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Amor e ódio
Fandom: Nenhum
Criado: 08/06/2026
Tags
RomanceDramaFatias de VidaEstudo de PersonagemRealismoLinguagem Explícita
O Som do Motor e o Gosto do Desafio
O ar de Nova York tinha um cheiro específico: uma mistura de asfalto quente, café barato e a promessa de que algo caótico estava prestes a acontecer. Elara Moretti inspirou profundamente enquanto descia do táxi, ajustando a jaqueta de couro sobre os ombros. Seus dedos, adornados com anéis de prata, tamborilaram na alça da mala. Ela estava de volta.
Após meses em um intercâmbio na Europa que, embora produtivo, tinha sido educado demais para o seu gosto, Elara sentia falta da aspereza da metrópole. Ela não era uma mulher de etiquetas ou de meios-termos. Com suas tatuagens subindo pelos braços e o olhar de quem já viu de tudo um pouco, ela caminhou em direção ao prédio de tijolos aparentes onde Evelyn morava.
— Se você demorasse mais um dia, eu juro que pegava um avião e te trazia pelos cabelos! — O grito de Evelyn ecoou pelo corredor assim que a porta do apartamento se abriu.
A ruiva não esperou Elara responder antes de envolvê-la em um abraço esmagador. Evelyn era a personificação da energia solar, um contraste gritante com o estilo "femme fatale" sombria de Elara.
— Também senti sua falta, Eve — Elara riu, retribuindo o aperto. — Mas solta, ou você vai ter que me levar pro hospital antes da primeira festa.
— Nem pensar! — Evelyn se afastou, analisando a amiga de cima a baixo. — Você está maravilhosa. Nova York sentiu falta desse seu mau humor charmoso. Entra logo, o Salem já está dominando o sofá.
Elara sorriu ao ver o gato preto, que Evelyn tinha cuidado durante sua ausência, espreguiçar-se majestosamente sobre uma almofada de veludo. Ela se jogou na poltrona, sentindo-se finalmente em casa.
— Então, qual é o plano para hoje? — Elara perguntou, cruzando as pernas e revelando a tatuagem de uma adaga na panturrilha. — Preciso de música alta e algo forte para beber.
— Na verdade... — Evelyn hesitou, com um brilho travesso nos olhos. — Meu irmão está dando uma festa no galpão de boxe dele. Vai ter de tudo. E eu prometi que passaríamos lá.
Elara arqueou uma sobrancelha.
— Seu irmão? O tal Noah que você mencionou nas chamadas de vídeo?
— O próprio. Ele é um idiota, mas as festas dele são lendárias. Vamos, Elara! É a sua primeira noite de volta.
Elara deu de ombros. Ela não tinha nada contra festas, e se o tal irmão fosse metade do que Evelyn descrevia, pelo menos haveria alguém interessante para observar de longe. Mal sabia ela que "observar de longe" não estava nos planos do destino.
***
O galpão no Brooklyn estava vibrando. O som dos graves fazia as janelas de vidro reforçado tremerem, e o cheiro de cerveja e suor de academia criava uma atmosfera crua e eletrizante. Elara atravessou a multidão com a confiança de quem era dona do lugar. Ela usava um top curto preto, calças de couro justas e botas de combate. Seus cabelos escuros estavam levemente bagunçados, e o batom vermelho escuro era sua armadura.
— Vou pegar bebidas! — Evelyn gritou por cima da música, desaparecendo entre as pessoas.
Elara encostou-se em uma pilastra de ferro, observando o ringue no centro do galpão, que agora servia como uma espécie de palco improvisado para alguns caras que exibiam suas habilidades de forma bêbada. Ela revirou os olhos. Homens e sua necessidade constante de provar quem tinha o soco mais forte.
— Você parece entediada. Ou talvez só esteja tentando decidir qual desses idiotas vale o seu tempo.
A voz era profunda, rouca e carregada de um sarcasmo que fez os pelos da nuca de Elara se arrepiarem. Ela se virou lentamente, encontrando um par de olhos escuros e intensos que a analisavam sem qualquer pudor.
