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Fandom: Nenhum

Criado: 08/06/2026

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O Último Eco do Silêncio

O ginásio da escola estava impregnado com o cheiro de flores baratas, perfume excessivo e o suor nervoso de centenas de adolescentes prestes a enfrentar o mundo. Olivia sentia o peso do capelo sobre seus cabelos escuros e lisos, que desciam como uma cascata de seda negra até a altura das coxas. Ela sempre fora a garota silenciosa, aquela cujos olhos puxados e profundos pareciam guardar segredos que ninguém tinha coragem de perguntar. Naquela noite, seus olhos negros estavam mais nublados do que o normal.

Ao lado dela, Mateus ajeitava a gravata pela décima vez. O terno azul-marinho realçava seus ombros levemente definidos e, sempre que ele passava a mão pelos cachos escuros e rebeldes, as veias marcadas em seus braços e mãos se tornavam mais evidentes — um detalhe que Olivia sempre achara secretamente atraente. Ele sorriu para ela, e as covinhas que ela tanto amava apareceram, mas o brilho habitual de "bom moço" estava ofuscado por uma tristeza latente.

A cerimônia passou como um borrão. Discursos sobre o futuro, promessas de amizade eterna e o lançamento de chapéus ao ar. Para a maioria, era um começo. Para eles, parecia o fim de um cronômetro que vinha contando os segundos há meses.

— Precisamos conversar, Olivia — disse Mateus, a voz baixa sob o som da música alta da festa pós-graduação. — Não aqui. Vamos para a minha casa? Meus pais foram comemorar com os tios, só voltam amanhã.

Olivia apenas assentiu, apertando o diploma contra o peito. Ela tinha 1,60m de altura, e a diferença de estatura fazia com que ela tivesse que olhar para cima para encontrar o rosto dele. A pele clara dela parecia quase pálida sob as luzes do ginásio.

O trajeto até a casa de Mateus foi feito em um silêncio sufocante. Assim que entraram no quarto dele, o ambiente que antes era o refúgio seguro de ambos pareceu pequeno demais. Olivia sentou-se na beira da cama, os cabelos escorrendo pelo lençol, enquanto Mateus andava de um lado para o outro.

— O ônibus sai às seis da manhã de segunda-feira, Mateus — começou ela, a voz firme apesar do tremor nas mãos. — São doze horas de viagem. Eu não vou conseguir voltar nos finais de semana. A faculdade de Medicina vai me sugar inteira.

— Eu sei disso — respondeu ele, parando na frente dela. — E eu vou ficar aqui, tentando o curso técnico e trabalhando na oficina do meu pai.

— Nós combinamos que namoro à distância não funciona — lembrou Olivia. — Vimos o que aconteceu com a minha irmã. A desconfiança, as brigas por causa de sinal de internet, a saudade que vira amargura. Eu não quero odiar você daqui a seis meses.

Mateus suspirou, sentando-se no chão, entre as pernas dela. Ele pegou as mãos pequenas de Olivia nas suas.

— Então qual é a solução? Você quer que eu peça para você ficar? Eu não posso fazer isso. É o seu sonho.

— Eu queria que você viesse comigo — disse ela, os olhos negros brilhando com lágrimas contidas. — Eu queria que a gente desse um jeito. Você sabe que meu sonho sempre foi casar cedo, Mateus. Ter nossa casa, nossa rotina. Eu não queria ser apenas uma estudante solitária em uma cidade estranha.

Mateus soltou uma risada amarga, soltando as mãos dela.

— Casar, Olivia? Com que dinheiro? Eu tenho dezenove anos e duzentos reais na conta poupança. Eu sou o cara "certinho", lembra? Eu não faço dívidas que não posso pagar. Para casar, eu preciso sustentar uma casa, e eu não tenho nada para te oferecer além desse quarto na casa dos meus pais.

— O dinheiro não é tudo! — exclamou ela, levantando-se. — A gente daria um jeito. Se você me amasse o suficiente, você arriscaria.

— Eu te amo o suficiente para não querer que você passe fome comigo enquanto estuda! — rebateu ele, levantando-se também. — Você vive em um mundo de fantasia. A realidade é que você vai para o norte e eu fico aqui. A distância é um fato, e a minha pobreza também.

