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True Beauty-I hate you
Fandom: True Beauty
Criado: 05/06/2026
Tags
RomanceDramaAngústiaFatias de VidaDor/ConfortoPsicológicoEstudo de PersonagemCenário Canônico
O Labirinto de Painéis e Sombras
O barulho constante de Seul era uma sinfonia caótica que Kang Haerin ainda não aprendera a apreciar. Para ela, que passara anos tentando ser invisível sob a sombra das expectativas perfeitas de sua família, a capital parecia grande demais, barulhenta demais e, acima de tudo, observadora demais.
Sentada em um dos bancos do pátio da Escola Saebom, Haerin puxou as mangas do seu cardigã cinza até cobrirem metade de suas mãos. Era um tique nervoso que ela não conseguia controlar. Seus olhos grandes e expressivos vagavam pelos alunos que passavam, mas sua mente estava longe, mergulhada nas páginas do webtoon que segurava com força.
— Haerin-ah! — O grito agudo e animado fez Haerin pular levemente no banco.
Lim Ju Kyung vinha correndo em sua direção, o uniforme impecável e o rosto radiante com uma maquiagem que a tornava quase irreconhecível para quem a conhecera anos atrás. Para Haerin, porém, Ju Kyung ainda era a mesma menina doce que compartilhava segredos e medos.
— Ju Kyung, você vai acabar caindo — avisou Haerin, um sorriso raro e delicado surgindo em seus lábios enquanto fechava o quadrinho.
— Eu não acredito que você finalmente está aqui! — Ju Kyung sentou-se ao lado dela, transbordando energia. — Senti tanto a sua falta. Como foi a primeira aula? Alguém mexeu com você? Se alguém falar qualquer coisa, você me avisa, ok?
Haerin sentiu o calor da proteção da amiga e relaxou os ombros.
— Foi calma. Ninguém notou muito a minha presença, o que é um alívio.
— Ah, não diga isso! — Ju Kyung fez um biquinho dramático. — Você é linda, Haerin. As pessoas só são cegas. Mas escuta, você precisa conhecer o pessoal. Tem um lugar que eu amo ir depois da escola, uma loja de quadrinhos que tem títulos raros. Você vai surtar!
Haerin sentiu o coração acelerar. Lugares novos a deixavam ansiosa, mas a menção a quadrinhos era o seu ponto fraco.
— Pode ser — respondeu timidamente.
Enquanto conversavam, o clima no pátio mudou. O silêncio pareceu se espalhar por um corredor invisível quando um rapaz caminhou em direção ao prédio principal. Ele era alto, de cabelos pretos perfeitamente alinhados e uma expressão tão fria que parecia capaz de congelar o ar ao redor.
— Aquele é o Lee Suho — sussurrou Ju Kyung, sua voz subitamente perdendo o tom saltitante e ganhando um matiz de admiração e timidez. — Ele é o melhor aluno da escola. E... bem, ele é um pouco difícil de lidar.
Haerin observou Suho. Ele não olhava para os lados. Havia algo na rigidez de seus ombros e na forma como seus olhos pareciam analisar tudo sem realmente se envolver que ressoou nela. Ele parecia alguém que também guardava o mundo dentro de si.
— Ele parece sozinho — comentou Haerin, observadora.
Ju Kyung suspirou, mas antes que pudesse responder, o som de um motor de motocicleta rugiu perto do portão, quebrando a aura de seriedade de Suho.
— E aquele — Ju Kyung apontou para a direção oposta, onde um rapaz de jaqueta de couro e olhar rebelde descia da moto — é o Han Seojoon. O oposto total do Suho.
Seojoon caminhava com uma confiança que beirava a arrogância, mas havia uma lealdade feroz no modo como ele cumprimentava os amigos que o rodeavam. Haerin sentiu um calafrio estranho. Se Suho era o gelo, Seojoon era o fogo que ameaçava queimar qualquer barreira que ela tivesse construído.
***
Mais tarde naquele dia, Haerin decidiu visitar a loja de quadrinhos que Ju Kyung recomendara. O local ficava em um beco estreito, com uma fachada de madeira antiga que prometia o refúgio perfeito. Ao entrar, o cheiro de papel velho e café a envolveu instantaneamente. Ela relaxou as mãos nas mangas do casaco.
