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D
Fandom: Nemhum
Criado: 09/06/2026
Tags
RomanceDramaFatias de VidaFofuraHumorHistória DomésticaEstudo de PersonagemPsicológicoNoir GóticoRealismo MágicoHorrorCiúmesAngústiaDor/ConfortoRealismo
Sombras e Manhas
O silêncio no loft de luxo de Emanuel era raro, especialmente com três crianças correndo pelos corredores de mármore, mas a tensão que pairava no ar naquela manhã de terça-feira era densa o suficiente para ser cortada com uma das agulhas de tatuagem dele. Emanuel estava sentado à mesa de jantar, um tablet aberto com os relatórios financeiros de seu estúdio em Tóquio, mas seus olhos cinzentos e cansados não focavam nos números. Eles estavam fixos em Eduarda.
Eduarda, com seus vinte e dois anos e aquela aura de doçura que parecia sempre pedir por um abraço, estava encolhida na cadeira em frente a ele. Ela usava um cardigã bege claro que parecia grande demais para seu corpo esguio, e seus dedos longos brincavam nervosamente com a alça de sua bolsa de couro.
— Eu já disse que não, Duda — a voz de Emanuel soou grave, carregada daquela autoridade prática que ele usava para gerir seu império de tatuagens, mas que raramente funcionava bem em casa. — Uma noite inteira em um cemitério? Isso não faz o menor sentido. É perigoso, é mórbido e, francamente, é ridículo para uma curadora de arte.
Eduarda fungou discretamente, seus olhos castanhos começando a brilhar com as lágrimas que ela sempre tinha prontas para usar quando se sentia acuada.
— Não é só um cemitério, Manu... — ela começou, a voz baixa e manhosa, quase um sussurro. — É o Cemitério da Consolação. A galeria passou meses organizando essa exposição noturna de esculturas tumulares. É história da arte pura. Eu sou uma das curadoras, eu preciso estar lá para garantir que as peças não sejam danificadas e para receber os convidados da prefeitura.
— Você pode fazer isso durante o dia — ele rebateu, fechando o tablet com um estalo seco que fez Eduarda se encolher. — Eu não quero você lá fora à noite, sozinha, cercada de... sei lá o que.
— Eu não vou estar sozinha! — Eduarda se inclinou para frente, buscando a mão dele sobre a mesa, o toque suave tentando quebrar a rigidez de Emanuel. — Tem segurança, tem uma área de descanso montada com todo o conforto. É um evento de elite.
Nesse momento, o som de saltos altos ecoou pelo corredor, anunciando a chegada de Sara. A loira entrou na sala como um furacão de confiança e perfume caro. Usando um vestido vermelho justo que realçava cada curva de seu corpo esculpido e siliconado, ela carregava Ágata no colo, embora a menina de quatro anos já estivesse bem grandinha para isso. Ágata, uma cópia fiel da mãe com seus cabelos loiros perfeitamente escovados e um olhar de desdém que não combinava com sua idade, segurava uma boneca de porcelana como se fosse um cetro.
— Ainda discutindo sobre o acampamento gótico da Duda? — Sara perguntou, soltando Ágata no chão e indo direto para a cafeteira. Ela deu um sorriso irônico para Emanuel e um aceno de cabeça quase simpático para Eduarda. — Sinceramente, Emanuel, deixe a menina ir. Se ela quer ver defunto, o problema é dela. Menos uma para você se preocupar por uma noite.
— Não ajuda, Sara — Emanuel rosnou, massageando as têmporas.
— Eu só estou sendo prática — Sara deu de ombros, tomando um gole de café preto. — Eu cuido da administração, eu sei o que é ter compromisso. Se a faculdade ou a galeria dela exige isso, ela tem que ir. Mas, claro, a Eduarda é tão... — ela fez um gesto vago com a mão — ... delicada. Capaz de ver um fantasma e desmaiar.
— Eu não vou desmaiar! — Eduarda protestou, as bochechas corando.