Ele era alto. Muito alto. O corpo era uma escultura de músculos bem definidos, visíveis sob uma regata cinza desgastada. Tatuagens cobriam seus braços e subiam pelo pescoço, desaparecendo sob a mandíbula quadrada e coberta por uma barba rala. Ele segurava uma garrafa de cerveja com uma mão enfaixada, como se tivesse acabado de sair de um treino.
— E você deve ser o Noah — Elara disse, mantendo a voz firme e o olhar desafiador. — O irmão que a Evelyn insiste em dizer que é suportável. Claramente, ela mentiu.
Noah soltou uma risada curta, um som seco que não chegou a ser gentil. Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela.
— E você é a famosa Elara. A garota que odeia o mundo e tem um gato com nome de bruxo. Evelyn esqueceu de mencionar que você era tão... — Ele a mediu de cima a baixo com um sorriso de canto — ...afiada.
— Guarde os elogios baratos para as garotas que ficam em fila para ver você bater em sacos de areia, Noah — ela rebateu, cruzando os braços. — Eu não me impressiono fácil.
— Ah, eu percebi. — Noah deu um gole na cerveja, sem tirar os olhos dela. — Você tem aquela aura de "não me toque" que é basicamente um convite para o desastre. E eu sempre tive uma queda por desastres.
— Então você deve estar vivendo o sonho, já que sua reputação parece ser um acidente de trem em câmera lenta — Elara retrucou, com um sorriso sarcástico que fez os olhos de Noah brilharem de irritação e algo mais.
— Cuidado, Moretti. Nova York é uma cidade perigosa para quem tem a língua tão comprida quanto a sua.
— Eu sobrevivi a lugares muito piores do que um galpão cheio de testosterona e homens que acham que uma moto compensa a falta de personalidade.
Noah inclinou a cabeça, aproximando o rosto do dela. Elara podia sentir o cheiro dele — uma mistura de hortelã, couro e o calor da pele.
— Minha moto não compensa nada, gracinha. Ela só me ajuda a chegar mais rápido onde eu quero. E, no momento, eu estou exatamente onde quero estar.
— Que pena. Porque eu estou prestes a ir para qualquer lugar onde você não esteja.
Antes que ele pudesse responder, Evelyn reapareceu com dois copos de plástico cheios de um líquido azul duvidoso.
— Vejo que vocês já se conheceram! — Evelyn exclamou, ignorando a tensão palpável que poderia ser cortada com uma faca de pão. — Noah, não seja um ogro. Elara, não mate meu irmão na primeira noite.
— Não prometo nada, Eve — Elara disse, pegando o copo e virando metade do conteúdo de uma vez. O líquido queimou sua garganta, mas ela nem piscou.
— Ela é adorável, Evelyn — Noah comentou, o sarcasmo pingando de cada palavra. — Uma verdadeira flor. Com espinhos de arame farpado.
— E você é um cavalheiro, Noah — Elara sorriu falsamente, batendo o copo vazio contra o peito dele antes de se afastar. — Tente não quebrar o nariz de ninguém enquanto eu tento me divertir de verdade.
Ela caminhou em direção à pista de dança, sentindo o olhar de Noah queimando em suas costas. Ela sabia exatamente o que estava fazendo. Sabia o efeito que causava e sabia que Noah Carter era o tipo de problema que ela deveria evitar a todo custo. O problema era que Elara nunca tinha sido boa em seguir as próprias regras.
***
Duas horas depois, a festa estava em seu ápice. Elara estava levemente tonta pela mistura de álcool e adrenalina. Ela dançava com Evelyn e mais alguns conhecidos quando sentiu uma presença familiar atrás de si.
— Onde está sua moto, Carter? — ela perguntou, sem se virar, sentindo o calor do corpo dele perto demais.
