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Dois pra lá, dois pra cá.

Fandom: Flowers (TV serie) e Original Character

Criado: 07/06/2026

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RomanceDramaFatias de VidaDor/ConfortoHistória DomésticaEstudo de PersonagemRealismoAbuso de Álcool
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O Sal das Lágrimas e o Tempero da Rua

Gabriele observou o último arquivo ser fechado em sua tela de computador com uma sensação de irrealidade. Cinquenta e cinco anos de uma vida meticulosamente organizada, trinta deles dedicados àquela editora, e agora tudo o que restava era uma caixa de papelão com um peso irrisório e o silêncio ensurdecedor de seu apartamento nos Jardins. Mirtes, sua gata siamesa, a recebeu com um miado aristocrático, alheia ao fato de que o estoque de patê premium poderia estar com os dias contados.

O mercado editorial não tinha mais espaço para o seu perfeccionismo analógico. O mundo agora era rápido, barulhento e impessoal — qualidades que Gabriele desprezava, mas que, curiosamente, definiam a única pessoa a quem ela poderia recorrer naquele momento de naufrágio financeiro e emocional.

Dois dias depois, Gabriele estava diante de um sobrado antigo na Barra Funda, equilibrando sua mala de couro legítimo e a caixa de transporte de Mirtes. O som de uma furadeira ecoava lá dentro, misturado a uma música de ritmo contagiante que Gabriele identificou vagamente como samba de raiz.

A porta se abriu e Hylda surgiu, uma visão que sempre causava um curto-circuito nos sentidos de Gabriele. A jaqueta de couro estava aberta sobre uma regata branca, revelando as tatuagens nos braços que pareciam mapas de uma vida que Gabriele jamais ousara navegar. O cabelo grisalho, espetado e moderno, emoldurava um rosto onde as rugas de expressão eram troféus de batalhas vencidas contra o álcool e a melancolia.

— Mas vejam só se não é a minha duquesa de porcelana! — Hylda exclamou, abrindo um sorriso que iluminava até os cantos mais escuros da rua. — Entra, Gabi! A casa é sua, só cuidado para não tropeçar na pilha de doações ali no canto.

Gabriele entrou, sentindo o cheiro de café forte, serragem e o perfume amadeirado de Hylda. O contraste era imediato. Onde Gabriele via caos, Hylda via vida.

— Eu agradeço imensamente, Hylda. É apenas temporário, até eu reorganizar minhas finanças e... — Gabriele parou, observando uma figura desconhecida de cabelos azuis saindo da cozinha com uma caneca na mão.

— Relaxa, Gabi. Essa é a Blue, ela está me ajudando com a fiação — disse Hylda, piscando para a moça. — E Blue, essa é a Gabriele. Minha "esposa" refinada que veio finalmente morar com o marido trabalhador.

Gabriele sentiu as bochechas queimarem.

— Hylda, por favor, não comece com essas nomenclaturas arcaicas e... imprecisas.

— Ora, é um papel clássico! — Hylda riu, pegando a mala de Gabriele com uma facilidade invejável. — Eu saio para a labuta na fábrica, enfrento os leões, e você fica aqui, mantendo a classe e cuidando da Mirtes. Só não espere que eu chegue com flores todo dia, às vezes chego só com cheiro de graxa.

A primeira semana foi um choque cultural que nenhum dos romances clássicos de Gabriele poderia ter previsto. Acostumada a acordar com o silêncio e o som suave das páginas de um livro, ela agora despertava às seis da manhã com o rádio de Hylda sintonizado em notícias populares e o entra-e-sai constante de pessoas.

Hylda era o centro de um sistema solar de "desajustados". Eram jovens em recuperação, vizinhos com problemas de encanamento e amigos de longa data que viam nela uma mentora. Para eles, Gabriele era "a bruxa amarga", a mulher de olhar crítico e roupas que custavam o preço de um carro popular, que parecia sempre estar prestes a desinfetar o ambiente com o olhar.

— Ela ainda está lá, lendo aquele livro de capa dura e fazendo cara de quem sentiu cheiro de ovo podre? — sussurrou Beto, um dos protegidos de Hylda, na cozinha.

— Deixa ela, Beto — Hylda respondeu, a voz carregada de um carinho que Gabriele não conseguia entender. — Ela só está aprendendo a ler o mundo sem os óculos da elite. Um dia ela descobre que a vida é melhor quando a gente se suja um pouco.

Naquela tarde, Hylda decidiu que era hora da primeira lição de sobrevivência.

— Gabi, meu amor, hoje é dia de feira. E não, não é aquela feira orgânica do shopping onde as maçãs brilham mais que seus sapatos. É a feira da rua de trás.

— Eu posso perfeitamente pedir algo pelo aplicativo, Hylda — argumentou Gabriele, ajeitando o corte chanel no espelho do corredor.

— Negativo. Você precisa aprender a escolher o tomate no grito e a pechinchar o coentro. Vamos, coloque algo menos... "estou indo assinar um tratado de paz na ONU" e vamos logo.

O passeio foi um desastre coreografado. Gabriele tentava manter a postura enquanto era empurrada por carrinhos de feira e recebia ofertas de "moça bonita" dos feirantes. Hylda, por outro lado, parecia um político em campanha. Cumprimentava todos, ganhava fatias de pastel de cortesia e discutia o preço do chuchu como se fosse uma questão de segurança nacional.

