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Ovelhas Perdidas

Fandom: Flowers (TV serie) e Original Character

Criado: 05/06/2026

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RomanceDramaFatias de VidaEstudo de PersonagemHistória DomésticaRealismoLirismoAngústiaCiúmesNoirDor/ConfortoLinguagem ExplícitaHumor
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O Batismo de Renda e Graxa

O som pulsante da música eletrônica parecia reverberar dentro da caixa torácica de Gabriele Lima, um contraste violento com o silêncio monástico da biblioteca onde passava a maior parte de seus dias. Ela se sentia como uma nota de rodapé esquecida em um texto frenético. Usava um vestido branco de corte impecável, uma meia-calça clara que brilhava sob as luzes estroboscópicas e saltos delicados que já começavam a castigar seus pés. Para Gabriele, estar ali era um exercício de resistência, uma promessa feita a amigas que insistiam que ela precisava "viver além dos livros".

Ela se retirou para um canto mais reservado, um sofá de veludo desgastado onde a penumbra oferecia um refúgio temporário. De cabeça baixa, as mãos entrelaçadas sobre o colo, Gabriele tentava controlar a respiração. A solidão, sua velha e fiel companheira, parecia mais pesada ali, cercada por tanta gente. Ela se sentia uma intrusa, uma relíquia de um convento esquecido perdida em uma celebração de liberdade que ela não sabia como reivindicar.

De longe, seus olhos — teimosos e traidores — voltaram-se para o centro da pista. Lá estava ela. Hylda Carandini.

Hylda era o oposto da discrição. Vestida inteiramente de couro preto, com os braços tatuados à mostra e o cabelo grisalho bagunçado de um jeito que beirava o pecaminoso, ela dançava com uma moça loira, décadas mais nova. Hylda movia-se com uma confiança bruta, rindo, bebendo, ocupando cada centímetro de espaço com sua presença magnética. Gabriele sentiu uma pontada de algo que se recusava a nomear como ciúme. Era indignação, dizia a si mesma. Indignação por aquela mulher ser tão... barulhenta.

O que Gabriele não percebeu, em sua tentativa de se esconder, era que Hylda já a havia notado desde o momento em que ela atravessara a porta. A "madame" de branco era um farol de pureza em meio ao caos, e Hylda sempre teve uma inclinação perigosa para corromper faróis.

Sem pressa, Hylda se despediu da moça loira com um tapinha no ombro e caminhou em direção ao canto escuro. Gabriele ainda estava de cabeça baixa quando sentiu o estofado do sofá afundar ao seu lado. O cheiro de cigarro, óleo industrial e um perfume barato, mas estranhamente atraente, invadiu seu espaço pessoal.

— Você parece uma santa que caiu do altar e não sabe como voltar para a igreja, meu amor. — A voz de Hylda era rouca, vibrando baixo perto do ouvido de Gabriele.

Gabriele deu um sobressalto, endireitando a postura imediatamente.

— O que você está fazendo aqui, Hylda? — perguntou Gabriele, a voz trêmula, mas tentando manter a autoridade de bibliotecária. — Achei que estivesse ocupada com sua... acompanhante.

Hylda soltou uma risada curta e atrevida. Sem pedir licença, ela estendeu a mão e começou a passá-la lentamente pela coxa de Gabriele, sobre a seda da meia-calça. O toque era firme, quente, e carregava a aspereza de quem trabalhava com metalurgia.

— Ela é só uma criança que gosta de dançar — disse Hylda, aproximando-se ainda mais, o hálito quente roçando o pescoço de Gabriele. — Mas você... você é um mistério que eu estou tentando ler há anos, madame.

— Tire a mão daí — sibilou Gabriele, embora não fizesse nenhum movimento real para se afastar. — Eu mal te conheço, Hylda. E eu vi você com aquela moça. Não quero confusão, muito menos ser o seu entretenimento da noite.

Hylda não recuou. Pelo contrário, seus dedos subiram alguns centímetros, provocando um calafrio que Gabriele lutou para esconder.

— Você me conhece melhor do que admite — Hylda sussurrou. — Conhece desde que éramos meninas e você se escondia atrás daqueles hábitos. O tempo passou, mas você continua tentando se trancar em uma torre de papel.

