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Fandom: Nenhum
Criado: 08/06/2026
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RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoPsicológicoCiúmesEstudo de PersonagemRealismoHistória DomésticaFatias de VidaTragédiaHumorFofura
Entre Tintas e Tensões
O estúdio central de Emanuel, localizado no coração pulsante da cidade, era um santuário de concreto, vidro e o cheiro onipresente de tinta de tatuagem e antisséptico. Para muitos, era apenas o quartel-general de um império internacional de arte corporal. Para Emanuel, era o lugar onde ele tentava, muitas vezes sem sucesso, equilibrar as engrenagens de sua vida profissional e o caos silencioso de sua vida pessoal.
Emanuel estava debruçado sobre a mesa de luz, examinando alguns esboços para uma nova coleção de flashes inspirados no Renascimento. Seus olhos, marcados por olheiras leves que denunciavam noites mal dormidas, percorriam as linhas finas com precisão técnica. Ele sentiu uma presença suave antes mesmo de ouvir os passos.
— Emanuel? — A voz de Eduarda era quase um sussurro, carregada daquela doçura tímida que sempre conseguia desarmar a rigidez de seus ombros.
Ele levantou o olhar e a viu parada na porta. Eduarda parecia uma pintura de tons pastéis em meio ao ambiente industrial do estúdio. Usava um vestido de linho claro e trazia uma pasta de couro sob o braço. Seus cabelos castanhos caíam de forma natural sobre os ombros esguios, e o olhar expressivo buscava a aprovação dele.
— Oi, Duda. Chegou cedo — ele disse, a voz suavizando-se automaticamente. — São as curadorias para a galeria de Londres?
Ela assentiu, aproximando-se e deslizando para o lado dele. Sem pedir permissão, ela se apoiou levemente em seu braço, um gesto manhoso de quem buscava proximidade física.
— Eu terminei de catalogar as referências de história da arte que você pediu. Acho que a transição do barroco para o traçado moderno vai ser o diferencial dessa coleção — ela explicou, abrindo a pasta. — Mas... eu também queria saber se você está bem. Você parece cansado.
Emanuel suspirou, fechando os olhos por um segundo enquanto sentia o calor do corpo dela contra o seu. Eduarda era sua paz, o porto seguro onde a lógica não precisava ser absoluta.
— Só o estresse de sempre, pequena. Muitos estúdios para gerenciar, muita gente dependendo de mim.
Ele passou a mão pelo rosto, sentindo a tensão na nuca. Foi nesse momento que o som de saltos altos ecoou pelo corredor de metal, um ritmo firme e impaciente que anunciava a chegada de outra pessoa.
Sara entrou na sala como um furacão de confiança e perfume caro. O vestido vermelho justo realçava cada curva de seu corpo esculpido, e o cabelo loiro platinado estava impecavelmente modelado. Ela não pediu licença; ela simplesmente ocupou o espaço.
— Baby, as planilhas da unidade de Tóquio são uma piada — Sara disse, jogando um tablet sobre a mesa de luz, ignorando completamente a proximidade entre Emanuel e Eduarda. — Se eu não estivesse na administração, aqueles japoneses já teriam passado a perna no seu lucro.
Emanuel endireitou a postura, o modo "resolutivo" assumindo o comando.
— Eu já disse que vou revisar isso, Sara. Agora eu estava discutindo a parte artística com a Duda.
Sara deu um sorriso irônico, arqueando uma sobrancelha perfeitamente desenhada ao olhar para Eduarda. Para Sara, Eduarda era como um animalzinho de estimação: inofensiva, delicada e, em sua mente, claramente a "segunda opção" em termos de hierarquia doméstica, já que era Sara quem dividia o teto com o empresário.
— Ah, a curadora — Sara disse, a voz pingando um sarcasmo que não chegava a ser ódio, mas uma condescendência clara. — Oi, Eduarda. Ainda cheirando a museu e mofo?
Eduarda encolheu-se levemente, apertando a pasta contra o peito. Ela não sabia como revidar. O confronto direto a paralisava.
— Oi, Sara. Eu só estou... fazendo meu trabalho.
— Sei. — Sara caminhou até Emanuel e passou os braços pelo pescoço dele, forçando-o a desviar a atenção de Eduarda. — Escuta, Manu. A gente precisa falar sobre o jantar de hoje. Chamei aquele casal de investidores. E, por favor, não use essa camiseta de tatuador de esquina.
Emanuel sentiu a pressão subir. Ele gentilmente afastou as mãos de Sara, sentindo o conflito emocional começar a borbulhar.