— Mamãe, eu quero ir no cemitério com a tia Duda — Maya apareceu de trás da porta, arrastando seu cobertor azul favorito. A menina era a imagem de Eduarda: tímida, de fala mansa e com os mesmos olhos expressivos. Ela caminhou até a mãe e abraçou suas pernas. — A senhora disse que tem anjos de pedra lá. Eu quero ver os anjos.
— Nem pensar — Emanuel interveio imediatamente. — Ninguém vai para cemitério nenhum.
— Eu também vou! — Um grito animado veio do corredor, seguido pelo som de passos pesados e rápidos. Arthur, de apenas dois anos, entrou na sala como um pequeno furacão. Ele estava com as mãos sujas de canetinha, tendo tentado imitar as tatuagens que cobriam os braços do pai. — Papai, olha! Eu fiz um dragão!
Arthur correu direto para Emanuel, escalando suas pernas com uma agilidade impressionante. Emanuel, apesar do estresse, não conseguiu evitar que o rosto suavizasse ao pegar o filho no colo. Arthur era seu ponto fraco, o menino que tinha sua energia indomável e sua teimosia.
— Arthur, desce daí, você vai sujar a camisa do seu pai — Sara repreendeu, embora sem muita convicção. Ela achava a energia de Arthur exaustiva, preferindo a postura de "mini diva" de Ágata, que agora estava sentada no sofá, ignorando os irmãos enquanto mexia em um tablet de brinquedo.
— Deixa, Sara — Emanuel murmurou, sentindo Arthur puxar sua barba. — Mas ele não vai para exposição nenhuma também.
— Mas Manu... — Eduarda se levantou, caminhando até ele com Maya ainda grudada em sua perna. Ela colocou a mão no ombro de Emanuel, inclinando a cabeça de um jeito que ela sabia que o desarmava. — As crianças querem ir. A Maya é tão tranquila, ela vai adorar ver as esculturas. E o Arthur... bem, o Arthur só sossega se eu estiver por perto.
— O Arthur só sossega se estiver no seu peito, Eduarda — Sara comentou com uma risada maliciosa, cruzando as pernas e exibindo as unhas perfeitamente feitas. — E boa sorte tentando amamentar um menino de dois anos no meio de um cemitério com fotógrafos em volta. Que cena pitoresca.
Eduarda ficou vermelha como um tomate, escondendo o rosto no ombro de Emanuel.
— Não seja vulgar, Sara — Emanuel disse, embora não houvesse real raiva em sua voz. Ele estava acostumado com o jeito dela. — O problema não é esse. O problema é que eu não gosto da ideia. Uma semana, Eduarda. Estamos brigando por isso há uma semana.
— Porque você está sendo teimoso! — Eduarda exclamou, sua voz subindo um tom, o que era raro. — Você viaja o mundo para abrir estúdios, você fica semanas fora cuidando dos seus negócios e eu nunca digo não. Por que eu não posso ter essa noite para a minha carreira?
Emanuel suspirou, sentindo o peso da responsabilidade. Ele amava as duas, de formas completamente diferentes. Sara era sua parceira de negócios, a mulher que desafiava seu intelecto e dividia com ele a ambição e a criação de Ágata. Eduarda era seu porto seguro, a doçura que o acalmava depois de um dia de caos, a mãe de seus filhos mais novos que trazia uma leveza que ele nem sabia que precisava. Perder o controle sobre a segurança de Eduarda o deixava ansioso.
— É perigoso — ele repetiu, mas a voz já não tinha a mesma firmeza.
— Eu vou estar lá — Sara disse subitamente, surpreendendo a todos. Ela deixou a xícara de lado e se levantou. — Eu levo a Ágata, a gente faz uma aparição, eu garanto que a imprensa veja que os estúdios do Emanuel apoiam as artes e, de quebra, eu fico de olho na "Dudinha" para que nenhum vampiro a leve.
Eduarda olhou para Sara, surpresa. Elas não eram amigas; a convivência era um equilíbrio frágil mantido por Emanuel. Sara a via como uma menina protegida, e Eduarda via Sara como uma força da natureza que a intimidava. Mas, naquele momento, houve um lampejo de solidariedade feminina.
— Você faria isso? — Eduarda perguntou, esperançosa.