— Lá fora. Por quê? Quer uma carona para aprender o que é velocidade de verdade? — A voz de Noah soou próxima ao seu ouvido, fazendo-a estremecer, algo que ela odiou secretamente.
Elara se virou, ficando a centímetros do peito dele.
— Eu prefiro caminhar sobre brasas a subir na garupa de um cara que usa o sorriso como arma de sedução em massa. É clichê demais para mim.
Noah riu, mas desta vez o som foi mais genuíno, embora ainda carregado de desafio.
— Você é difícil, Moretti. Eu gosto disso. A maioria das pessoas nesta cidade é feita de papel machê. Você parece ser feita de aço.
— Aço temperado no fogo — ela corrigiu. — Então não tente me dobrar. Você vai acabar se cortando.
— Quem disse que eu quero te dobrar? — Noah deu um passo lateral, cercando-a contra uma mesa de som desativada. — Talvez eu só queira ver até onde vai essa sua pose de inabalável.
— Você não tem combustível suficiente para essa viagem, Noah.
— Quer apostar? — Ele desafiou, os olhos fixos nos lábios dela por um segundo longo demais antes de voltar para os olhos dela. — Eu nunca perco uma aposta.
— Existe uma primeira vez para tudo. E eu adoro ser a exceção.
Eles ficaram ali, parados no meio do caos da festa, dois polos opostos que pareciam gerar sua própria eletricidade. A música parecia abafada, as pessoas ao redor eram apenas vultos. Para Elara, aquele era o jogo que ela mais gostava de jogar: o jogo do controle. Mas, pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu que o adversário não estava apenas jogando; ele conhecia as regras tão bem quanto ela.
— Elara! — O grito de Evelyn interrompeu o momento. A ruiva parecia um pouco mais alterada do que antes. — Vamos embora? O Noah disse que pode nos levar.
Elara olhou para Noah, que ostentava um sorriso vitorioso e irritante.
— Eu vou de táxi — Elara declarou, firme.
— Ah, deixa de ser chata! — Evelyn choramingou. — É caminho, e eu não quero esperar um Uber por meia hora nessa zona.
Elara suspirou, derrotada pela melhor amiga, mas lançou um olhar mortal para Noah.
— Se você fizer uma piadinha sobre eu estar na sua garupa, eu te empurro da moto em movimento.
Noah soltou uma gargalhada alta, passando o braço pelos ombros da irmã enquanto caminhava em direção à saída.
— Monta logo, Moretti. Prometo tentar não te impressionar demais. Vai ser difícil, eu sei, mas vou tentar.
O ar da noite estava fresco quando eles saíram do galpão. A moto de Noah, uma fera negra e cromada, brilhava sob as luzes da rua. Ele entregou um capacete para Evelyn e outro para Elara.
— Seguro — ele instruiu, subindo na máquina.
Elara montou atrás dele, sentindo a frieza do couro e a vibração do motor quando ele o ligou. O som era ensurdecedor e poderoso. Sem opção, ela teve que envolver a cintura de Noah com os braços para não cair. Ela sentiu os músculos dele se contraírem sob seu toque, e por um breve momento, a hostilidade deu lugar a uma consciência aguda do corpo um do outro.
Noah arrancou, e Nova York se transformou em um borrão de luzes e sombras. O vento batia no rosto de Elara, e ela não pôde evitar o sorriso que surgiu em seus lábios. Ela amava a velocidade. Amava o perigo. E, por mais que odiasse admitir, a forma como Noah dominava a moto era... interessante.
Quando ele finalmente parou em frente ao prédio delas, a adrenalina ainda corria nas veias de Elara. Ela desceu da moto, entregando o capacete com uma expressão neutra, lutando para esconder que tinha gostado da experiência.
— Sobreviveu? — Noah perguntou, tirando o próprio capacete e passando a mão pelos cabelos bagunçados.
— Eu já tive caronas mais emocionantes em carrinhos de golfe — ela mentiu descaradamente.
Noah soltou um suspiro de riso, balançando a cabeça.
