado
Fandom: Autoral
Criado: 04/06/2026
Tags
DramaAngústiaPsicológicoAçãoSuspenseDistopiaSobrevivênciaEstudo de PersonagemExperimentação HumanaFicção CientíficaSombrioMistérioCrimeViolência GráficaTragédia
Sombras do Passado, Rostos de Agora
O vidro fumê da sala de reuniões da Agência Central não conseguia esconder a tensão que pairava no ar. Helena apertava a borda da mesa com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos. Ao seu lado, Marcus mantinha o olhar fixo na porta, o maxilar travado em uma linha rígida de expectativa e medo. Fazia dois anos. Setecentos e trinta dias de culpa, de pesadelos com o fogo do galpão e do silêncio ensurdecedor que se seguiu àquela traição armada por terceiros.
Quando a porta finalmente se abriu, o tempo pareceu desacelerar.
Quatro jovens entraram. Eles não caminhavam como os adolescentes assustados que Helena lembrava; eles se moviam com uma precisão predatória, uma coordenação silenciosa que apenas anos de sobrevivência extrema poderiam esculpir.
— Diretor Vance — disse o rapaz à frente. Sua voz era profunda, desprovida de qualquer calor. — Fomos informados de que nossa transferência da Divisão Norte para a Central foi solicitada com urgência máxima. Podemos saber o motivo da interrupção do nosso cronograma?
Marcus soltou um suspiro trêmulo, quase um soluço sufocado.
— Harry? — sussurrou ele, dando um passo à frente.
O rapaz de cabelos escuros e olhar gélido inclinou levemente a cabeça, os olhos azuis — que antes brilhavam com curiosidade e agora pareciam feitos de aço — encontraram os de Marcus sem um pingo de reconhecimento.
— Meu nome é Jack, Agente Marcus. E estes são Josh, Luna e Kira. Creio que houve um equívoco na sua recepção.
Helena levantou-se, os olhos marejados enquanto analisava a garota ao lado de Jack. Luna tinha a mesma estrutura óssea de Sarah, mas onde antes havia um sorriso doce, agora existia uma cicatriz fina que descia da têmpora até a mandíbula, e um olhar que parecia enxergar através das paredes.
— Sarah... Alyssa... Oliver... — Helena murmurou os nomes como se fossem uma oração. — Vocês estão vivos. Nós sabíamos. Nós nunca paramos de procurar.
A garota que agora atendia pelo nome de Kira deu um passo à frente, cruzando os braços. Seu porte era atlético, e ela carregava uma aura de perigo que a antiga Alyssa, a órfã tímida que gostava de computadores, jamais possuiu.
— Com todo o respeito, senhora — disse Kira, a voz cortante como uma lâmina —, não sabemos de quem estão falando. Somos a Equipe Phoenix. Nossa taxa de sucesso é de 99,8% e não temos registros de serviço nesta sede antes de hoje. Se o objetivo desta reunião é um exercício psicológico de identificação errônea, sugiro que passemos para o briefing da missão.
O Diretor Vance, sentado à cabeceira da mesa, pigarreou. Ele observava a cena com olhos analíticos. Ele vira os relatórios. Viu como esses quatro jovens surgiram do nada em uma sede remota da agência meses após a explosão, com identidades novas, alegando serem agentes de um programa secreto desativado que ninguém conseguia rastrear totalmente. Eles eram eficientes demais, letais demais.
— Sentem-se — ordenou Vance. — Jack, Josh, Luna, Kira. Ou como preferirem ser chamados.
Eles se sentaram em sincronia perfeita. Josh — que Marcus jurava ser Oliver, o garoto que costumava contar piadas para aliviar o estresse — mantinha as mãos sobre a mesa, imóveis. Não havia o tique nervoso de tamborilar os dedos. Não havia o brilho de reconhecimento.
— Há dois anos — começou Vance, projetando fotos antigas no telão —, quatro agentes teens desapareceram após uma sabotagem interna. Harry, Oliver, Sarah e Alyssa. Foram dados como mortos na explosão de um galpão. No entanto, a anatomia facial, o DNA compatível em 99,9% que coletamos discretamente de seus copos de café na semana passada e as habilidades de combate sugerem que vocês são eles.
