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Entre cartas e guerras
Fandom: Blink
Criado: 06/06/2026
Tags
RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoHistóricoEstudo de PersonagemSobrevivência
Tinta e Pólvora
O cheiro de terra úmida e metal queimado era o perfume permanente das manhãs no front. Rosé sentou-se sobre um caixote de munição vazio, os dedos sujos de graxa e poeira tentando segurar um cigarro apagado. Seus olhos, antes brilhantes com a vivacidade de quem queria conquistar o mundo, agora eram apenas frestas de melancolia que observavam o horizonte acinzentado.
Ela tinha vinte e cinco anos, mas sentia como se tivesse cem. A guerra não apenas levava vidas; ela drenava a cor da alma. Rosé se lembrava vagamente da garota que amava tocar piano e que sonhava em viajar pela Europa. Aquela garota havia morrido em alguma trincheira lamacenta há três invernos.
— Ei, Park! — O sargento gritou, jogando um fardo de envelopes sobre a mesa improvisada de madeira. — Chegaram as cartas de incentivo. Aquela iniciativa das escolas. Pegue uma para não dizer que ninguém se importa se você vai explodir hoje.
Rosé soltou um riso seco, um som sem alegria que mal passou por seus lábios.
— Que sorte a minha — murmurou ela, a voz rouca pelo desuso.
Ela esticou a mão e puxou um envelope aleatório. Era de um papel creme, visivelmente superior aos papéis pardos e grosseiros que costumavam circular pelo acampamento. Não havia nome de remetente, apenas um selo colorido de uma flor e uma caligrafia elegante que contrastava com os desenhos infantis que decoravam os outros envelopes destinados aos seus colegas.
Enquanto os outros soldados riam das mensagens de crianças de sete anos prometendo que seriam "heróis", Rosé abriu o envelope creme com uma curiosidade que julgava ter perdido.
*“Querida pessoa do outro lado da linha,*
*Escrevo esta carta a pedido de um dos meus alunos, o pequeno Leo. Ele acha que todos os soldados são como os bonecos de ação dele: invencíveis e feitos de plástico. Eu sei que você não é de plástico. Eu sei que você sente frio, que sente falta de casa e que, provavelmente, o café aí é horrível.*
*Meu nome é Jennie. Sou professora de um jardim de infância onde o maior problema do dia, até agora, foi o sumiço de um giz de cera azul e uma discussão filosófica sobre se cachorros entendem o que os pássaros dizem. Parece um mundo diferente, não é? Mas é o mesmo mundo. E eu queria que você soubesse que, aqui, as flores ainda florescem e as crianças ainda riem alto.*
*Não sei quem você é, ou o que viu, mas espero que esta carta seja um minuto de silêncio bom no meio do barulho. Se quiser responder, ficarei feliz. Se não quiser, apenas saiba que alguém está torcendo para que você possa ver o pôr do sol de uma janela de verdade em breve.*
*Com carinho, Jennie.”*
Rosé leu a carta três vezes. O sarcasmo que costumava usar como escudo falhou. Havia algo naquela escrita — uma mistura de leveza e uma percepção aguda da realidade — que a atingiu em um lugar que ela mantinha trancado.
— O que foi, Park? — perguntou Lisa, sua companheira de unidade, limpando o cano do fuzil. — A criança mandou um desenho de um tanque?
— Não — Rosé respondeu, guardando o papel no bolso interno do uniforme, perto do coração. — Foi só uma professora que sabe que o café daqui é uma porcaria.
***
Semanas depois, em uma sala de aula inundada pela luz morna da tarde, Jennie Kim organizava os potes de tinta guache. O som das risadas das crianças no pátio era a trilha sonora de sua vida, uma melodia que ela protegia com unhas e dentes.
Ela amava seu trabalho, mas às vezes, quando o silêncio caía sobre sua casa à noite, a solidão apertava. Ela lia os jornais, via as fotos das cidades destruídas e sentia uma angústia sufocante. Escrever aquela carta tinha sido um impulso, uma tentativa de lançar uma âncora em um mar de caos.
