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Fandom: Nenhum

Criado: 04/06/2026

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Entre o Sangue e a Seda

O escritório de Emanuel era um santuário de minimalismo e funcionalidade, contrastando severamente com a opulência do resto da mansão. As paredes exibiam alguns esboços originais de tatuagens que valiam fortunas, mas o centro de tudo era a mesa de carvalho escuro onde ele geria seu império. O silêncio da sala foi interrompido pelo toque insistente de um telefone que raramente tocava: sua linha privada, resquício de uma vida que ele acreditava ter deixado para trás.

Emanuel suspirou, massageando as têmporas. O estresse de gerenciar estúdios em três continentes já era o suficiente para deixá-lo em um estado de tensão constante. Ele atendeu sem olhar o identificador.

— Emanuel falando.

— O tempo não parece ter amaciado sua voz, garoto. — A voz do outro lado era rouca, carregada de autoridade e anos de tabaco. O Comandante Vargas.

Emanuel empertigou-se na cadeira, a postura relaxada desaparecendo instantaneamente, substituída pela rigidez do investigador de elite que um dia fora.

— Comandante. Achei que tivéssemos um acordo sobre não me ligar a menos que o mundo estivesse acabando.

— Para algumas pessoas, ele está acabando, Emanuel. Você acompanhou as notícias? O "Assassino das Sapatilhas"? — O tom de Vargas ficou sombrio. — Três bailarinas em dois meses. Todas mortas com uma precisão que beira o ritualístico. A polícia local está perdida. Eu preciso dos seus olhos, da sua capacidade de enxergar o que ninguém vê.

Emanuel fechou os olhos, sentindo o peso da responsabilidade esmagar sua rotina planejada. Ele tinha uma família agora. Sara, as gêmeas... Mas o instinto de proteção, a necessidade de ordem que o fizera um dos melhores investigadores do país, ainda pulsava em suas veias.

— Eu não sou mais esse homem, Vargas. Tenho negócios, tenho filhas.

— É exatamente por isso que estou ligando. Temos uma testemunha. Uma sobrevivente potencial que está na lista dele. Ela não tem família, não tem para onde ir e o programa de proteção local está infiltrado. Preciso de um lugar seguro. Um lugar que ninguém consiga invadir. E preciso que você a mantenha viva enquanto analisa as evidências que vou te enviar.

Emanuel hesitou. Ele sabia que aceitar aquilo mudaria a dinâmica de sua casa. Sara, com seu temperamento vulcânico e possessivo, não aceitaria facilmente uma estranha sob seu teto. Mas a ideia de uma jovem sendo caçada como um animal despertou seu lado mais protetor.

— Quem é ela? — perguntou ele, a voz baixa e decidida.

— Eduarda. Vinte anos. Uma das promessas do corpo de baile nacional. Ela é o próximo alvo, Emanuel. Se ela ficar sozinha, ela morre.

— Traga-a para cá hoje à noite. Mas Vargas... se um único fio de cabelo da minha família for tocado por causa desse caso, eu mesmo caçarei você.

Emanuel desligou e permaneceu imóvel por longos minutos. Ele precisava contar a Sara.

A porta do escritório se abriu com um estrondo familiar. Sara entrou, exalando o perfume caro e a confiança que sempre a precediam. Ela usava um vestido vermelho justo que acentuava suas curvas esculpidas, o cabelo loiro platinado perfeitamente alinhado. Atrás dela, uma babá carregava Ágata, que já exibia um pequeno laço de grife no pouco cabelo que tinha, enquanto Sara segurava alguns relatórios administrativos.

— Aqueles idiotas de Londres erraram a margem de lucro de novo, Manu — disse ela, jogando os papéis sobre a mesa dele. — Eu já mandei o reajuste, mas você precisa assinar.

Ela se aproximou, sentando-se no colo dele com a naturalidade de quem era dona do mundo. Sara era vulgar para alguns, intensa para outros, mas para Emanuel, ela era a força da natureza que ele amava.

— Você parece mais tenso que o normal — disse ela, passando as unhas longas e bem feitas pela nuca dele. — O que aconteceu?

