Fanfy
.studio
Imagem de fundo

D

Fandom: Nenhum

Criado: 05/06/2026

Tags

RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoHistória DomésticaEstudo de PersonagemCiúmesRealismoPsicológicoFofuraFatias de VidaSombrioPWP (Enredo? Que enredo?)Linguagem Explícita
Índice

Entre o Choro e o Silêncio

O corredor do hospital particular de São Paulo exalava aquele cheiro estéril de desinfetante e ansiedade. Emanuel apertou a ponte do nariz, sentindo o peso de uma noite mal dormida e a tensão latejando em suas têmporas. Ele era um homem acostumado ao controle — geria estúdios de tatuagem em três continentes e negociava contratos de milhões —, mas ali, diante do choro estridente de sua filha, a lógica parecia inútil.

— Emanuel, dá para você segurar a Ágata um segundo? Eu preciso retocar o batom, o flash daquela jornalista na entrada quase me cegou e eu devo estar um horror — Sara disse, a voz carregada de uma impaciência cortante.

Ela entregou a pequena Ágata, de oito meses, nos braços do pai. A bebê era uma visão: usava um vestido de grife em miniatura, laços de fita exagerados no pouco cabelo loiro e brincos de diamante que brilhavam sob as luzes fluorescentes. Sara a tratava como uma extensão de sua própria imagem impecável, uma "mini diva" que raramente aceitava ser contrariada. A menina herdara a personalidade forte da mãe; o choro não era de dor, mas de indignação por estar em um ambiente que não controlava.

— Ela está com febre, Sara. O batom pode esperar — Emanuel retrucou, a voz grave e rígida.

— Eu administro seus negócios, Emanuel, não sou uma babá desleixada. Ela está medicada. Agora, segura ela enquanto eu me recomponho. Esse hospital é um lixo de iluminação.

Sara, com suas curvas acentuadas pelo vestido justo e saltos que ecoavam como tiros no piso de granito, ignorou o olhar severo do namorado. Ela amava Emanuel, e ele a amava com uma intensidade possessiva e racional, mas o estresse da doença da filha estava esticando a corda entre os dois.

Emanuel suspirou, ninando Ágata mecanicamente. Ele queria estar em casa. Queria que sua vida fosse o que ele planejara: as duas mulheres que amava sob o mesmo teto, formando um ecossistema perfeito sob sua proteção. Mas Eduarda... Eduarda ainda resistia.

Foi quando ele a viu.

A uns vinte metros de distância, perto da ala de triagem pediátrica, uma figura delicada estava sentada em um dos bancos de couro. Eduarda. Ela usava um cardigã bege sobre um vestido floral leve, os cabelos castanhos caindo em ondas naturais sobre os ombros. Ela parecia uma pintura de Renoir em meio ao caos cinzento do hospital.

Mas ela não estava sozinha. Ao lado dela, seus pais — jovens, vestidos de forma moderna e com expressões preocupadas — conversavam com uma enfermeira. E, nos braços de Eduarda, havia um bebê.

Emanuel travou. Onde Eduarda teria arranjado um bebê?

Ele começou a caminhar naquela direção, ignorando o chamado irritado de Sara que acabara de sair do banheiro. Conforme se aproximava, notou os detalhes. A bebê nos braços de Eduarda era diferente de Ágata. Tinha cabelos castanhos ralinhos, olhos grandes e expressivos que pareciam observar o mundo com a mesma timidez da mulher que a segurava.

Eduarda estava com o rosto colado ao da pequena, sussurrando palavras doces. A bebê, Maya, segurava o dedo indicador de Eduarda com uma força desesperada, como se aquele toque fosse sua única âncora no mundo.

— Eduarda? — A voz de Emanuel saiu mais dura do que pretendia, fruto do susto e da irritação acumulada.

Eduarda deu um pulo, os olhos castanhos arregalados ao encontrar os dele. Ela instintivamente apertou o bebê contra o peito, um gesto de proteção puro e imediato.

— Emanuel? O que... o que você está fazendo aqui? — ela perguntou, a voz mansa e trêmula.

— Eu que pergunto. O que é isso? De quem é essa criança? — Ele apontou para Maya, que se encolheu contra o corpo de Eduarda, escondendo o rostinho no pescoço dela.

— É a Maya — Eduarda explicou, os olhos começando a brilhar com lágrimas contidas. — Meus pais e eu... nós a encontramos. Alguém a deixou em uma cesta, perto da nossa casa. Ela estava com frio, Emanuel. Tão quietinha... ela nem chorava, só olhava para a gente.