— Professora Jennie! — Leo correu para dentro da sala, segurando um envelope amassado. — O correio chegou! Tem uma para a senhora!
Jennie sentiu o coração dar um salto descompassado. Ela pegou o envelope. Era papel de campo, cinza, áspero, com o carimbo da censura militar. No lugar do nome do remetente, apenas uma rubrica: *R. Park*.
Ela se sentou em sua mesa e abriu o papel com cuidado. A letra era pequena, inclinada e um pouco trêmula.
*“Senhorita Jennie,*
*O café é, de fato, pior do que você imagina. Acho que usam lama e desespero como ingredientes principais. Diga ao Leo que não somos feitos de plástico. O plástico não sangra e certamente não fica acordado às três da manhã pensando em como era o gosto de uma maçã colhida direto do pé.*
*Obrigada pelas palavras. Aqui não há gizes de cera azuis, apenas tons de cinza e marrom. É difícil lembrar que o mundo ainda tem cores quando tudo o que se vê é poeira. Mas, hoje de manhã, vi um pássaro cantando em cima de um tanque quebrado. Ele não parecia se importar com a guerra. Achei que você gostaria de saber disso.*
*R. Park.”*
Jennie sorriu, sentindo uma pontada de tristeza misturada com admiração. Era uma resposta curta, quase ríspida em sua brevidade, mas havia uma sensibilidade escondida entre as linhas. Ela pegou uma folha de papel nova imediatamente.
***
Os meses passaram, e as cartas tornaram-se o eixo em torno do qual o mundo de ambas girava. Para Rosé, as cartas de Jennie eram janelas. Através delas, ela sentia o cheiro dos bolos que Jennie tentava assar (e que às vezes queimavam), ouvia as perguntas absurdas das crianças e via as cores das estações mudando na cidade.
Para Jennie, as cartas de Rosé eram um lembrete da resiliência humana. Rosé nunca falava de batalhas ou de glória. Ela falava de como a chuva fazia um som diferente quando batia nas lonas das tendas, ou de como sentia falta de usar sapatos que não fossem botas pesadas.
— Você está escrevendo para ela de novo? — Lisa perguntou, observando Rosé agachada em um canto da trincheira, protegendo o papel da garoa fina.
— Ela me perguntou se eu preferia o outono ou a primavera — Rosé respondeu, sem desviar os olhos do papel.
— E o que você respondeu?
— Que prefiro qualquer estação em que não haja bombardeios — Rosé deu um sorriso de lado, amargo e rápido. — Mas disse que o outono tem uma luz bonita. Ela gosta de luz.
Lisa suspirou, sentando-se ao lado da amiga.
— Você está se apaixonando por um pedaço de papel, Rosé. Isso é perigoso aqui.
— Eu estou tentando lembrar que sou humana, Lisa — Rosé rebateu, a voz subitamente séria. — Se eu parar de escrever, eu viro apenas mais um fuzil. Ela me faz sentir que ainda tenho um nome.
Naquela noite, Rosé foi mais profunda. O frio estava cortante, e a sensação de finitude pairava no ar após um ataque pesado na tarde anterior.
*“Jennie,*
*Hoje eu perdi um companheiro. Ele tinha fotos da noiva no bolso. Eu fico pensando se alguém vai escrever para ela, ou se ela vai apenas receber um telegrama frio do governo. A guerra rouba o futuro da gente antes mesmo de ele acontecer.*
*Às vezes, tenho medo de que, se eu voltar, não sobre nada de quem eu era. Não sei mais como conversar sobre coisas normais. O que eu diria em um jantar? 'Passe o sal, e a propósito, o som de um morteiro é como um rasgo no céu'?*
*Você diz que tem esperança. De onde ela vem? Como você consegue acreditar que o mundo é bom quando ele faz isso com as pessoas?”*
A resposta de Jennie chegou dez dias depois. Junto com a carta, havia uma pequena flor prensada, uma margarida colhida no jardim da escola.
