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Amigos?
Fandom: Lgbt
Criado: 05/06/2026
Tags
RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoPsicológicoEstudo de PersonagemRealismoDiscriminação
Entre o Hinário e o Pecado
O crepúsculo caía sobre a pequena cidade, tingindo o céu de um violeta profundo que parecia pesar sobre os ombros de Igor. Ele estava sentado no último banco da Igreja Adventista do Sétimo Dia, o ar impregnado com o cheiro característico de lustra-móveis e papel antigo. O ensaio do coral havia terminado há dez minutos, mas ele permanecia ali, com a Bíblia aberta em uma página qualquer de Levítico, sem conseguir ler uma única palavra.
Seus olhos, no entanto, estavam fixos na plataforma à frente. Gabriel estava lá, recolhendo as partituras deixadas sobre o piano. Gabriel era tudo o que Igor aspirava ser e, ao mesmo tempo, tudo o que o aterrorizava. Dez anos mais velho, com a postura impecável de quem carregava a responsabilidade de ser um dos líderes dos jovens, ele exalava uma segurança que Igor sentia desmoronar dentro de si a cada dia.
— Ainda aqui, Igor? — A voz de Gabriel ecoou pela nave vazia, profunda e calma.
Igor deu um pequeno salto, fechando o livro sagrado com força excessiva.
— Ah, sim. Eu só... estava meditando um pouco sobre a lição da Escola Sabatina — mentiu Igor, sentindo o rosto esquentar.
Gabriel desceu os degraus da plataforma e caminhou em direção a ele. Cada passo parecia ressoar no peito de Igor. Ele vestia uma camisa social azul-clara, com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando braços fortes que Igor já havia imaginado ao redor de si em momentos de fraqueza solitária.
— É bom ver um jovem tão dedicado — disse Gabriel, aproximando-se e sentando-se no banco à frente de Igor, virando-se para encará-lo. — Mas você parece distraído ultimamente. Aconteceu alguma coisa?
Igor engoliu em seco. Como ele poderia explicar que sua "distração" tinha nome, sobrenome e um sorriso que parecia uma promessa de paz e condenação ao mesmo tempo?
— São as dúvidas, Gabriel — respondeu Igor, a voz quase um sussurro. — Às vezes sinto que não me encaixo. Que as regras são como uma moldura pequena demais para o que eu sinto.
Gabriel franziu o cenho, uma expressão de preocupação genuína suavizando seus traços marcantes.
— O mundo lá fora é confuso, Igor. O inimigo trabalha nas nossas incertezas. Mas a igreja é o nosso porto seguro. O que exatamente está te angustiando?
Igor desviou o olhar para as próprias mãos, onde os nós dos dedos estavam brancos de tanto apertar a capa de couro da Bíblia. Ele queria gritar. Queria dizer que o porto seguro parecia uma prisão quando o que seu coração desejava era considerado uma abominação.
— E se o que eu sinto não for uma tentação externa? — Igor perguntou, arriscando um olhar rápido. — E se for algo que nasceu comigo? Algo que a Bíblia diz que é errado, mas que parece a coisa mais real que já senti?
Houve um silêncio pesado. Gabriel suspirou, passando a mão pelo cabelo curto e bem cortado. Ele era o exemplo perfeito do homem adventista: casado com o trabalho ministerial, respeitado por todos, inabalável em sua fé. Ou pelo menos era o que todos acreditavam.
— Todos temos fardos, Igor — Gabriel disse finalmente. — Alguns lutam contra o orgulho, outros contra vícios. O segredo é entregar tudo no altar.
— Mas e se eu não quiser entregar? — A voz de Igor saiu embargada. — E se esse fardo for a única coisa que me faz sentir vivo?
Gabriel inclinou-se para frente, diminuindo a distância entre eles. O cheiro de sândalo e sabonete neutro que emanava dele envolveu Igor, entorpecendo seus sentidos.
