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Meu destino do outro lado do mundo

Fandom: Não

Criado: 09/06/2026

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RomanceDramaFatias de VidaAventuraRealismoEstudo de PersonagemFofuraDor/ConfortoCenário Canônico
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Nas Asas de um Sonho Carioca

Aylen Victoria sempre soube que as fronteiras da Zona Norte do Rio de Janeiro eram pequenas demais para o tamanho dos seus sonhos. Enquanto o sol de fim de tarde dourava as ruas do Méier, ela se encontrava sentada na beira da cama, o notebook apoiado nos joelhos e o coração batendo em um ritmo frenético que não tinha nada a ver com o samba que ecoava de algum vizinho distante.

Com 19 anos e uma determinação que parecia herança direta de suas ancestrais, Aylen era o retrato da resiliência. Seus cabelos black power, volumosos e imponentes, eram sua coroa; sua pele negra, o mapa de sua história. Mas, naquele momento, seus olhos castanhos estavam fixos em apenas uma coisa: a caixa de entrada do seu e-mail.

Ela havia passado meses debruçada sobre livros de mandarim, estudando geopolítica até os olhos arderem e preenchendo formulários que pareciam não ter fim. O curso de Relações Internacionais era sua paixão, e a oportunidade de uma bolsa integral em uma das universidades mais prestigiadas da China era o bilhete dourado que ela tanto almejava.

— Por favor, por favor... — sussurrou para o quarto vazio, os dedos cruzados sobre o teclado.

Um clique. A página atualizou.

"Admissions Office - Beijing University of International Relations: Selection Result".

O ar fugiu de seus pulmões por um segundo. Com as mãos trêmulas, ela abriu a mensagem. Seus olhos percorreram as linhas em inglês rapidamente, buscando as palavras-chave. *Congratulations... Scholarship... Accepted.*

— AI MEU DEUS! — O grito saiu rasgando sua garganta antes que ela pudesse processar. — EU CONSEGUI! MÃE! MÃE, VEM AQUI AGORA!

Aylen saltou da cama, quase derrubando o computador. Ela começou a pular, o corpo curvilíneo e atlético movendo-se com uma energia que parecia elétrica. Em segundos, passos apressados foram ouvidos no corredor. Dona Sueli, com as mãos ainda úmidas do serviço de casa, abriu a porta com o rosto transbordando preocupação.

— O que foi, menina? Aconteceu alguma coisa? Alguém se machucou?

— Mãe! — Aylen correu e envolveu a mãe em um abraço esmagador, tirando a mulher mais baixa do chão por um instante. — Eu passei! Eu vou para a China! A bolsa é minha, mãe!

Dona Sueli parou por um momento, o choque inicial sendo substituído por uma onda de emoção que fez seus olhos brilharem. Ela segurou o rosto da filha com as duas mãos, olhando para aquela jovem que ela mesma criara com tanto suor e orgulho.

— Você tem certeza, minha filha? A China? Do outro lado do mundo?

— Tenho, mãe! — Aylen ria e chorava ao mesmo tempo. — Tá aqui no e-mail. Eles aceitaram tudo. Eu vou estudar lá com tudo pago. É a minha chance de mudar tudo, de conhecer o mundo, de ser quem eu sempre sonhei!

— Minha pretinha... — Sueli a abraçou de novo, desta vez chorando abertamente. — Eu sempre soube que esse lugar aqui ia ficar pequeno para você. Você voa alto, Aylen. Voa muito alto.

A notícia se espalhou como pólvora. Naquela mesma noite, a pequena casa na Zona Norte transformou-se no epicentro de uma celebração que só uma família brasileira sabe fazer. Tias, primos, vizinhos e amigos próximos lotaram a sala e o quintal. O cheiro de churrasco e feijão tropeiro pairava no ar, misturando-se ao som de risadas e música.

Aylen usava um vestido azul-escuro, sua cor favorita, que destacava perfeitamente o tom de sua pele. Ela circulava entre os convidados, recebendo abraços apertados e conselhos de todos os tipos.

— Mas lá eles comem escorpião, Aylen! — brincou o primo mais novo, fazendo careta. — Vê se não volta falando estranho!

— Deixa de ser bobo, garoto — rebateu a tia, dando um tapa leve no ombro do menino. — Nossa Aylen vai ser diplomata. Vai sentar em mesa com gente importante e mostrar a força da mulher brasileira.