— Isso é ridículo — Gabriele rebateu, virando o rosto para encará-la. Os olhos castanhos de Gabriele estavam faiscando. — Você é uma inconveniente. Uma ex-viciada que se acha um padre, andando por aí de couro e cheirando a graxa. O que você quer de mim?

— Quero ver você perder a compostura — Hylda sorriu, um sorriso largo que mostrava que ela estava se divertindo imensamente. — Quero ver esse vestido branco amassado e essa sua pose de intocável desmoronar.

— Você é impossível! — Gabriele exclamou, tentando se levantar, mas Hylda segurou seu pulso com delicadeza, mas firmeza.

— Calma, meu amor. A noite mal começou.

Antes que a discussão pudesse escalar, uma terceira presença se materializou diante delas. Era Alice, uma jovem de vinte e poucos anos, com um sorriso radiante e olhos cheios de uma curiosidade vibrante. Ela ignorou Hylda completamente e focou toda a sua atenção em Gabriele.

— Oi! — disse Alice, inclinando-se um pouco. — Eu estive te observando do outro lado. Você é a mulher mais elegante que eu já vi nesta festa. Quer dançar?

Gabriele piscou, atordoada pela súbita atenção. Ela olhou para Alice, que tinha a idade de uma filha que ela nunca teve, e depois para Hylda, cujos olhos haviam se estreitado perigosamente.

— Eu... eu não acho que seja uma boa ideia — gaguejou Gabriele, sentindo o rosto esquentar.

— Por que não? — Alice insistiu, estendendo a mão. — É só uma dança. Prometo que não mordo... a menos que você peça.

Hylda soltou um ruído de desdém, soltando o pulso de Gabriele e cruzando os braços sobre o peito.

— Ouviu a menina, madame? Ela quer te levar para o abatedouro — provocou Hylda, o tom agora carregado de uma ironia ácida. — Vá lá. Mostre para ela como as bibliotecárias se divertem. Ou será que você tem medo de tropeçar nos próprios pés?

Gabriele sentiu o sangue ferver. A combinação da audácia de Alice com a provocação barata de Hylda despertou nela algo que estava adormecido há décadas.

— Eu não tenho medo de nada, Hylda Carandini — disse Gabriele, levantando-se com uma dignidade cortante.

Ela aceitou a mão de Alice, mas antes de sair, inclinou-se sobre Hylda, devolvendo a invasão de espaço.

— E quanto a você, guarde suas mãos e seus comentários para a sua loirinha. Eu não sou um dos seus motores enferrujados que você conserta com óleo e grosseria.

Hylda apenas observou, um brilho de admiração genuína nos olhos, enquanto Gabriele se afastava em direção à pista de dança, guiada pela jovem Alice.

— Isso vai ser interessante — murmurou Hylda para si mesma, tirando um cigarro apagado de trás da orelha e apenas girando-o entre os dedos, respeitando a proibição do local, mas mantendo o vício por perto.

Na pista, a música era alta e envolvente. Alice dançava com uma leveza natural, tentando envolver Gabriele no ritmo. Gabriele, no entanto, estava rígida. Ela sentia o olhar de Hylda queimando em suas costas, mais potente do que qualquer refletor da boate.

— Você está muito tensa — disse Alice, aproximando-se para ser ouvida por cima do som. — Aquela mulher de couro estava te incomodando?

— Ela é... uma conhecida — respondeu Gabriele, tentando soltar os ombros. — Uma pessoa muito difícil.

— Ela parecia bem interessada em você — Alice comentou com um sorriso malicioso. — Mas eu cheguei primeiro.

Alice colocou as mãos na cintura de Gabriele, tentando puxá-la para um movimento mais sinuoso. Gabriele sentiu um desconforto imediato. Não era que Alice fosse desagradável; ela era linda e gentil. Mas o toque dela não tinha o peso, a história ou a eletricidade que o toque áspero de Hylda possuía.

