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As crianças que sonham em ser piratas
Fandom: One piece
Criado: 07/06/2026
Tags
UA (Universo Alternativo)DramaDor/ConfortoAçãoFicção CientíficaBiopunkExperimentação HumanaAventuraDistopiaFantasiaAngústiaSombrioEstudo de PersonagemDivergência
O Jardim de Aço sobre as Ondas
O horizonte do Novo Mundo era uma pintura caótica de nuvens carregadas e relâmpagos distantes, mas para os passageiros do *Aethelgard*, o mar era apenas o quintal de casa. O navio não era apenas uma embarcação; era uma ilha flutuante de metal e madeira, um colosso que fazia até mesmo os navios de guerra da Marinha parecerem barcos de pesca em sua sombra.
No deck central, onde um jardim de grama real florescia sob luzes artificiais e o sol, Miu caminhava com passos leves. Seus cabelos brancos, longos o suficiente para beijar o chão, flutuavam levemente com a brisa salgada, parecendo uma cascata de seda sob a luz da tarde. Seus olhos vermelhos, vibrantes como rubis, observavam a movimentação ao seu redor com uma doçura que contrastava com a cicatriz invisível que carregava no peito.
— Senhorita Miu! Olhe o que o 442 consegue fazer agora! — gritou uma voz infantil e estridente.
Miu parou, um sorriso gentil iluminando seu rosto delicado. Uma pequena garota de cabelos azuis e escamas finas nos braços corria em sua direção, arrastando um menino que parecia concentrado demais. O garoto, identificado apenas pelo número 582 em sua gola, estendeu as mãos e, num piscar de olhos, as flores de metal que decoravam o parapeito começaram a dançar, dobrando-se como se fossem feitas de papel.
— É maravilhoso, 582 — disse Miu, ajoelhando-se para ficar na altura deles, apesar de seus modestos 1,60 de altura já a tornarem pequena perto da grandiosidade do navio. — Você está controlando sua força muito melhor. Mas lembre-se: o metal tem sentimentos, mesmo que não fale. Trate-o com carinho.
— Sim, senhora! — responderam os dois em coro, antes de saírem correndo para se juntar aos outros.
Miu suspirou, levantando-se e limpando o vestido. Dois mil, novecentos e noventa e quatro. Esse era o número de vidas que ela carregava nos ombros. Crianças que foram tratadas como tubos de ensaio, vendidas por governos corruptos e cientistas sem alma. Ela as resgatara de laboratórios subterrâneos e prisões de vidro, e agora, o *Aethelgard* era o único lugar no mundo onde o nome de alguém podia ser um número, mas o tratamento era o de um filho.
A paz, no entanto, raramente durava no mar dos piratas.
O som de um sino pesado ecoou por todo o navio. Não era um alarme de pânico, mas um aviso. No ninho de corvo, o número 12, um menino com visão telescópica, sinalizava para o convés.
— Navio à vista! — gritou ele. — Bandeira preta! Eles estão tentando abordar pelo flanco bombordo!
Miu fechou os olhos por um breve segundo, a expressão de justiça substituindo a brincadeira. Ela odiava conflitos, mas protegeria aquele santuário com cada gota de seu sangue.
— Crianças — chamou ela, sua voz não era alta, mas parecia ressoar por todo o navio graças ao sistema de som operado pelo número 88. — Por favor, dirijam-se aos níveis inferiores. Temos visitas mal-educadas novamente.
— Ah, de novo não! — reclamou o número 1002, um jovem de braços mecânicos. — Deixa a gente cuidar deles, Miu! Eles nunca aprendem!
— Regra número um, 1002 — disse Miu, lançando-lhe um olhar firme, mas carinhoso. — Eu tento conversar primeiro. Se eles não ouvirem a razão, então vocês podem decidir se querem ajudar. Mas por enquanto, entrem.
As crianças obedeceram, embora algumas o fizessem resmungando. Elas não tinham medo. Como poderiam ter? Cada uma delas fora modificada para ser uma arma de guerra. Juntas, elas eram provavelmente a força militar mais instável e poderosa do planeta.
Miu caminhou até a borda do navio. O navio invasor era grande, uma fragata pirata adornada com ossos e figuras grotescas. Os piratas já lançavam ganchos de abordagem, gritando insultos e promessas de saque. Eles viam o navio gigante e a figura frágil de Miu e sentiam o cheiro de ouro e fraqueza.