— Você é uma mentirosa terrível, Elara Moretti. Seus olhos estão dilatados e suas mãos estão tremendo.
— É o frio, Carter. Não se ache tanto.
Evelyn, já na porta do prédio, acenou.
— Tchau, maninho! Obrigada pela carona! Entra logo, Elara!
Elara começou a se afastar, mas a voz de Noah a deteve.
— Ei, Moretti!
Ela parou e olhou para trás. Ele estava apoiado na moto, a luz do poste criando sombras dramáticas em seu rosto.
— O que foi agora?
— Amanhã tem treino aberto no galpão. Às oito. Se quiser ver como um "desastre" se move de verdade, aparece por lá.
Elara deu um sorriso sarcástico, aquele que ela usava para manter o mundo à distância.
— Não conte com isso. Eu tenho coisas mais importantes para fazer, como organizar minhas meias ou assistir tinta secar.
— A gente se vê às oito, então — Noah disse, ligando o motor novamente.
Ele acelerou e sumiu na noite antes que ela pudesse retrucar. Elara ficou ali por um momento, observando o rastro das luzes traseiras da moto. Seu coração ainda batia rápido, e ela sabia que não era apenas pela velocidade.
— Idiota — ela sussurrou para si mesma, embora houvesse uma nota de diversão em sua voz que ela se recusava a reconhecer.
Ao entrar no apartamento, ela encontrou Salem esperando por ela na entrada. Ela pegou o gato no colo, sentindo o ronronar vibrar contra seu peito.
— Ele é um problema, Salem — ela disse, olhando para o vazio. — Um problema tatuado, convencido e que provavelmente cheira a problemas mesmo quando está dormindo.
Ela se olhou no espelho do corredor. Seu batom estava levemente borrado, e seus olhos brilhavam com um desafio que ela não sentia há muito tempo. Nova York tinha acabado de se tornar muito mais interessante do que ela esperava. E, embora ela nunca admitisse, a ideia de ver Noah Carter novamente às oito da noite seguinte era a coisa mais emocionante que tinha acontecido em meses.
A guerra estava declarada. E Elara Moretti nunca entrava em uma batalha que não pretendesse vencer. Mesmo que, no processo, ela acabasse perdendo algo que jurou nunca entregar a ninguém: o controle sobre seu próprio coração.
Após meses em um intercâmbio na Europa que, embora produtivo, tinha sido educado demais para o seu gosto, Elara sentia falta da aspereza da metrópole. Ela não era uma mulher de etiquetas ou de meios-termos. Com suas tatuagens subindo pelos braços e o olhar de quem já viu de tudo um pouco, ela caminhou em direção ao prédio de tijolos aparentes onde Evelyn morava.
— Se você demorasse mais um dia, eu juro que pegava um avião e te trazia pelos cabelos! — O grito de Evelyn ecoou pelo corredor assim que a porta do apartamento se abriu.
A ruiva não esperou Elara responder antes de envolvê-la em um abraço esmagador. Evelyn era a personificação da energia solar, um contraste gritante com o estilo "femme fatale" sombria de Elara.
— Também senti sua falta, Eve — Elara riu, retribuindo o aperto. — Mas solta, ou você vai ter que me levar pro hospital antes da primeira festa.
— Nem pensar! — Evelyn se afastou, analisando a amiga de cima a baixo. — Você está maravilhosa. Nova York sentiu falta desse seu mau humor charmoso. Entra logo, o Salem já está dominando o sofá.
Elara sorriu ao ver o gato preto, que Evelyn tinha cuidado durante sua ausência, espreguiçar-se majestosamente sobre uma almofada de veludo. Ela se jogou na poltrona, sentindo-se finalmente em casa.
— Então, qual é o plano para hoje? — Elara perguntou, cruzando as pernas e revelando a tatuagem de uma adaga na panturrilha. — Preciso de música alta e algo forte para beber.