Gabriele olhou por cima do ombro de Alice e viu Hylda em pé, encostada em uma pilastra, observando cada movimento. Hylda não estava mais rindo. Ela tinha uma expressão séria, quase melancólica, que Gabriele raramente via. Era a expressão de alguém que sabia exatamente o que estava perdendo.

De repente, Gabriele se cansou daquele jogo. Ela se afastou gentilmente de Alice.

— Sinto muito, querida. Eu realmente não sou muito de dançar. Foi um prazer conhecer você.

— Tem certeza? — Alice pareceu decepcionada, mas compreensiva. — Se mudar de ideia, estarei no bar.

Gabriele assentiu e caminhou com passos decididos de volta para onde Hylda estava. Ela parou a poucos centímetros da mulher de preto, que não se moveu.

— O que foi? — perguntou Hylda, a voz baixa. — A juventude cansou você?

— Você é insuportável — disse Gabriele, a voz carregada de uma emoção que ela não conseguia mais esconder. — Você me provoca, me insulta e depois fica aí, com essa cara de quem sofreu todas as dores do mundo, esperando que eu venha até você.

— E você veio — observou Hylda, um meio sorriso surgindo nos lábios.

— Vim porque prefiro brigar com você do que dançar com qualquer outra pessoa — confessou Gabriele, as palavras saindo antes que ela pudesse filtrá-las.

O silêncio caiu entre as duas, apesar do barulho ensurdecedor ao redor. Hylda deu um passo à frente, eliminando o restante do espaço. Ela levou a mão ao rosto de Gabriele, o polegar acariciando a maçã do rosto com uma ternura inesperada.

— Você sempre foi teimosa, Gabriele. Desde o tempo do convento, quando você achava que podia esconder o fogo que tem dentro de você atrás de orações.

— E você sempre foi um desastre — rebateu Gabriele, mas sua voz perdeu a força, tornando-se um sussurro. — Um desastre que eu nunca soube como evitar.

Hylda aproximou o rosto, as testas se tocando.

— Então para de tentar evitar. Me odeia, me xinga, mas não finge que eu não existo.

— Eu nunca consegui fingir isso — admitiu Gabriele.

Ela fechou os olhos, permitindo-se, pela primeira vez em anos, sentir a presença de Hylda sem as barreiras do julgamento ou do medo. O vestido branco e o couro preto se encontraram no meio do caminho, uma colisão de mundos que, contra todas as probabilidades, pareciam finalmente encontrar um eixo comum.

— Vamos embora daqui, madame — sugeriu Hylda, a voz rouca contra os lábios de Gabriele. — Este lugar tem gente demais e oxigênio de menos para o que eu quero te dizer.

Gabriele respirou fundo, sentindo o cheiro de Hylda uma última vez antes de abrir os olhos.

— E o que você quer me dizer, Hylda?

Hylda sorriu, desta vez de forma suave, quase vulnerável.

— Que eu guardo um lugar para você na minha bagunça desde que éramos jovens demais para entender o que era amor. E que hoje, eu estou velha o suficiente para não deixar você fugir de novo.

Gabriele não respondeu com palavras. Ela apenas entrelaçou seus dedos nos de Hylda, sentindo a diferença entre sua pele macia e a palma calejada da outra. Era uma união improvável: a ordem e o caos, o altar e a oficina.

Enquanto caminhavam em direção à saída, deixando para trás a música, a jovem Alice e as luzes coloridas, Gabriele sentiu que, pela primeira vez em muito tempo, não estava mais sozinha. Ela ainda estava brava, ainda estava confusa e certamente ainda teria muitas discussões com Hylda Carandini. Mas, enquanto cruzavam a porta para a noite fria da cidade industrial, ela soube que não queria estar em nenhum outro lugar.

— Você ainda vai me pedir desculpas por aquela moça loira — disse Gabriele, enquanto caminhavam para o estacionamento.

— Vou passar o resto da noite tentando me redimir, meu amor — riu Hylda, puxando-a para mais perto. — Prometo que você não vai ter tempo de pensar em mais ninguém.

E sob o céu cinzento da cidade, o branco de Gabriele e o preto de Hylda se misturaram, criando uma cor nova, uma que nenhum livro ou máquina poderia explicar.

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