— Sara, agora não. Eu preciso terminar isso aqui. E Eduarda, a gente precisa conversar sobre outra coisa.
Eduarda olhou para os próprios pés, já prevendo o que viria.
— Pode falar, Emanuel.
— Eu recebi a confirmação da reforma da ala leste da minha casa — ele começou, a voz ficando mais firme, quase autoritária. — Tem um espaço perfeito para o seu ateliê de desenho e para a sua coleção de livros de arte. Eu não aguento mais ter que te levar para a casa dos seus pais toda noite, Duda. Já passou da hora de você se mudar para lá. Comigo. Com a gente.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Sara revirou os olhos, cruzando os braços sobre os seios siliconados.
— Ah, lá vamos nós de novo com o convite para o convento — provocou Sara. — Por que você insiste, Manu? Ela gosta de morar com o papai e a mamãe. Tem quem lave as calcinhas dela lá, não tem, querida?
— Sara, chega! — Emanuel explodiu, a voz ecoando no estúdio. — Eu estou falando com ela.
Eduarda sentiu os olhos marejarem. A insegurança a atingiu como uma onda fria. Ela amava Emanuel, amava a proteção que ele oferecia, mas a ideia de entrar definitivamente naquela dinâmica doméstica, de dividir o mesmo teto com a personalidade esmagadora de Sara e a rigidez de Emanuel, a apavorava.
— Emanuel... a gente já conversou sobre isso — Eduarda disse, a voz trêmula. — Meus pais são novos, eles gostam da minha companhia... e eu ainda não me sinto pronta para essa mudança. É um passo muito grande. Por favor, espera mais um pouco.
Emanuel bateu a mão na mesa, não com violência, mas com uma frustração evidente que fez Eduarda dar um passo para trás.
— Esperar o quê? — ele perguntou, a racionalidade dando lugar à irritação. — Eu sou um homem prático, Eduarda. Eu tenho tudo o que você precisa. Segurança, espaço, conforto. Por que essa resistência em construir uma vida comigo de verdade? Parece que você não confia em mim.
— Não é isso! — ela exclamou, as lágrimas agora escorrendo. — Eu só... eu preciso do meu tempo. Você quer controlar tudo, Emanuel. Quer que tudo seja do seu jeito, no seu ritmo.
Sara soltou uma risada curta e seca.
— Viu só? Ela é uma criança, Manu. Você está tentando colocar um passarinho numa gaiola de ouro, mas o passarinho quer o ninho da mamãe. Deixa ela lá. A casa fica menos cheia e eu não preciso ouvir música clássica às sete da manhã.
— Você não ajuda, Sara! — Emanuel se virou para a loira, os olhos faiscando. — Você trata tudo como se fosse uma disputa de território. Eu quero as duas perto de mim porque eu cuido do que é meu. Mas é impossível quando uma se recusa a crescer e a outra não para de cutucar a ferida!
Eduarda sentiu o peito apertar. Ela odiava gritos. Odiava o clima pesado. Ela se aproximou de Emanuel, ignorando o olhar de desdém de Sara, e tocou a mão dele com seus dedos finos e frios.
— Não fica bravo comigo... — ela pediu, com aquele jeito manhoso que costumava desarmá-lo. — Eu só quero que as coisas sejam calmas. Se eu for para lá agora, com todo esse estresse, a gente vai acabar brigando todo dia.
Emanuel olhou para Eduarda, a expressão de raiva suavizando-se para uma de cansaço profundo. Ele a puxou para um abraço rápido, enterrando o rosto no pescoço dela por um instante.
— Eu só quero proteger você, Duda. O mundo lá fora é difícil, e aqui dentro eu posso controlar as coisas.
— Você não pode controlar os sentimentos, Manu — Sara interveio, agora com um tom um pouco menos ácido, mas ainda firme. — Ou ela vem, ou ela não vem. Mas esse drama de "não estou pronta" já cansou até a mim. E olha que eu nem sou a maior fã de ter mais uma mulher dividindo o meu closet.
Emanuel se afastou das duas, caminhando até a janela que dava para a rua movimentada. Ele era um homem que construiu um império do nada, que dominava a arte da agulha e da gestão, mas ali, entre a sensibilidade vulnerável de Eduarda e a agressividade protetora de Sara, ele se sentia impotente.
— Eu não vou forçar hoje — Emanuel disse, de costas para elas. — Mas isso não vai ficar assim para sempre, Eduarda. Eu preciso de estabilidade. Eu preciso saber que, quando eu chegar em casa, as pessoas que eu amo estarão lá.