Ela caminhou pelas prateleiras, procurando por uma edição específica de um terror psicológico que estava esgotada em todos os lugares. Seus dedos tocaram a lombada de um volume escondido no alto.
— Finalmente... — sussurrou para si mesma.
No entanto, quando ela puxou o livro, outra mão, maior e adornada com anéis de prata, tocou o mesmo volume.
Haerin recuou um passo, o coração martelando contra as costelas. Ela olhou para cima e deu de cara com Han Seojoon. De perto, ele era ainda mais intimidante. Os olhos dele eram afiados, mas pareciam surpresos ao encontrá-la ali.
— Eu vi primeiro — disse Seojoon, sua voz profunda e levemente rouca.
Haerin engoliu em seco. A timidez lutou contra sua paixão por quadrinhos, e por um momento, a paixão venceu.
— Na verdade — começou ela, a voz baixa, mas firme —, eu já estava com o dedo na lombada antes de você chegar.
Seojoon arqueou uma sobrancelha, um sorriso sarcástico brincando no canto de seus lábios.
— Você é a garota nova que estava com a Lim Ju Kyung hoje, não é? Kang Haerin?
— Como você sabe meu nome? — perguntou ela, mexendo nervosamente na manga do casaco.
— Eu ouço as coisas — ele deu de ombros, soltando o livro, mas não se afastando. — Você gosta desse tipo de coisa? Terror e suspense? Não combina com essa sua cara de quem pede desculpas até para o vento.
Haerin sentiu o rosto esquentar. Ela não gostava de ser lida tão facilmente.
— As aparências enganam — respondeu ela, abraçando o quadrinho contra o peito. — Mas obrigada por ceder.
— Eu não cedi — ele retrucou, cruzando os braços e encostando-se na estante. — Eu só decidi que posso ler depois. Trate bem o meu livro, novata.
Antes que ela pudesse responder, o sino da porta tocou novamente. Lee Suho entrou na loja. O contraste entre ele e Seojoon no mesmo espaço pequeno era quase palpável, como se a pressão atmosférica tivesse mudado.
Suho parou ao ver os dois. Seus olhos se fixaram em Seojoon com uma hostilidade que Haerin não compreendeu, e depois se voltaram para ela.
— Kang Haerin? — Suho perguntou, sua voz calma e desprovida de emoção aparente.
— Vocês se conhecem? — Seojoon perguntou, o tom subitamente mais agressivo.
— Ela é da minha sala — respondeu Suho, ignorando Seojoon e caminhando em direção ao balcão. — O dono da loja disse que você deixou cair sua carteira de estudante no corredor da escola. Eu a peguei.
Ele estendeu o pequeno cartão de plástico. Haerin se aproximou, sentindo-se presa entre dois polos magnéticos.
— Obrigada, Lee Suho — disse ela, pegando o cartão. Suas pontas dos dedos tocaram as dele por um milésimo de segundo, e ela notou que a mão dele estava fria.
— Tome mais cuidado — disse ele, de forma curta, antes de se virar para sair.
— Ei, Suho! — Seojoon chamou, a voz carregada de veneno. — Ainda agindo como o herói solitário?
Suho parou à porta, mas não olhou para trás.
— E você ainda agindo como se o mundo fosse o seu palco, Seojoon? — retrucou Suho, saindo logo em seguida.
O silêncio que ficou na loja era pesado. Haerin olhou para Seojoon, que tinha os punhos cerrados e o olhar fixo na porta. A maturidade dela a fez perceber que aquela raiva não era simples; havia dor ali.
— Vocês... eram amigos? — a pergunta escapou dos lábios de Haerin antes que ela pudesse conter.
Seojoon olhou para ela, a máscara de sarcasmo caindo por um breve momento, revelando uma vulnerabilidade que a assustou.
— Você faz perguntas demais para alguém tão quieta — ele disse, a voz agora sem o tom de brincadeira. — Vá para casa, Haerin. Seul não é um lugar seguro para quem observa demais.
Ele passou por ela, deixando apenas o rastro de seu perfume amadeirado e o som de seus passos pesados.
***
No dia seguinte, a escola parecia diferente para Haerin. Ela não era mais apenas a "garota nova". Ela era a garota que Ju Kyung protegia, a garota que Seojoon notara e a garota para quem Suho fizera um favor.
Durante o intervalo, ela encontrou Ju Kyung no banheiro, retocando o batom com uma concentração invejável.
