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Tapas e Beijos

Fandom: Tapas e Beijos

Criado: 07/06/2026

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RomanceFatias de VidaHumorFofuraEstudo de PersonagemCiúmesRealismoDramaAngústia
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Um Porto Seguro em Copacabana

A campainha da Djalma Noivas tilintou com uma violência que não lhe era habitual. Gisele, que organizava uma nova remessa de véus com a paciência de uma monja tibetana, nem precisou levantar os olhos para saber o que — ou melhor, quem — estava por vir. O som era um prenúncio de tempestade, um furacão de categoria cinco com dois epicentros bem definidos: Sueli e Fátima.

— Eu não aguento mais, Gisele! Eu juro que hoje eu largo aquele homem! — A voz de Fátima ecoou pela loja, fazendo um manequim vestido de noiva parecer tremer em sua base.

— Larga? Eu já larguei! Mentalmente, mas larguei! — Sueli vinha logo atrás, gesticulando com as mãos de forma tão dramática que quase derrubou uma pilha de catálogos.

Gisele suspirou, colocando o último véu na prateleira com um cuidado reverente. Ela se virou, um sorriso cansado, porém genuíno, no rosto. Era a sua rotina, o seu panteão de deusas gregas em crise existencial, e cabia a ela, a humilde mortal, servir de oráculo e terapeuta.

— Bom dia pra vocês também, flores do meu dia. Sentem, respirem. Querem uma água? Um calmante? Um noivo novo do nosso estoque? — brincou, apontando para os manequins.

As duas se jogaram nas poltronas de veludo rosa que Djalma insistia em manter na área de espera, bufando em uníssono. Eram um dueto de insatisfação, uma sinfonia de problemas conjugais.

— Não brinca, Gisele, a coisa é séria! — Fátima cruzou os braços, o rosto uma máscara de indignação. — Você acredita que o Armani deu um show de ciúmes no supermercado? No supermercado! Porque o rapaz do caixa me deu um sorriso! Um sorriso, Gisele! O menino devia ter uns dezoito anos e o Armani quase voou no pescoço dele gritando sobre "abutres rondando a mulher alheia". Eu quis me enterrar debaixo das laranjas!

Gisele segurou o riso. Visualizar a cena era quase irresistível. Armani, com seu jeito expansivo e dramático, transformando a seção de hortifrúti num palco de ópera.

— Ah, Fátima, você sabe como o Armani é... Ele te ama, tem medo de te perder. É o jeito troglodita dele de demonstrar carinho.

— Carinho? Aquilo foi humilhação pública! Eu passei o resto das compras com um carrinho cheio de brócolis e vergonha!

Antes que Gisele pudesse formular uma resposta apaziguadora, Sueli entrou na conversa, sua voz carregada de um cansaço diferente, mais profundo.

— Pelo menos o seu problema é passional, Fátima. O meu é financeiro, o que é muito pior! O Jorge, aquele irresponsável, gastou o dinheiro que a gente estava guardando para trocar a geladeira num sistema de som pro carro!

Gisele arregalou os olhos. — O quê? Mas a geladeira de vocês está soltando mais água que o Chuveirão de Madureira!

— Exatamente! — Sueli exclamou, levantando as mãos para o céu. — Eu abro a porta e parece que entrei numa sauna a vapor. A alface murcha em cinco minutos. E o que o meu marido faz? Compra caixas de som para ouvir os jogos do Flamengo mais alto! Ele disse que era um "investimento na alegria do lar". A alegria do lar vai ser quando eu pegar aquele som e jogar pela janela!

Gisele sentou-se na beirada de sua mesa, massageando as têmporas. De um lado, o ciúme shakespeariano de Armani. Do outro, a imprudência financeira de Jorge. Suas amigas pareciam ter um talento especial para escolher homens que eram, ao mesmo tempo, apaixonantes e exasperantes.

— Calma, gente, vamos por partes. — Ela assumiu seu tom de mediadora oficial de Copacabana. — Fátima, você sabe que o Armani é um poço de insegurança. Ele faz essas coisas porque tem pavor da ideia de não ser o suficiente pra você. Talvez, em vez de brigar, você devesse sentar com ele e falar com calma, dizer que essas crises de ciúme te magoam, te constrangem...

— Falar com calma? — Fátima riu sem humor. — Gisele, eu tentei. A "conversa calma" durou três minutos e terminou comigo gritando que da próxima vez ia beijar o entregador do gás só pra dar um motivo de verdade pra ele.

