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O silêncio

Fandom: Spy family

Criado: 09/06/2026

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O Ruído do Silêncio

Aos quatorze anos, Anya Forger já deveria estar acostumada com o caos. Viver em uma família onde o pai era um espião mestre e a mãe uma assassina de elite — embora eles ainda achassem que ela não sabia — exigia um certo nível de resiliência mental. Mas naquela manhã de terça-feira, o mundo parecia estar sintonizado em uma frequência dolorosa.

O céu de Berlint exibia um fenômeno astronômico raro, uma conjunção de astros que os cientistas chamavam de "O Alinhamento de Cristal". Para a população comum, era apenas um belo espetáculo visual; para o Projeto 007, era uma maldição. Desde que acordara, Anya sentia seus poderes de telepatia latejando como uma ferida aberta.

No pátio do Colégio Eden, o som das vozes dos alunos era um zumbido suportável, mas o eco de seus pensamentos era como agulhas perfurando seus tímpanos.

— Você está mais lenta do que o normal hoje, Pernas Curtas. O que foi? O peso dessa sua cabeça gigante está te puxando para o chão?

A voz de Damian Desmond era carregada daquela arrogância familiar que Anya conhecia bem. Ele crescera, tornara-se mais alto e seus traços eram mais definidos, mas a capacidade de irritá-la permanecia intacta.

— Cala a boca, Filho do Segundo Filho — Anya rebateu, apertando as têmporas. — Sua voz é como um despertador quebrado. Ninguém quer ouvir.

— Como é que é? — Damian deu um passo à frente, as bochechas levemente coradas. — Eu sou um Imperial Scholar, você deveria me tratar com mais respeito!

Anya ia responder com uma careta clássica, mas o sinal para o recreio tocou. O som metálico pareceu uma explosão dentro de seu crânio. E então, o dique rompeu.

Centenas de alunos saíram das salas ao mesmo tempo. Normalmente, Anya conseguia filtrar a "multidão", focando apenas no que estava à sua frente. Mas hoje, os astros haviam escancarado as portas de sua mente.

*“Esqueci meu lanche...” “Preciso tirar nota máxima em história...” “Será que o Desmond vai me notar?” “Odeio essa gravata...” “Minha mãe vai me matar se eu não conseguir a Estrela Stella...”*

— Anya? — Damian franziu o cenho, sua postura defensiva vacilando ao ver a expressão da garota.

Anya cambaleou. Não eram apenas as vozes; era a intensidade emocional. O estresse, a ansiedade, a inveja e a euforia de centenas de adolescentes a atingiram como um maremoto. A dor foi tão súbita e aguda que sua visão escureceu instantaneamente.

— Parem... — ela sussurrou, as mãos pressionando as orelhas como se isso pudesse impedir os pensamentos de entrar. — Por favor, fiquem quietos...

— Forger? Ei, o que você tem? — A voz de Damian agora estava carregada de preocupação genuína.

A última coisa que Anya viu antes de seus joelhos cederem foi o rosto em pânico de Damian. Ela sentiu braços fortes a segurando antes que atingisse o chão de pedra.

— Anya! Alguém chame a enfermeira! Agora!

***

A luz da enfermaria era branca demais. Cada vez que Anya tentava abrir os olhos, uma pontada de dor atravessava sua testa.

— Você acordou.

Ela virou a cabeça devagar. Damian estava sentado em uma cadeira ao lado da maca, parecendo desconfortável e estranhamente pálido.

— O que aconteceu? — Anya perguntou, sua voz saindo rouca.

— Você desmaiou no meio da nossa briga. Parecia que estava tendo um ataque ou algo assim — Damian cruzou os braços, tentando recuperar a compostura, mas seus olhos o traíam. — O que foi aquilo? Você está doente?

— Só... uma dor de cabeça — Anya mentiu, fechando os olhos novamente. Ela ainda conseguia ouvir o pensamento de Damian: *“Ela está pálida. Será que foi culpa minha? Eu peguei pesado demais?”*

— Não foi sua culpa, Damian — ela disse sem pensar.