— Igor, olhe para mim.
Igor obedeceu, encontrando os olhos escuros de Gabriel. Não havia julgamento ali, apenas uma tristeza profunda que Igor não soube identificar.
— Você é um rapaz de ouro. Tem um futuro brilhante na obra. Não deixe que pensamentos passageiros destruam o que Deus planejou para você.
— Não são passageiros, Gabriel! — Igor exclamou, as lágrimas finalmente vencendo a barreira de seus cílios. — Já faz anos. Eu tento orar para que isso saia de mim, eu jejuo, eu me envolvo em cada atividade da igreja... mas quando eu te vejo...
Ele parou abruptamente, percebendo o que estava prestes a confessar. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. O relógio de parede da secretaria parecia bater mais forte a cada segundo.
Gabriel não se afastou. Ele não se levantou indignado, nem proferiu versículos de condenação. Ele apenas continuou ali, observando Igor com uma intensidade que fazia o ar faltar.
— Quando você me vê... o quê? — perguntou Gabriel, a voz agora baixa, quase rouca.
— Nada. Esqueça — disse Igor, tentando se levantar.
Mas a mão de Gabriel agiu mais rápido, segurando o pulso de Igor. O toque foi como uma descarga elétrica. Igor congelou, olhando para a mão grande e firme que o prendia.
— Igor, fale — insistiu Gabriel.
— Quando eu te vejo, eu sinto que tudo o que me ensinaram sobre o pecado pode estar errado — desabafou Igor, as palavras saindo em um fluxo desesperado. — Porque como pode ser errado admirar alguém como você? Como pode ser pecado querer estar perto, querer que você me veja não como um "jovem da igreja", mas como... como um homem?
Gabriel soltou o pulso de Igor, mas não se afastou. Ele baixou a cabeça, os ombros levemente caídos.
— Você não sabe o que está dizendo — murmurou Gabriel.
— Eu sei exatamente o que estou dizendo! — Igor sentiu uma coragem súbita, nascida do desespero. — Eu te amo, Gabriel. E eu odeio o fato de que esse amor me torna um pária aqui dentro.
Gabriel levantou-se bruscamente e começou a caminhar de um lado para o outro no corredor entre os bancos. Ele parecia estar travando uma batalha interna. Igor observava, o coração na boca, esperando a expulsão, o sermão ou o desprezo.
— Você acha que é o único? — Gabriel parou de repente, virando-se para Igor. Seus olhos brilhavam com uma emoção contida. — Você acha que é fácil para mim, todos os domingos e sábados, olhar para vocês, falar sobre pureza e santidade, enquanto sinto o peso das minhas próprias escolhas?
Igor franziu a testa, confuso.
— Do que você está falando?
Gabriel caminhou de volta e sentou-se novamente, mas desta vez no mesmo banco que Igor, a poucos centímetros de distância.
— Eu escolhi esse caminho, Igor. Eu escolhi a segurança da doutrina, o respeito da comunidade. Eu enterrei quem eu era há muito tempo para ser quem esperavam que eu fosse.
— Você... você também? — Igor mal conseguia processar a informação.
Gabriel deu um sorriso amargo, que não chegou aos seus olhos.
— Eu sou um homem "hétero" da igreja adventista porque é isso que mantém o meu mundo de pé. Eu tenho trinta e dois anos, Igor. Eu já vi muitos jovens como você passarem por aqui, sofrerem e irem embora. Ou ficarem e se tornarem cascas vazias como eu.
— Você não é uma casca vazia — protestou Igor, estendendo a mão timidamente, mas recuando antes de tocar o ombro de Gabriel.
— Sou sim — afirmou Gabriel. — Eu sigo o roteiro. Eu prego o que não sinto plenamente. E a pior parte é que eu vejo em você a mesma luz que eu apaguei em mim anos atrás.
Igor sentiu um aperto no peito. O homem que ele idolatrava estava ali, desmoronando diante dele, revelando uma verdade que mudava tudo.