Jack não piscou.
— Coincidências genéticas e semelhanças físicas são comuns em um mundo de manipulação de dados, Diretor — respondeu Jack com calma absoluta. — O que importa são os fatos. Os agentes que o senhor mencionou eram traidores, segundo os arquivos da época, não eram?
— Eles foram inocentados! — Helena exclamou, a voz embargada. — Nós descobrimos a sabotagem. Foi o Agente Miller que armou para vocês. Nós sentimos muito... eu sinto muito por não termos acreditado desde o início. Por favor, parem com esse teatro. Vocês estão em casa agora.
Luna soltou uma risada curta e sem humor, um som que gelou o sangue de Helena.
— "Casa" é um conceito relativo para quem cresceu em orfanatos e depois foi jogado em covas de lobos, Agente Helena. — Ela se inclinou para frente, os olhos fixos na mulher. — Não sabemos quem são esses adolescentes de quem falam. Mas se eles passaram pelo que nós passamos para sobreviver... eu garanto que eles morreram naquele galpão. O que sobrou não são as pessoas que vocês conheceram.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Marcus tentava buscar qualquer sinal de hesitação, um tremor nas mãos de Josh, um olhar de saudade em Kira. Nada. Eles eram máquinas perfeitas de contenção emocional.
— Bem — disse Vance, pegando uma pasta de couro —. Independentemente de quem vocês dizem ser, a Agência Central detém os contratos originais de Harry, Oliver, Sarah e Alyssa. Como os corpos nunca foram encontrados e o DNA coincide, legalmente, vocês ainda estão sob o vínculo empregatício desta sede. Os contratos de órfãos da agência são vitalícios até a maioridade, com cláusulas de exclusividade.
Jack estreitou os olhos. Pela primeira vez, uma centelha de algo real — talvez ódio — brilhou em suas pupilas.
— Está nos forçando a ficar aqui? — perguntou Jack.
— Estou ativando a cláusula de retorno — corrigiu Vance. — Vocês serão reintegrados à supervisão dos Agentes Helena e Marcus. Eles serão seus oficiais de ligação. Vocês viverão nos alojamentos da sede e cumprirão as missões designadas por mim.
— Isso é sequestro legalizado — disparou Josh, sua primeira intervenção na conversa. A voz era áspera, como se tivesse sido gasta por gritos ou silêncios prolongados.
— É cumprimento de contrato — retrucou Vance. — Podem se retirar. Helena e Marcus os levarão aos novos aposentos.
Os quatro se levantaram ao mesmo tempo. A tensão era quase palpável enquanto saíam da sala, seguidos de perto pelos dois agentes veteranos. No corredor, Helena tentou tocar o ombro de Luna, mas a jovem se esquivou com um movimento fluido, quase instintivo.
— Não me toque — disse Luna, a voz baixa e perigosa.
— Sarah, eu só queria...
— Meu nome é Luna. Se me chamar por esse outro nome novamente, considerarei uma agressão e agirei em legítima defesa. Fui clara?
Helena recuou, sentindo o impacto das palavras como um soco no estômago. Marcus, tentando manter a compostura, caminhava ao lado de Jack.
— O que aconteceu na floresta? — perguntou Marcus em voz baixa. — Depois da explosão. Nós vimos os rastros. Sabemos que vocês sobreviveram por semanas caçando e se escondendo. Como chegaram à Divisão Norte? Como conseguiram essas novas identidades?
Jack parou de caminhar e encarou Marcus. A diferença de altura agora era mínima. O menino que Marcus treinava desaparecera, substituído por um homem que parecia ter visto o fim do mundo e retornado.
— Você está fazendo perguntas sobre pessoas mortas, Agente Marcus — disse Jack. — Se quer que essa "reintegração" funcione, pare de procurar fantasmas. Nós estamos aqui para trabalhar. Se a agência quer os melhores, ela nos tem. Mas não espere gratidão ou reencontros emocionantes.