Gisele suspirou. Plano A falhou.

— Ok... E você, Sueli? Com o Jorge é mais complicado, porque envolve dinheiro. Mas ele fez por mal? Ou ele só é... o Jorge? Impulsivo, cabeça de vento?

— Ele é o Jorge! — Sueli respondeu, como se isso explicasse todas as anomalias do universo. — Ele viu a promoção, o amigo falou que era imperdível, e ele comprou. Depois chegou em casa com um sorriso de orelha a orelha, esperando que eu fosse pular de alegria. A alegria dele murchou quando eu mostrei a poça d'água na cozinha.

— Certo. — Gisele pensou por um instante. — Então a solução é prática. Vocês vão devolver o som. Vão juntos na loja, explicam a situação e pegam o dinheiro de volta. Simples.

Sueli a encarou como se ela tivesse sugerido escalar o Pão de Açúcar de salto alto.

— Simples? Gisele, o Jorge já instalou! Passou a madrugada inteira puxando fio, furando painel... Se eu mandar ele desmontar aquilo, é divórcio na certa. Ele vai dizer que eu não apoio os "hobbies" dele.

— Que hobbies? Sofrer pelo Flamengo e gastar o que não tem? — Fátima alfinetou, recebendo um olhar fuzilante de Sueli.

— Pelo menos o meu marido não me faz passar vergonha na fila do pão!

— Ah, é? Pelo menos o meu não confunde a conta de luz com panfleto de propaganda!

E assim, a discussão que começou sobre os maridos se transformou numa competição de "quem tem o pior cônjuge", com Gisele no meio, atuando como juíza e saco de pancadas emocional.

— Parem, vocês duas! — ela disse, com a voz mais firme. — Brigar uma com a outra não vai resolver nada. Vocês são melhores amigas. O problema não está aqui entre vocês. Está lá, em casa. Vocês precisam respirar fundo, contar até dez... ou até dez mil, se for preciso... e encarar os homens de vocês.

Ela se levantou e pegou na mão de cada uma.

— Fátima, o Armani te idolatra. Ele só precisa aprender a canalizar essa adoração de um jeito menos... medieval. E Sueli, o Jorge te ama, mas às vezes a cabeça dele funciona em outra frequência. Vocês se amam, não é? É isso que importa. O resto... o resto a gente ajusta. Com conversa, com paciência, com umas garrafas de vinho... e se nada der certo, com umas boas paneladas.

As duas amigas a olharam, os ombros começando a relaxar. O discurso de Gisele, uma mistura de sabedoria popular, psicologia de botequim e uma dose de ameaça velada, quase sempre funcionava. Elas não queriam, de fato, largar seus maridos. Elas queriam desabafar, ser compreendidas e, no fundo, ouvir que tudo ficaria bem. E Gisele era a pessoa que sempre lhes dizia isso.

— Você tem razão... — Sueli murmurou, secando uma lágrima imaginária.

— Eu sei que tenho. Agora, vão tomar um café, esfriar a cabeça. Quando voltarem pra casa, estarão mais calmas pra ter a tal da conversa.

Foi nesse exato momento, com Fátima e Sueli ainda fungando e Gisele de pé entre elas como uma santa pacificadora, que a campainha da loja tilintou novamente. Desta vez, o som foi suave, discreto.

Um homem alto, de uns trinta e poucos anos, entrou na loja. Ele usava uma camisa de linho azul clara, calças de sarja e sapatos que denunciavam bom gosto. Tinha um sorriso educado e olhos castanhos que pareciam registrar tudo ao redor com uma curiosidade genuína. Ele parou por um segundo, claramente percebendo que havia interrompido um momento intenso.

— Desculpem... Eu estou atrapalhando? — A voz dele era calma e agradável.

Djalma, que até então estava escondido em seu escritório fingindo não ouvir o drama matinal, surgiu como um furacão de lantejoulas.

— Atrapalhando? Jamais! Um cliente em potencial nunca atrapalha! Seja bem-vindo à Djalma Noivas, o epicentro do luxo e do glamour de Copacabana! Em que posso servi-lo, meu caro? Procurando o vestido perfeito para a sua amada?

O homem sorriu, um pouco desconcertado pela exuberância de Djalma.

— Na verdade, não. Meu nome é Ricardo. Eu sou representante da "Rendas de Ouro Preto". Tenho um horário marcado com o senhor Djalma.