— Que navio magnífico! — gritou o capitão pirata, um homem gordo com dentes de ouro, enquanto saltava para o convés do *Aethelgard*. — E que bonequinha de porcelana temos aqui! Onde estão os homens deste navio? Onde está o capitão?
Miu permaneceu imóvel, seus cabelos brancos balançando ao redor de seus pés como uma aura mística.
— Eu sou a responsável por este navio — disse ela com uma calma gélida. — Meu nome é Miu. Vocês estão invadindo um orfanato e um santuário. Peço que retirem seus ganchos e deem meia-volta. O Novo Mundo é vasto, não há necessidade de derramamento de sangue aqui.
O pirata soltou uma gargalhada estrondosa, sendo acompanhado por seus subordinados que agora inundavam o convés.
— Um orfanato? — Ele cuspiu no chão de madeira polida. — Isso aqui vale uma fortuna no mercado negro! E você, gracinha, deve valer alguns milhões para os Tenryuubitos com esses cabelos e olhos. Homens! Peguem-na e revistem o navio!
Miu suspirou, um som carregado de tristeza.
— Eu tentei. Realmente tentei.
Ela não se moveu, mas o ar ao seu redor pareceu vibrar. De trás das estruturas do navio, pequenas cabeças começaram a aparecer. Não eram rostos assustados. Eram rostos entediados, alguns até sorridentes.
— 15, 22 e 104 — chamou Miu baixinho. — Eles não querem ir embora.
— Finalmente! — exclamou o número 15, um menino que parecia comum, exceto pelo fato de que seus pés não tocavam o chão.
Em um borrão de movimento, o número 15 disparou como um projétil humano, atingindo o peito do capitão pirata com a força de um canhão. O homem foi arremessado de volta para o seu próprio navio, quebrando o mastro principal com o impacto.
O número 22, uma menina de olhar vago, simplesmente estendeu a mão. A água do mar ao redor do navio pirata começou a ferver e a se moldar em mãos gigantescas que agarraram a embarcação inimiga, apertando-a como se fosse um brinquedo de banheira.
— Esperem! — gritou um dos piratas, vendo seus companheiros serem nocauteados por crianças que mal chegavam à cintura deles. — O que são vocês? Monstros?
Miu caminhou até o pirata que havia falado, sua expressão agora era de uma seriedade absoluta, a justiça brilhando em seus olhos vermelhos.
— Eles não são monstros — disse ela, sua voz suave agora carregando um peso autoritário. — Eles são crianças que o mundo tentou quebrar. E eu sou aquela que juntou os pedaços. Vocês vieram aqui em busca de lucro, mas só encontrarão as consequências de sua ganância.
— Por favor! — implorou o pirata, caindo de joelhos enquanto o número 104, um garoto cujas mãos emanavam um brilho radioativo verde, se aproximava. — Tenha piedade!
Miu olhou para o garoto e balançou a cabeça levemente.
— 104, não o machuque mais do que o necessário. Apenas... coloque-os de volta no barco deles.
Com um movimento coordenado, as crianças "brincaram" com os invasores. Para os piratas, foi um pesadelo de poderes inexplicáveis e força sobre-humana. Para as crianças, foi apenas um exercício de tarde. Em menos de dez minutos, o navio pirata — agora bastante amassado e sem mastros — estava sendo empurrado para longe pelas correntes marítimas criadas pelo número 22.
Miu observou os inimigos se afastarem, sua postura relaxando. Ela sentiu uma mão pequena puxar a barra de seu vestido. Era o número 7, um dos mais novos.
— Miu, eu fiz certo? Eu não usei minhas garras porque você disse que eles eram só bobos, não malvados de verdade — disse o pequeno, cujos olhos tinham fendas de felino.
Miu se abaixou e o abraçou, sentindo o calor daquela vida que ela jurara proteger.
— Você foi perfeito, 7. Muito obrigada por ouvir a vovó Miu.
— Você não é velha para ser vovó! — riu o menino, abraçando-a de volta.
— Sou uma alma velha, pequeno — comentou ela, rindo junto.
Mais tarde, naquela noite, o *Aethelgard* brilhava como uma joia no meio do oceano escuro. Miu estava sentada na proa, observando as estrelas. Ela era uma ótima conselheira para as crianças, sempre pronta para ouvir seus pesadelos sobre os laboratórios ou suas dúvidas sobre o futuro. Mas, às vezes, no silêncio da noite, ela se perguntava quanto tempo conseguiria manter aquele paraíso flutuante escondido das grandes potências do mundo.
