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Fandom: Spy family
Criado: 09/06/2026
Tags
DramaAngústiaDor/ConfortoPsicológicoFicção CientíficaExperimentação HumanaCenário CanônicoEstudo de Personagem
O Silêncio que eu Nunca Tive
Aos quatorze anos, Anya Forger já deveria estar acostumada com o caos. O Colégio Eden nunca fora um lugar silencioso, e sua mente era, por natureza, uma antena parabólica sintonizada em frequências que ninguém mais captava. No entanto, aquele dia era diferente. O céu ostentava um fenômeno astronômico raro, um alinhamento que os jornais chamavam de "A Dança dos Astros". Para a maioria, era apenas um espetáculo visual; para Anya, era o gatilho de um pesadelo.
Desde o despertar, seus poderes latejavam. A estática em sua cabeça, geralmente um ruído de fundo controlável, estava se tornando um rugido.
— Você está mais lenta do que o normal hoje, Pernas Curtas. O que foi? O cérebro de amendoim finalmente pifou de tanto estudar?
A voz de Damian Desmond cortou o ar, carregada daquela arrogância defensiva que ele cultivara ao longo da última década. Ele estava parado no corredor, cercado por seus fiéis escudeiros, Emile e Ewen, que riram prontamente.
Anya se virou para encará-lo. O "Segundo Filho" agora era consideravelmente mais alto que ela, com feições mais nítidas e um olhar que vacilava entre o desprezo e algo que ele se recusava terminantemente a admitir.
— Cala a boca, Filho do Segundo — Anya rebateu, mas sem o brilho habitual nos olhos. — Sua voz é irritante demais para essa hora da manhã.
— Como é que é? — Damian deu um passo à frente, as sobrancelhas franzidas. — Eu estou tentando ser generoso e notar que você parece uma assombração, e é assim que você me trata?
— Eu não pedi para você me notar, Damian! — ela exclamou, sentindo uma pontada aguda atrás das têmporas.
— Pois deveria agradecer! Pouca gente perde tempo olhando para uma...
O sinal para o recreio tocou, um som estridente que pareceu rasgar os tímpanos de Anya. Mas o pior não foi o sino. Foi o que veio depois.
No momento em que as portas das salas se abriram e centenas de alunos inundaram os corredores, a barreira mental de Anya simplesmente ruiu. Não era mais como ouvir conversas; era como se mil ondas de rádio estivessem sendo transmitidas simultaneamente dentro do seu crânio, em volume máximo.
*"Será que ela vai aceitar sair comigo?"*
*"Eu odeio essa aula de história..."*
*"Preciso tirar uma nota alta, ou meu pai vai me matar..."*
*"Aquela saia está curta demais..."*
*"Anya Forger parece que vai desmaiar, que estranho..."*
A última voz era a de Damian, mas ela mal conseguia distinguir. A dor explodiu. Era uma agonia física, como se agulhas de gelo estivessem perfurando seu cérebro. Anya levou as mãos à cabeça, cambaleando. O mundo começou a girar, as cores se misturando em um borrão cinzento.
— Anya? — A voz de Damian mudou. O tom de deboche desapareceu, substituído por uma nota de pânico real. — Ei, o que foi? Eu estava brincando, não precisa ficar assim... Anya!
Ela não conseguiu responder. Seus joelhos cederam. O último som que ouviu antes da escuridão total foi o grito de Damian chamando seu nome e o impacto firme de braços segurando-a antes que ela atingisse o chão de mármore.
***
Quando Anya abriu os olhos, o teto branco da enfermaria parecia brilhar com uma intensidade insuportável. A dor de cabeça ainda estava lá, agora como uma pulsação rítmica e pesada.
— Você finalmente acordou — disse uma voz ao lado da cama.
Anya virou a cabeça devagar. Damian estava sentado em uma cadeira de madeira, parecendo desconfortável e visivelmente abalado. Ele tentava manter a postura de herdeiro dos Desmond, mas suas mãos tremiam levemente sobre os joelhos.