— Nós nunca desistimos de vocês — insistiu Marcus, a voz falhando.
— Esse foi o erro de vocês — interrompeu Kira, passando por eles. — Deveriam ter deixado os mortos em paz.
Eles chegaram aos alojamentos. Eram quartos modernos, mas para os quatro jovens, pareciam celas de luxo. Assim que a porta principal se fechou e eles tiveram certeza de que os microfones da sala ainda não haviam sido todos mapeados, os quatro se reuniram no centro da área comum.
O jogo psicológico havia começado. Eles sabiam que Helena e Marcus passariam cada minuto procurando por uma falha, por um momento de fraqueza que provasse que Harry, Oliver, Sarah e Alyssa ainda estavam lá dentro.
— Eles não vão parar — sussurrou Josh, examinando os cantos do teto em busca de câmeras ocultas. — Vance usou o contrato. Ele nos encurralou.
— Deixe que tentem — respondeu Jack, sua voz agora um sussurro quase inaudível, mas carregado de autoridade. — Eles querem os adolescentes que traíram? Aqueles adolescentes morreram de fome, frio e medo naquela floresta enquanto esperavam por um resgate que nunca veio.
— Kira tem razão — Luna acrescentou, limpando uma mancha invisível em sua faca de combate que ela já havia sacado. — Se eles querem que sejamos Harry, Oliver, Sarah e Alyssa, vamos mostrar a eles que o preço de transformar crianças em armas é que, eventualmente, as armas perdem a memória de quem as empunhava.
— Mas e o plano? — perguntou Kira, olhando para Jack. — Viemos para cá por um motivo. A sabotagem de dois anos atrás... Miller foi apenas a ponta do iceberg. A Agência Central ainda tem os arquivos que precisamos.
Jack concordou, um sorriso sombrio e imperceptível surgindo em seus lábios.
— Vamos jogar o jogo deles. Vamos deixar que pensem que estão nos "recuperando". Enquanto Helena e Marcus choram pelo passado, nós vamos desmantelar o futuro desta agência por dentro.
Na sala de monitoramento, Helena observava as telas. Ela via os quatro jovens conversando, mas não conseguia ouvir nada — eles haviam encontrado uma zona morta de áudio que nem os técnicos sabiam que existia.
— Eles estão tão diferentes, Marcus — disse ela, encostando a testa no monitor frio. — O que fizeram com eles?
— A pergunta não é o que fizeram com eles — Marcus respondeu, observando Jack através da tela, que naquele exato momento olhou diretamente para a câmera oculta, como se soubesse exatamente onde ele estava. — A pergunta é o que eles pretendem fazer conosco.
O dilema estava traçado. Para a agência, era uma missão de resgate de almas perdidas. Para os quatro jovens, era uma infiltração em território inimigo. Harry, Oliver, Sarah e Alyssa podiam até estar ali, trancados em algum lugar profundo de suas mentes, mas Jack, Josh, Luna e Kira eram os que agora detinham as chaves.
E eles não tinham a menor intenção de abrir a porta.
— Eles dizem que não são eles — murmurou Vance, aparecendo atrás de Helena e Marcus. — Mas o medo nos olhos deles quando viram vocês dois... aquele breve milissegundo antes das máscaras caírem... eles são eles. E eu vou provar isso, nem que tenha que quebrá-los novamente.
— Senhor — Marcus virou-se, indignado —, eles já passaram por sofrimento suficiente!
— Na espionagem, Agente Marcus, o sofrimento é apenas uma ferramenta de calibração. Se eles são os melhores, eu quero saber por que voltaram. Ninguém com a taxa de sucesso deles é capturado por um contrato antigo, a menos que queira ser capturado.
O diretor saiu da sala, deixando um rastro de dúvida no ar. Helena voltou a olhar para a tela. Luna estava sentada no chão, meditando, enquanto Jack limpava o que parecia ser um dispositivo eletrônico.
— Sarah... — Helena sussurrou para o vidro.