*“Rosé,*
*Minha esperança não vem de ignorar a dor, mas de ver como as pessoas cuidam umas das outras apesar dela. Você sente culpa pelos que não voltaram porque você tem um coração imenso. A guerra pode ter roubado seus anos, mas ela não roubou sua capacidade de observar o pássaro no tanque ou de se importar com a noiva do seu amigo.*
*Você pergunta o que diria em um jantar... Eu adoraria ouvir você falar sobre qualquer coisa. Poderíamos falar sobre o silêncio, se você preferir. Não precisa ser 'normal' para ser bem-vinda. Você só precisa ser você.*
*Por favor, continue voltando para o abrigo. Continue escrevendo. Eu comecei a comprar papéis de cores diferentes para cada carta, para que você tenha um arco-íris para guardar no bolso. Hoje o papel é amarelo, porque o sol finalmente saiu por aqui e eu pensei em você.”*
Rosé fechou os olhos e levou a flor prensada ao nariz. Não tinha cheiro de nada além de papel velho, mas em sua mente, ela conseguia imaginar o perfume de um jardim. Pela primeira vez em anos, ela se permitiu imaginar um futuro. Não um futuro de glória, mas um futuro de silêncios compartilhados e papéis coloridos.
— Park! Movimentação ao norte! — o grito do oficial ecoou.
Rosé guardou a carta amarela e a margarida no bolso interno. Ela pegou seu fuzil, o metal frio contrastando com o calor que a carta de Jennie havia deixado em seu peito.
— Estou indo — ela respondeu.
Ela tinha uma razão para sobreviver àquele dia. Ela precisava descobrir qual seria a cor do papel da próxima semana.
***
A rotina de Jennie havia mudado. Ela não mais apenas passava pelo correio; ela esperava pelo carteiro no portão. Seus alunos já sabiam que "a amiga soldado da professora" era alguém muito especial.
— Ela vai vir visitar a gente, professora? — perguntou a pequena Soo-jin, enquanto desenhava uma casa com muitas janelas.
— Eu não sei, querida — Jennie respondeu, acariciando o cabelo da menina. — Ela está em um lugar muito longe e muito difícil.
— Manda esse desenho para ela? — A menina estendeu a folha. — É uma casa para ela morar quando a guerra cansar.
Jennie sentiu os olhos marejarem. Ela pegou o desenho e o colocou junto com a carta que estava escrevendo. Naquela noite, Jennie não falou sobre o cotidiano. Ela foi vulnerável.
*“Rosé,*
*Às vezes, eu acordo de madrugada e fico olhando para a rua deserta, imaginando onde você está. O mundo parece tão grande e tão injusto. Eu queria poder enviar mais do que apenas papel. Queria enviar um cobertor que nunca esfria e uma garantia de que você está segura.*
*Você se tornou a pessoa com quem eu mais converso, mesmo que nunca tenhamos trocado uma palavra em voz alta. É estranho como o destino faz essas coisas. Sinto que conheço sua alma através da sua caligrafia. Por favor, tome cuidado. Há uma casa de papel sendo construída para você aqui por uma menina de seis anos, e um coração de verdade esperando por você por uma mulher que esqueceu como era a vida antes das suas cartas.”*
No front, Rosé recebeu a carta sob o som de trovões que não eram de chuva. Ela leu sobre a casa de papel e sobre o coração de Jennie. O sarcasmo que ela usava para sobreviver derreteu completamente, deixando apenas Roseanne — a garota sensível que amava música e luz.
Ela pegou um pedaço de papel, o último que tinha, e escreveu apenas uma frase, pois o tempo era curto e o deslocamento seria imediato.