— O que... o que aconteceu? — Anya sussurrou. Sua própria voz soava distante.
— Você desmaiou no meio do corredor como uma heroína de drama barato — Damian respondeu, tentando recuperar o sarcasmo, mas falhando miseravelmente. — Eu tive que te carregar até aqui. Você é pesada, sabia?
Anya tentou ler a mente dele, mas o que recebeu foi uma explosão de imagens confusas: a imagem dela caindo, o coração dele disparado, a preocupação sufocante que ele tentava esconder sob camadas de orgulho.
— Obrigada, Damian — ela murmurou, fechando os olhos novamente para fugir da luz.
— Não se acostume. Eu só fiz isso para não causar um escândalo no corredor — ele retrucou rapidamente. — O que você tem? O médico da escola disse que pode ser exaustão, mas você parecia... parecia que estava morrendo.
— É só uma enxaqueca — mentiu ela.
Antes que Damian pudesse questionar mais, a porta da enfermaria se abriu bruscamente. Loid Forger entrou, a expressão de "pai preocupado" perfeitamente calculada, embora Anya pudesse sentir a tensão genuína irradiando dele.
— Anya! — Loid aproximou-se da cama, ignorando por um momento a presença do jovem Desmond. — O colégio me ligou. Como você está se sentindo?
— Oi, papai... — Anya tentou se sentar, mas a cabeça girou.
— Senhor Forger — Damian levantou-se, subitamente formal. — Eu estava apenas... garantindo que ela ficasse bem até o senhor chegar.
— Agradeço imensamente, lorde Desmond — Loid disse com uma breve inclinação de cabeça, o modo espião operando em segundo plano, analisando a situação. — Vou levá-la para casa agora.
Damian abriu a boca para dizer algo, talvez perguntar se ela voltaria no dia seguinte, mas a frieza eficiente de Loid não deu espaço para perguntas. Anya foi ajudada a se levantar e, em poucos minutos, estava sendo conduzida para o carro.
O caminho para casa foi um martírio silencioso. Ou melhor, deveria ter sido silencioso.
Dentro do carro, o espaço confinado amplificava os pensamentos de Loid. Ele estava dirigindo mecanicamente, mas sua mente era um turbilhão de análises táticas e preocupações paternas.
*"A temperatura dela está normal, mas o desmaio foi súbito. Será que é algum efeito tardio dos experimentos do laboratório? Preciso entrar em contato com o contato da WISE para um check-up completo sem levantar suspeitas. E a Operação Strix? Se ela ficar doente, a aproximação com o Desmond pode ser prejudicada... Não, o bem-estar dela vem primeiro. Mas por que ela parece estar com tanta dor agora?"*
Anya estava encolhida no canto do banco de trás, as mãos pressionadas contra os ouvidos, embora soubesse que isso não bloqueava as vozes. Cada pensamento de Loid era como um martelo batendo em um prego dentro de sua cabeça.
— Anya? — Loid olhou pelo retrovisor, a testa franzida. — Você está muito pálida. Quer que eu pare o carro? O que você está sentindo exatamente?
— Estou bem... — ela conseguiu dizer, a voz falhando. — Só... silêncio. Por favor.
Ela fechou os olhos com força. A última vez que sentira algo assim fora aos três anos, naquele lugar frio e branco cheio de homens de jaleco. Naquela época, ela não entendia o que eram aquelas vozes, apenas que elas não paravam nunca. Demorara meses para o barulho diminuir. Agora, estava de volta, e parecia dez vezes mais forte.
Quando chegaram ao apartamento, Yor já os esperava, as mãos juntas ao peito em sinal de angústia.
— Anya! Meu Deus, você está bem? — Yor correu para ajudá-la a sair do carro.
Os pensamentos de Yor eram diferentes dos de Loid; eram mais emocionais, mais rápidos e, naquele momento, carregados de uma culpa esmagadora.