— Eu não disse que foi! — ele exclamou, sobressaltado. — Como você... Esquece. Seu pai está vindo buscar você.

Anya não teve tempo de responder. A porta da enfermaria se abriu e Loid Forger entrou com sua costumeira aura de calma eficiência, embora Anya pudesse sentir a tempestade de cálculos e preocupações em sua mente.

— Anya, como você está? — Loid aproximou-se, colocando a mão em sua testa. — O diretor me ligou.

— Estou bem, Papa. Só quero ir para casa.

Damian tentou dizer algo, talvez perguntar mais sobre o que acontecera, mas a presença intimidante de Loid e o estado frágil de Anya o impediram. Ele apenas acenou com a cabeça, observando-os sair.

O caminho de carro foi um suplício. Anya estava encolhida no canto do banco de trás, abraçando os próprios joelhos. O silêncio do carro era apenas superficial. Dentro da cabeça de Loid, o motor da análise não parava.

*“Pressão arterial? Estresse acadêmico? Alguma reação tardia aos experimentos do laboratório? O registro dela dizia que ela era sensível, mas isso parece diferente. Preciso verificar se houve alguma atividade suspeita perto da escola. Talvez a WISE deva...”*

— Papa... — Anya gemeu, apertando os olhos. — Por favor, não pensa tanto.

Loid olhou pelo retrovisor, surpreso.

— Anya, você está com dor? Quer que eu te leve ao hospital?

— Não. Só... silêncio. Por favor.

A mente dela viajou para uma memória nebulosa, de quando tinha três anos. O laboratório. As luzes frias. As vozes dos cientistas inundando seu cérebro até que ela não soubesse mais quem era. Naquela época, demorara dias para passar. Agora, parecia dez vezes pior.

Ao chegarem em casa, Anya subiu direto para o quarto, sem falar com Yor, que a esperava preocupada na sala. Ela se jogou na cama e cobriu a cabeça com o travesseiro, mas não adiantou.

As paredes da casa não retinham pensamentos.

Na sala de jantar, Loid e Yor conversavam em voz baixa, mas suas mentes gritavam.

*“Será que ela está com febre?”* — Yor pensava, sua mente transbordando de imagens de caldos de galinha e remédios caseiros que ela aprendera com o irmão. — *“Ou talvez seja algo com o trabalho do Yuri? Será que alguém a seguiu? Se for isso, eu vou ter que eliminar a ameaça...”*

Ao mesmo tempo, Loid processava informações de inteligência em uma velocidade alucinante. *“O Alinhamento de Cristal... li em algum lugar que fenômenos eletromagnéticos podem afetar indivíduos sensíveis. Se a Anya for o que eu suspeito, esse pico de energia pode estar sobrecarregando o sistema dela. Preciso contatar o Franky. Preciso de um plano de contingência se o governo descobrir...”*

Anya sentiu o estômago revirar. A sobreposição dos pensamentos analíticos e frios de Loid com as imagens gráficas e protetoras de Yor criou um redemoinho insuportável. Era como se sua cabeça estivesse prestes a explodir.

Ela se levantou, cambaleando. Suas pernas pareciam feitas de gelatina. Ela abriu a porta do quarto e caminhou até o topo da escada. Lá embaixo, seus pais pararam de falar e olharam para cima, mas seus pensamentos continuaram a mil por hora.

— Anya? — Yor deu um passo à frente. — Querida, você deveria estar descansando. Eu vou preparar um chá e...

— PAREM! — O grito de Anya ecoou pela casa, interrompendo o raciocínio de ambos.

Ela desceu os degraus, segurando-se no corrimão para não cair. Seu rosto estava banhado em suor e lágrimas de frustração.

— Parem de pensar, por favor! — Ela implorou, caindo de joelhos no último degrau. — Dói muito... cada pensamento de vocês é como um martelo na minha cabeça!

Loid e Yor trocaram um olhar confuso e alarmado. Loid correu até ela, segurando-a pelos ombros.

