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Ovelhas Perdidas

Fandom: Flowers (TV serie) e Original Character

Criado: 05/06/2026

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RomanceDramaEstudo de PersonagemRealismoAbuso de ÁlcoolFatias de VidaDor/Conforto
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Graxa, Perfume Barato e o Silêncio da Biblioteca

O salão comunitário de Barrington estava impregnado com o cheiro de cerveja barata, suor e o perfume excessivamente doce das flores de plástico que decoravam as mesas. Para Hylda Carandini, aquele era o seu habitat natural. Aos 57 anos, com os braços tatuados expostos por uma regata preta sob o casaco de couro e o eterno cheiro de óleo industrial impregnado nos poros, ela se movia com a confiança de quem já tinha visto o inferno de perto e decidido que a decoração de lá era de mau gosto.

No centro da pista improvisada, Hylda girava uma jovem loira, uma operária da fábrica que mal tinha completado vinte e poucos anos. Hylda ria, uma risada rouca de quem fumara três maços por dia durante décadas, e conduzia a moça com uma energia que desafiava sua idade. Ela era o "padre" daquela metalúrgica; todos confessavam seus pecados a ela entre um turno e outro, e ela, em troca, oferecia uma sabedoria bruta e um cigarro.

No entanto, seus olhos, astutos e escuros, fugiam constantemente para o canto mais sombrio do salão.

Lá, sentada em uma cadeira de madeira desconfortável, estava Gabriele Lima.

Gabriele parecia uma pintura renascentista que alguém acidentalmente esqueceu em uma oficina mecânica. Aos 55 anos, ela usava um vestido branco de corte impecável, meia-calça clara que brilhava sob a luz fraca e sapatos de salto que custavam mais do que o aluguel de metade das pessoas naquela sala. Ela segurava uma taça de vinho tinto como se fosse um escudo, os olhos fixos em um ponto invisível no chão, a postura rígida escondendo uma fragilidade que apenas Hylda sabia ler.

Hylda deu um último giro na loira, sussurrou algo que fez a menina corar e, sem cerimônia, abandonou a pista. Ela caminhou com passos pesados, as botas de motociclista ecoando contra o assoalho, até parar ao lado de Gabriele. Sem pedir licença, Hylda sentou-se, invadindo o espaço pessoal da outra com a naturalidade de quem é dona do mundo.

— Você parece que está esperando o juízo final, madame. E, sinto lhe dizer, ele não vai ser hoje. — A voz de Hylda era um murmúrio grave, carregado de uma provocação carinhosa.

Gabriele não levantou a cabeça de imediato. Ela apenas apertou mais o caule da taça.

— O barulho está excessivo, Hylda. E o cheiro de... — Gabriele fez uma pausa, finalmente olhando de soslaio para a mulher ao seu lado — ...seja lá o que você passou no corpo, está me dando enxaqueca.

Hylda sorriu, mostrando os dentes. Ela se aproximou mais, o couro de sua jaqueta rangendo.

— É uma mistura de óleo de motor, Marlboro e um perfume que comprei de uma cigana na beira da estrada. É o cheiro da vida real, Gabi. Você deveria experimentar de vez em quando, em vez de ficar trancada naquela biblioteca comendo poeira de livro velho.

— Eu não como poeira — rebateu Gabriele, a voz subindo um tom, a indignação habitual começando a aflorar. — Eu catalogo conhecimento. Algo que você claramente ignora.

Hylda soltou uma risada curta e, com uma audácia que fez o coração de Gabriele dar um salto descompassado, pousou a mão calejada e manchada de graxa sobre a coxa coberta pela meia-calça clara de Gabriele.

— Você está tremendo — disse Hylda, a voz agora suave, quase terna, inclinando-se para falar perto do ouvido de Gabriele. — O que foi? A solidão bateu mais forte hoje? Ou é só o medo de que alguém perceba que, por baixo desse vestido branco de santa, existe uma mulher de carne e osso?

Gabriele tentou empurrar a mão de Hylda, mas seus dedos apenas se fecharam sobre o pulso da outra, sem força real para afastá-la. O toque de Hylda era quente, firme, e o contraste entre a mão rústica e a delicadeza do tecido era quase obsceno.

— Tire a mão, Hylda. Eu mal te conheço — mentiu Gabriele, a voz falhando.

— Mal me conhece? — Hylda chegou ainda mais perto, o hálito quente de uísque e tabaco roçando o pescoço de Gabriele. — Eu conheço você desde que você usava o hábito naquele convento e eu tentava te convencer a pular o muro comigo. Eu conheço o jeito que você franze o nariz quando está prestes a mentir. E eu vi você me olhando dançar com aquela loirinha.

Gabriele sentiu o rosto arder. A vergonha era uma velha amiga, mas a presença de Hylda sempre a tornava insuportável.

— Eu não estava olhando. Estava apenas... observando a falta de decoro. Você tem quase sessenta anos, Hylda. Comporte-se. E eu vi como você a tratava. Não quero confusão, e certamente não quero ser o seu próximo entretenimento da noite.

Hylda soltou um som que era metade bufo, metade risada, mas não retirou a mão. Pelo contrário, seus dedos subiram alguns centímetros, sentindo a tensão nos músculos de Gabriele.

— Ela é só uma menina, meu amor. Um passatempo para esquecer que o mundo está acabando. Mas você... — Hylda baixou o tom, a brincadeira sumindo por um instante — ...você é a única pessoa nesta sala que me faz sentir que eu ainda preciso pedir perdão por alguma coisa.

Gabriele finalmente virou o rosto para encará-la. Seus olhos estavam úmidos, uma mistura de raiva e uma saudade que ela se recusava a nomear.

