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Papa aos 16

Fandom: Mundo moderno alternativo onde Bento XVI jamais renunciou

Criado: 06/06/2026

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O Silêncio de Mármore e o Canto do Menino

A luz crepuscular de Roma filtrava-se pelas janelas do Palácio Apostólico, tingindo de âmbar os milhares de livros que revestiam as paredes do escritório papal. Bento XVI, o Vigário de Cristo, o "humilde trabalhador na vinha do Senhor", parecia quase transparente sob o peso da casula branca. Seus ombros, embora curvados sob o fardo de uma Igreja que sangrava por mil feridas modernistas, mantinham uma dignidade que desafiava as leis da biologia.

Ele estava sentado ao seu piano, os dedos longos e pálidos flutuando sobre as teclas com a precisão de um teólogo que encontra a verdade em cada nota de Mozart. Ao seu lado, Zorro, um gato preto de uma orelha só resgatado das ruelas do Trastevere, ronronava satisfeito.

O silêncio do escritório foi quebrado pelo som pesado da porta de carvalho se abrindo. O Cardeal Matarazzo entrou, caminhando com uma agilidade que desmentia seus 94 anos. Seus olhos, que guardavam o fogo de um inquisidor e o brilho de um avô brincalhão, fixaram-se no Papa.

— Santo Padre, o mundo lá fora está um zoológico, e eu não estou falando dos seus gatos — disse Matarazzo, com um sorriso de canto de boca. — A ONU enviou outra carta "exigindo" que revisemos a doutrina sobre a família. Dizem que estamos atrasados.

Bento XVI parou de tocar. O último acorde de *Don Giovanni* ainda vibrava no ar. Ele se virou lentamente, com uma mansidão que era, em si mesma, uma fortaleza.

— Querido Matarazzo, o mundo sempre confunde o eterno com o antigo — respondeu Bento, sua voz suave como veludo, mas firme como rocha. — Eles querem que a Igreja seja um espelho do tempo presente, quando nossa missão é ser uma janela para a eternidade.

— Pois eu gostaria de usar essa janela para jogar alguns deles lá embaixo — resmungou Matarazzo, aproximando-se da mesa onde pilhas de documentos aguardavam. — Mathias está furioso. Ele está tentando conter os bispos alemães enquanto redige a nova encíclica sobre o Reinado Social de Cristo. O homem está fazendo o trabalho de dez, e os outros noventa e nove cardeais estão ocupados demais discutindo sociologia barata em hotéis cinco estrelas.

Nesse momento, a porta abriu-se novamente, mas desta vez o passo era diferente. Era um passo jovem, leve, mas carregado de uma reverência que parecia vir de outro século. João Miguel, o jovem catarinense que Mathias trouxera do Brasil, entrou na sala trazendo uma bandeja de prata com chá e biscoitos alemães.

João era alto, com traços angulares que lembravam as figuras místicas de El Greco, os olhos profundos que pareciam sempre estar em oração. Atrás dele, Yuri, seu melhor amigo, tentava manter a compostura, embora um pequeno gatinho malhado estivesse espreitando do bolso de sua batina.

Ao ver João Miguel, a expressão de Bento XVI suavizou-se instantaneamente. O cansaço que marcava as rugas de seu rosto pareceu dissipar-se por um momento.

— Ah, João Miguel. Você chega no momento em que a política tenta roubar o lugar da oração — disse o Papa, estendendo a mão para que o jovem a beijasse.

— Santo Padre — João ajoelhou-se com uma naturalidade que não tinha nada de servilismo, mas tudo de amor filial. — Meu tio, o Cardeal Mathias, pede desculpas por não vir pessoalmente. Ele está... digamos que ele está tendo uma conversa "pedagógica" com o embaixador francês sobre o que significa a palavra "dogma".

Matarazzo soltou uma gargalhada curta e seca.

— Imagino a cena. Mathias deve estar usando o silogismo como se fosse um chicote.

Yuri, que até então estava em silêncio, deu um passo à frente, tentando esconder o gato que agora começava a miar.

— Santidade, eu trouxe o chá. E o Yuri... bem, o Yuri trouxe um problema — disse João Miguel, lançando um olhar de soslaio para o amigo.

Yuri deu um sorriso amarelo e tirou o gatinho do bolso.

— Eu o encontrei perto da Guarda Suíça, Santo Padre. Ele parecia um modernista: perdido, gritando muito e sem saber para onde ir. Achei que o senhor saberia o que fazer.

Bento XVI soltou uma risada cristalina, um som raro naqueles corredores sombrios. Ele pegou o gatinho com mãos trêmulas mas gentis.

— Ele é bem-vindo, Yuri. Na casa do Pai, há muitas moradas, e certamente há espaço para mais um pequeno órfão.

João Miguel aproximou-se do Papa, seu olhar tornando-se sério, carregado de uma maturidade que assustava os outros prelados.

— Santo Padre, eu li o rascunho que o senhor deixou sobre a mesa. A defesa da Missa de Sempre e o ataque à ditadura do relativismo. É... é fogo puro.

— Você acha muito duro, João? — perguntou Bento, observando o jovem.

— Eu acho necessário — respondeu João Miguel, e sua voz subiu de tom, ganhando uma autoridade natural. — O mundo não precisa de uma Igreja que concorde com ele. O mundo está morrendo porque ninguém mais lhe diz a verdade. Se a verdade dói, é porque ela está curando a ferida.