— Segura esse saco de batatas, "esposa" — brincou Hylda, entregando o peso para Gabriele. — O marido aqui precisa escolher o peixe.

— Hylda, as pessoas estão olhando — sussurrou Gabriele, sentindo o peso das batatas contra seu pulso delicado.

— Deixa que olhem! Devem estar com inveja de eu ter uma mulher tão elegante carregando meu jantar.

Ao voltarem para casa, Gabriele estava exausta. Seus pés, acostumados a saltos finos e carpetes macios, protestavam contra o asfalto irregular. Mas, ao ver Hylda na cozinha, cantarolando enquanto limpava o peixe, algo nela vacilou.

— Por que você faz isso? — perguntou Gabriele, sentando-se à mesa de fórmica gasta.

— O quê? Limpar o peixe? Alguém tem que fazer o trabalho sujo, Gabi.

— Não. Por que você ajuda tanta gente? Por que essa casa nunca está vazia? Você passou por tanto... eu me lembro de quando você quase perdeu tudo.

Hylda parou o que estava fazendo. Seus olhos, geralmente cheios de malícia e alegria, tornaram-se profundos e sérios. Ela limpou as mãos no avental e sentou-se à frente de Gabriele.

— Justamente por isso, Gabi. Quando eu estava no fundo do poço, ninguém me olhava nos olhos. Eu era invisível. Quando eu consegui ficar limpa, prometi que ia ser o espelho para quem se sente assim. A bagunça, o barulho... é sinal de que tem gente viva aqui. Você viveu tanto tempo num museu que esqueceu que a arte de verdade é a que a gente faz enquanto tropeça.

Gabriele baixou o olhar para as próprias mãos. Eram mãos bonitas, mas que nunca tinham construído nada além de frases perfeitas em papéis alheios.

— Eu me sinto... rígida — confessou Gabriele em um sussurro. — Como se, se eu me soltar, eu vá quebrar.

Hylda estendeu a mão e cobriu a de Gabriele. A pele de Hylda era áspera, calejada, mas o toque era de uma ternura que fez os olhos de Gabriele arderem.

— Você não vai quebrar, Gabi. Você vai florescer. Só que flores precisam de terra, não de redomas de vidro.

O momento foi interrompido pelo toque da campainha. Três amigos de Hylda chegaram com caixas de som e garrafas de cerveja. A "bruxa amarga" suspirou, mas, pela primeira vez, não se retirou para o quarto.

— Ora, vejam só! — exclamou um dos recém-chegados. — A patroa resolveu agraciar a plebe com sua presença?

— Ela está apenas observando como os mortais se divertem, não é, Gabi? — Hylda piscou para ela, servindo uma rodada de bebidas.

A noite seguiu com piadas que Gabriele não entendia e histórias de fábricas e ruas que pareciam saídas de um filme de realismo fantástico. Em certo ponto, a música aumentou e Hylda, com sua energia inesgotável, começou a dançar no meio da sala, puxando quem estivesse por perto.

— Vamos, Gabriele! Mostra para essa gente que você tem ritmo sob esse linho francês! — Hylda a desafiou, estendendo a mão.

— Absolutamente não, Hylda. Eu não danço... assim.

— Ah, é verdade. Você só dança minueto, eu esqueci — Hylda riu, fazendo uma reverência exagerada. — Mas hoje o "marido" manda! É uma ordem conjugal!

Gabriele acabou cedendo, mais para calar as risadas do grupo do que por vontade própria. Mas, ao segurar as mãos de Hylda e ser conduzida em um passo desajeitado de samba, ela sentiu algo se soltar no peito. O riso de Hylda era contagiante, um som que preenchia os vazios que a demissão e a solidão haviam deixado nela.

Mais tarde, quando todos haviam ido embora e a casa finalmente mergulhou num silêncio relativo, as duas ficaram na varanda observando o movimento da rua. Mirtes estava aninhada no colo de Hylda, traindo sua dona com uma facilidade desconcertante.

— Você se saiu bem hoje, Gabi — disse Hylda, a voz baixa. — Para uma bruxa amarga, você até que adoçou o ambiente no final.

— Eu odeio esse apelido — murmurou Gabriele, embora houvesse um sorriso discreto em seus lábios. — E eu ainda não sei como pegar aquele ônibus que você mencionou. O trajeto parece uma jornada épica de Homero.

— Amanhã o "marido" te ensina. Vamos começar pelo básico: como não ser assaltada pela própria arrogância ao pedir informação para o motorista.

Gabriele olhou para Hylda. A luz do poste de rua refletia no cabelo grisalho dela, criando uma espécie de aura urbana.

— Obrigada, Hylda. Por me deixar... ser bagunçada por um tempo.

Hylda se aproximou, o cheiro de couro e liberdade envolvendo Gabriele. Ela depositou um beijo suave na testa da outra, um gesto que carregava uma promessa silenciosa.

— A bagunça é onde a mágica acontece, Gabi. Agora vai dormir, porque amanhã tem feira de novo e você ficou de aprender a escolher melancia.

Gabriele subiu as escadas sentindo que sua vida de madame estava ficando para trás, substituída por algo muito mais incerto, barulhento e, pela primeira vez em décadas, genuinamente vibrante. Ela ainda era Gabriele, a mulher do corte chanel e dos romances clássicos, mas talvez, apenas talvez, houvesse espaço para uma jaqueta de couro em seu guarda-roupa de linho.
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