*"Oh, pobre Anya! Será que eu cozinhei algo ruim ontem? Eu sou uma mãe terrível! E se for algo grave? O casamento... o Loid vai achar que eu não cuido bem dela! E o Yuri, ele sempre diz que eu trabalho demais, talvez eu devesse estar mais presente... O que eu faço? Devo preparar um chá de ervas medicinais que aprendi no trabalho? Não, eu posso acabar envenenando ela sem querer!"*
— Quarto... — Anya sussurrou, sentindo uma náusea terrível. — Preciso ir para o meu quarto.
Loid a ajudou a subir. Ele e Yor ficaram na sala, conversando em tons baixos, mas para Anya, era como se eles estivessem gritando dentro de seu quarto.
Ela se jogou na cama, enterrando o rosto no travesseiro de quimera. Mas não adiantava. As paredes não barravam a telepatia.
Do outro lado da porta, o fluxo de pensamentos continuava.
Loid: *"O padrão de ondas cerebrais que ela descreveu na última vez que teve febre... será que há uma conexão com a atividade solar de hoje? Os registros do Projeto Apple mencionavam sensibilidade extrema em certas condições atmosféricas..."*
Yor: *"Eu devia ter feito aquele curso de primeiros socorros de novo. E se ela precisar de uma cirurgia? Eu posso pedir ao Diretor para... não, não posso usar meus contatos de assassina para isso! Anya, por favor, melhore..."*
Loid: *"As lições de amanhã terão que ser canceladas. Vou precisar inventar uma desculpa para a escola. Talvez uma gripe forte. Mas se o Desmond perguntar..."*
Anya sentiu uma lágrima de dor escorrer. A pressão era insuportável. Era como se sua cabeça fosse explodir em mil pedaços. A cacofonia de preocupações, estratégias e culpas dos dois adultos que ela mais amava estava, literalmente, torturando-a.
Ela se levantou, cambaleando. Suas pernas pareciam feitas de gelatina. Ela alcançou a maçaneta e abriu a porta.
Loid e Yor pararam de falar instantaneamente, virando-se para ela.
— Anya? O que houve? Você deveria estar descansando — Loid disse, dando um passo em direção a ela.
Anya parou no meio do corredor. Sua visão estava turva, o rosto banhado em suor frio. Ela parecia zonza, prestes a desabar novamente.
— Parem... — ela sussurrou, a voz carregada de uma súplica desesperada.
— O quê? — Yor perguntou, confusa. — Quer que paremos de falar? Peço desculpas, querida, estávamos tentando ser silenciosos...
— Não as vozes! — Anya gritou, as mãos cobrindo os ouvidos com força enquanto caía de joelhos. — Os pensamentos! Parem de pensar! Por favor, parem de pensar! Estão me machucando!
O silêncio que se seguiu na sala foi absoluto em termos de som, mas na mente de Loid, o choque foi como uma explosão.
*"O quê? Parem de pensar? Ela não pode estar sugerindo que..."*
— Eu consigo ouvir! — Anya soluçou, olhando para Loid com olhos suplicantes. — Eu ouço tudo, o tempo todo! O papai sendo espião, a mamãe sendo... sendo o que ela faz com as facas! Eu ouço os planos, as lições, as preocupações... mas hoje está doendo demais! Por favor, façam as cabeças de vocês ficarem quietas!
Loid ficou estático. Sua mente, treinada para processar informações em milissegundos, travou por um instante.
*"Ela está delirando devido à febre. É impossível. Telepatia é um conceito de ficção científica..."*
— Não é brincadeira! — Anya gritou, respondendo ao pensamento dele antes mesmo que ele pudesse verbalizar. — Você acabou de pensar que eu estou delirando e que telepatia é ficção! E a mamãe está pensando se eu fiquei louca ou se é uma maldição de família!
Yor levou a mão à boca, os olhos arregalados. Loid sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ele nunca havia dito a palavra "ficção científica" em voz alta.
— Anya... — Loid começou, sua voz tremendo de uma forma que ele nunca permitira como Twilight. — Você está dizendo que... desde o começo?