— Então é isso? — Olivia cruzou os braços sobre o corpo curvilíneo, sentindo-se vulnerável em seu vestido de festa. — A gente simplesmente desiste? Tudo o que vivemos nos últimos dois anos vira cinza porque você é orgulhoso demais para tentar?

— Não é orgulho, é consciência! — Mateus passou a mão pelo rosto, frustrado. — Eu não posso te dar o que você quer agora. E você não pode abrir mão da sua carreira por mim. Estamos em pontos diferentes da estrada, Olivia. E essas estradas não se cruzam mais.

O silêncio que se seguiu foi cortante. Olivia olhou para Mateus, para o garoto fofo e introvertido que sempre lhe trazia flores colhidas no caminho da escola, e viu um homem decidido a deixá-la ir para não estragar seu futuro. A raiva começou a se dissipar, dando lugar a uma dor aguda e física no peito.

— Então acabou — sussurrou ela.

Mateus não respondeu de imediato. Ele se aproximou lentamente, os olhos castanhos fixos nos dela.

— Acabou — confirmou ele, a voz falhando. — Mas não precisa ser agora. Não o último minuto.

Ele estendeu a mão e tocou o rosto de Olivia, o polegar acariciando a pele macia logo abaixo dos olhos puxados.

— Eu não quero que nossa última lembrança seja essa briga — continuou ele. — Eu quero lembrar do cheiro do seu cabelo. De como você é pequena nos meus braços.

— Mateus... — ela começou, mas ele a calou com um beijo.

Foi um beijo carregado de desespero e despedida. Havia o gosto salgado das lágrimas de ambos e a urgência de quem sabe que o tempo é um recurso escasso. Mateus a conduziu até a cama com uma delicadeza que contrastava com a tempestade emocional que rugia dentro deles.

Ali, entre lençóis que cheiravam a amaciante e ao perfume de Mateus, eles se entregaram um ao outro pela última vez. Olivia sentia cada músculo definido dele sob suas mãos, cada marca das veias em seus braços enquanto ele a segurava como se ela fosse feita de vidro. Seus seios pequenos pressionados contra o peito dele, o contraste de sua pele clara com o lençol escuro, tudo parecia uma pintura de despedida.

— Eu te amo — sussurrou Mateus contra o pescoço dela, enquanto o ritmo deles se tornava um só.

— Eu também te amo — respondeu ela, fechando os olhos com força, tentando gravar na memória a sensação de estar completa ao lado dele.

Naquela noite, não havia faculdade em outra cidade, não havia falta de dinheiro, não havia planos frustrados de casamento. Havia apenas Mateus e Olivia, duas metades de um todo que o destino decidira separar.

Quando o cansaço finalmente os venceu, eles ficaram abraçados. O cabelo de Olivia se espalhava pelo peito de Mateus como um véu.

— Promete que vai ser feliz? — perguntou Mateus na penumbra do quarto, a voz quase um sussurro.

— Eu não sei como ser feliz sem você — respondeu ela honestamente. — Mas eu vou tentar. Promete que não vai me esquecer?

Mateus sorriu, o tipo de sorriso triste que não chegava às covinhas.

— Olivia, você é a única coisa que eu realmente quis na vida. Esquecer você seria esquecer quem eu sou.

Eles dormiram assim, entrelaçados, enquanto o relógio na parede avançava impiedosamente em direção às seis da manhã de segunda-feira. O sol nasceria em poucas horas, e com ele, a vida que eles haviam planejado juntos se tornaria apenas uma história de "quase" contada em tons de saudade.

A briga fora necessária para quebrar o vínculo, mas o amor que restava era o que tornava a partida insuportável. Olivia sabia que, ao acordar, teria que recolher suas coisas e seu coração estraçalhado. Mateus sabia que o silêncio daquela casa, depois que ela partisse, seria o som mais alto que ele já ouvira.

Eles eram jovens, eram brilhantes, e estavam perdendo um ao outro para o mundo que tanto queriam conquistar.
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