— Claro. Eu adoro um drama noturno. E a Ágata precisa aprender a ser vista em eventos culturais desde cedo, não é, meu amor? — Sara chamou a filha, que apenas assentiu com a cabeça, sem tirar os olhos do tablet.
Emanuel olhou para as duas. Eduarda, manhosa e suplicante; Sara, confiante e desafiadora. Seus três filhos ao redor, cada um refletindo uma parte dele e delas.
— Se a Sara for... — Emanuel começou, sentindo a derrota se aproximar.
— Eu vou! — Arthur gritou, pulando no colo do pai. — Ver o anjo!
— Arthur, você vai ficar com o papai — Emanuel tentou, mas o menino já estava começando a fazer bico, pronto para abrir o berreiro.
— Ele não vai ficar, Manu — Eduarda disse suavemente, pegando o filho do colo de Emanuel. Arthur imediatamente se aconchegou no colo da mãe, procurando o calor dela. — Ele precisa de mim. E eu preciso disso. Por favor.
Emanuel olhou para a cena: Eduarda com Arthur nos braços e Maya agarrada à sua saia; Sara em pé ao lado, com um sorriso de canto, já planejando mentalmente o figurino que usaria para ofuscar as estátuas do cemitério. Ele era um homem que controlava milhões, que comandava artistas e gerenciava crises internacionais, mas ali, naquela sala, ele percebeu que não tinha poder algum contra as mulheres de sua vida.
— Tudo bem — ele cedeu, jogando as mãos para cima. — Mas eu vou junto.
— O quê? — Sara e Eduarda perguntaram em coro.
— Eu não vou deixar minhas duas mulheres e meus três filhos em um cemitério à noite sozinhos. Se é para ser um evento de família bizarro, que seja completo. Eu vou, levo os seguranças, e ficamos todos na área de descanso enquanto a Eduarda faz o trabalho dela.
Eduarda abriu um sorriso radiante, o tipo de sorriso que fazia Emanuel sentir que qualquer estresse valia a pena. Ela se aproximou e deu um beijo casto em sua bochecha.
— Obrigada, Manu! Você vai ver, vai ser lindo.
— Vai ser um tédio — Sara corrigiu, caminhando em direção ao quarto para escolher as roupas. — Mas pelo menos as fotos vão ficar ótimas. Ágata, venha, precisamos escolher seu vestido preto de veludo. Se vamos a um cemitério, vamos com estilo.
Maya deu pulinhos de alegria, e Arthur começou a imitar o som de um fantasma, fazendo todos rirem, apesar da tensão residual.
Emanuel ficou parado no centro da sala, observando o caos organizado de sua vida. Ele ainda achava a ideia péssima. Ele ainda estava irritado por ter perdido a discussão. Mas, ao ver Eduarda tão animada e Sara já assumindo o comando da logística, ele sentiu uma estranha onda de satisfação.
— Eu preciso de um uísque — ele murmurou para si mesmo, embora fosse apenas dez da manhã.
— Papai! — Arthur gritou, puxando a calça de Emanuel. — Você tatua um anjo em mim?
— Nem pensar, garoto. Vá brincar com suas canetinhas.
A semana de brigas tinha acabado, dando lugar a uma nova organização. Emanuel sabia que a noite no cemitério seria longa, cheia de manhas de Eduarda, provocações de Sara e a energia inesgotável das crianças. Mas, enquanto olhava para Eduarda ajudando Maya a escolher um livro sobre anjos, ele percebeu que, por mais que tentasse ser o homem racional e prático, seu coração pertencia inteiramente àquela desordem amorosa que ele chamava de família.
No fim das contas, o tatuador durão não era páreo para a curadora sensível e a administradora implacável. E, no fundo, ele não queria que fosse de outra forma.
— Eduarda? — ele chamou, antes que ela saísse da sala.
Ela parou e olhou para trás, a expressão doce e atenta.
— Sim, Manu?
— Se você ver um fantasma... tente não desmaiar em cima de uma obra de arte. Eu não quero pagar a restauração.
Eduarda soltou uma risada cristalina, um som que preencheu o loft e dissipou os últimos restos de estresse de Emanuel.