O rosto de Djalma se iluminou. — Ah, sim! Ricardo! O rapaz das rendas artesanais! Que maravilha! Estava ansiosíssimo pela sua visita! Venha, venha por aqui!

Enquanto Djalma o guiava para o escritório, os olhos de Ricardo passaram rapidamente por Fátima e Sueli, que recompunham a maquiagem borrada, e pousaram em Gisele. Foi um olhar rápido, quase imperceptível, mas Gisele sentiu. Ele a viu no meio do caos, com uma amiga em cada braço, e em seu rosto não havia julgamento, mas uma espécie de admiração divertida. Ele deu um mínimo aceno de cabeça, um sorriso contido se formando no canto dos lábios, antes de desaparecer atrás da porta do escritório.

Fátima e Sueli, já recuperadas, se levantaram.

— Ai, amiga, obrigada. Você é a nossa salvação. — Sueli deu um beijo estalado na bochecha de Gisele.

— É verdade. O que a gente faria sem você? — Fátima completou, abraçando-a também. — Agora vamos lá tomar aquele café. E pensar numa estratégia. A minha vai envolver um silêncio sepulcral e olhares de desprezo.

— E a minha vai envolver deixar a louça acumular até o teto. Vamos ver quem desiste primeiro. — Sueli piscou.

Elas saíram, deixando Gisele sozinha na loja. O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor. Ela se encostou no balcão, o coração batendo um pouco mais rápido que o normal. Não era por causa do drama das amigas. Era por causa daquele olhar. O olhar do homem das rendas.

Ela estava tão acostumada a ser a coadjuvante, a confidente, a rocha na qual as outras se apoiavam. Era um papel que ela desempenhava bem e, na maior parte do tempo, com prazer. Mas, por um breve segundo, aquele homem a viu. Não como "a amiga da Sueli e da Fátima", não como "a vendedora da Djalma Noivas", mas como... ela. Gisele. E isso era uma sensação nova e estranhamente agradável.

Ela balançou a cabeça, tentando afastar o pensamento. Que bobagem. Era só um representante. Um homem bonito, sim, mas apenas de passagem. Sua vida era ali, entre vestidos de noiva e as crises intermináveis de suas amigas.

A porta do escritório de Djalma se abriu uns vinte minutos depois.

— ...e eu lhe garanto, Ricardo, que nossas noivas são as mais exigentes do Rio de Janeiro! Elas buscam exclusividade, sofisticação! Suas rendas serão a cereja do nosso bolo nupcial! — Djalma dizia, acompanhando Ricardo até a saída.

— Fico muito feliz em ouvir isso, Djalma. Eu deixei o catálogo completo e algumas amostras. Vou passar aqui novamente na semana que vem para pegar sua decisão.

— Perfeito, perfeito! Gisele, minha diva, acompanhe o nosso prezado Ricardo até a porta!

Gisele, que estava fingindo analisar um tecido com extrema concentração, se sobressaltou.

— Ah, claro!

Ela caminhou até ele, sentindo-se subitamente desajeitada.

— Obrigada por esperar. O início do dia aqui às vezes é... agitado. — ela disse, um sorriso sem graça no rosto.

Ricardo riu baixinho, um som que fez algo se agitar dentro dela.

— Eu percebi. Mas você pareceu lidar com a situação com a calma de um monge. Suas amigas têm sorte de ter você.

O elogio foi direto, sincero. Gisele sentiu o rosto esquentar.

— Elas são a minha família. Às vezes uma família bem barulhenta, mas ainda assim, a minha família.

— Eu entendo. — Ele parou perto da porta, mas não parecia com pressa de ir embora. Seus olhos castanhos a estudavam com interesse. — Eu sou novo no Rio, transferido de Belo Horizonte há poucas semanas. Ainda estou tentando entender a dinâmica... agitada... da cidade.

— Bem-vindo ao caos. — Gisele sorriu. — Se sobreviver a Copacabana, você sobrevive a qualquer coisa.

— É uma boa dica. — Ele sorriu de volta, e o mundo pareceu ficar um pouco mais claro. — Bom, eu preciso ir. Tenho outras visitas pra fazer. Foi um prazer, Gisele.

Ele estendeu a mão. A mão dela, pequena, se encaixou na dele, que era firme e quente. O contato durou um segundo a mais do que o estritamente profissional.

— O prazer foi meu, Ricardo.

Ele saiu, e a campainha soou suavemente mais uma vez. Gisele ficou parada, olhando para a porta fechada, a sensação do aperto de mão dele ainda em sua pele.