Eduarda limpou o rosto com a manga do vestido, sentindo-se culpada e, ao mesmo tempo, sufocada.
— Eu vou para a minha sala organizar os desenhos — ela disse baixo. — Depois a gente se fala.
Ela saiu quase correndo, o som de seus passos leves desaparecendo rapidamente.
Sara caminhou até Emanuel e parou ao lado dele, observando o reflexo do namorado no vidro.
— Você é muito mole com ela — Sara comentou, pegando um cigarro eletrônico da bolsa. — Ela sabe que se fizer essa cara de choro e esse jeito de gatinho abandonado, você cede.
— E você é dura demais — ele rebateu, embora não houvesse mais raiva na voz, apenas exaustão. — Você não entende que nem todo mundo enfrenta a vida como se fosse uma guerra, Sara.
— A vida é uma guerra, baby. E se você não ocupar o seu espaço, alguém ocupa por você. — Ela deu uma tragada e soltou o vapor, que se dissipou no ar frio do estúdio. — Mas relaxa. Eu estou aqui, não estou? Eu não vou a lugar nenhum.
Emanuel olhou para Sara. Ela era a sua força bruta, a mulher que não exigia cuidados, mas que exigia atenção constante. Eduarda era a sua alma, a delicadeza que ele temia quebrar.
— Às vezes eu sinto que estou sendo puxado para dois lados opostos — ele confessou, a voz baixa. — E temo que, uma hora, eu acabe partindo ao meio.
Sara deu um sorriso de lado, um brilho de possessividade nos olhos.
— Você é forte o suficiente para aguentar, Manu. Só precisa aprender a dar as ordens certas. Agora, vamos focar na administração? Aqueles números de Tóquio não vão se resolver sozinhos.
Emanuel assentiu, voltando para a mesa. A lógica, os números e o trabalho eram o seu refúgio. Mas, no fundo da mente, a imagem de Eduarda chorando e o som da risada provocativa de Sara continuavam a duelar, um lembrete constante de que seu império de tinta era muito mais fácil de gerenciar do que o seu próprio coração.
Enquanto isso, em sua sala de curadoria, Eduarda desenhava linhas nervosas em um papel. Ela amava Emanuel com cada fibra de seu ser, mas a sombra de Sara e a pressão dele por controle eram como correntes que ela ainda não sabia se queria carregar. Ela olhou para o telefone, pensando em ligar para a mãe, mas desistiu. Ela precisava crescer, Emanuel tinha razão sobre isso. Mas a que custo?
A tensão no estúdio não havia acabado; estava apenas guardada em frascos de tinta, esperando o próximo toque da agulha para transbordar novamente.
Emanuel estava debruçado sobre a mesa de luz, examinando alguns esboços para uma nova coleção de flashes inspirados no Renascimento. Seus olhos, marcados por olheiras leves que denunciavam noites mal dormidas, percorriam as linhas finas com precisão técnica. Ele sentiu uma presença suave antes mesmo de ouvir os passos.
— Emanuel? — A voz de Eduarda era quase um sussurro, carregada daquela doçura tímida que sempre conseguia desarmar a rigidez de seus ombros.
Ele levantou o olhar e a viu parada na porta. Eduarda parecia uma pintura de tons pastéis em meio ao ambiente industrial do estúdio. Usava um vestido de linho claro e trazia uma pasta de couro sob o braço. Seus cabelos castanhos caíam de forma natural sobre os ombros esguios, e o olhar expressivo buscava a aprovação dele.
— Oi, Duda. Chegou cedo — ele disse, a voz suavizando-se automaticamente. — São as curadorias para a galeria de Londres?
Ela assentiu, aproximando-se e deslizando para o lado dele. Sem pedir permissão, ela se apoiou levemente em seu braço, um gesto manhoso de quem buscava proximidade física.
— Eu terminei de catalogar as referências de história da arte que você pediu. Acho que a transição do barroco para o traçado moderno vai ser o diferencial dessa coleção — ela explicou, abrindo a pasta. — Mas... eu também queria saber se você está bem. Você parece cansado.
Emanuel suspirou, fechando os olhos por um segundo enquanto sentia o calor do corpo dela contra o seu. Eduarda era sua paz, o porto seguro onde a lógica não precisava ser absoluta.
— Só o estresse de sempre, pequena. Muitos estúdios para gerenciar, muita gente dependendo de mim.
Ele passou a mão pelo rosto, sentindo a tensão na nuca. Foi nesse momento que o som de saltos altos ecoou pelo corredor de metal, um ritmo firme e impaciente que anunciava a chegada de outra pessoa.