*“Jennie, guarde um lugar para mim nessa casa de papel. Eu vou tentar encontrar o caminho de volta para você.”*
Ela não sabia se aquela seria sua última carta, mas sabia que, pela primeira vez, a guerra não era a única coisa que definia quem ela era. Ela era a destinatária de Jennie Kim. E isso, por si só, já era uma vitória.
Ela tinha vinte e cinco anos, mas sentia como se tivesse cem. A guerra não apenas levava vidas; ela drenava a cor da alma. Rosé se lembrava vagamente da garota que amava tocar piano e que sonhava em viajar pela Europa. Aquela garota havia morrido em alguma trincheira lamacenta há três invernos.
— Ei, Park! — O sargento gritou, jogando um fardo de envelopes sobre a mesa improvisada de madeira. — Chegaram as cartas de incentivo. Aquela iniciativa das escolas. Pegue uma para não dizer que ninguém se importa se você vai explodir hoje.
Rosé soltou um riso seco, um som sem alegria que mal passou por seus lábios.
— Que sorte a minha — murmurou ela, a voz rouca pelo desuso.
Ela esticou a mão e puxou um envelope aleatório. Era de um papel creme, visivelmente superior aos papéis pardos e grosseiros que costumavam circular pelo acampamento. Não havia nome de remetente, apenas um selo colorido de uma flor e uma caligrafia elegante que contrastava com os desenhos infantis que decoravam os outros envelopes destinados aos seus colegas.
Enquanto os outros soldados riam das mensagens de crianças de sete anos prometendo que seriam "heróis", Rosé abriu o envelope creme com uma curiosidade que julgava ter perdido.
*“Querida pessoa do outro lado da linha,*
*Escrevo esta carta a pedido de um dos meus alunos, o pequeno Leo. Ele acha que todos os soldados são como os bonecos de ação dele: invencíveis e feitos de plástico. Eu sei que você não é de plástico. Eu sei que você sente frio, que sente falta de casa e que, provavelmente, o café aí é horrível.*
*Meu nome é Jennie. Sou professora de um jardim de infância onde o maior problema do dia, até agora, foi o sumiço de um giz de cera azul e uma discussão filosófica sobre se cachorros entendem o que os pássaros dizem. Parece um mundo diferente, não é? Mas é o mesmo mundo. E eu queria que você soubesse que, aqui, as flores ainda florescem e as crianças ainda riem alto.*
*Não sei quem você é, ou o que viu, mas espero que esta carta seja um minuto de silêncio bom no meio do barulho. Se quiser responder, ficarei feliz. Se não quiser, apenas saiba que alguém está torcendo para que você possa ver o pôr do sol de uma janela de verdade em breve.*
*Com carinho, Jennie.”*
Rosé leu a carta três vezes. O sarcasmo que costumava usar como escudo falhou. Havia algo naquela escrita — uma mistura de leveza e uma percepção aguda da realidade — que a atingiu em um lugar que ela mantinha trancado.
— O que foi, Park? — perguntou Lisa, sua companheira de unidade, limpando o cano do fuzil. — A criança mandou um desenho de um tanque?
— Não — Rosé respondeu, guardando o papel no bolso interno do uniforme, perto do coração. — Foi só uma professora que sabe que o café daqui é uma porcaria.
***
Semanas depois, em uma sala de aula inundada pela luz morna da tarde, Jennie Kim organizava os potes de tinta guache. O som das risadas das crianças no pátio era a trilha sonora de sua vida, uma melodia que ela protegia com unhas e dentes.
Ela amava seu trabalho, mas às vezes, quando o silêncio caía sobre sua casa à noite, a solidão apertava. Ela lia os jornais, via as fotos das cidades destruídas e sentia uma angústia sufocante. Escrever aquela carta tinha sido um impulso, uma tentativa de lançar uma âncora em um mar de caos.
— Professora Jennie! — Leo correu para dentro da sala, segurando um envelope amassado. — O correio chegou! Tem uma para a senhora!