— Então, o que fazemos? — perguntou Igor.
Gabriel olhou para as portas fechadas da igreja e depois voltou para Igor.
— Para a igreja, não há "nós", Igor. Há o pecado e o pecador. Há o conselho e a disciplina.
— Eu não me importo com a disciplina — disse Igor com firmeza. — Eu só me importo com o que é real.
Gabriel soltou um longo suspiro e, em um movimento que pareceu levar uma eternidade, levou a mão ao rosto de Igor. O polegar acariciou a bochecha úmida do rapaz. O toque era suave, carregado de uma ternura que Igor nunca havia experimentado.
— Você é tão jovem — sussurrou Gabriel. — Tem tanto a perder.
— E você? — rebateu Igor. — O que você ganha vivendo uma mentira?
— Eu ganho paz. Uma paz falsa, mas silenciosa.
Igor inclinou a cabeça, pressionando o rosto contra a palma da mão de Gabriel.
— Eu prefiro a guerra ao seu lado do que essa paz sozinho.
Gabriel fechou os olhos por um momento, como se estivesse absorvendo aquelas palavras. Quando os abriu, havia uma determinação nova neles, misturada com um medo palpável.
— Não podemos fazer nada aqui — disse Gabriel, retirando a mão. — As pessoas começam a chegar para a reunião da comissão em meia hora.
— Eu sei — respondeu Igor, sentindo a frieza do ar onde a mão de Gabriel estivera.
Gabriel levantou-se e estendeu a mão para Igor, ajudando-o a ficar de pé.
— Vá para casa, Igor. Estude, ore... mas não ore para mudar quem você é. Ore para ter força para enfrentar o que vem pela frente.
— E você? — Igor perguntou, relutante em deixá-lo.
— Eu vou terminar de arrumar as coisas aqui. Amanhã, depois do pôr do sol, me encontre no parque, perto do lago. Longe de olhos conhecidos.
O coração de Igor deu um salto. Era um começo. Um começo perigoso, incerto e que desafiava tudo o que ele conhecia, mas era a primeira vez em anos que ele sentia que podia respirar de verdade.
— Eu estarei lá — prometeu Igor.
Ele caminhou em direção à saída, mas parou na porta de carvalho pesado. Olhou para trás e viu Gabriel parado no meio do corredor, a silhueta emoldurada pelas luzes suaves da igreja. Gabriel parecia pequeno sob o teto alto, um homem dividido entre dois mundos.
— Gabriel? — chamou Igor.
— Sim?
— Obrigado por não me dizer para orar pelo meu desaparecimento.
Gabriel apenas assentiu com a cabeça, um gesto curto e solene.
Igor saiu para a noite fresca. O som dos grilos e o movimento distante dos carros pareciam diferentes agora. Ele ainda era um membro da Igreja Adventista, ainda conhecia os mandamentos e as profecias. Mas, pela primeira vez, ele entendeu que a fé não deveria ser um escudo contra o amor, mas uma busca pela verdade. E a verdade, embora dolorosa, estava começando a se libertar.
Enquanto caminhava para casa, ele cantarolou baixinho um dos hinos que haviam ensaiado mais cedo. Mas as palavras não falavam mais de um julgamento final; falavam de uma graça que ele esperava que fosse grande o suficiente para cobrir dois homens perdidos entre o que acreditavam e o que sentiam.
Dentro da igreja, Gabriel apagou as luzes uma a uma. Quando a escuridão finalmente tomou conta do salão, ele permaneceu em silêncio por um longo tempo, as mãos apoiadas no encosto do banco onde Igor estivera sentado. Ele sentia o eco do toque em sua palma, um calor que a doutrina nunca fora capaz de proporcionar.
— Perdoa-me — sussurrou ele para o vazio, sem saber ao certo se pedia perdão por estar começando algo proibido, ou por ter demorado tanto tempo para admitir que o altar que ele construíra era, na verdade, um túmulo.