Sara entrou na sala como um furacão de confiança e perfume caro. O vestido vermelho justo realçava cada curva de seu corpo esculpido, e o cabelo loiro platinado estava impecavelmente modelado. Ela não pediu licença; ela simplesmente ocupou o espaço.
— Baby, as planilhas da unidade de Tóquio são uma piada — Sara disse, jogando um tablet sobre a mesa de luz, ignorando completamente a proximidade entre Emanuel e Eduarda. — Se eu não estivesse na administração, aqueles japoneses já teriam passado a perna no seu lucro.
Emanuel endireitou a postura, o modo "resolutivo" assumindo o comando.
— Eu já disse que vou revisar isso, Sara. Agora eu estava discutindo a parte artística com a Duda.
Sara deu um sorriso irônico, arqueando uma sobrancelha perfeitamente desenhada ao olhar para Eduarda. Para Sara, Eduarda era como um animalzinho de estimação: inofensiva, delicada e, em sua mente, claramente a "segunda opção" em termos de hierarquia doméstica, já que era Sara quem dividia o teto com o empresário.
— Ah, a curadora — Sara disse, a voz pingando um sarcasmo que não chegava a ser ódio, mas uma condescendência clara. — Oi, Eduarda. Ainda cheirando a museu e mofo?
Eduarda encolheu-se levemente, apertando a pasta contra o peito. Ela não sabia como revidar. O confronto direto a paralisava.
— Oi, Sara. Eu só estou... fazendo meu trabalho.
— Sei. — Sara caminhou até Emanuel e passou os braços pelo pescoço dele, forçando-o a desviar a atenção de Eduarda. — Escuta, Manu. A gente precisa falar sobre o jantar de hoje. Chamei aquele casal de investidores. E, por favor, não use essa camiseta de tatuador de esquina.
Emanuel sentiu a pressão subir. Ele gentilmente afastou as mãos de Sara, sentindo o conflito emocional começar a borbulhar.
— Sara, agora não. Eu preciso terminar isso aqui. E Eduarda, a gente precisa conversar sobre outra coisa.
Eduarda olhou para os próprios pés, já prevendo o que viria.
— Pode falar, Emanuel.
— Eu recebi a confirmação da reforma da ala leste da minha casa — ele começou, a voz ficando mais firme, quase autoritária. — Tem um espaço perfeito para o seu ateliê de desenho e para a sua coleção de livros de arte. Eu não aguento mais ter que te levar para a casa dos seus pais toda noite, Duda. Já passou da hora de você se mudar para lá. Comigo. Com a gente.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Sara revirou os olhos, cruzando os braços sobre os seios siliconados.
— Ah, lá vamos nós de novo com o convite para o convento — provocou Sara. — Por que você insiste, Manu? Ela gosta de morar com o papai e a mamãe. Tem quem lave as calcinhas dela lá, não tem, querida?
— Sara, chega! — Emanuel explodiu, a voz ecoando no estúdio. — Eu estou falando com ela.
Eduarda sentiu os olhos marejarem. A insegurança a atingiu como uma onda fria. Ela amava Emanuel, amava a proteção que ele oferecia, mas a ideia de entrar definitivamente naquela dinâmica doméstica, de dividir o mesmo teto com a personalidade esmagadora de Sara e a rigidez de Emanuel, a apavorava.
— Emanuel... a gente já conversou sobre isso — Eduarda disse, a voz trêmula. — Meus pais são novos, eles gostam da minha companhia... e eu ainda não me sinto pronta para essa mudança. É um passo muito grande. Por favor, espera mais um pouco.
Emanuel bateu a mão na mesa, não com violência, mas com uma frustração evidente que fez Eduarda dar um passo para trás.
— Esperar o quê? — ele perguntou, a racionalidade dando lugar à irritação. — Eu sou um homem prático, Eduarda. Eu tenho tudo o que você precisa. Segurança, espaço, conforto. Por que essa resistência em construir uma vida comigo de verdade? Parece que você não confia em mim.
— Não é isso! — ela exclamou, as lágrimas agora escorrendo. — Eu só... eu preciso do meu tempo. Você quer controlar tudo, Emanuel. Quer que tudo seja do seu jeito, no seu ritmo.
Sara soltou uma risada curta e seca.
— Viu só? Ela é uma criança, Manu. Você está tentando colocar um passarinho numa gaiola de ouro, mas o passarinho quer o ninho da mamãe. Deixa ela lá. A casa fica menos cheia e eu não preciso ouvir música clássica às sete da manhã.