Matarazzo trocou um olhar cúmplice com Bento. O velho Cardeal sabia o que via naquele menino. Ele via o futuro. Ele via o sucessor que os lobos jamais esperariam.

— Vejam só — comentou Matarazzo, cruzando os braços. — Mathias me diz que esse rapaz passa as noites lendo São Luís de Montfort e as encíclicas de Pio XI. Se ele continuar assim, os políticos de Brasília e os burocratas de Bruxelas terão pesadelos.

— Por falar em Brasília — disse João Miguel, lembrando-se de algo —, o Presidente Enéas ligou novamente. Ele disse que as reformas estão avançando, mas que precisa da bênção do senhor para enfrentar a oposição que quer fechar as igrejas por causa das novas "normas sanitárias da alma".

— O Dr. Enéas é um homem de coragem — disse Bento, suspirando. — Ele entende que uma nação sem Deus é apenas um aglomerado de indivíduos egoístas. Diga a ele que minhas orações o acompanham.

O ambiente foi subitamente interrompido pela entrada tempestuosa do Cardeal Mathias. O catarinense parecia uma coluna de mármore em movimento. Sua batina estava impecável, mas seu rosto ardia com uma indignação santa.

— Santidade — Mathias fez uma reverência rápida antes de despejar um calhamaço de papéis sobre a mesa de Bento. — Três conferências episcopais acabam de publicar um manifesto pedindo a "democratização" do Conclave e a ordenação de diaconisas. Eles não estão mais nem tentando fingir que são católicos.

Bento XVI fechou os olhos por um momento. A dor em seu peito não era física, era a dor de um pastor que vê as ovelhas pulando no abismo por vontade própria.

— Eles querem transformar o Corpo de Cristo em uma ONG política — continuou Mathias, a voz vibrante. — Já comecei os processos de excomunhão *latae sententiae* para os líderes, mas o Secretariado de Estado está tentando me bloquear.

— Deixe que tentem — disse Matarazzo, com um brilho perigoso nos olhos. — Eu ainda sou o Decano. Se eles querem brincar de política, eu lhes mostrarei como se faz política à moda dos Bórgia, mas com a teologia de Santo Agostinho.

João Miguel aproximou-se do tio e colocou a mão em seu ombro. Era um gesto simples, mas que pareceu acalmar o impetuoso Cardeal Mathias.

— Tio, o senhor se lembra do que me disse quando saímos de Santa Catarina? — perguntou o jovem. — Que a Igreja é divina, e que se os homens não conseguiram destruí-la por dentro em dois mil anos, não serão esses burocratas que o farão agora.

Mathias respirou fundo, olhando para o sobrinho com um orgulho contido.

— Você tem razão, João. Mas o cansaço às vezes nos faz esquecer o óbvio.

Bento XVI levantou-se, apoiando-se no braço de João Miguel. O Papa caminhou até a janela, observando a cúpula da Basílica de São Pedro recortada contra o céu escuro.

— Eles pensam que eu sou um velho fraco — murmurou Bento, quase para si mesmo. — Eles esperam a minha renúncia todos os dias. Eles querem que eu entregue as chaves para que possam abrir as portas para o mundo. Mas eles se esquecem de que as chaves não são minhas. Elas pertencem a Pedro, e Pedro nunca renuncia à Verdade.

Ele se virou para o pequeno grupo na sala: o velho guerreiro Matarazzo, o incansável Mathias, o fiel Yuri e o jovem João Miguel, que parecia uma promessa de ressurreição.

— João, toque algo para nós — pediu o Papa, apontando para o piano. — Algo que lembre a esses muros que a beleza é o esplendor da verdade.

João Miguel sentou-se ao piano. Ele não possuía a técnica refinada de Bento, mas tocava com uma alma que parecia incendiar as cordas do instrumento. Ele começou a tocar uma melodia simples, mas poderosa: um hino a Cristo Rei.

Enquanto as notas preenchiam a sala, Yuri alimentava os gatos, Mathias revisava as excomunhões com uma caneta que parecia uma espada, e Matarazzo sorria, observando o Papa.

Bento XVI sentou-se em sua poltrona, fechando os olhos. Ele sabia que o cerco estava se fechando. Sabia que, dentro daquelas mesmas paredes, muitos planejavam sua sucessão com corações cheios de veneno. Mas, ao ouvir a música de João Miguel, ele sentiu uma paz profunda.

A Igreja estava cercada, prostituída em seus altos escalões, infiltrada e traída. Mas ali, naquele pequeno escritório, a chama ainda ardia. E enquanto houvesse um Papa que rezasse, um Cardeal que lutasse e um jovem que acreditasse, o inferno continuaria perdendo a guerra.

— Santidade? — chamou João Miguel, parando de tocar por um momento.

— Sim, meu filho?

— O senhor acha que eles vão vencer? — O jovem olhou para as mãos, as mãos que um dia, sem que ele soubesse, segurariam o cajado de pastor universal.

Bento XVI sorriu, um sorriso doce e cheio de uma certeza inabalável.

— Eles já perderam, João. Eles só ainda não perceberam, porque não conhecem o final da história. E o final da história já foi escrito com sangue no Calvário. Nós só precisamos permanecer em nossos postos.

Lá fora, os corredores do Vaticano sussurravam conspirações. Mas dentro daquela sala, sob a proteção da Graça e a companhia dos gatos, a Igreja Católica permanecia invicta, esperando pela aurora de um novo dia que, embora passasse pela cruz, terminaria inevitavelmente na luz da Ressurreição.
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