Jennie sentiu o coração dar um salto descompassado. Ela pegou o envelope. Era papel de campo, cinza, áspero, com o carimbo da censura militar. No lugar do nome do remetente, apenas uma rubrica: *R. Park*.
Ela se sentou em sua mesa e abriu o papel com cuidado. A letra era pequena, inclinada e um pouco trêmula.
*“Senhorita Jennie,*
*O café é, de fato, pior do que você imagina. Acho que usam lama e desespero como ingredientes principais. Diga ao Leo que não somos feitos de plástico. O plástico não sangra e certamente não fica acordado às três da manhã pensando em como era o gosto de uma maçã colhida direto do pé.*
*Obrigada pelas palavras. Aqui não há gizes de cera azuis, apenas tons de cinza e marrom. É difícil lembrar que o mundo ainda tem cores quando tudo o que se vê é poeira. Mas, hoje de manhã, vi um pássaro cantando em cima de um tanque quebrado. Ele não parecia se importar com a guerra. Achei que você gostaria de saber disso.*
*R. Park.”*
Jennie sorriu, sentindo uma pontada de tristeza misturada com admiração. Era uma resposta curta, quase ríspida em sua brevidade, mas havia uma sensibilidade escondida entre as linhas. Ela pegou uma folha de papel nova imediatamente.
***
Os meses passaram, e as cartas tornaram-se o eixo em torno do qual o mundo de ambas girava. Para Rosé, as cartas de Jennie eram janelas. Através delas, ela sentia o cheiro dos bolos que Jennie tentava assar (e que às vezes queimavam), ouvia as perguntas absurdas das crianças e via as cores das estações mudando na cidade.
Para Jennie, as cartas de Rosé eram um lembrete da resiliência humana. Rosé nunca falava de batalhas ou de glória. Ela falava de como a chuva fazia um som diferente quando batia nas lonas das tendas, ou de como sentia falta de usar sapatos que não fossem botas pesadas.
— Você está escrevendo para ela de novo? — Lisa perguntou, observando Rosé agachada em um canto da trincheira, protegendo o papel da garoa fina.
— Ela me perguntou se eu preferia o outono ou a primavera — Rosé respondeu, sem desviar os olhos do papel.
— E o que você respondeu?
— Que prefiro qualquer estação em que não haja bombardeios — Rosé deu um sorriso de lado, amargo e rápido. — Mas disse que o outono tem uma luz bonita. Ela gosta de luz.
Lisa suspirou, sentando-se ao lado da amiga.
— Você está se apaixonando por um pedaço de papel, Rosé. Isso é perigoso aqui.
— Eu estou tentando lembrar que sou humana, Lisa — Rosé rebateu, a voz subitamente séria. — Se eu parar de escrever, eu viro apenas mais um fuzil. Ela me faz sentir que ainda tenho um nome.
Naquela noite, Rosé foi mais profunda. O frio estava cortante, e a sensação de finitude pairava no ar após um ataque pesado na tarde anterior.
*“Jennie,*
*Hoje eu perdi um companheiro. Ele tinha fotos da noiva no bolso. Eu fico pensando se alguém vai escrever para ela, ou se ela vai apenas receber um telegrama frio do governo. A guerra rouba o futuro da gente antes mesmo de ele acontecer.*
*Às vezes, tenho medo de que, se eu voltar, não sobre nada de quem eu era. Não sei mais como conversar sobre coisas normais. O que eu diria em um jantar? 'Passe o sal, e a propósito, o som de um morteiro é como um rasgo no céu'?*
*Você diz que tem esperança. De onde ela vem? Como você consegue acreditar que o mundo é bom quando ele faz isso com as pessoas?”*
A resposta de Jennie chegou dez dias depois. Junto com a carta, havia uma pequena flor prensada, uma margarida colhida no jardim da escola.