— Vamos ter um hóspede, Sara. Por tempo indeterminado.

Sara semicerrou os olhos, a expressão de "mini diva" de Ágata, que observava do colo da babá, sendo um reflexo perfeito da mãe.

— Hóspede? Que tipo de hóspede? Você sabe que eu não gosto de gente estranha circulando na minha casa, Emanuel. Já basta a equipe de limpeza e as babás.

— É um favor para o Comandante Vargas. Um caso de segurança nacional. Uma moça, uma bailarina. Ela está correndo risco de vida e vai ficar sob minha proteção.

Sara soltou uma risada sarcástica, levantando-se e cruzando os braços, o que fez seus seios siliconados se destacarem sob o tecido fino do vestido.

— Uma bailarina? Sério, Emanuel? Você vai transformar nossa casa em um abrigo para órfãs indefesas agora? Eu tenho muito o que fazer na administração para ficar bancando a anfitriã de uma garotinha assustada.

— Ela não é uma convidada, Sara. É uma responsabilidade. Ela vai ficar na ala leste. Não vai interferir na sua rotina.

— É bom que não interfira mesmo — retrucou Sara, pegando Ágata no colo e fazendo um biquinho para a bebê, que retribuiu com um olhar de superioridade infantil. — Se ela for minimamente útil, talvez eu a coloque para organizar meu closet. Mas se ela choramingar demais, eu mesma a coloco para fora.

Emanuel apenas assentiu, sabendo que discutir com Sara quando ela estava em modo defensivo era inútil. Ele a amava justamente por essa garra, por essa falta de filtros, mesmo que às vezes fosse exaustivo.

Algumas horas depois, o som de um carro parando no pátio de cascalho anunciou a chegada. Emanuel desceu as escadas, encontrando Sara já posicionada na sala de estar, como uma rainha pronta para avaliar um súdito. Maya, a outra gêmea, estava no tapete, brincando silenciosamente com um urso de pelúcia. Ao contrário de Ágata, Maya era calma, observadora e tinha um olhar doce que muitas vezes irritava Sara por ser "passivo demais".

A porta foi aberta por um dos seguranças de Emanuel. Vargas entrou primeiro, seguido por uma figura que parecia pequena demais para o mundo exterior.

Eduarda vestia um cardigã bege claro sobre um vestido de flores miúdas. Seu cabelo castanho escuro estava preso em um coque frouxo, e ela segurava as alças de uma mochila pequena como se sua vida dependesse disso. Quando seus olhos encontraram os de Emanuel, ele sentiu um solavanco inesperado no peito. Eram olhos grandes, expressivos e carregados de uma melancolia que clamava por proteção.

— Emanuel, esta é Eduarda — disse Vargas.

A jovem deu um passo à frente, sua presença sendo o oposto exato da de Sara. Eduarda era leve, esguia, e emanava uma fragilidade que parecia quase palpável.

— Muito prazer... e obrigada por me receber — disse ela, a voz tão suave que parecia uma carícia.

Sara soltou um ruído nasalado, avaliando a garota de cima a baixo.

— Ela parece que vai quebrar se bater um vento mais forte — comentou Sara, sem qualquer pudor. — Você come, garota? Ou vive de luz e ensaios?

Eduarda baixou o olhar, as bochechas tingindo-se de um rosa delicado. Ela se encolheu levemente, buscando o apoio visual de Emanuel.

— Sara, por favor — repreendeu Emanuel, embora seu tom fosse mais de cansaço do que de raiva. Ele caminhou até Eduarda. — Você está segura aqui. Ninguém vai entrar nesta casa sem passar por mim.

— Obrigada, senhor... Emanuel.

— Apenas Emanuel.

Nesse momento, algo inesperado aconteceu. Maya, que geralmente ignorava estranhos e preferia seu próprio mundo silencioso, engatinhou rapidamente em direção à recém-chegada. A bebê parou diante de Eduarda e, com um sorriso banguela e radiante, esticou os bracinhos, soltando um som animado.

Eduarda arregalou os olhos, sua expressão de medo transformando-se instantaneamente em uma doçura infinita. Ela se ajoelhou no chão, sem se importar com a etiqueta ou com o olhar julgador de Sara.