Lá embaixo, Luna abriu os olhos. Ela não conseguia ouvir Helena, mas sentia o peso do olhar. Ela se levantou, caminhou até a parede onde sabia que a câmera estava escondida e, com um movimento rápido, cobriu a lente com um pedaço de fita adesiva preta.
A tela de Helena ficou escura.
O jogo não estava apenas começando. Ele já havia sido vencido por quem não tinha mais nada a perder.
Quando a porta finalmente se abriu, o tempo pareceu desacelerar.
Quatro jovens entraram. Eles não caminhavam como os adolescentes assustados que Helena lembrava; eles se moviam com uma precisão predatória, uma coordenação silenciosa que apenas anos de sobrevivência extrema poderiam esculpir.
— Diretor Vance — disse o rapaz à frente. Sua voz era profunda, desprovida de qualquer calor. — Fomos informados de que nossa transferência da Divisão Norte para a Central foi solicitada com urgência máxima. Podemos saber o motivo da interrupção do nosso cronograma?
Marcus soltou um suspiro trêmulo, quase um soluço sufocado.
— Harry? — sussurrou ele, dando um passo à frente.
O rapaz de cabelos escuros e olhar gélido inclinou levemente a cabeça, os olhos azuis — que antes brilhavam com curiosidade e agora pareciam feitos de aço — encontraram os de Marcus sem um pingo de reconhecimento.
— Meu nome é Jack, Agente Marcus. E estes são Josh, Luna e Kira. Creio que houve um equívoco na sua recepção.
Helena levantou-se, os olhos marejados enquanto analisava a garota ao lado de Jack. Luna tinha a mesma estrutura óssea de Sarah, mas onde antes havia um sorriso doce, agora existia uma cicatriz fina que descia da têmpora até a mandíbula, e um olhar que parecia enxergar através das paredes.
— Sarah... Alyssa... Oliver... — Helena murmurou os nomes como se fossem uma oração. — Vocês estão vivos. Nós sabíamos. Nós nunca paramos de procurar.
A garota que agora atendia pelo nome de Kira deu um passo à frente, cruzando os braços. Seu porte era atlético, e ela carregava uma aura de perigo que a antiga Alyssa, a órfã tímida que gostava de computadores, jamais possuiu.
— Com todo o respeito, senhora — disse Kira, a voz cortante como uma lâmina —, não sabemos de quem estão falando. Somos a Equipe Phoenix. Nossa taxa de sucesso é de 99,8% e não temos registros de serviço nesta sede antes de hoje. Se o objetivo desta reunião é um exercício psicológico de identificação errônea, sugiro que passemos para o briefing da missão.
O Diretor Vance, sentado à cabeceira da mesa, pigarreou. Ele observava a cena com olhos analíticos. Ele vira os relatórios. Viu como esses quatro jovens surgiram do nada em uma sede remota da agência meses após a explosão, com identidades novas, alegando serem agentes de um programa secreto desativado que ninguém conseguia rastrear totalmente. Eles eram eficientes demais, letais demais.
— Sentem-se — ordenou Vance. — Jack, Josh, Luna, Kira. Ou como preferirem ser chamados.
Eles se sentaram em sincronia perfeita. Josh — que Marcus jurava ser Oliver, o garoto que costumava contar piadas para aliviar o estresse — mantinha as mãos sobre a mesa, imóveis. Não havia o tique nervoso de tamborilar os dedos. Não havia o brilho de reconhecimento.
— Há dois anos — começou Vance, projetando fotos antigas no telão —, quatro agentes teens desapareceram após uma sabotagem interna. Harry, Oliver, Sarah e Alyssa. Foram dados como mortos na explosão de um galpão. No entanto, a anatomia facial, o DNA compatível em 99,9% que coletamos discretamente de seus copos de café na semana passada e as habilidades de combate sugerem que vocês são eles.
Jack não piscou.
— Coincidências genéticas e semelhanças físicas são comuns em um mundo de manipulação de dados, Diretor — respondeu Jack com calma absoluta. — O que importa são os fatos. Os agentes que o senhor mencionou eram traidores, segundo os arquivos da época, não eram?