— Você está pensando demais de novo — disse uma voz atrás dela.
Era o número 1, o mais velho do grupo, um jovem que já demonstrava uma maturidade que ia além de seus quinze anos. Ele tinha cicatrizes nos pulsos, mas seus olhos eram claros e decididos.
— Eu só quero que vocês sejam livres, 1 — confessou Miu, sem desviar o olhar do horizonte. — O mundo lá fora... ele não entende o que vocês são. Eles só veem números e armas.
— Eles veem o que querem — disse o número 1, sentando-se ao lado dela. — Mas nós vemos você. Você nos deu nomes, mesmo que sejam números por enquanto, você os diz com amor. Você comprou este navio, você nos ensinou que justiça não é sobre matar, mas sobre proteger. Se o mundo vier atrás de nós, Miu... eles vão descobrir que o orfanato mais gentil do mundo é também o lugar mais perigoso de se atacar.
Miu sorriu, encostando a cabeça no ombro do jovem. Ela era alta para uma humana comum, mas perto da grandiosidade do que havia construído, sentia-se pequena. E, no entanto, era aquela pequena mulher de cabelos brancos que mantinha o equilíbrio de quase três mil super-humanos em crescimento.
— Você se tornou um ótimo conselheiro, 1 — elogiou ela. — Acho que andou passando muito tempo comigo.
— Alguém tem que cuidar da nossa salvadora — brincou ele.
O navio continuou sua jornada silenciosa. Miu sabia que o Governo Mundial ou algum Yonkou acabaria cruzando seu caminho de forma mais séria um dia. Mas, enquanto olhava para as luzes do convés e ouvia o som abafado das risadas das crianças que ainda estavam acordadas, ela sentia uma paz inabalável.
Ela era Miu, a justiceira de cabelos de neve, e o *Aethelgard* era seu reino. Um reino onde o único imposto era a gentileza e a única lei era o cuidado mútuo. E quem quer que tentasse quebrar aquela paz, descobriria que, por trás da aparência frágil e dos olhos vermelhos expressivos, batia o coração de uma leoa que não temia nem mesmo os deuses do mar.
— Amanhã — disse Miu para as estrelas —, amanhã vamos ensinar o número 1500 a ler. E talvez, apenas talvez, possamos encontrar uma ilha deserta para um piquenique.
Porque no final das contas, apesar dos poderes e das modificações, eles eram apenas crianças. E Miu faria questão de que continuassem sendo, pelo tempo que o mar permitisse.
No deck central, onde um jardim de grama real florescia sob luzes artificiais e o sol, Miu caminhava com passos leves. Seus cabelos brancos, longos o suficiente para beijar o chão, flutuavam levemente com a brisa salgada, parecendo uma cascata de seda sob a luz da tarde. Seus olhos vermelhos, vibrantes como rubis, observavam a movimentação ao seu redor com uma doçura que contrastava com a cicatriz invisível que carregava no peito.
— Senhorita Miu! Olhe o que o 442 consegue fazer agora! — gritou uma voz infantil e estridente.
Miu parou, um sorriso gentil iluminando seu rosto delicado. Uma pequena garota de cabelos azuis e escamas finas nos braços corria em sua direção, arrastando um menino que parecia concentrado demais. O garoto, identificado apenas pelo número 582 em sua gola, estendeu as mãos e, num piscar de olhos, as flores de metal que decoravam o parapeito começaram a dançar, dobrando-se como se fossem feitas de papel.
— É maravilhoso, 582 — disse Miu, ajoelhando-se para ficar na altura deles, apesar de seus modestos 1,60 de altura já a tornarem pequena perto da grandiosidade do navio. — Você está controlando sua força muito melhor. Mas lembre-se: o metal tem sentimentos, mesmo que não fale. Trate-o com carinho.
— Sim, senhora! — responderam os dois em coro, antes de saírem correndo para se juntar aos outros.
Miu suspirou, levantando-se e limpando o vestido. Dois mil, novecentos e noventa e quatro. Esse era o número de vidas que ela carregava nos ombros. Crianças que foram tratadas como tubos de ensaio, vendidas por governos corruptos e cientistas sem alma. Ela as resgatara de laboratórios subterrâneos e prisões de vidro, e agora, o *Aethelgard* era o único lugar no mundo onde o nome de alguém podia ser um número, mas o tratamento era o de um filho.