Amanhã, o sol se poria novamente, marcando o fim de um ciclo e o início de algo que nenhum manual da igreja poderia explicar. E, pela primeira vez em sua vida adulta, Gabriel não estava com medo do escuro. Ele estava ansioso pelo que encontraria nele.
Seus olhos, no entanto, estavam fixos na plataforma à frente. Gabriel estava lá, recolhendo as partituras deixadas sobre o piano. Gabriel era tudo o que Igor aspirava ser e, ao mesmo tempo, tudo o que o aterrorizava. Dez anos mais velho, com a postura impecável de quem carregava a responsabilidade de ser um dos líderes dos jovens, ele exalava uma segurança que Igor sentia desmoronar dentro de si a cada dia.
— Ainda aqui, Igor? — A voz de Gabriel ecoou pela nave vazia, profunda e calma.
Igor deu um pequeno salto, fechando o livro sagrado com força excessiva.
— Ah, sim. Eu só... estava meditando um pouco sobre a lição da Escola Sabatina — mentiu Igor, sentindo o rosto esquentar.
Gabriel desceu os degraus da plataforma e caminhou em direção a ele. Cada passo parecia ressoar no peito de Igor. Ele vestia uma camisa social azul-clara, com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando braços fortes que Igor já havia imaginado ao redor de si em momentos de fraqueza solitária.
— É bom ver um jovem tão dedicado — disse Gabriel, aproximando-se e sentando-se no banco à frente de Igor, virando-se para encará-lo. — Mas você parece distraído ultimamente. Aconteceu alguma coisa?
Igor engoliu em seco. Como ele poderia explicar que sua "distração" tinha nome, sobrenome e um sorriso que parecia uma promessa de paz e condenação ao mesmo tempo?
— São as dúvidas, Gabriel — respondeu Igor, a voz quase um sussurro. — Às vezes sinto que não me encaixo. Que as regras são como uma moldura pequena demais para o que eu sinto.
Gabriel franziu o cenho, uma expressão de preocupação genuína suavizando seus traços marcantes.
— O mundo lá fora é confuso, Igor. O inimigo trabalha nas nossas incertezas. Mas a igreja é o nosso porto seguro. O que exatamente está te angustiando?
Igor desviou o olhar para as próprias mãos, onde os nós dos dedos estavam brancos de tanto apertar a capa de couro da Bíblia. Ele queria gritar. Queria dizer que o porto seguro parecia uma prisão quando o que seu coração desejava era considerado uma abominação.
— E se o que eu sinto não for uma tentação externa? — Igor perguntou, arriscando um olhar rápido. — E se for algo que nasceu comigo? Algo que a Bíblia diz que é errado, mas que parece a coisa mais real que já senti?
Houve um silêncio pesado. Gabriel suspirou, passando a mão pelo cabelo curto e bem cortado. Ele era o exemplo perfeito do homem adventista: casado com o trabalho ministerial, respeitado por todos, inabalável em sua fé. Ou pelo menos era o que todos acreditavam.
— Todos temos fardos, Igor — Gabriel disse finalmente. — Alguns lutam contra o orgulho, outros contra vícios. O segredo é entregar tudo no altar.
— Mas e se eu não quiser entregar? — A voz de Igor saiu embargada. — E se esse fardo for a única coisa que me faz sentir vivo?
Gabriel inclinou-se para frente, diminuindo a distância entre eles. O cheiro de sândalo e sabonete neutro que emanava dele envolveu Igor, entorpecendo seus sentidos.
— Igor, olhe para mim.
Igor obedeceu, encontrando os olhos escuros de Gabriel. Não havia julgamento ali, apenas uma tristeza profunda que Igor não soube identificar.
— Você é um rapaz de ouro. Tem um futuro brilhante na obra. Não deixe que pensamentos passageiros destruam o que Deus planejou para você.