— Oi, pequena... — sussurrou Eduarda, estendendo as mãos finas.

Maya não hesitou. Ela se jogou nos braços de Eduarda, escondendo o rosto no pescoço da bailarina e suspirando satisfeita. Foi uma conexão instantânea, um reconhecimento de almas que deixou a sala em silêncio por alguns segundos.

— Mas o que é isso? — exclamou Sara, visivelmente incomodada. — Maya nunca faz isso com ninguém. Ela é uma manhosa, sempre foi, mas isso é ridículo.

Sara caminhou até elas, tentando pegar a filha, mas Maya se agarrou à blusa de Eduarda, começando a choramingar só com a menção de ser afastada.

— Deixe-a, Sara — disse Emanuel, observando a cena com um fascínio crescente.

Havia algo na forma como Eduarda segurava o bebê — com uma naturalidade protetora, balançando-a levemente — que mexeu com os instintos mais profundos de Emanuel. Ele olhou para Sara, que estava parada com as mãos nos quadris, as unhas impecáveis e a expressão de desdém, e depois para Eduarda, que parecia um anjo caído em meio ao caos de sua vida.

— Ela é tão doce — comentou Eduarda, olhando para Emanuel com um sorriso tímido, os olhos brilhando com uma luz que ele não vira antes. — Ela tem um cheiro de baunilha.

— É o perfume que eu compro para elas, obviamente — cortou Sara, cruzando os braços sobre os seios. — Escuta aqui, bailarina, não ache que só porque conquistou a bebê mais carente da casa você tem algum privilégio. Você é uma protegida, não uma babá.

Eduarda levantou-se com cuidado, ainda mantendo Maya em seu colo, que agora brincava com uma mecha do cabelo castanho da jovem.

— Eu sinto muito, eu não quis...

— Tudo bem, Eduarda — interrompeu Emanuel, sua voz soando mais firme para esconder a agitação interna. — Vou pedir para mostrarem seu quarto.

Enquanto a governanta conduzia Eduarda e, por insistência do choro, a pequena Maya para o andar de cima, Emanuel ficou parado no centro da sala. Sara aproximou-se dele, encostando o corpo no seu, buscando reafirmar seu território.

— Ela é estranha, Manu. Sonsa demais para o meu gosto. Esse tipo de garota "vítima" sempre traz problemas.

Emanuel passou o braço pelos ombros de Sara, beijando o topo de sua cabeça loira. Ele a amava. Amava sua força, sua competência na administração, seu fogo e até sua arrogância. Ela era a mulher que ele escolhera para ser a mãe de suas filhas e sua parceira de vida.

— Ela é apenas uma peça em um tabuleiro perigoso, Sara. Não se preocupe com ela.

Mas, enquanto falava, os olhos de Emanuel seguiram o vulto de Eduarda desaparecendo no topo da escada. Pela primeira vez em muitos anos, o homem racional e prático sentiu que o controle que tanto prezava estava começando a escorregar por entre seus dedos. Ele não sabia explicar, mas a presença de Eduarda preenchera um espaço na casa que ele nem sabia que estava vazio.

Ele queria proteger Sara de tudo. Mas, de repente, sentiu uma necessidade avassaladora de proteger Eduarda de todo o resto.

— Vamos subir — disse ele para Sara, embora seus pensamentos estivessem longe. — Tenho muito trabalho a fazer.

— Trabalho ou vai ficar pensando na órfã? — provocou Sara com um sorriso malicioso, sem imaginar que, pela primeira vez, sua ironia tinha um fundo de verdade que mudaria a vida de todos naquela mansão.

Emanuel não respondeu. Ele apenas olhou para o escritório, onde os arquivos das bailarinas mortas o esperavam, e depois para o corredor onde o perfume suave de Eduarda ainda parecia flutuar, misturado ao cheiro de bebê de Maya. O caos estava apenas começando, e Emanuel, o homem que sempre resolvia tudo com lógica, estava prestes a descobrir que o coração não seguia nenhum plano de administração.
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