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Criado: 08/06/2026

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RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoFatias de VidaEstudo de PersonagemCiúmes
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Entre Traços e Cicatrizes

O cheiro de tinta de tatuagem e antisséptico sempre seria, para Eduarda, o cheiro de casa. Não porque ela vivesse no estúdio, mas porque ali era o reino de Emanuel, e onde ele estava, ela se sentia segura. Aos vinte anos, ela caminhava pelos corredores da unidade principal do império que ele construiu com a familiaridade de quem viu os primeiros esboços serem feitos em cadernos escolares amassados.

Mas a história deles não começou com máquinas de tatuar ou sucessos financeiros. Começou em um quintal com grama alta e joelhos ralados.

Vinte anos antes, Emanuel já era a âncora de Eduarda. Ela tinha cinco anos, uma menina miúda de cabelos castanhos sempre despenteados e olhos que pareciam grandes demais para o rosto delicado. Sara, aos oito, já era um furacão de energia, correndo na frente, desafiando a gravidade e a paciência dos adultos.

— Anda, Duda! Se você não correr, vai ficar para trás e o bicho-papão da garagem vai te pegar! — Sara gritava, rindo, os cabelos loiros balançando enquanto ela subia no muro baixo que dividia as propriedades.

Eduarda parou no meio do caminho, os lábios tremendo, os olhos já marejados. O medo era uma constante para ela, uma sombra que só se dissipava quando uma mão maior segurava a sua.

Emanuel, também com oito anos, mas já carregando uma seriedade que não pertencia à sua idade, parou de correr. Ele olhou para Sara com um vinco de irritação entre as sobrancelhas e depois voltou para Eduarda.

— Ela está mentindo, Duda. Não tem nada na garagem.

Ele caminhou de volta, os passos firmes, e estendeu a mão. Eduarda a segurou imediatamente, limpando o rosto no ombro da camiseta dele assim que ele se aproximou.

— Você me protege? — ela perguntou, a voz sumindo em um sussurro manhoso.

— Sempre — Emanuel respondeu, simples e absoluto.

Sara, lá de cima do muro, revirou os olhos e bufou.

— Ela é muito chorona, Manu. Deixa ela aí e vem ver o que eu achei!

Emanuel não soltou a mão de Eduarda. Ele apenas a guiou, no ritmo dela, garantindo que cada passo fosse seguro. Aquela era a dinâmica que ditaria as décadas seguintes: Sara provocando e testando os limites, Emanuel servindo de escudo e Eduarda sendo o coração sensível que os mantinha, de alguma forma, ancorados em algo puro.

***

Os anos transformaram as crianças em adolescentes, e os sentimentos, antes simples, tornaram-se um emaranhado de fios farpados. Emanuel e Sara descobriram a eletricidade entre seus corpos aos quinze anos. Era uma relação de impacto, de gritos seguidos de beijos desesperados, de términos que duravam uma semana e voltas que incendiavam o ar ao redor deles.

Eduarda assistia a tudo de uma distância segura, ou assim ela pensava. Ela era a "pequena Duda", a menina que Emanuel ainda protegia com um zelo quase possessivo, mesmo quando estava ocupado demais discutindo com Sara. Mas por dentro, a admiração infantil de Eduarda havia amadurecido. Ela observava as mãos de Emanuel — as mãos que agora desenhavam artes complexas e sombrias — e sentia um aperto no peito que não sabia explicar.

Até o dia em que ela completou dezoito anos.

Emanuel já era um homem de vinte e três, começando a colher os frutos de seu talento. Ele tinha seu próprio apartamento e o primeiro estúdio de renome. Naquela noite, após a pequena festa na casa dos pais de Eduarda, ele se ofereceu para levá-la até o quarto e ajudá-la com os presentes.

O quarto dela ainda tinha o cheiro de baunilha e a suavidade de sua personalidade. Eduarda fechou a porta e ficou de pé, observando Emanuel colocar uma pilha de livros de História da Arte sobre a escrivaninha.

— Você está quieta hoje — comentou ele, virando-se. A luz do abajur realçava as tatuagens que subiam pelo pescoço dele, dando-lhe uma aura perigosa que contrastava com o olhar cansado e protetor que ele reservava apenas para ela.