A paz, no entanto, raramente durava no mar dos piratas.
O som de um sino pesado ecoou por todo o navio. Não era um alarme de pânico, mas um aviso. No ninho de corvo, o número 12, um menino com visão telescópica, sinalizava para o convés.
— Navio à vista! — gritou ele. — Bandeira preta! Eles estão tentando abordar pelo flanco bombordo!
Miu fechou os olhos por um breve segundo, a expressão de justiça substituindo a brincadeira. Ela odiava conflitos, mas protegeria aquele santuário com cada gota de seu sangue.
— Crianças — chamou ela, sua voz não era alta, mas parecia ressoar por todo o navio graças ao sistema de som operado pelo número 88. — Por favor, dirijam-se aos níveis inferiores. Temos visitas mal-educadas novamente.
— Ah, de novo não! — reclamou o número 1002, um jovem de braços mecânicos. — Deixa a gente cuidar deles, Miu! Eles nunca aprendem!
— Regra número um, 1002 — disse Miu, lançando-lhe um olhar firme, mas carinhoso. — Eu tento conversar primeiro. Se eles não ouvirem a razão, então vocês podem decidir se querem ajudar. Mas por enquanto, entrem.
As crianças obedeceram, embora algumas o fizessem resmungando. Elas não tinham medo. Como poderiam ter? Cada uma delas fora modificada para ser uma arma de guerra. Juntas, elas eram provavelmente a força militar mais instável e poderosa do planeta.
Miu caminhou até a borda do navio. O navio invasor era grande, uma fragata pirata adornada com ossos e figuras grotescas. Os piratas já lançavam ganchos de abordagem, gritando insultos e promessas de saque. Eles viam o navio gigante e a figura frágil de Miu e sentiam o cheiro de ouro e fraqueza.
— Que navio magnífico! — gritou o capitão pirata, um homem gordo com dentes de ouro, enquanto saltava para o convés do *Aethelgard*. — E que bonequinha de porcelana temos aqui! Onde estão os homens deste navio? Onde está o capitão?
Miu permaneceu imóvel, seus cabelos brancos balançando ao redor de seus pés como uma aura mística.
— Eu sou a responsável por este navio — disse ela com uma calma gélida. — Meu nome é Miu. Vocês estão invadindo um orfanato e um santuário. Peço que retirem seus ganchos e deem meia-volta. O Novo Mundo é vasto, não há necessidade de derramamento de sangue aqui.
O pirata soltou uma gargalhada estrondosa, sendo acompanhado por seus subordinados que agora inundavam o convés.
— Um orfanato? — Ele cuspiu no chão de madeira polida. — Isso aqui vale uma fortuna no mercado negro! E você, gracinha, deve valer alguns milhões para os Tenryuubitos com esses cabelos e olhos. Homens! Peguem-na e revistem o navio!
Miu suspirou, um som carregado de tristeza.
— Eu tentei. Realmente tentei.
Ela não se moveu, mas o ar ao seu redor pareceu vibrar. De trás das estruturas do navio, pequenas cabeças começaram a aparecer. Não eram rostos assustados. Eram rostos entediados, alguns até sorridentes.
— 15, 22 e 104 — chamou Miu baixinho. — Eles não querem ir embora.
— Finalmente! — exclamou o número 15, um menino que parecia comum, exceto pelo fato de que seus pés não tocavam o chão.
Em um borrão de movimento, o número 15 disparou como um projétil humano, atingindo o peito do capitão pirata com a força de um canhão. O homem foi arremessado de volta para o seu próprio navio, quebrando o mastro principal com o impacto.
O número 22, uma menina de olhar vago, simplesmente estendeu a mão. A água do mar ao redor do navio pirata começou a ferver e a se moldar em mãos gigantescas que agarraram a embarcação inimiga, apertando-a como se fosse um brinquedo de banheira.
— Esperem! — gritou um dos piratas, vendo seus companheiros serem nocauteados por crianças que mal chegavam à cintura deles. — O que são vocês? Monstros?
Miu caminhou até o pirata que havia falado, sua expressão agora era de uma seriedade absoluta, a justiça brilhando em seus olhos vermelhos.
— Eles não são monstros — disse ela, sua voz suave agora carregando um peso autoritário. — Eles são crianças que o mundo tentou quebrar. E eu sou aquela que juntou os pedaços. Vocês vieram aqui em busca de lucro, mas só encontrarão as consequências de sua ganância.