— Não são passageiros, Gabriel! — Igor exclamou, as lágrimas finalmente vencendo a barreira de seus cílios. — Já faz anos. Eu tento orar para que isso saia de mim, eu jejuo, eu me envolvo em cada atividade da igreja... mas quando eu te vejo...
Ele parou abruptamente, percebendo o que estava prestes a confessar. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. O relógio de parede da secretaria parecia bater mais forte a cada segundo.
Gabriel não se afastou. Ele não se levantou indignado, nem proferiu versículos de condenação. Ele apenas continuou ali, observando Igor com uma intensidade que fazia o ar faltar.
— Quando você me vê... o quê? — perguntou Gabriel, a voz agora baixa, quase rouca.
— Nada. Esqueça — disse Igor, tentando se levantar.
Mas a mão de Gabriel agiu mais rápido, segurando o pulso de Igor. O toque foi como uma descarga elétrica. Igor congelou, olhando para a mão grande e firme que o prendia.
— Igor, fale — insistiu Gabriel.
— Quando eu te vejo, eu sinto que tudo o que me ensinaram sobre o pecado pode estar errado — desabafou Igor, as palavras saindo em um fluxo desesperado. — Porque como pode ser errado admirar alguém como você? Como pode ser pecado querer estar perto, querer que você me veja não como um "jovem da igreja", mas como... como um homem?
Gabriel soltou o pulso de Igor, mas não se afastou. Ele baixou a cabeça, os ombros levemente caídos.
— Você não sabe o que está dizendo — murmurou Gabriel.
— Eu sei exatamente o que estou dizendo! — Igor sentiu uma coragem súbita, nascida do desespero. — Eu te amo, Gabriel. E eu odeio o fato de que esse amor me torna um pária aqui dentro.
Gabriel levantou-se bruscamente e começou a caminhar de um lado para o outro no corredor entre os bancos. Ele parecia estar travando uma batalha interna. Igor observava, o coração na boca, esperando a expulsão, o sermão ou o desprezo.
— Você acha que é o único? — Gabriel parou de repente, virando-se para Igor. Seus olhos brilhavam com uma emoção contida. — Você acha que é fácil para mim, todos os domingos e sábados, olhar para vocês, falar sobre pureza e santidade, enquanto sinto o peso das minhas próprias escolhas?
Igor franziu a testa, confuso.
— Do que você está falando?
Gabriel caminhou de volta e sentou-se novamente, mas desta vez no mesmo banco que Igor, a poucos centímetros de distância.
— Eu escolhi esse caminho, Igor. Eu escolhi a segurança da doutrina, o respeito da comunidade. Eu enterrei quem eu era há muito tempo para ser quem esperavam que eu fosse.
— Você... você também? — Igor mal conseguia processar a informação.
Gabriel deu um sorriso amargo, que não chegou aos seus olhos.
— Eu sou um homem "hétero" da igreja adventista porque é isso que mantém o meu mundo de pé. Eu tenho trinta e dois anos, Igor. Eu já vi muitos jovens como você passarem por aqui, sofrerem e irem embora. Ou ficarem e se tornarem cascas vazias como eu.
— Você não é uma casca vazia — protestou Igor, estendendo a mão timidamente, mas recuando antes de tocar o ombro de Gabriel.
— Sou sim — afirmou Gabriel. — Eu sigo o roteiro. Eu prego o que não sinto plenamente. E a pior parte é que eu vejo em você a mesma luz que eu apaguei em mim anos atrás.
Igor sentiu um aperto no peito. O homem que ele idolatrava estava ali, desmoronando diante dele, revelando uma verdade que mudava tudo.
— Então, o que fazemos? — perguntou Igor.
Gabriel olhou para as portas fechadas da igreja e depois voltou para Igor.
— Para a igreja, não há "nós", Igor. Há o pecado e o pecador. Há o conselho e a disciplina.