— Você encontrou um bebê abandonado e o trouxe para o hospital? — Emanuel cruzou os braços, ainda segurando Ágata, que começou a espernear ao notar a presença de outra criança. — Eduarda, isso é um problema legal imenso. Você deveria ter ligado para a polícia, não se apegar ao bebê.

— Nós ligamos! — Eduarda disse, ganhando uma faísca de coragem em meio à sua timidez habitual. — Mas ela precisava de um médico. Ela é tão doce, Emanuel... olha como ela é calma. Ela não é como...

Ela parou de falar ao ver Sara se aproximar, os saltos estalando agressivamente.

— Mas o que é isso? Uma reunião de família no meio do pronto-socorro? — Sara parou ao lado de Emanuel, arqueando uma sobrancelha perfeitamente desenhada ao olhar para Eduarda. — Oi, Duda. Não sabia que tinha virado mãe de aluguel nas horas vagas da faculdade de artes.

Sara não odiava Eduarda. Para ela, a garota era apenas uma fase prolongada de Emanuel, alguém que não oferecia perigo porque não tinha a "presença" que Sara possuía. Na cabeça de Sara, ela era a rainha do império de Emanuel, a mãe da herdeira, enquanto Eduarda era apenas o refúgio sensível dele.

— Ela não é de aluguel, Sara — Eduarda murmurou, baixando o olhar, intimidada pela presença vibrante e vulgar da loira. — Nós a resgatamos.

— Resgatou? — Sara soltou uma risada curta e irônica. — Querida, bebês não são gatinhos de rua. Olha para o estado dessa menina, toda desajeitada. E essas roupas? Emanuel, você não vai deixar ela se envolver nisso, vai? Já temos problemas demais com a febre da Ágata.

Ágata, sentindo o tom de voz da mãe, soltou um grito agudo de protesto. Maya, nos braços de Eduarda, apenas se apertou mais contra a moça, soltando um soluço baixinho e manhoso, buscando o calor da pele de Eduarda.

— Silêncio, as duas! — Emanuel ordenou, a autoridade de quem comanda centenas de funcionários vindo à tona. — Eduarda, vem aqui. Agora.

Ele se afastou alguns passos para um canto mais reservado do corredor, esperando que ela o seguisse. Eduarda hesitou, olhou para os pais, que assentiram silenciosamente, e caminhou até ele, balançando Maya devagar.

— Você não me atende há dois dias — Emanuel começou, a voz baixa e carregada de uma irritação possessiva. — Eu te pedi para ir lá em casa, para conversarmos sobre a mudança. E agora te encontro aqui, com um bebê desconhecido no colo, agindo como se fosse a mãe dela?

— Eu não consegui, Emanuel... eu tive medo — ela disse, a voz quase sumindo. — E a Maya... ela precisa de mim. Ela só fica calma comigo. Veja como ela é manhosa, ela não gosta de barulho.

— Ela é um fardo, Eduarda! — ele exclamou, perdendo a paciência. — Você mal consegue cuidar de si mesma sem ficar insegura, como quer cuidar de uma criança que nem é sua? Isso é exatamente o porquê de você precisar morar comigo. Eu preciso ter você onde eu possa te ver, onde eu possa garantir que você não vai se meter nessas situações.

Eduarda sentiu uma fisgada no peito. O cuidado de Emanuel era sua proteção, mas às vezes parecia uma redoma de vidro que a sufocava.

— Você não entende — ela sussurrou, acariciando as costas de Maya. — Ela foi deixada sozinha. Eu sei como é se sentir pequena e com medo. Eu não vou deixar ela.

— Emanuel! — Sara chamou de longe, impaciente. — O médico está chamando a Ágata. Deixa a santa das causas perdidas aí e vem logo!

Emanuel olhou para Sara, depois para Eduarda. Ele se sentia dividido ao meio. Sara era a estrutura, a mulher que o ajudava a construir seu império, a mãe da sua filha loira e barulhenta. Eduarda era sua paz, a doçura que ele queria guardar em uma caixa de veludo. Ver Eduarda com Maya despertava nele um instinto protetor ainda mais feroz, mas também uma irritação profunda por ela ter encontrado algo — ou alguém — em quem se apoiar que não fosse ele.