— Pode deixar, meu amor. Eu prometo ser valente.
Emanuel sorriu de volta, um sorriso raro e verdadeiro. Ele sabia que, com Sara ao lado dela e ele vigiando as sombras, Eduarda poderia ser o que quisesse. E ele estaria lá para garantir que, no final da noite, todos voltassem para casa sãos e salvos, para o seu caos particular e perfeito.
Eduarda, com seus vinte e dois anos e aquela aura de doçura que parecia sempre pedir por um abraço, estava encolhida na cadeira em frente a ele. Ela usava um cardigã bege claro que parecia grande demais para seu corpo esguio, e seus dedos longos brincavam nervosamente com a alça de sua bolsa de couro.
— Eu já disse que não, Duda — a voz de Emanuel soou grave, carregada daquela autoridade prática que ele usava para gerir seu império de tatuagens, mas que raramente funcionava bem em casa. — Uma noite inteira em um cemitério? Isso não faz o menor sentido. É perigoso, é mórbido e, francamente, é ridículo para uma curadora de arte.
Eduarda fungou discretamente, seus olhos castanhos começando a brilhar com as lágrimas que ela sempre tinha prontas para usar quando se sentia acuada.
— Não é só um cemitério, Manu... — ela começou, a voz baixa e manhosa, quase um sussurro. — É o Cemitério da Consolação. A galeria passou meses organizando essa exposição noturna de esculturas tumulares. É história da arte pura. Eu sou uma das curadoras, eu preciso estar lá para garantir que as peças não sejam danificadas e para receber os convidados da prefeitura.
— Você pode fazer isso durante o dia — ele rebateu, fechando o tablet com um estalo seco que fez Eduarda se encolher. — Eu não quero você lá fora à noite, sozinha, cercada de... sei lá o que.
— Eu não vou estar sozinha! — Eduarda se inclinou para frente, buscando a mão dele sobre a mesa, o toque suave tentando quebrar a rigidez de Emanuel. — Tem segurança, tem uma área de descanso montada com todo o conforto. É um evento de elite.
Nesse momento, o som de saltos altos ecoou pelo corredor, anunciando a chegada de Sara. A loira entrou na sala como um furacão de confiança e perfume caro. Usando um vestido vermelho justo que realçava cada curva de seu corpo esculpido e siliconado, ela carregava Ágata no colo, embora a menina de quatro anos já estivesse bem grandinha para isso. Ágata, uma cópia fiel da mãe com seus cabelos loiros perfeitamente escovados e um olhar de desdém que não combinava com sua idade, segurava uma boneca de porcelana como se fosse um cetro.
— Ainda discutindo sobre o acampamento gótico da Duda? — Sara perguntou, soltando Ágata no chão e indo direto para a cafeteira. Ela deu um sorriso irônico para Emanuel e um aceno de cabeça quase simpático para Eduarda. — Sinceramente, Emanuel, deixe a menina ir. Se ela quer ver defunto, o problema é dela. Menos uma para você se preocupar por uma noite.
— Não ajuda, Sara — Emanuel rosnou, massageando as têmporas.
— Eu só estou sendo prática — Sara deu de ombros, tomando um gole de café preto. — Eu cuido da administração, eu sei o que é ter compromisso. Se a faculdade ou a galeria dela exige isso, ela tem que ir. Mas, claro, a Eduarda é tão... — ela fez um gesto vago com a mão — ... delicada. Capaz de ver um fantasma e desmaiar.
— Eu não vou desmaiar! — Eduarda protestou, as bochechas corando.
— Mamãe, eu quero ir no cemitério com a tia Duda — Maya apareceu de trás da porta, arrastando seu cobertor azul favorito. A menina era a imagem de Eduarda: tímida, de fala mansa e com os mesmos olhos expressivos. Ela caminhou até a mãe e abraçou suas pernas. — A senhora disse que tem anjos de pedra lá. Eu quero ver os anjos.
— Nem pensar — Emanuel interveio imediatamente. — Ninguém vai para cemitério nenhum.