— Eu não me importo com a disciplina — disse Igor com firmeza. — Eu só me importo com o que é real.
Gabriel soltou um longo suspiro e, em um movimento que pareceu levar uma eternidade, levou a mão ao rosto de Igor. O polegar acariciou a bochecha úmida do rapaz. O toque era suave, carregado de uma ternura que Igor nunca havia experimentado.
— Você é tão jovem — sussurrou Gabriel. — Tem tanto a perder.
— E você? — rebateu Igor. — O que você ganha vivendo uma mentira?
— Eu ganho paz. Uma paz falsa, mas silenciosa.
Igor inclinou a cabeça, pressionando o rosto contra a palma da mão de Gabriel.
— Eu prefiro a guerra ao seu lado do que essa paz sozinho.
Gabriel fechou os olhos por um momento, como se estivesse absorvendo aquelas palavras. Quando os abriu, havia uma determinação nova neles, misturada com um medo palpável.
— Não podemos fazer nada aqui — disse Gabriel, retirando a mão. — As pessoas começam a chegar para a reunião da comissão em meia hora.
— Eu sei — respondeu Igor, sentindo a frieza do ar onde a mão de Gabriel estivera.
Gabriel levantou-se e estendeu a mão para Igor, ajudando-o a ficar de pé.
— Vá para casa, Igor. Estude, ore... mas não ore para mudar quem você é. Ore para ter força para enfrentar o que vem pela frente.
— E você? — Igor perguntou, relutante em deixá-lo.
— Eu vou terminar de arrumar as coisas aqui. Amanhã, depois do pôr do sol, me encontre no parque, perto do lago. Longe de olhos conhecidos.
O coração de Igor deu um salto. Era um começo. Um começo perigoso, incerto e que desafiava tudo o que ele conhecia, mas era a primeira vez em anos que ele sentia que podia respirar de verdade.
— Eu estarei lá — prometeu Igor.
Ele caminhou em direção à saída, mas parou na porta de carvalho pesado. Olhou para trás e viu Gabriel parado no meio do corredor, a silhueta emoldurada pelas luzes suaves da igreja. Gabriel parecia pequeno sob o teto alto, um homem dividido entre dois mundos.
— Gabriel? — chamou Igor.
— Sim?
— Obrigado por não me dizer para orar pelo meu desaparecimento.
Gabriel apenas assentiu com a cabeça, um gesto curto e solene.
Igor saiu para a noite fresca. O som dos grilos e o movimento distante dos carros pareciam diferentes agora. Ele ainda era um membro da Igreja Adventista, ainda conhecia os mandamentos e as profecias. Mas, pela primeira vez, ele entendeu que a fé não deveria ser um escudo contra o amor, mas uma busca pela verdade. E a verdade, embora dolorosa, estava começando a se libertar.
Enquanto caminhava para casa, ele cantarolou baixinho um dos hinos que haviam ensaiado mais cedo. Mas as palavras não falavam mais de um julgamento final; falavam de uma graça que ele esperava que fosse grande o suficiente para cobrir dois homens perdidos entre o que acreditavam e o que sentiam.
Dentro da igreja, Gabriel apagou as luzes uma a uma. Quando a escuridão finalmente tomou conta do salão, ele permaneceu em silêncio por um longo tempo, as mãos apoiadas no encosto do banco onde Igor estivera sentado. Ele sentia o eco do toque em sua palma, um calor que a doutrina nunca fora capaz de proporcionar.
— Perdoa-me — sussurrou ele para o vazio, sem saber ao certo se pedia perdão por estar começando algo proibido, ou por ter demorado tanto tempo para admitir que o altar que ele construíra era, na verdade, um túmulo.
Amanhã, o sol se poria novamente, marcando o fim de um ciclo e o início de algo que nenhum manual da igreja poderia explicar. E, pela primeira vez em sua vida adulta, Gabriel não estava com medo do escuro. Ele estava ansioso pelo que encontraria nele.