— Isso não acabou — Emanuel disse para Eduarda, o olhar fixo e controlador. — Vou resolver o problema da Ágata e depois vou cuidar dessa situação da Maya. Seus pais que se virem com a burocracia. Você vai para minha casa hoje, entendeu? Sem desculpas.

Eduarda não respondeu. Ela apenas enterrou o rosto no topo da cabeça de Maya, sentindo o cheiro de bebê e sabão neutro.

— Ela é tão boazinha, Emanuel... — Eduarda disse, num último esforço para que ele visse o que ela via. — Ela não faz barulho. Ela só quer amor.

Emanuel olhou para a pequena Maya. A bebê abriu os olhos e olhou diretamente para ele. Não havia o desafio de Ágata, apenas uma carência profunda e silenciosa. Por um breve segundo, o coração endurecido do tatuador vacilou. Mas o grito de Sara novamente quebrou o momento.

— Emanuel! Agora!

Ele girou nos calcanhares e caminhou em direção a Sara, a postura rígida, o peso do mundo e de duas vidas distintas sobre os ombros.

Eduarda ficou ali, parada no corredor. Ela viu Sara envolver o braço de Emanuel com possessividade enquanto entravam no consultório. Viu a força, o brilho e a vulgaridade de Sara dominarem o ambiente.

— Está tudo bem, Maya — Eduarda sussurrou para a bebê, que soltou um pequeno suspiro de satisfação no colo dela. — Eu não vou deixar ele te levar para longe de mim. E eu não vou deixar ele me trancar naquela casa.

Pela primeira vez em vinte anos, a timidez de Eduarda encontrou um propósito maior do que seu medo de conflitos. Ela observou Emanuel desaparecer pela porta do consultório. Ele queria as duas sob seu controle, mas ali, com Maya nos braços, Eduarda sentiu que talvez o controle dele estivesse prestes a ruir.

No banco de espera, os pais de Eduarda se aproximaram.

— O que ele disse, querida? — a mãe perguntou, tocando o ombro da filha.

— O de sempre — Eduarda respondeu, com uma firmeza nova na voz. — Mas ele está errado. Maya não é um fardo. Ela é a única coisa que me faz sentir que eu finalmente tenho algo que é só meu.

Enquanto isso, dentro do consultório, Emanuel segurava a mão de Sara enquanto o médico examinava Ágata. Mas sua mente estava no corredor. Ele conseguia visualizar Eduarda e a bebê castanha perfeitamente. O contraste era insuportável: a tempestade loira de Sara ao seu lado e a calmaria castanha de Eduarda lá fora.

Ele era um homem que conseguia tudo o que queria. E ele queria as duas. Mas, pela primeira vez, ele sentiu que, ao tentar segurar Eduarda com tanta força, ela estava começando a escorregar por entre seus dedos, carregando nos braços uma criança que ele não podia controlar.

— Emanuel, você está me ouvindo? — Sara estalou os dedos na frente do rosto dele, irritada. — O médico disse que é só uma virose. Podemos ir embora desse lugar de gente pobre agora?

— Sim — ele disse, a voz fria. — Vamos embora. Mas antes, eu tenho que pegar a Eduarda.

— Ah, faça-me o favor! Deixe a menina com o brinquedo novo dela. Ela vai acabar se cansando daquele bebê em dois dias.

Emanuel não respondeu. Ele sabia que Sara estava errada. Eduarda não se cansaria. E esse era o seu maior medo. Ele saiu do consultório determinado a levar Eduarda consigo, por bem ou por mal, mas quando chegou ao corredor, o banco estava vazio.

Eduarda, seus pais e a pequena Maya haviam ido embora.

Pela primeira vez na vida, Emanuel sentiu o gosto amargo de perder o controle. Ele olhou para Sara, que reclamava do peso da bolsa, e para Ágata, que voltara a chorar. O silêncio manhoso de Eduarda e Maya havia deixado um vácuo que nenhum de seus milhões ou de seus estúdios espalhados pelo mundo poderia preencher.

— Eu vou te achar, Eduarda — ele sussurrou para o corredor vazio. — E você vai trazer essa menina com você.

A guerra entre a razão de Emanuel, a provocação de Sara e a nova força de Eduarda estava apenas começando, e o campo de batalha agora tinha dois pequenos novos motivos para nunca mais ser o mesmo.
Índice

Quer criar seu próprio fanfic?

Cadastre-se na Fanfy e crie suas próprias histórias!

Criar meu fanfic