— Ju Kyung — chamou Haerin, encostando-se na pia —, o que aconteceu entre o Suho e o Seojoon?
Ju Kyung parou o movimento do batom no ar. Seus olhos grandes vacilaram através do reflexo do espelho.
— É uma história triste, Haerin. Eles eram melhores amigos. Tipo, irmãos mesmo. Mas algo aconteceu... algo relacionado a um amigo que eles perderam. Desde então, eles se odeiam.
Haerin sentiu um aperto no peito. Ela conhecia o peso de perdas e de silêncios que corroem amizades.
— Eu sinto que estou no meio de algo que não entendo — confessou Haerin, puxando a manga do casaco.
— Todos nós estamos — disse Ju Kyung, guardando a maquiagem e abraçando a amiga. — Mas não se preocupe com eles agora. Hoje vamos ao shopping! Eu preciso te mostrar as novas coleções e você precisa parar de usar só cinza.
Haerin riu, um som baixo e melódico que fez Ju Kyung sorrir ainda mais.
— Eu gosto de cinza. É discreto.
— Pois eu vou te fazer brilhar — prometeu Ju Kyung.
Ao saírem do banheiro, deram de cara com Suho, que lia um livro enquanto caminhava. Ele parou ao vê-las.
— Lim Ju Kyung — ele assentiu, e depois olhou para Haerin. — Kang Haerin. Você terminou o quadrinho?
Haerin piscou, surpresa pelo interesse dele.
— Ainda não. É um pouco denso.
— O autor costuma usar metáforas visuais para representar a depressão do protagonista — disse Suho, de forma técnica, mas não arrogante. — Note as sombras nos cantos das páginas. Elas aumentam conforme ele se isola.
Haerin sentiu uma conexão imediata. Ninguém nunca falava sobre os detalhes técnicos dos quadrinhos com ela.
— Eu notei isso — disse ela, os olhos brilhando. — No capítulo três, as sombras quase tocam os diálogos.
Suho deu um meio sorriso quase imperceptível.
— Exatamente.
— Ei! — Uma voz familiar ecoou pelo corredor. Seojoon se aproximava, cercado por seus amigos, mas seus olhos estavam fixos no trio. — O clube de leitura está reunido?
Ju Kyung ficou visivelmente nervosa, alternando o olhar entre Suho e Seojoon.
— Seojoon-ah, não comece — pediu Ju Kyung com uma voz doce.
Seojoon parou ao lado de Haerin e, para surpresa de todos, bagunçou levemente o cabelo dela.
— Eu vim cobrar o livro, novata. Você está demorando muito.
Haerin ficou estática. O gesto era íntimo demais para alguém que ela mal conhecia, mas não parecia agressivo. Era... protetor, de uma forma estranha.
— Eu devolvo amanhã — ela conseguiu dizer, o coração acelerado.
Suho fechou o livro com um estalo seco.
— Vamos, Ju Kyung. O professor de matemática queria falar conosco sobre o comitê — disse Suho, sua voz agora fria novamente.
Ju Kyung olhou para Haerin com um pedido de desculpas silencioso e seguiu Suho. Haerin ficou ali, sozinha com Seojoon e o silêncio tenso do corredor que começava a esvaziar.
— Você devia ficar longe dele — disse Seojoon, o sarcasmo desaparecendo.
— Por que você se importa? — perguntou Haerin, finalmente olhando-o nos olhos.
Seojoon se inclinou, diminuindo a distância entre eles até que Haerin pudesse ver as pequenas faíscas de rebeldia e dor em suas íris.
— Porque eu reconheço alguém que está tentando se esconder, Haerin. E o Suho... ele é o tipo de pessoa que encontra todos os seus esconderijos e depois te deixa lá no escuro.
Haerin não recuou.
— Talvez — disse ela calmamente — eu não esteja me escondendo. Talvez eu só esteja esperando alguém que não tenha medo de entrar no escuro comigo.
Seojoon ficou em silêncio por um longo momento, a surpresa cruzando seu rosto. Ele soltou um suspiro pesado e se afastou.
— Você é estranha, Kang Haerin.
— Eu sei — respondeu ela, permitindo-se um pequeno sorriso.