— Por favor! — implorou o pirata, caindo de joelhos enquanto o número 104, um garoto cujas mãos emanavam um brilho radioativo verde, se aproximava. — Tenha piedade!
Miu olhou para o garoto e balançou a cabeça levemente.
— 104, não o machuque mais do que o necessário. Apenas... coloque-os de volta no barco deles.
Com um movimento coordenado, as crianças "brincaram" com os invasores. Para os piratas, foi um pesadelo de poderes inexplicáveis e força sobre-humana. Para as crianças, foi apenas um exercício de tarde. Em menos de dez minutos, o navio pirata — agora bastante amassado e sem mastros — estava sendo empurrado para longe pelas correntes marítimas criadas pelo número 22.
Miu observou os inimigos se afastarem, sua postura relaxando. Ela sentiu uma mão pequena puxar a barra de seu vestido. Era o número 7, um dos mais novos.
— Miu, eu fiz certo? Eu não usei minhas garras porque você disse que eles eram só bobos, não malvados de verdade — disse o pequeno, cujos olhos tinham fendas de felino.
Miu se abaixou e o abraçou, sentindo o calor daquela vida que ela jurara proteger.
— Você foi perfeito, 7. Muito obrigada por ouvir a vovó Miu.
— Você não é velha para ser vovó! — riu o menino, abraçando-a de volta.
— Sou uma alma velha, pequeno — comentou ela, rindo junto.
Mais tarde, naquela noite, o *Aethelgard* brilhava como uma joia no meio do oceano escuro. Miu estava sentada na proa, observando as estrelas. Ela era uma ótima conselheira para as crianças, sempre pronta para ouvir seus pesadelos sobre os laboratórios ou suas dúvidas sobre o futuro. Mas, às vezes, no silêncio da noite, ela se perguntava quanto tempo conseguiria manter aquele paraíso flutuante escondido das grandes potências do mundo.
— Você está pensando demais de novo — disse uma voz atrás dela.
Era o número 1, o mais velho do grupo, um jovem que já demonstrava uma maturidade que ia além de seus quinze anos. Ele tinha cicatrizes nos pulsos, mas seus olhos eram claros e decididos.
— Eu só quero que vocês sejam livres, 1 — confessou Miu, sem desviar o olhar do horizonte. — O mundo lá fora... ele não entende o que vocês são. Eles só veem números e armas.
— Eles veem o que querem — disse o número 1, sentando-se ao lado dela. — Mas nós vemos você. Você nos deu nomes, mesmo que sejam números por enquanto, você os diz com amor. Você comprou este navio, você nos ensinou que justiça não é sobre matar, mas sobre proteger. Se o mundo vier atrás de nós, Miu... eles vão descobrir que o orfanato mais gentil do mundo é também o lugar mais perigoso de se atacar.
Miu sorriu, encostando a cabeça no ombro do jovem. Ela era alta para uma humana comum, mas perto da grandiosidade do que havia construído, sentia-se pequena. E, no entanto, era aquela pequena mulher de cabelos brancos que mantinha o equilíbrio de quase três mil super-humanos em crescimento.
— Você se tornou um ótimo conselheiro, 1 — elogiou ela. — Acho que andou passando muito tempo comigo.
— Alguém tem que cuidar da nossa salvadora — brincou ele.
O navio continuou sua jornada silenciosa. Miu sabia que o Governo Mundial ou algum Yonkou acabaria cruzando seu caminho de forma mais séria um dia. Mas, enquanto olhava para as luzes do convés e ouvia o som abafado das risadas das crianças que ainda estavam acordadas, ela sentia uma paz inabalável.
Ela era Miu, a justiceira de cabelos de neve, e o *Aethelgard* era seu reino. Um reino onde o único imposto era a gentileza e a única lei era o cuidado mútuo. E quem quer que tentasse quebrar aquela paz, descobriria que, por trás da aparência frágil e dos olhos vermelhos expressivos, batia o coração de uma leoa que não temia nem mesmo os deuses do mar.
— Amanhã — disse Miu para as estrelas —, amanhã vamos ensinar o número 1500 a ler. E talvez, apenas talvez, possamos encontrar uma ilha deserta para um piquenique.
Porque no final das contas, apesar dos poderes e das modificações, eles eram apenas crianças. E Miu faria questão de que continuassem sendo, pelo tempo que o mar permitisse.