— Na verdade... — Evelyn hesitou, com um brilho travesso nos olhos. — Meu irmão está dando uma festa no galpão de boxe dele. Vai ter de tudo. E eu prometi que passaríamos lá.
Elara arqueou uma sobrancelha.
— Seu irmão? O tal Noah que você mencionou nas chamadas de vídeo?
— O próprio. Ele é um idiota, mas as festas dele são lendárias. Vamos, Elara! É a sua primeira noite de volta.
Elara deu de ombros. Ela não tinha nada contra festas, e se o tal irmão fosse metade do que Evelyn descrevia, pelo menos haveria alguém interessante para observar de longe. Mal sabia ela que "observar de longe" não estava nos planos do destino.
***
O galpão no Brooklyn estava vibrando. O som dos graves fazia as janelas de vidro reforçado tremerem, e o cheiro de cerveja e suor de academia criava uma atmosfera crua e eletrizante. Elara atravessou a multidão com a confiança de quem era dona do lugar. Ela usava um top curto preto, calças de couro justas e botas de combate. Seus cabelos escuros estavam levemente bagunçados, e o batom vermelho escuro era sua armadura.
— Vou pegar bebidas! — Evelyn gritou por cima da música, desaparecendo entre as pessoas.
Elara encostou-se em uma pilastra de ferro, observando o ringue no centro do galpão, que agora servia como uma espécie de palco improvisado para alguns caras que exibiam suas habilidades de forma bêbada. Ela revirou os olhos. Homens e sua necessidade constante de provar quem tinha o soco mais forte.
— Você parece entediada. Ou talvez só esteja tentando decidir qual desses idiotas vale o seu tempo.
A voz era profunda, rouca e carregada de um sarcasmo que fez os pelos da nuca de Elara se arrepiarem. Ela se virou lentamente, encontrando um par de olhos escuros e intensos que a analisavam sem qualquer pudor.
Ele era alto. Muito alto. O corpo era uma escultura de músculos bem definidos, visíveis sob uma regata cinza desgastada. Tatuagens cobriam seus braços e subiam pelo pescoço, desaparecendo sob a mandíbula quadrada e coberta por uma barba rala. Ele segurava uma garrafa de cerveja com uma mão enfaixada, como se tivesse acabado de sair de um treino.
— E você deve ser o Noah — Elara disse, mantendo a voz firme e o olhar desafiador. — O irmão que a Evelyn insiste em dizer que é suportável. Claramente, ela mentiu.
Noah soltou uma risada curta, um som seco que não chegou a ser gentil. Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela.
— E você é a famosa Elara. A garota que odeia o mundo e tem um gato com nome de bruxo. Evelyn esqueceu de mencionar que você era tão... — Ele a mediu de cima a baixo com um sorriso de canto — ...afiada.
— Guarde os elogios baratos para as garotas que ficam em fila para ver você bater em sacos de areia, Noah — ela rebateu, cruzando os braços. — Eu não me impressiono fácil.
— Ah, eu percebi. — Noah deu um gole na cerveja, sem tirar os olhos dela. — Você tem aquela aura de "não me toque" que é basicamente um convite para o desastre. E eu sempre tive uma queda por desastres.
— Então você deve estar vivendo o sonho, já que sua reputação parece ser um acidente de trem em câmera lenta — Elara retrucou, com um sorriso sarcástico que fez os olhos de Noah brilharem de irritação e algo mais.
— Cuidado, Moretti. Nova York é uma cidade perigosa para quem tem a língua tão comprida quanto a sua.
— Eu sobrevivi a lugares muito piores do que um galpão cheio de testosterona e homens que acham que uma moto compensa a falta de personalidade.
Noah inclinou a cabeça, aproximando o rosto do dela. Elara podia sentir o cheiro dele — uma mistura de hortelã, couro e o calor da pele.
— Minha moto não compensa nada, gracinha. Ela só me ajuda a chegar mais rápido onde eu quero. E, no momento, eu estou exatamente onde quero estar.
— Que pena. Porque eu estou prestes a ir para qualquer lugar onde você não esteja.