Enquanto caminhava para sua próxima aula, Haerin percebeu que sua vida em Seul não seria o recomeço tranquilo que ela planejara. Entre o gelo de Suho e o fogo de Seojoon, ela estava descobrindo que suas próprias sombras começavam a ganhar cores novas. E, pela primeira vez em muito tempo, ela não sentiu vontade de puxar as mangas do casaco para se esconder. Ela queria ver o que aconteceria a seguir.
Sentada em um dos bancos do pátio da Escola Saebom, Haerin puxou as mangas do seu cardigã cinza até cobrirem metade de suas mãos. Era um tique nervoso que ela não conseguia controlar. Seus olhos grandes e expressivos vagavam pelos alunos que passavam, mas sua mente estava longe, mergulhada nas páginas do webtoon que segurava com força.
— Haerin-ah! — O grito agudo e animado fez Haerin pular levemente no banco.
Lim Ju Kyung vinha correndo em sua direção, o uniforme impecável e o rosto radiante com uma maquiagem que a tornava quase irreconhecível para quem a conhecera anos atrás. Para Haerin, porém, Ju Kyung ainda era a mesma menina doce que compartilhava segredos e medos.
— Ju Kyung, você vai acabar caindo — avisou Haerin, um sorriso raro e delicado surgindo em seus lábios enquanto fechava o quadrinho.
— Eu não acredito que você finalmente está aqui! — Ju Kyung sentou-se ao lado dela, transbordando energia. — Senti tanto a sua falta. Como foi a primeira aula? Alguém mexeu com você? Se alguém falar qualquer coisa, você me avisa, ok?
Haerin sentiu o calor da proteção da amiga e relaxou os ombros.
— Foi calma. Ninguém notou muito a minha presença, o que é um alívio.
— Ah, não diga isso! — Ju Kyung fez um biquinho dramático. — Você é linda, Haerin. As pessoas só são cegas. Mas escuta, você precisa conhecer o pessoal. Tem um lugar que eu amo ir depois da escola, uma loja de quadrinhos que tem títulos raros. Você vai surtar!
Haerin sentiu o coração acelerar. Lugares novos a deixavam ansiosa, mas a menção a quadrinhos era o seu ponto fraco.
— Pode ser — respondeu timidamente.
Enquanto conversavam, o clima no pátio mudou. O silêncio pareceu se espalhar por um corredor invisível quando um rapaz caminhou em direção ao prédio principal. Ele era alto, de cabelos pretos perfeitamente alinhados e uma expressão tão fria que parecia capaz de congelar o ar ao redor.
— Aquele é o Lee Suho — sussurrou Ju Kyung, sua voz subitamente perdendo o tom saltitante e ganhando um matiz de admiração e timidez. — Ele é o melhor aluno da escola. E... bem, ele é um pouco difícil de lidar.
Haerin observou Suho. Ele não olhava para os lados. Havia algo na rigidez de seus ombros e na forma como seus olhos pareciam analisar tudo sem realmente se envolver que ressoou nela. Ele parecia alguém que também guardava o mundo dentro de si.
— Ele parece sozinho — comentou Haerin, observadora.
Ju Kyung suspirou, mas antes que pudesse responder, o som de um motor de motocicleta rugiu perto do portão, quebrando a aura de seriedade de Suho.
— E aquele — Ju Kyung apontou para a direção oposta, onde um rapaz de jaqueta de couro e olhar rebelde descia da moto — é o Han Seojoon. O oposto total do Suho.
Seojoon caminhava com uma confiança que beirava a arrogância, mas havia uma lealdade feroz no modo como ele cumprimentava os amigos que o rodeavam. Haerin sentiu um calafrio estranho. Se Suho era o gelo, Seojoon era o fogo que ameaçava queimar qualquer barreira que ela tivesse construído.
***
Mais tarde naquele dia, Haerin decidiu visitar a loja de quadrinhos que Ju Kyung recomendara. O local ficava em um beco estreito, com uma fachada de madeira antiga que prometia o refúgio perfeito. Ao entrar, o cheiro de papel velho e café a envolveu instantaneamente. Ela relaxou as mãos nas mangas do casaco.
Ela caminhou pelas prateleiras, procurando por uma edição específica de um terror psicológico que estava esgotada em todos os lugares. Seus dedos tocaram a lombada de um volume escondido no alto.
— Finalmente... — sussurrou para si mesma.
No entanto, quando ela puxou o livro, outra mão, maior e adornada com anéis de prata, tocou o mesmo volume.