— Eu vou sentir tanta saudade de vocês — disse Aylen, sentando-se em um banco no quintal enquanto observava a alegria ao seu redor. — Às vezes dá um medo... O Rio é barulhento, é confuso, mas é minha casa.

Dona Sueli, que se aproximava com um copo de suco, sentou-se ao lado dela.

— O medo faz parte do caminho de quem é corajoso, filha. Se não desse medo, não teria graça. Você leva o Rio no seu sangue e a nossa força no seu coração. A China vai ter sorte de ter você por lá.

As semanas seguintes foram um borrão de preparativos. Aylen nunca tinha saído do estado, quanto mais do país. As idas ao shopping para comprar malas resistentes tornaram-se expedições épicas. Ela escolheu malas grandes, de um azul-escuro profundo, que pudessem carregar não apenas suas roupas, mas também os pedaços de casa que ela não queria deixar para trás: fotos, temperos escondidos e sua bandeira do Brasil.

O dia da partida chegou com um céu cinzento no Aeroporto do Galeão, como se o Rio de Janeiro também estivesse triste por vê-la partir. O saguão estava lotado. Aylen sentia o peso da mochila nas costas e o frio na barriga que parecia não querer ir embora.

— Promete que vai ligar todo dia? — perguntou Sueli, segurando as mãos da filha com força.

— Vou tentar, mãe. Por causa do fuso horário vai ser difícil, mas eu dou um jeito. — Aylen engoliu o seco, tentando manter a compostura. — Eu amo vocês.

— Nós também te amamos, Victoria. Vai lá e conquista aquele lugar.

Quando o avião decolou, Aylen olhou pela janela e viu a orla e as comunidades diminuírem até se tornarem apenas luzes cintilantes. Ela estava indo para o desconhecido.

A viagem foi exaustiva. Foram mais de vinte e quatro horas entre escalas e voos intermináveis. Quando finalmente desembarcou em Pequim, o impacto foi imediato. O ar era diferente, o som das vozes ao redor era uma melodia incompreensível e os letreiros em neon brilhavam em ideogramas que ela ainda estava aprendendo a decifrar.

Ela se sentia pequena. Com seus 1,58 m de altura, no meio da multidão frenética do aeroporto, Aylen apertou a alça da mala. O cansaço pesava, mas a determinação falava mais alto.

Após um trajeto de táxi que a deixou maravilhada com a arquitetura futurista da cidade, ela finalmente chegou ao campus da universidade. Era imenso. Prédios modernos se misturavam a jardins tradicionais chineses.

No dormitório internacional, o coração de Aylen disparou novamente quando ela parou em frente à porta do quarto 402. Ela respirou fundo e girou a chave.

Lá dentro, uma garota de pele muito clara e cabelos pretos longos estava organizando tecidos sobre uma das escrivaninhas. Ela usava um look que parecia saído de uma revista de moda de vanguarda. Ao ouvir a porta, a garota se virou, revelando olhos grandes e expressivos.

— Oh! — exclamou a garota, com um sorriso que iluminou o ambiente. — Você deve ser a minha colega de quarto brasileira! Eu sou Su Yiran.

— Oi! — Aylen sorriu de volta, sentindo um alívio imediato. — Sim, eu sou a Aylen. Aylen Victoria.

— Que nome lindo! — Su Yiran aproximou-se, analisando Aylen com um olhar curioso e admirado. — E seu cabelo é incrível! Eu faço Moda, então você vai ter que me desculpar se eu ficar sugerindo acessórios para você o tempo todo.

As duas conversaram por horas. Yiran era vibrante e independente, o tipo de pessoa que não tinha medo de dizer o que pensava. Ela explicou a Aylen as regras do dormitório e prometeu ajudá-la a não se perder no campus gigantesco no dia seguinte.

Na manhã seguinte, o campus fervilhava. Era o primeiro dia oficial de aulas. Aylen, vestindo uma calça jeans confortável e uma blusa azul-escuro, tentava se localizar com um mapa digital no celular.

— Prédio B... Ala de Ciências Sociais... — murmurava ela, girando em torno de si mesma perto de uma fonte de mármore. — Eu acho que estou no lugar errado.

— Você parece um pouco perdida — disse uma voz calma e profunda logo atrás dela.