— Você não ajuda, Sara! — Emanuel se virou para a loira, os olhos faiscando. — Você trata tudo como se fosse uma disputa de território. Eu quero as duas perto de mim porque eu cuido do que é meu. Mas é impossível quando uma se recusa a crescer e a outra não para de cutucar a ferida!
Eduarda sentiu o peito apertar. Ela odiava gritos. Odiava o clima pesado. Ela se aproximou de Emanuel, ignorando o olhar de desdém de Sara, e tocou a mão dele com seus dedos finos e frios.
— Não fica bravo comigo... — ela pediu, com aquele jeito manhoso que costumava desarmá-lo. — Eu só quero que as coisas sejam calmas. Se eu for para lá agora, com todo esse estresse, a gente vai acabar brigando todo dia.
Emanuel olhou para Eduarda, a expressão de raiva suavizando-se para uma de cansaço profundo. Ele a puxou para um abraço rápido, enterrando o rosto no pescoço dela por um instante.
— Eu só quero proteger você, Duda. O mundo lá fora é difícil, e aqui dentro eu posso controlar as coisas.
— Você não pode controlar os sentimentos, Manu — Sara interveio, agora com um tom um pouco menos ácido, mas ainda firme. — Ou ela vem, ou ela não vem. Mas esse drama de "não estou pronta" já cansou até a mim. E olha que eu nem sou a maior fã de ter mais uma mulher dividindo o meu closet.
Emanuel se afastou das duas, caminhando até a janela que dava para a rua movimentada. Ele era um homem que construiu um império do nada, que dominava a arte da agulha e da gestão, mas ali, entre a sensibilidade vulnerável de Eduarda e a agressividade protetora de Sara, ele se sentia impotente.
— Eu não vou forçar hoje — Emanuel disse, de costas para elas. — Mas isso não vai ficar assim para sempre, Eduarda. Eu preciso de estabilidade. Eu preciso saber que, quando eu chegar em casa, as pessoas que eu amo estarão lá.
Eduarda limpou o rosto com a manga do vestido, sentindo-se culpada e, ao mesmo tempo, sufocada.
— Eu vou para a minha sala organizar os desenhos — ela disse baixo. — Depois a gente se fala.
Ela saiu quase correndo, o som de seus passos leves desaparecendo rapidamente.
Sara caminhou até Emanuel e parou ao lado dele, observando o reflexo do namorado no vidro.
— Você é muito mole com ela — Sara comentou, pegando um cigarro eletrônico da bolsa. — Ela sabe que se fizer essa cara de choro e esse jeito de gatinho abandonado, você cede.
— E você é dura demais — ele rebateu, embora não houvesse mais raiva na voz, apenas exaustão. — Você não entende que nem todo mundo enfrenta a vida como se fosse uma guerra, Sara.
— A vida é uma guerra, baby. E se você não ocupar o seu espaço, alguém ocupa por você. — Ela deu uma tragada e soltou o vapor, que se dissipou no ar frio do estúdio. — Mas relaxa. Eu estou aqui, não estou? Eu não vou a lugar nenhum.
Emanuel olhou para Sara. Ela era a sua força bruta, a mulher que não exigia cuidados, mas que exigia atenção constante. Eduarda era a sua alma, a delicadeza que ele temia quebrar.
— Às vezes eu sinto que estou sendo puxado para dois lados opostos — ele confessou, a voz baixa. — E temo que, uma hora, eu acabe partindo ao meio.
Sara deu um sorriso de lado, um brilho de possessividade nos olhos.
— Você é forte o suficiente para aguentar, Manu. Só precisa aprender a dar as ordens certas. Agora, vamos focar na administração? Aqueles números de Tóquio não vão se resolver sozinhos.
Emanuel assentiu, voltando para a mesa. A lógica, os números e o trabalho eram o seu refúgio. Mas, no fundo da mente, a imagem de Eduarda chorando e o som da risada provocativa de Sara continuavam a duelar, um lembrete constante de que seu império de tinta era muito mais fácil de gerenciar do que o seu próprio coração.
Enquanto isso, em sua sala de curadoria, Eduarda desenhava linhas nervosas em um papel. Ela amava Emanuel com cada fibra de seu ser, mas a sombra de Sara e a pressão dele por controle eram como correntes que ela ainda não sabia se queria carregar. Ela olhou para o telefone, pensando em ligar para a mãe, mas desistiu. Ela precisava crescer, Emanuel tinha razão sobre isso. Mas a que custo?
A tensão no estúdio não havia acabado; estava apenas guardada em frascos de tinta, esperando o próximo toque da agulha para transbordar novamente.