Haerin recuou um passo, o coração martelando contra as costelas. Ela olhou para cima e deu de cara com Han Seojoon. De perto, ele era ainda mais intimidante. Os olhos dele eram afiados, mas pareciam surpresos ao encontrá-la ali.
— Eu vi primeiro — disse Seojoon, sua voz profunda e levemente rouca.
Haerin engoliu em seco. A timidez lutou contra sua paixão por quadrinhos, e por um momento, a paixão venceu.
— Na verdade — começou ela, a voz baixa, mas firme —, eu já estava com o dedo na lombada antes de você chegar.
Seojoon arqueou uma sobrancelha, um sorriso sarcástico brincando no canto de seus lábios.
— Você é a garota nova que estava com a Lim Ju Kyung hoje, não é? Kang Haerin?
— Como você sabe meu nome? — perguntou ela, mexendo nervosamente na manga do casaco.
— Eu ouço as coisas — ele deu de ombros, soltando o livro, mas não se afastando. — Você gosta desse tipo de coisa? Terror e suspense? Não combina com essa sua cara de quem pede desculpas até para o vento.
Haerin sentiu o rosto esquentar. Ela não gostava de ser lida tão facilmente.
— As aparências enganam — respondeu ela, abraçando o quadrinho contra o peito. — Mas obrigada por ceder.
— Eu não cedi — ele retrucou, cruzando os braços e encostando-se na estante. — Eu só decidi que posso ler depois. Trate bem o meu livro, novata.
Antes que ela pudesse responder, o sino da porta tocou novamente. Lee Suho entrou na loja. O contraste entre ele e Seojoon no mesmo espaço pequeno era quase palpável, como se a pressão atmosférica tivesse mudado.
Suho parou ao ver os dois. Seus olhos se fixaram em Seojoon com uma hostilidade que Haerin não compreendeu, e depois se voltaram para ela.
— Kang Haerin? — Suho perguntou, sua voz calma e desprovida de emoção aparente.
— Vocês se conhecem? — Seojoon perguntou, o tom subitamente mais agressivo.
— Ela é da minha sala — respondeu Suho, ignorando Seojoon e caminhando em direção ao balcão. — O dono da loja disse que você deixou cair sua carteira de estudante no corredor da escola. Eu a peguei.
Ele estendeu o pequeno cartão de plástico. Haerin se aproximou, sentindo-se presa entre dois polos magnéticos.
— Obrigada, Lee Suho — disse ela, pegando o cartão. Suas pontas dos dedos tocaram as dele por um milésimo de segundo, e ela notou que a mão dele estava fria.
— Tome mais cuidado — disse ele, de forma curta, antes de se virar para sair.
— Ei, Suho! — Seojoon chamou, a voz carregada de veneno. — Ainda agindo como o herói solitário?
Suho parou à porta, mas não olhou para trás.
— E você ainda agindo como se o mundo fosse o seu palco, Seojoon? — retrucou Suho, saindo logo em seguida.
O silêncio que ficou na loja era pesado. Haerin olhou para Seojoon, que tinha os punhos cerrados e o olhar fixo na porta. A maturidade dela a fez perceber que aquela raiva não era simples; havia dor ali.
— Vocês... eram amigos? — a pergunta escapou dos lábios de Haerin antes que ela pudesse conter.
Seojoon olhou para ela, a máscara de sarcasmo caindo por um breve momento, revelando uma vulnerabilidade que a assustou.
— Você faz perguntas demais para alguém tão quieta — ele disse, a voz agora sem o tom de brincadeira. — Vá para casa, Haerin. Seul não é um lugar seguro para quem observa demais.
Ele passou por ela, deixando apenas o rastro de seu perfume amadeirado e o som de seus passos pesados.
***
No dia seguinte, a escola parecia diferente para Haerin. Ela não era mais apenas a "garota nova". Ela era a garota que Ju Kyung protegia, a garota que Seojoon notara e a garota para quem Suho fizera um favor.
Durante o intervalo, ela encontrou Ju Kyung no banheiro, retocando o batom com uma concentração invejável.
— Ju Kyung — chamou Haerin, encostando-se na pia —, o que aconteceu entre o Suho e o Seojoon?
Ju Kyung parou o movimento do batom no ar. Seus olhos grandes vacilaram através do reflexo do espelho.