"Que bobagem", ela pensou de novo. Mas o sorriso que brotou em seus lábios dizia o contrário.

***

Os dias seguintes voltaram à sua normalidade caótica. Fátima fez as pazes com Armani depois que ele lhe comprou um par de sapatos caríssimos como pedido de desculpas. Sueli e Jorge chegaram a um acordo: o som ficaria, mas Jorge teria que lavar a louça por um mês e levá-la para jantar fora todo fim de semana até a nova geladeira ser comprada. As crises foram adiadas, não resolvidas, mas por enquanto, havia paz.

Gisele continuava sua rotina, mas algo havia mudado. Ela se pegava olhando para a porta da loja com mais frequência, o coração dando um pequeno salto toda vez que a campainha tilintava. Ela se repreendia por isso. Era ridículo. Ela nem conhecia o homem.

Na quinta-feira seguinte, uma semana exata após a primeira visita de Ricardo, Gisele estava ajudando uma noiva indecisa a escolher entre um vestido sereia e um princesa. A noiva, uma jovem chamada Bruna, estava à beira de um ataque de nervos.

— Eu não sei, Gisele! O sereia valoriza meu corpo, mas o princesa é o meu sonho de infância! E se eu me arrepender? É o dia mais importante da minha vida!

— Bruna, respira. — Gisele disse com sua calma habitual. — Não existe escolha errada. Os dois vestidos são lindos em você. Feche os olhos. Imagine-se entrando na igreja. Qual vestido você está usando?

Enquanto Bruna estava de olhos fechados, em profunda meditação nupcial, a campainha soou. Gisele olhou de relance e seu estômago deu uma cambalhota. Era ele. Ricardo.

Ele a viu ocupada e apenas sorriu, fazendo um gesto para que ela continuasse. Ele se encostou discretamente num balcão mais afastado, folheando um catálogo, como se não quisesse atrapalhar. Mas Gisele sentia seus olhos nela de vez em quando. A consciência de estar sendo observada a deixou mais focada, mais eloquente.

— O princesa, não é? — Gisele disse suavemente para Bruna. — Eu vi no seu rosto. Seus olhos brilharam mais quando você o vestiu. O dia do seu casamento não é sobre valorizar o corpo, é sobre realizar um sonho.

Bruna abriu os olhos, com lágrimas de emoção. — É o princesa! É ele! Ai, Gisele, você é um anjo!

Depois de fechar a venda e se despedir da noiva radiante, Gisele se virou para Ricardo, o coração martelando.

— Desculpe a demora. Crise pré-nupcial.

— Eu vi. E mais uma vez, você foi a heroína. "Não é sobre valorizar o corpo, é sobre realizar um sonho". Isso foi genial. Você devia ganhar comissão por terapia também.

Gisele riu, sentindo-se mais leve. — Faz parte do pacote. Então, veio buscar a resposta de Djalma? Ele está numa reunião externa hoje.

— Na verdade, não. — Ricardo se aproximou, um sorriso maroto no rosto. — Eu usei isso como desculpa. Eu... esqueci um dos meus catálogos de amostras aqui na semana passada. Um bem específico, com as rendas de bilro.

Gisele franziu a testa. — Esqueci? Eu arrumei tudo depois que você saiu. Não vi nenhum catálogo sobrando.

Ricardo coçou a nuca, parecendo um pouco culpado.

— É... talvez eu não tenha esquecido. Talvez eu só estivesse procurando um motivo para voltar.

A confissão pairou no ar entre eles. O barulho da rua, os carros, as buzinas, tudo pareceu desaparecer. Só existia o silêncio da loja e a honestidade naqueles olhos castanhos.

— Ah. — foi tudo o que Gisele conseguiu dizer.

— "Ah"? — ele riu. — É um "ah" bom ou um "ah" de "que cara de pau"?

— Um pouco dos dois. — ela admitiu, um sorriso finalmente quebrando sua surpresa. — Mas principalmente um "ah" bom.

O alívio no rosto dele foi visível.

— Que bom. Porque eu estive pensando... desde a semana passada. E eu sei que isso é repentino, e que você mal me conhece, mas... eu me perguntava se você gostaria de tomar um café comigo algum dia. Ou um chopp. Ou uma água de coco. Qualquer coisa que não envolva vestidos de noiva ou crises de ciúmes.