— Eu estava pensando — começou Eduarda, aproximando-se. Ela usava um vestido de alças finas, a pele clara parecendo quase etérea sob a luz quente. — Pensando que todo mundo espera que eu continue sendo a menina de cinco anos que tem medo da garagem.

Emanuel sorriu de canto, um gesto raro e contido.

— Para mim, você sempre vai ser um pouco aquela menina. É meu trabalho cuidar de você.

Eduarda parou a poucos centímetros dele. O coração dela batia tão forte que ela tinha certeza de que ele podia ouvir. Ela buscou a mão dele, entrelaçando seus dedos finos nos dele, calejados e marcados por tinta.

— Eu não quero que você cuide de mim como uma criança, Manu. Pelo menos, não hoje.

Emanuel franziu o cenho, a racionalidade tentando processar o tom de voz dela.

— Duda, o que você está dizendo?

— Eu confio em você mais do que em qualquer pessoa no mundo — ela sussurrou, encostando a testa no peito dele, sentindo o calor que emanava de seu corpo. — E eu não quero que seja mais ninguém. Eu quero que seja você. Quero que você tire minha virgindade.

O silêncio que se seguiu foi denso, quase palpável. Emanuel sentiu um choque percorrer sua espinha. Ele tentou se afastar, a mente lógica gritando sobre as complicações, sobre a amizade com os pais dela, sobre a instabilidade de sua relação com Sara. Mas Eduarda se segurou nele, o corpo esguio e macio pressionado contra o dele, os olhos expressivos transbordando uma vulnerabilidade que era, ao mesmo tempo, sua maior força.

— Eduarda, você não sabe o que está pedindo — ele disse, a voz rouca, a firmeza começando a fraquejar. — As coisas mudariam. Eu não conseguiria mais olhar para você da mesma forma.

— É exatamente isso que eu quero — ela insistiu, uma lágrima solitária escorrendo enquanto ela o olhava com uma determinação que ele nunca vira. — Pare de me ver como a protegida. Me veja como mulher. Por favor.

Emanuel perdeu a batalha contra si mesmo naquele momento. Ele a beijou com uma mistura de reverência e posse, e a partir daquela noite, o vínculo entre eles foi selado com algo muito mais profundo do que memórias de infância.

***

Dois anos depois, a realidade era um equilíbrio delicado e, por vezes, exaustivo.

No estúdio central, Sara estava sentada na mesa de vidro da administração, o notebook aberto e um cigarro eletrônico na mão. Ela usava um vestido vermelho justo que gritava confiança. Quando Eduarda entrou, os olhos de Sara se ergueram, analíticos e afiados.

— A princesinha chegou cedo hoje — disse Sara, o tom carregado de uma ironia que já não feria mais como antes. — Emanuel está na sala dos fundos, terminando um fechamento de costas. Ele está de mau humor, só para você saber.

Eduarda sorriu timidamente, ajeitando a alça de sua bolsa de couro claro.

— Obrigada, Sara. Como estão as contas da unidade de Londres?

Sara soltou uma lufada de vapor e deu de ombros, embora houvesse um brilho de satisfação nos olhos.

— Sob controle. Eu sou boa no que faço, Duda. Diferente de certas pessoas, eu não passo o dia olhando para quadros renascentistas.

— Cada um tem sua utilidade — respondeu Eduarda com suavidade, sem entrar na provocação. Ela sabia que Sara precisava reafirmar seu território. Sara era a parceira de negócios, a mulher que morava com ele, a força que batia de frente com Emanuel quando ele ficava autoritário demais.

Eduarda caminhou até a sala de Emanuel. Quando entrou, encontrou-o limpando o equipamento. Ele parecia exausto, os ombros tensos sob a camiseta preta básica.

Ao vê-la, a expressão severa dele relaxou instantaneamente.

— Oi, pequena — ele murmurou, aproximando-se para beijar o topo da cabeça dela e depois seus lábios, com uma doçura que ele raramente demonstrava a outros.

— Você parece cansado, Manu — ela disse, passando as mãos pelos braços tatuados dele, buscando a proximidade física que sempre a acalmava.

— Problemas com a gestão de Berlim. Sara e eu discutimos a manhã toda sobre os fornecedores. Ela é teimosa demais.