Aylen se virou rapidamente. Diante dela estava um rapaz muito alto — ela teve que inclinar a cabeça consideravelmente para encará-lo. Ele tinha ombros largos, um rosto de traços harmoniosos e usava óculos de armação fina que lhe davam um ar intelectual e sério. Ele segurava alguns livros contra o peito e a observava com uma expressão neutra, mas não rude.

— Eu... eu estou procurando o auditório de Relações Internacionais — explicou Aylen, sentindo sua timidez aflorar diante da presença imponente do rapaz.

— É o meu curso — respondeu ele, ajustando os óculos. — Eu estou indo para lá agora. Pode me seguir, se quiser. Meu nome é Shen Yuze.

— Obrigada, Shen Yuze. Eu sou Aylen. Sou nova aqui, vim do Brasil.

Yuze assentiu levemente, começando a caminhar com passos longos que Aylen tinha dificuldade em acompanhar.

— O Brasil é longe — comentou ele, mantendo o olhar fixo à frente. — É preciso muita coragem para vir de tão longe sozinha.

— Eu sempre quis conhecer o mundo — disse ela, ganhando um pouco de confiança. — E você? Por que escolheu Relações Internacionais?

Yuze hesitou por uma fração de segundo. O conflito entre o que sua família de médicos esperava e o que seu coração desejava era uma ferida aberta, mas ele não costumava compartilhar isso com estranhos.

— É uma área importante — limitou-se a dizer.

Eles entraram no prédio principal e, antes que pudessem continuar a conversa, um vulto passou correndo e envolveu os ombros de Yuze em um abraço lateral brusco.

— Yuze! Meu irmão! Você não vai acreditar na festa que vai ter na sexta-feira! — O recém-chegado era quase tão alto quanto Yuze, mas exalava uma energia completamente oposta. Ele tinha um estilo despojado, jaqueta escura e um sorriso travesso que parecia capaz de convencer qualquer um a cometer uma loucura.

— Han Yichen, comporte-se — repreendeu Yuze, embora houvesse um traço de afeição em sua voz. — Temos uma convidada.

Han Yichen parou e finalmente notou Aylen. Seus olhos brilharam com curiosidade e ele abriu um sorriso ainda maior.

— Ora, ora! Yuze, você não me disse que tínhamos belezas internacionais chegando ao campus! Prazer, eu sou Han Yichen, o cara que vai garantir que você não morra de tédio estudando com esse robô aqui.

Aylen deu uma risadinha, sentindo a tensão do primeiro dia se dissipar.

— Sou a Aylen. E acho que vou precisar de toda a ajuda possível.

— Pode contar comigo, Aylen! — Yichen piscou para ela.

Nesse momento, Su Yiran apareceu caminhando pelo corredor, parando abruptamente ao ver o grupo. Seus olhos se cruzaram com os de Han Yichen por um segundo longo demais antes de ela desviar o olhar, recuperando sua postura altiva.

— Aylen! — chamou Yiran, aproximando-se. — Eu esqueci de te dizer onde era a cafeteria melhorzinha, mas vejo que já encontrou os "famosos" do campus.

— Você nos conhece, Yiran? — perguntou Yichen, o tom de voz mudando para algo mais suave e provocador.

— Infelizmente sua reputação te precede, Han Yichen — respondeu ela, cruzando os braços. — Vamos, Aylen? A aula vai começar.

Aylen olhou para os três: a elegância rebelde de Yiran, a energia contagiante de Yichen e a seriedade misteriosa de Yuze. Ela sentiu, naquele momento, que sua jornada na China seria muito mais do que apenas livros e diplomas.

— Vejo vocês depois? — perguntou Aylen, olhando especialmente para Yuze.

Ele a encarou por trás das lentes dos óculos, e por um breve momento, a frieza de sua expressão vacilou, dando lugar a um brilho de interesse que ele mesmo ainda não compreendia.

— Sim — respondeu Yuze. — Até logo, Aylen Victoria.

Enquanto caminhava para a sala de aula ao lado de Yiran, Aylen sorriu para si mesma. O Rio de Janeiro estava a milhares de quilômetros de distância, mas ali, sob o sol de Pequim, ela sentia que estava exatamente onde deveria estar. O mundo era grande, mas ela não tinha mais medo de caminhar por ele.
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