— Você é impossível. Por que faz isso? Por que me persegue desde o primeiro dia em que voltei para esta cidade?

— Porque irritar você é a única coisa que me mantém acordada, madame — Hylda sorriu de novo, aquele sorriso torto que desarmava qualquer defesa. — E porque eu gosto de ver você perder o controle. Esse seu mundinho de livros catalogados e cafés frios é muito pequeno para você.

— Meu mundo é calmo. É seguro — disse Gabriele, embora sua respiração estivesse acelerada.

— É um túmulo — rebateu Hylda. — E você está linda demais para estar morta.

Gabriele soltou um suspiro exasperado, tentando recuperar a dignidade. Ela se ajeitou na cadeira, mas não conseguiu se afastar do calor que emanava de Hylda.

— Você é uma pecadora, Hylda Carandini. Tatuada, viciada em adrenalina e com um vocabulário deplorável.

— E você adora — Hylda ronronou, aproximando o rosto, a ponta de seu nariz quase tocando a bochecha de Gabriele. — Admita. Você passou a noite inteira querendo que eu parasse de dançar com aquela menina e viesse aqui te dar um pouco de trabalho.

— Eu não admitirei nada disso! — Gabriele exclamou, embora seu corpo estivesse se inclinando inconscientemente para frente. — Você é arrogante, invade meu espaço, me chama por nomes ridículos...

— E você continua vindo às festas onde sabe que eu vou estar — interrompeu Hylda, os olhos brilhando com uma diversão predatória. — Por que, Gabi? Por que não ficou em casa catalogando seus poetas mortos?

Gabriele abriu a boca para responder, uma réplica ácida já formada na ponta da língua, mas as palavras morreram quando Hylda deslizou a mão da coxa para a cintura dela, puxando-a discretamente para mais perto, escondidas pela sombra da mesa.

— Eu... eu tenho obrigações sociais — gaguejou Gabriele, a fachada de gelo derretendo visivelmente.

— Sei. Suas obrigações sociais envolvem ficar sentada em um canto, parecendo uma rainha exilada, esperando que o bobo da corte venha te fazer um agrado? — Hylda riu, um som baixo e vibrante contra a pele de Gabriele.

— Você não é o bobo da corte, Hylda. Você é o caos em pessoa.

— E o caos é muito mais divertido que a ordem, não é? — Hylda roçou os lábios no lóbulo da orelha de Gabriele. — Vamos sair daqui. O ar está ficando muito limpo para o meu gosto.

Gabriele sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela olhou para as mãos de Hylda, marcadas pelo trabalho duro e pelo tempo, e depois para o rosto da mulher que a assombrava desde a juventude. Havia tanta história ali, tanta dor compartilhada e silenciada pelos anos.

— Eu não deveria — sussurrou Gabriele, mesmo sabendo que já tinha cedido.

— Você passou a vida inteira fazendo o que deveria, meu amor — Hylda disse, levantando-se e estendendo a mão para ela, o gesto subitamente carregado de uma fidalguia inesperada. — Tente fazer o que você quer, só por uma hora. Eu prometo que não conto para o seu Deus, se você não contar para o meu.

Gabriele olhou para a mão estendida. Olhou para as tatuagens que subiam pelo pulso de Hylda, desaparecendo sob a manga do couro. Com um suspiro que era metade rendição e metade alívio, ela depositou sua mão delicada sobre a de Hylda.

— Você ainda vai me levar para o mau caminho, Hylda Carandini.

Hylda fechou os dedos sobre os dela, um aperto firme e possessivo, e abriu um sorriso triunfante.

— Madame, nós já estamos no mau caminho há trinta anos. Eu só estou finalmente assumindo a direção.

Enquanto atravessavam o salão, Hylda fazia questão de passar perto da loira com quem dançara antes, apenas para lançar um olhar de "propriedade" que fez Gabriele corar até a raiz dos cabelos. Gabriele caminhava com a cabeça erguida, tentando manter a compostura, mas seus dedos estavam entrelaçados nos de Hylda com uma força que denunciava todo o seu desejo.

Ao saírem para a noite fria da cidade industrial, o cheiro de fumaça das chaminés se misturou ao perfume de ambas. Hylda a conduziu até sua motocicleta velha, estacionada sob um poste de luz que piscava.

— Suba — ordenou Hylda, entregando-lhe um capacete gasto.

— Neste monstro de metal? Com este vestido? — Gabriele olhou horrorizada para o veículo.

— Amasse o vestido, Gabi. A vida é curta demais para roupas passadas — Hylda montou na moto, ligando o motor que rugiu como uma fera faminta. — E segure firme em mim. Eu não quero que você caia... a menos que seja nos meus braços.

Gabriele revirou os olhos, mas havia um sorriso tímido brincando no canto de seus lábios. Ela ajeitou a saia branca, montou na garupa com uma elegância desajeitada e envolveu a cintura de Hylda com os braços, sentindo o calor do couro e o coração da outra batendo forte contra suas mãos.

Hylda acelerou, e enquanto as luzes da cidade se tornavam borrões de cor, Gabriele fechou os olhos e encostou o rosto nas costas de Hylda. Pela primeira vez em décadas, o silêncio da biblioteca parecia muito distante, e o barulho do motor era a única música que ela queria ouvir.

Naquela noite, a santa e o pecador não estavam em lados opostos; elas eram apenas duas mulheres marcadas pelo tempo, fugindo da solidão em direção a algo que cheirava a graxa, perfume barato e uma liberdade que só o amor tardio pode proporcionar.
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