— Anya, do que você está falando? Estamos em silêncio...

— Vocês não estão em silêncio! — Anya soluçou, agarrando a frente da camisa de Loid. — O Papa está pensando em planos de contingência, na WISE e em eletromagnetismo! E a Mama está pensando em eliminar ameaças e no caldo do Yuri! Parem... eu não aguento mais ouvir tudo!

O silêncio que se seguiu foi absoluto, mas apenas na boca de Loid. Sua mente, porém, deu um salto lógico que quase o fez soltá-la.

*“Ela... ela está lendo nossas mentes?”*

— Sim! — Anya gritou, respondendo ao pensamento dele. — Eu sempre li! Desde o dia em que você me adotou no orfanato! Eu sabia que você era um espião e que a Mama era uma assassina! Eu sabia de tudo! Mas agora está descontrolado... por favor, façam parar!

Yor levou a mão à boca, o choque paralisando seus músculos. Loid sentiu o mundo que ele construíra com tanto cuidado — o mundo de mentiras e segredos — desmoronar em um segundo. Mas, ao ver o sofrimento genuíno no rosto da filha, o espião deu lugar ao pai.

— Anya... — Loid tentou manter a mente vazia, uma técnica de meditação que aprendera no treinamento de espião para resistir a interrogatórios. — Como eu faço para parar?

— Só... tentem não focar em nada — Anya sussurrou, encostando a testa no peito dele. — Limpem a mente. Como se fosse uma folha de papel em branco.

Loid respirou fundo. Ele olhou para Yor e, sem precisar de palavras, ela entendeu. Yor fechou os olhos, focando apenas na respiração, tentando afastar as imagens de sua profissão e as preocupações mundanas. Loid fez o mesmo, visualizando um vazio branco e silencioso.

Aos poucos, o latejar na cabeça de Anya começou a diminuir. O ruído ensurdecedor de Berlint, os segredos de seus pais, as memórias do laboratório... tudo começou a recuar para o fundo de sua consciência.

Passaram-se longos minutos até que Anya finalmente relaxasse nos braços de Loid. A respiração dela se tornou pesada e regular.

— Ela dormiu — Loid sussurrou.

Ele a pegou no colo com uma delicadeza que não condizia com um homem que já enfrentara exércitos. Ele a levou de volta para a cama e a cobriu.

Quando ele voltou para a sala, Yor estava sentada no sofá, as mãos tremendo levemente.

— Loid... o que vamos fazer? — Ela perguntou, a voz falhando. — Ela sabe. Ela sempre soube de tudo.

Loid sentou-se ao lado dela, enterrando o rosto nas mãos. O peso da revelação era imenso. Sua filha era uma telepata. Sua esposa era uma assassina. E ele era um espião. A "família de mentira" que ele criara para a Operação Strix era, na verdade, a maior concentração de segredos e poderes sob o mesmo teto em todo o país.

— Primeiro — Loid disse, sua voz recuperando a autoridade —, vamos esperar ela acordar e se sentir melhor. O Alinhamento de Cristal deve passar em algumas horas.

— E depois? — Yor olhou para ele com medo. — Você vai... você vai levá-la embora?

Loid olhou para a escada, pensando na garotinha que o escolhera por causa de seus pensamentos de "salvar o mundo".

— Não — ele respondeu com firmeza. — Depois, nós vamos conversar. Como uma família de verdade. Sem segredos.

Ele sabia que a WISE teria dúvidas. Sabia que o Garden poderia considerar Anya uma ameaça. Mas, naquele momento, enquanto o silêncio finalmente reinava na casa dos Forger, Loid percebeu que não importava o quanto Anya pudesse ler seus pensamentos; o que ela encontraria lá, acima de qualquer missão, era o fato de que ele a amava mais do que qualquer segredo de Estado.

Anya, em seu sono profundo, deu um pequeno sorriso. Pela primeira vez em dez anos, a mente de seu pai estava em absoluta paz.
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