— Eu também vou! — Um grito animado veio do corredor, seguido pelo som de passos pesados e rápidos. Arthur, de apenas dois anos, entrou na sala como um pequeno furacão. Ele estava com as mãos sujas de canetinha, tendo tentado imitar as tatuagens que cobriam os braços do pai. — Papai, olha! Eu fiz um dragão!
Arthur correu direto para Emanuel, escalando suas pernas com uma agilidade impressionante. Emanuel, apesar do estresse, não conseguiu evitar que o rosto suavizasse ao pegar o filho no colo. Arthur era seu ponto fraco, o menino que tinha sua energia indomável e sua teimosia.
— Arthur, desce daí, você vai sujar a camisa do seu pai — Sara repreendeu, embora sem muita convicção. Ela achava a energia de Arthur exaustiva, preferindo a postura de "mini diva" de Ágata, que agora estava sentada no sofá, ignorando os irmãos enquanto mexia em um tablet de brinquedo.
— Deixa, Sara — Emanuel murmurou, sentindo Arthur puxar sua barba. — Mas ele não vai para exposição nenhuma também.
— Mas Manu... — Eduarda se levantou, caminhando até ele com Maya ainda grudada em sua perna. Ela colocou a mão no ombro de Emanuel, inclinando a cabeça de um jeito que ela sabia que o desarmava. — As crianças querem ir. A Maya é tão tranquila, ela vai adorar ver as esculturas. E o Arthur... bem, o Arthur só sossega se eu estiver por perto.
— O Arthur só sossega se estiver no seu peito, Eduarda — Sara comentou com uma risada maliciosa, cruzando as pernas e exibindo as unhas perfeitamente feitas. — E boa sorte tentando amamentar um menino de dois anos no meio de um cemitério com fotógrafos em volta. Que cena pitoresca.
Eduarda ficou vermelha como um tomate, escondendo o rosto no ombro de Emanuel.
— Não seja vulgar, Sara — Emanuel disse, embora não houvesse real raiva em sua voz. Ele estava acostumado com o jeito dela. — O problema não é esse. O problema é que eu não gosto da ideia. Uma semana, Eduarda. Estamos brigando por isso há uma semana.
— Porque você está sendo teimoso! — Eduarda exclamou, sua voz subindo um tom, o que era raro. — Você viaja o mundo para abrir estúdios, você fica semanas fora cuidando dos seus negócios e eu nunca digo não. Por que eu não posso ter essa noite para a minha carreira?
Emanuel suspirou, sentindo o peso da responsabilidade. Ele amava as duas, de formas completamente diferentes. Sara era sua parceira de negócios, a mulher que desafiava seu intelecto e dividia com ele a ambição e a criação de Ágata. Eduarda era seu porto seguro, a doçura que o acalmava depois de um dia de caos, a mãe de seus filhos mais novos que trazia uma leveza que ele nem sabia que precisava. Perder o controle sobre a segurança de Eduarda o deixava ansioso.
— É perigoso — ele repetiu, mas a voz já não tinha a mesma firmeza.
— Eu vou estar lá — Sara disse subitamente, surpreendendo a todos. Ela deixou a xícara de lado e se levantou. — Eu levo a Ágata, a gente faz uma aparição, eu garanto que a imprensa veja que os estúdios do Emanuel apoiam as artes e, de quebra, eu fico de olho na "Dudinha" para que nenhum vampiro a leve.
Eduarda olhou para Sara, surpresa. Elas não eram amigas; a convivência era um equilíbrio frágil mantido por Emanuel. Sara a via como uma menina protegida, e Eduarda via Sara como uma força da natureza que a intimidava. Mas, naquele momento, houve um lampejo de solidariedade feminina.
— Você faria isso? — Eduarda perguntou, esperançosa.
— Claro. Eu adoro um drama noturno. E a Ágata precisa aprender a ser vista em eventos culturais desde cedo, não é, meu amor? — Sara chamou a filha, que apenas assentiu com a cabeça, sem tirar os olhos do tablet.
Emanuel olhou para as duas. Eduarda, manhosa e suplicante; Sara, confiante e desafiadora. Seus três filhos ao redor, cada um refletindo uma parte dele e delas.