Antes que ele pudesse responder, Evelyn reapareceu com dois copos de plástico cheios de um líquido azul duvidoso.
— Vejo que vocês já se conheceram! — Evelyn exclamou, ignorando a tensão palpável que poderia ser cortada com uma faca de pão. — Noah, não seja um ogro. Elara, não mate meu irmão na primeira noite.
— Não prometo nada, Eve — Elara disse, pegando o copo e virando metade do conteúdo de uma vez. O líquido queimou sua garganta, mas ela nem piscou.
— Ela é adorável, Evelyn — Noah comentou, o sarcasmo pingando de cada palavra. — Uma verdadeira flor. Com espinhos de arame farpado.
— E você é um cavalheiro, Noah — Elara sorriu falsamente, batendo o copo vazio contra o peito dele antes de se afastar. — Tente não quebrar o nariz de ninguém enquanto eu tento me divertir de verdade.
Ela caminhou em direção à pista de dança, sentindo o olhar de Noah queimando em suas costas. Ela sabia exatamente o que estava fazendo. Sabia o efeito que causava e sabia que Noah Carter era o tipo de problema que ela deveria evitar a todo custo. O problema era que Elara nunca tinha sido boa em seguir as próprias regras.
***
Duas horas depois, a festa estava em seu ápice. Elara estava levemente tonta pela mistura de álcool e adrenalina. Ela dançava com Evelyn e mais alguns conhecidos quando sentiu uma presença familiar atrás de si.
— Onde está sua moto, Carter? — ela perguntou, sem se virar, sentindo o calor do corpo dele perto demais.
— Lá fora. Por quê? Quer uma carona para aprender o que é velocidade de verdade? — A voz de Noah soou próxima ao seu ouvido, fazendo-a estremecer, algo que ela odiou secretamente.
Elara se virou, ficando a centímetros do peito dele.
— Eu prefiro caminhar sobre brasas a subir na garupa de um cara que usa o sorriso como arma de sedução em massa. É clichê demais para mim.
Noah riu, mas desta vez o som foi mais genuíno, embora ainda carregado de desafio.
— Você é difícil, Moretti. Eu gosto disso. A maioria das pessoas nesta cidade é feita de papel machê. Você parece ser feita de aço.
— Aço temperado no fogo — ela corrigiu. — Então não tente me dobrar. Você vai acabar se cortando.
— Quem disse que eu quero te dobrar? — Noah deu um passo lateral, cercando-a contra uma mesa de som desativada. — Talvez eu só queira ver até onde vai essa sua pose de inabalável.
— Você não tem combustível suficiente para essa viagem, Noah.
— Quer apostar? — Ele desafiou, os olhos fixos nos lábios dela por um segundo longo demais antes de voltar para os olhos dela. — Eu nunca perco uma aposta.
— Existe uma primeira vez para tudo. E eu adoro ser a exceção.
Eles ficaram ali, parados no meio do caos da festa, dois polos opostos que pareciam gerar sua própria eletricidade. A música parecia abafada, as pessoas ao redor eram apenas vultos. Para Elara, aquele era o jogo que ela mais gostava de jogar: o jogo do controle. Mas, pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu que o adversário não estava apenas jogando; ele conhecia as regras tão bem quanto ela.
— Elara! — O grito de Evelyn interrompeu o momento. A ruiva parecia um pouco mais alterada do que antes. — Vamos embora? O Noah disse que pode nos levar.
Elara olhou para Noah, que ostentava um sorriso vitorioso e irritante.
— Eu vou de táxi — Elara declarou, firme.
— Ah, deixa de ser chata! — Evelyn choramingou. — É caminho, e eu não quero esperar um Uber por meia hora nessa zona.
Elara suspirou, derrotada pela melhor amiga, mas lançou um olhar mortal para Noah.
— Se você fizer uma piadinha sobre eu estar na sua garupa, eu te empurro da moto em movimento.