O convite era tudo o que ela secretamente esperava, mas agora que ele estava ali, real e palpável, Gisele hesitou. Sua vida era tão focada em resolver os problemas dos outros. A ideia de fazer algo puramente para si mesma, de se colocar em primeiro lugar, era quase assustadora. E se não desse certo? E se ele fosse como todos os outros?

— Eu... — ela começou, a mente girando.

Ricardo pareceu perceber sua hesitação.

— Sem pressão. Se a resposta for não, eu juro que só volto aqui para falar de rendas. E talvez eu "esqueça" mais alguns catálogos, mas só os de poliéster, que ninguém gosta.

A piada a fez relaxar. Ele era charmoso, engraçado e, acima de tudo, parecia gentil. Não havia arrogância nele, apenas um interesse sincero. Por que não? Pela primeira vez em muito tempo, por que não pensar nela?

— Eu adoraria, Ricardo. — ela disse, e a palavra soou como uma libertação. — Eu adoraria tomar um café com você.

Um sorriso largo e genuíno se abriu no rosto dele. — Ótimo! Que tal...

TRIIIM!

A campainha da loja soou com a força de um alarme de incêndio. E, como um déjà vu, Fátima e Sueli entraram na loja, falando ao mesmo tempo, rindo alto.

— Gisele, você não vai acreditar! — Fátima começou.

— Conseguimos! A promoção do restaurante japonês! Rodízio pra três! — Sueli completou, balançando o celular com o voucher.

Elas pararam abruptamente ao verem Ricardo parado na frente de Gisele, a poucos centímetros de distância. A intimidade da cena era inegável.

— Opa. — disse Fátima, os olhos se movendo de Gisele para Ricardo e de volta. — Atrapalhamos alguma coisa?

— É... não, claro que não! — Gisele gaguejou, dando um passo para trás, o rosto em chamas. O momento mágico havia se quebrado, estilhaçado pela chegada de sua realidade cotidiana.

Ricardo, no entanto, manteve a compostura. Ele sorriu educadamente para as duas.

— Ricardo. — ele se apresentou. — Sou o fornecedor de rendas.

— Ah, o homem das rendas! — Sueli exclamou, com uma falta de filtro total. — A gente viu você aqui na semana passada!

Gisele quis que o chão se abrisse e a engolisse.

Ricardo riu, sem se abalar. — Viu? Bom, parece que eu causei uma impressão. — Ele se virou para Gisele, a voz baixando um pouco. — Nosso café fica de pé, então?

— Fica. — ela sussurrou, o coração ainda disparado.

— Ótimo. — Ele tirou um cartão de visita do bolso da camisa. — Esse é o meu número. Me manda uma mensagem quando tiver um tempo livre do... rodízio de japonês.

Ele piscou para ela, um gesto cúmplice que só ela viu. Depois, acenou para Fátima e Sueli e saiu da loja, deixando para trás um rastro de perfume amadeirado e três mulheres em silêncio.

O silêncio durou aproximadamente cinco segundos.

— GISLEEEEEE! — Fátima e Sueli gritaram em uníssono, avançando sobre ela.

— O que foi isso? — perguntou Fátima.

— "Nosso café fica de pé?" — Sueli imitou, com a voz afetada.

— Ele te chamou pra sair! O homem das rendas te chamou pra sair! — Fátima pulava no lugar.

Gisele, ainda segurando o cartão de visita como se fosse um tesouro, não conseguia parar de sorrir. Ela estava vermelha, nervosa, frustrada pela interrupção, mas, acima de tudo, estava feliz. Uma felicidade que era só dela.

— Ele chamou. — ela confirmou, olhando para o nome no cartão: *Ricardo Alves*.

— E você vai, né? — Sueli perguntou, os olhos brilhando de empolgação pela amiga.

— Pelo amor de Deus, Gisele, diz que você vai! A gente te ajuda a escolher a roupa! A gente te dá conselhos! A gente pode até seguir vocês pra garantir que ele se comporte! — Fátima já planejava uma operação de espionagem completa.

Gisele riu, um riso alto e genuíno. Suas amigas, com todo o seu caos e sua loucura, também eram sua maior torcida.

— Calma, gente! E não, você não vai me seguir, Fátima!

Ela olhou para o cartão em sua mão e depois para o rosto expectante de suas duas melhores amigas. A tempestade de sempre, mas hoje, algo era diferente. No meio do furacão que era sua vida, alguém havia chegado e oferecido um porto seguro. E ela, pela primeira vez, estava pronta para ancorar.

— Sim. — ela disse, o sorriso se alargando. — Eu vou.
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