— Eles foram inocentados! — Helena exclamou, a voz embargada. — Nós descobrimos a sabotagem. Foi o Agente Miller que armou para vocês. Nós sentimos muito... eu sinto muito por não termos acreditado desde o início. Por favor, parem com esse teatro. Vocês estão em casa agora.
Luna soltou uma risada curta e sem humor, um som que gelou o sangue de Helena.
— "Casa" é um conceito relativo para quem cresceu em orfanatos e depois foi jogado em covas de lobos, Agente Helena. — Ela se inclinou para frente, os olhos fixos na mulher. — Não sabemos quem são esses adolescentes de quem falam. Mas se eles passaram pelo que nós passamos para sobreviver... eu garanto que eles morreram naquele galpão. O que sobrou não são as pessoas que vocês conheceram.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Marcus tentava buscar qualquer sinal de hesitação, um tremor nas mãos de Josh, um olhar de saudade em Kira. Nada. Eles eram máquinas perfeitas de contenção emocional.
— Bem — disse Vance, pegando uma pasta de couro —. Independentemente de quem vocês dizem ser, a Agência Central detém os contratos originais de Harry, Oliver, Sarah e Alyssa. Como os corpos nunca foram encontrados e o DNA coincide, legalmente, vocês ainda estão sob o vínculo empregatício desta sede. Os contratos de órfãos da agência são vitalícios até a maioridade, com cláusulas de exclusividade.
Jack estreitou os olhos. Pela primeira vez, uma centelha de algo real — talvez ódio — brilhou em suas pupilas.
— Está nos forçando a ficar aqui? — perguntou Jack.
— Estou ativando a cláusula de retorno — corrigiu Vance. — Vocês serão reintegrados à supervisão dos Agentes Helena e Marcus. Eles serão seus oficiais de ligação. Vocês viverão nos alojamentos da sede e cumprirão as missões designadas por mim.
— Isso é sequestro legalizado — disparou Josh, sua primeira intervenção na conversa. A voz era áspera, como se tivesse sido gasta por gritos ou silêncios prolongados.
— É cumprimento de contrato — retrucou Vance. — Podem se retirar. Helena e Marcus os levarão aos novos aposentos.
Os quatro se levantaram ao mesmo tempo. A tensão era quase palpável enquanto saíam da sala, seguidos de perto pelos dois agentes veteranos. No corredor, Helena tentou tocar o ombro de Luna, mas a jovem se esquivou com um movimento fluido, quase instintivo.
— Não me toque — disse Luna, a voz baixa e perigosa.
— Sarah, eu só queria...
— Meu nome é Luna. Se me chamar por esse outro nome novamente, considerarei uma agressão e agirei em legítima defesa. Fui clara?
Helena recuou, sentindo o impacto das palavras como um soco no estômago. Marcus, tentando manter a compostura, caminhava ao lado de Jack.
— O que aconteceu na floresta? — perguntou Marcus em voz baixa. — Depois da explosão. Nós vimos os rastros. Sabemos que vocês sobreviveram por semanas caçando e se escondendo. Como chegaram à Divisão Norte? Como conseguiram essas novas identidades?
Jack parou de caminhar e encarou Marcus. A diferença de altura agora era mínima. O menino que Marcus treinava desaparecera, substituído por um homem que parecia ter visto o fim do mundo e retornado.
— Você está fazendo perguntas sobre pessoas mortas, Agente Marcus — disse Jack. — Se quer que essa "reintegração" funcione, pare de procurar fantasmas. Nós estamos aqui para trabalhar. Se a agência quer os melhores, ela nos tem. Mas não espere gratidão ou reencontros emocionantes.
— Nós nunca desistimos de vocês — insistiu Marcus, a voz falhando.
— Esse foi o erro de vocês — interrompeu Kira, passando por eles. — Deveriam ter deixado os mortos em paz.