Noah soltou uma gargalhada alta, passando o braço pelos ombros da irmã enquanto caminhava em direção à saída.
— Monta logo, Moretti. Prometo tentar não te impressionar demais. Vai ser difícil, eu sei, mas vou tentar.
O ar da noite estava fresco quando eles saíram do galpão. A moto de Noah, uma fera negra e cromada, brilhava sob as luzes da rua. Ele entregou um capacete para Evelyn e outro para Elara.
— Seguro — ele instruiu, subindo na máquina.
Elara montou atrás dele, sentindo a frieza do couro e a vibração do motor quando ele o ligou. O som era ensurdecedor e poderoso. Sem opção, ela teve que envolver a cintura de Noah com os braços para não cair. Ela sentiu os músculos dele se contraírem sob seu toque, e por um breve momento, a hostilidade deu lugar a uma consciência aguda do corpo um do outro.
Noah arrancou, e Nova York se transformou em um borrão de luzes e sombras. O vento batia no rosto de Elara, e ela não pôde evitar o sorriso que surgiu em seus lábios. Ela amava a velocidade. Amava o perigo. E, por mais que odiasse admitir, a forma como Noah dominava a moto era... interessante.
Quando ele finalmente parou em frente ao prédio delas, a adrenalina ainda corria nas veias de Elara. Ela desceu da moto, entregando o capacete com uma expressão neutra, lutando para esconder que tinha gostado da experiência.
— Sobreviveu? — Noah perguntou, tirando o próprio capacete e passando a mão pelos cabelos bagunçados.
— Eu já tive caronas mais emocionantes em carrinhos de golfe — ela mentiu descaradamente.
Noah soltou um suspiro de riso, balançando a cabeça.
— Você é uma mentirosa terrível, Elara Moretti. Seus olhos estão dilatados e suas mãos estão tremendo.
— É o frio, Carter. Não se ache tanto.
Evelyn, já na porta do prédio, acenou.
— Tchau, maninho! Obrigada pela carona! Entra logo, Elara!
Elara começou a se afastar, mas a voz de Noah a deteve.
— Ei, Moretti!
Ela parou e olhou para trás. Ele estava apoiado na moto, a luz do poste criando sombras dramáticas em seu rosto.
— O que foi agora?
— Amanhã tem treino aberto no galpão. Às oito. Se quiser ver como um "desastre" se move de verdade, aparece por lá.
Elara deu um sorriso sarcástico, aquele que ela usava para manter o mundo à distância.
— Não conte com isso. Eu tenho coisas mais importantes para fazer, como organizar minhas meias ou assistir tinta secar.
— A gente se vê às oito, então — Noah disse, ligando o motor novamente.
Ele acelerou e sumiu na noite antes que ela pudesse retrucar. Elara ficou ali por um momento, observando o rastro das luzes traseiras da moto. Seu coração ainda batia rápido, e ela sabia que não era apenas pela velocidade.
— Idiota — ela sussurrou para si mesma, embora houvesse uma nota de diversão em sua voz que ela se recusava a reconhecer.
Ao entrar no apartamento, ela encontrou Salem esperando por ela na entrada. Ela pegou o gato no colo, sentindo o ronronar vibrar contra seu peito.
— Ele é um problema, Salem — ela disse, olhando para o vazio. — Um problema tatuado, convencido e que provavelmente cheira a problemas mesmo quando está dormindo.
Ela se olhou no espelho do corredor. Seu batom estava levemente borrado, e seus olhos brilhavam com um desafio que ela não sentia há muito tempo. Nova York tinha acabado de se tornar muito mais interessante do que ela esperava. E, embora ela nunca admitisse, a ideia de ver Noah Carter novamente às oito da noite seguinte era a coisa mais emocionante que tinha acontecido em meses.
A guerra estava declarada. E Elara Moretti nunca entrava em uma batalha que não pretendesse vencer. Mesmo que, no processo, ela acabasse perdendo algo que jurou nunca entregar a ninguém: o controle sobre seu próprio coração.