— É uma história triste, Haerin. Eles eram melhores amigos. Tipo, irmãos mesmo. Mas algo aconteceu... algo relacionado a um amigo que eles perderam. Desde então, eles se odeiam.
Haerin sentiu um aperto no peito. Ela conhecia o peso de perdas e de silêncios que corroem amizades.
— Eu sinto que estou no meio de algo que não entendo — confessou Haerin, puxando a manga do casaco.
— Todos nós estamos — disse Ju Kyung, guardando a maquiagem e abraçando a amiga. — Mas não se preocupe com eles agora. Hoje vamos ao shopping! Eu preciso te mostrar as novas coleções e você precisa parar de usar só cinza.
Haerin riu, um som baixo e melódico que fez Ju Kyung sorrir ainda mais.
— Eu gosto de cinza. É discreto.
— Pois eu vou te fazer brilhar — prometeu Ju Kyung.
Ao saírem do banheiro, deram de cara com Suho, que lia um livro enquanto caminhava. Ele parou ao vê-las.
— Lim Ju Kyung — ele assentiu, e depois olhou para Haerin. — Kang Haerin. Você terminou o quadrinho?
Haerin piscou, surpresa pelo interesse dele.
— Ainda não. É um pouco denso.
— O autor costuma usar metáforas visuais para representar a depressão do protagonista — disse Suho, de forma técnica, mas não arrogante. — Note as sombras nos cantos das páginas. Elas aumentam conforme ele se isola.
Haerin sentiu uma conexão imediata. Ninguém nunca falava sobre os detalhes técnicos dos quadrinhos com ela.
— Eu notei isso — disse ela, os olhos brilhando. — No capítulo três, as sombras quase tocam os diálogos.
Suho deu um meio sorriso quase imperceptível.
— Exatamente.
— Ei! — Uma voz familiar ecoou pelo corredor. Seojoon se aproximava, cercado por seus amigos, mas seus olhos estavam fixos no trio. — O clube de leitura está reunido?
Ju Kyung ficou visivelmente nervosa, alternando o olhar entre Suho e Seojoon.
— Seojoon-ah, não comece — pediu Ju Kyung com uma voz doce.
Seojoon parou ao lado de Haerin e, para surpresa de todos, bagunçou levemente o cabelo dela.
— Eu vim cobrar o livro, novata. Você está demorando muito.
Haerin ficou estática. O gesto era íntimo demais para alguém que ela mal conhecia, mas não parecia agressivo. Era... protetor, de uma forma estranha.
— Eu devolvo amanhã — ela conseguiu dizer, o coração acelerado.
Suho fechou o livro com um estalo seco.
— Vamos, Ju Kyung. O professor de matemática queria falar conosco sobre o comitê — disse Suho, sua voz agora fria novamente.
Ju Kyung olhou para Haerin com um pedido de desculpas silencioso e seguiu Suho. Haerin ficou ali, sozinha com Seojoon e o silêncio tenso do corredor que começava a esvaziar.
— Você devia ficar longe dele — disse Seojoon, o sarcasmo desaparecendo.
— Por que você se importa? — perguntou Haerin, finalmente olhando-o nos olhos.
Seojoon se inclinou, diminuindo a distância entre eles até que Haerin pudesse ver as pequenas faíscas de rebeldia e dor em suas íris.
— Porque eu reconheço alguém que está tentando se esconder, Haerin. E o Suho... ele é o tipo de pessoa que encontra todos os seus esconderijos e depois te deixa lá no escuro.
Haerin não recuou.
— Talvez — disse ela calmamente — eu não esteja me escondendo. Talvez eu só esteja esperando alguém que não tenha medo de entrar no escuro comigo.
Seojoon ficou em silêncio por um longo momento, a surpresa cruzando seu rosto. Ele soltou um suspiro pesado e se afastou.
— Você é estranha, Kang Haerin.
— Eu sei — respondeu ela, permitindo-se um pequeno sorriso.
Enquanto caminhava para sua próxima aula, Haerin percebeu que sua vida em Seul não seria o recomeço tranquilo que ela planejara. Entre o gelo de Suho e o fogo de Seojoon, ela estava descobrindo que suas próprias sombras começavam a ganhar cores novas. E, pela primeira vez em muito tempo, ela não sentiu vontade de puxar as mangas do casaco para se esconder. Ela queria ver o que aconteceria a seguir.