— Ela só quer o melhor para os estúdios — Eduarda defendeu baixinho, sendo a mediadora silenciosa que sempre fora.

Emanuel suspirou, segurando o rosto de Eduarda entre as mãos.

— Por falar em teimosia... eu vi um apartamento perto do meu hoje. É menor, mas muito mais seguro do que a rua dos seus pais. Ou, melhor ainda, você podia simplesmente trazer suas coisas para a cobertura. Sara já concordou, embora do jeito torto dela.

Eduarda desviou o olhar, o corpo ficando tenso.

— Meus pais gostam de me ter por perto, Manu. E eu gosto da minha rotina lá. É calmo.

Emanuel sentiu a irritação borbulhar. Ele era um homem que controlava impérios, que decidia o destino de dezenas de funcionários, mas não conseguia convencer a mulher que amava a ficar sob sua proteção total.

— Calmo? Eduarda, você tem vinte anos. Não pode viver em uma redoma para sempre. Eu quero você onde eu possa te ver, onde eu saiba que você está segura.

— Eu estou segura — ela disse, a voz ganhando uma nota de resistência passiva. — Eu só... preciso do meu espaço.

— Seu espaço ou sua dependência daquela casa? — ele retrucou, a voz ficando mais rígida. — Às vezes parece que você ainda tem cinco anos e tem medo de sair do quintal.

Eduarda se encolheu levemente, os olhos enchendo-se de lágrimas. O conflito era algo que ela detestava, e a dureza de Emanuel a atingia como um golpe físico. Ela se afastou um passo, abraçando o próprio corpo.

Nesse momento, Sara apareceu na porta, encostando-se no batente com os braços cruzados. Ela observou a cena — Emanuel exalando tensão e Eduarda prestes a desabar.

— Deixa a menina em paz, Emanuel — disse Sara, a voz firme, sem o sarcasmo habitual. — Ela vem quando estiver pronta. Se você continuar pressionando, ela vai se fechar como uma ostra e você vai ficar aí com essa cara de quem quer socar uma parede.

Emanuel olhou de Sara para Eduarda. A dinâmica entre as duas era fascinante e irritante ao mesmo tempo. Sara não via Eduarda como uma ameaça ao seu posto de "primeira-dama" ou parceira principal; ela via Eduarda como algo precioso que Emanuel, em sua bruteza racional, às vezes não sabia manusear.

— Eu só quero o que é melhor para ela — resmungou Emanuel, embora seus ombros tivessem baixado alguns centímetros.

— Você quer controle — corrigiu Sara, caminhando até eles. Ela parou ao lado de Eduarda e, em um gesto raro de solidariedade feminina, tocou o ombro da mais nova. — E ela quer paz. Aprenda a diferença.

Eduarda olhou para Sara, surpresa com a intervenção. Elas não eram amigas, mas havia aquele entendimento silencioso de anos de convivência. Elas amavam o mesmo homem, um homem difícil, protetor e, às vezes, sufocante.

Emanuel passou a mão pelo rosto, soltando um suspiro longo. Ele se aproximou de Eduarda novamente, puxando-a para um abraço apertado.

— Desculpe. Eu fico estressado e acabo descontando.

Eduarda se aninhou no peito dele, o cheiro de tinta e perfume caro envolvendo seus sentidos.

— Tudo bem — ela sussurrou, a voz manhosa voltando ao normal. — Mas não me peça para mudar hoje.

— Hoje não — ele concordou, embora ambos soubessem que ele pediria novamente amanhã.

Sara observou os dois por um momento antes de dar as costas.

— Vou pedir comida japonesa. E vê se não demora, Emanuel, temos que revisar os contratos de Tóquio antes das seis.

Enquanto Sara saía, seus saltos estalando no chão de cimento queimado, Eduarda permaneceu nos braços de Emanuel. O triângulo que formavam era imperfeito, cheio de arestas e cicatrizes, mas era o único mundo que conheciam. Entre a força bruta de Sara e a delicadeza sensível de Eduarda, Emanuel encontrava seu equilíbrio, e entre o controle dele e a vivacidade de Sara, Eduarda encontrava seu porto seguro.

Eram três histórias entrelaçadas desde o berço, escritas com a tinta indelével do tempo, impossíveis de apagar.
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