— Se a Sara for... — Emanuel começou, sentindo a derrota se aproximar.
— Eu vou! — Arthur gritou, pulando no colo do pai. — Ver o anjo!
— Arthur, você vai ficar com o papai — Emanuel tentou, mas o menino já estava começando a fazer bico, pronto para abrir o berreiro.
— Ele não vai ficar, Manu — Eduarda disse suavemente, pegando o filho do colo de Emanuel. Arthur imediatamente se aconchegou no colo da mãe, procurando o calor dela. — Ele precisa de mim. E eu preciso disso. Por favor.
Emanuel olhou para a cena: Eduarda com Arthur nos braços e Maya agarrada à sua saia; Sara em pé ao lado, com um sorriso de canto, já planejando mentalmente o figurino que usaria para ofuscar as estátuas do cemitério. Ele era um homem que controlava milhões, que comandava artistas e gerenciava crises internacionais, mas ali, naquela sala, ele percebeu que não tinha poder algum contra as mulheres de sua vida.
— Tudo bem — ele cedeu, jogando as mãos para cima. — Mas eu vou junto.
— O quê? — Sara e Eduarda perguntaram em coro.
— Eu não vou deixar minhas duas mulheres e meus três filhos em um cemitério à noite sozinhos. Se é para ser um evento de família bizarro, que seja completo. Eu vou, levo os seguranças, e ficamos todos na área de descanso enquanto a Eduarda faz o trabalho dela.
Eduarda abriu um sorriso radiante, o tipo de sorriso que fazia Emanuel sentir que qualquer estresse valia a pena. Ela se aproximou e deu um beijo casto em sua bochecha.
— Obrigada, Manu! Você vai ver, vai ser lindo.
— Vai ser um tédio — Sara corrigiu, caminhando em direção ao quarto para escolher as roupas. — Mas pelo menos as fotos vão ficar ótimas. Ágata, venha, precisamos escolher seu vestido preto de veludo. Se vamos a um cemitério, vamos com estilo.
Maya deu pulinhos de alegria, e Arthur começou a imitar o som de um fantasma, fazendo todos rirem, apesar da tensão residual.
Emanuel ficou parado no centro da sala, observando o caos organizado de sua vida. Ele ainda achava a ideia péssima. Ele ainda estava irritado por ter perdido a discussão. Mas, ao ver Eduarda tão animada e Sara já assumindo o comando da logística, ele sentiu uma estranha onda de satisfação.
— Eu preciso de um uísque — ele murmurou para si mesmo, embora fosse apenas dez da manhã.
— Papai! — Arthur gritou, puxando a calça de Emanuel. — Você tatua um anjo em mim?
— Nem pensar, garoto. Vá brincar com suas canetinhas.
A semana de brigas tinha acabado, dando lugar a uma nova organização. Emanuel sabia que a noite no cemitério seria longa, cheia de manhas de Eduarda, provocações de Sara e a energia inesgotável das crianças. Mas, enquanto olhava para Eduarda ajudando Maya a escolher um livro sobre anjos, ele percebeu que, por mais que tentasse ser o homem racional e prático, seu coração pertencia inteiramente àquela desordem amorosa que ele chamava de família.
No fim das contas, o tatuador durão não era páreo para a curadora sensível e a administradora implacável. E, no fundo, ele não queria que fosse de outra forma.
— Eduarda? — ele chamou, antes que ela saísse da sala.
Ela parou e olhou para trás, a expressão doce e atenta.
— Sim, Manu?
— Se você ver um fantasma... tente não desmaiar em cima de uma obra de arte. Eu não quero pagar a restauração.
Eduarda soltou uma risada cristalina, um som que preencheu o loft e dissipou os últimos restos de estresse de Emanuel.
— Pode deixar, meu amor. Eu prometo ser valente.
Emanuel sorriu de volta, um sorriso raro e verdadeiro. Ele sabia que, com Sara ao lado dela e ele vigiando as sombras, Eduarda poderia ser o que quisesse. E ele estaria lá para garantir que, no final da noite, todos voltassem para casa sãos e salvos, para o seu caos particular e perfeito.