*“Rosé,*
*Minha esperança não vem de ignorar a dor, mas de ver como as pessoas cuidam umas das outras apesar dela. Você sente culpa pelos que não voltaram porque você tem um coração imenso. A guerra pode ter roubado seus anos, mas ela não roubou sua capacidade de observar o pássaro no tanque ou de se importar com a noiva do seu amigo.*
*Você pergunta o que diria em um jantar... Eu adoraria ouvir você falar sobre qualquer coisa. Poderíamos falar sobre o silêncio, se você preferir. Não precisa ser 'normal' para ser bem-vinda. Você só precisa ser você.*
*Por favor, continue voltando para o abrigo. Continue escrevendo. Eu comecei a comprar papéis de cores diferentes para cada carta, para que você tenha um arco-íris para guardar no bolso. Hoje o papel é amarelo, porque o sol finalmente saiu por aqui e eu pensei em você.”*
Rosé fechou os olhos e levou a flor prensada ao nariz. Não tinha cheiro de nada além de papel velho, mas em sua mente, ela conseguia imaginar o perfume de um jardim. Pela primeira vez em anos, ela se permitiu imaginar um futuro. Não um futuro de glória, mas um futuro de silêncios compartilhados e papéis coloridos.
— Park! Movimentação ao norte! — o grito do oficial ecoou.
Rosé guardou a carta amarela e a margarida no bolso interno. Ela pegou seu fuzil, o metal frio contrastando com o calor que a carta de Jennie havia deixado em seu peito.
— Estou indo — ela respondeu.
Ela tinha uma razão para sobreviver àquele dia. Ela precisava descobrir qual seria a cor do papel da próxima semana.
***
A rotina de Jennie havia mudado. Ela não mais apenas passava pelo correio; ela esperava pelo carteiro no portão. Seus alunos já sabiam que "a amiga soldado da professora" era alguém muito especial.
— Ela vai vir visitar a gente, professora? — perguntou a pequena Soo-jin, enquanto desenhava uma casa com muitas janelas.
— Eu não sei, querida — Jennie respondeu, acariciando o cabelo da menina. — Ela está em um lugar muito longe e muito difícil.
— Manda esse desenho para ela? — A menina estendeu a folha. — É uma casa para ela morar quando a guerra cansar.
Jennie sentiu os olhos marejarem. Ela pegou o desenho e o colocou junto com a carta que estava escrevendo. Naquela noite, Jennie não falou sobre o cotidiano. Ela foi vulnerável.
*“Rosé,*
*Às vezes, eu acordo de madrugada e fico olhando para a rua deserta, imaginando onde você está. O mundo parece tão grande e tão injusto. Eu queria poder enviar mais do que apenas papel. Queria enviar um cobertor que nunca esfria e uma garantia de que você está segura.*
*Você se tornou a pessoa com quem eu mais converso, mesmo que nunca tenhamos trocado uma palavra em voz alta. É estranho como o destino faz essas coisas. Sinto que conheço sua alma através da sua caligrafia. Por favor, tome cuidado. Há uma casa de papel sendo construída para você aqui por uma menina de seis anos, e um coração de verdade esperando por você por uma mulher que esqueceu como era a vida antes das suas cartas.”*
No front, Rosé recebeu a carta sob o som de trovões que não eram de chuva. Ela leu sobre a casa de papel e sobre o coração de Jennie. O sarcasmo que ela usava para sobreviver derreteu completamente, deixando apenas Roseanne — a garota sensível que amava música e luz.
Ela pegou um pedaço de papel, o último que tinha, e escreveu apenas uma frase, pois o tempo era curto e o deslocamento seria imediato.
*“Jennie, guarde um lugar para mim nessa casa de papel. Eu vou tentar encontrar o caminho de volta para você.”*
Ela não sabia se aquela seria sua última carta, mas sabia que, pela primeira vez, a guerra não era a única coisa que definia quem ela era. Ela era a destinatária de Jennie Kim. E isso, por si só, já era uma vitória.