Eles chegaram aos alojamentos. Eram quartos modernos, mas para os quatro jovens, pareciam celas de luxo. Assim que a porta principal se fechou e eles tiveram certeza de que os microfones da sala ainda não haviam sido todos mapeados, os quatro se reuniram no centro da área comum.
O jogo psicológico havia começado. Eles sabiam que Helena e Marcus passariam cada minuto procurando por uma falha, por um momento de fraqueza que provasse que Harry, Oliver, Sarah e Alyssa ainda estavam lá dentro.
— Eles não vão parar — sussurrou Josh, examinando os cantos do teto em busca de câmeras ocultas. — Vance usou o contrato. Ele nos encurralou.
— Deixe que tentem — respondeu Jack, sua voz agora um sussurro quase inaudível, mas carregado de autoridade. — Eles querem os adolescentes que traíram? Aqueles adolescentes morreram de fome, frio e medo naquela floresta enquanto esperavam por um resgate que nunca veio.
— Kira tem razão — Luna acrescentou, limpando uma mancha invisível em sua faca de combate que ela já havia sacado. — Se eles querem que sejamos Harry, Oliver, Sarah e Alyssa, vamos mostrar a eles que o preço de transformar crianças em armas é que, eventualmente, as armas perdem a memória de quem as empunhava.
— Mas e o plano? — perguntou Kira, olhando para Jack. — Viemos para cá por um motivo. A sabotagem de dois anos atrás... Miller foi apenas a ponta do iceberg. A Agência Central ainda tem os arquivos que precisamos.
Jack concordou, um sorriso sombrio e imperceptível surgindo em seus lábios.
— Vamos jogar o jogo deles. Vamos deixar que pensem que estão nos "recuperando". Enquanto Helena e Marcus choram pelo passado, nós vamos desmantelar o futuro desta agência por dentro.
Na sala de monitoramento, Helena observava as telas. Ela via os quatro jovens conversando, mas não conseguia ouvir nada — eles haviam encontrado uma zona morta de áudio que nem os técnicos sabiam que existia.
— Eles estão tão diferentes, Marcus — disse ela, encostando a testa no monitor frio. — O que fizeram com eles?
— A pergunta não é o que fizeram com eles — Marcus respondeu, observando Jack através da tela, que naquele exato momento olhou diretamente para a câmera oculta, como se soubesse exatamente onde ele estava. — A pergunta é o que eles pretendem fazer conosco.
O dilema estava traçado. Para a agência, era uma missão de resgate de almas perdidas. Para os quatro jovens, era uma infiltração em território inimigo. Harry, Oliver, Sarah e Alyssa podiam até estar ali, trancados em algum lugar profundo de suas mentes, mas Jack, Josh, Luna e Kira eram os que agora detinham as chaves.
E eles não tinham a menor intenção de abrir a porta.
— Eles dizem que não são eles — murmurou Vance, aparecendo atrás de Helena e Marcus. — Mas o medo nos olhos deles quando viram vocês dois... aquele breve milissegundo antes das máscaras caírem... eles são eles. E eu vou provar isso, nem que tenha que quebrá-los novamente.
— Senhor — Marcus virou-se, indignado —, eles já passaram por sofrimento suficiente!
— Na espionagem, Agente Marcus, o sofrimento é apenas uma ferramenta de calibração. Se eles são os melhores, eu quero saber por que voltaram. Ninguém com a taxa de sucesso deles é capturado por um contrato antigo, a menos que queira ser capturado.
O diretor saiu da sala, deixando um rastro de dúvida no ar. Helena voltou a olhar para a tela. Luna estava sentada no chão, meditando, enquanto Jack limpava o que parecia ser um dispositivo eletrônico.
— Sarah... — Helena sussurrou para o vidro.
Lá embaixo, Luna abriu os olhos. Ela não conseguia ouvir Helena, mas sentia o peso do olhar. Ela se levantou, caminhou até a parede onde sabia que a câmera estava escondida e, com um movimento rápido, cobriu a lente com um pedaço de fita adesiva preta.
A tela de Helena ficou escura.
O jogo não estava apenas começando. Ele já havia sido vencido por quem não tinha mais nada a perder.