— Desde o orfanato — ela disse, respirando com dificuldade, as lágrimas escorrendo livremente. — Eu escolhi você porque você pensou que precisava de uma criança inteligente. Eu tentei ajudar... eu tentei fazer a Operação Strix dar certo... mas agora eu só preciso que vocês parem. Minha cabeça... parece que vai quebrar.
Loid Forger, o mestre dos disfarces, o homem que sempre tinha um plano B, sentiu-se completamente impotente. Ele olhou para a filha — não para a ferramenta da sua missão, mas para a menina que ele criara por anos — e viu o sofrimento real gravado em cada linha de seu rosto.
Ele se ajoelhou na frente dela, ignorando o turbilhão de perguntas éticas e táticas que ameaçavam inundar sua mente. Ele percebeu que, se ela realmente podia ouvi-lo, o melhor que ele podia fazer era tentar o impossível: o vácuo mental.
— Tudo bem, Anya. Tudo bem — ele disse suavemente, estendendo os braços para segurá-la. — Eu vou tentar.
Loid fechou os olhos e usou uma técnica de meditação profunda de seu treinamento de inteligência, focando apenas em uma tela branca vazia, tentando suprimir cada pensamento lógico. Yor, vendo a seriedade da situação, aproximou-se e abraçou os dois, tentando focar apenas no sentimento de amor e proteção, sem palavras, sem frases, apenas na sensação de calor.
Por alguns segundos, a pressão na mente de Anya diminuiu. Não desapareceu, mas o rugido tornou-se um sussurro.
— Obrigada... — ela murmurou, desfalecendo nos braços de Loid.
Ele a pegou no colo, sentindo o peso leve da filha. Ele olhou para Yor, e pela primeira vez em anos, não houve máscaras entre eles. O segredo fora revelado da maneira mais dolorosa possível.
— Precisamos conversar — Loid disse em voz baixa, sua mente ainda lutando para se manter em silêncio. — Mas primeiro, vamos cuidar dela.
Anya adormeceu em meio ao silêncio forçado de seus pais, sabendo que, quando acordasse, o mundo — e a família Forger — nunca mais seria o mesmo. Os segredos haviam caído, e a verdadeira missão estava apenas começando.
Desde o despertar, seus poderes latejavam. A estática em sua cabeça, geralmente um ruído de fundo controlável, estava se tornando um rugido.
— Você está mais lenta do que o normal hoje, Pernas Curtas. O que foi? O cérebro de amendoim finalmente pifou de tanto estudar?
A voz de Damian Desmond cortou o ar, carregada daquela arrogância defensiva que ele cultivara ao longo da última década. Ele estava parado no corredor, cercado por seus fiéis escudeiros, Emile e Ewen, que riram prontamente.
Anya se virou para encará-lo. O "Segundo Filho" agora era consideravelmente mais alto que ela, com feições mais nítidas e um olhar que vacilava entre o desprezo e algo que ele se recusava terminantemente a admitir.
— Cala a boca, Filho do Segundo — Anya rebateu, mas sem o brilho habitual nos olhos. — Sua voz é irritante demais para essa hora da manhã.
— Como é que é? — Damian deu um passo à frente, as sobrancelhas franzidas. — Eu estou tentando ser generoso e notar que você parece uma assombração, e é assim que você me trata?
— Eu não pedi para você me notar, Damian! — ela exclamou, sentindo uma pontada aguda atrás das têmporas.
— Pois deveria agradecer! Pouca gente perde tempo olhando para uma...
O sinal para o recreio tocou, um som estridente que pareceu rasgar os tímpanos de Anya. Mas o pior não foi o sino. Foi o que veio depois.
No momento em que as portas das salas se abriram e centenas de alunos inundaram os corredores, a barreira mental de Anya simplesmente ruiu. Não era mais como ouvir conversas; era como se mil ondas de rádio estivessem sendo transmitidas simultaneamente dentro do seu crânio, em volume máximo.
*"Será que ela vai aceitar sair comigo?"*
*"Eu odeio essa aula de história..."*
*"Preciso tirar uma nota alta, ou meu pai vai me matar..."*
*"Aquela saia está curta demais..."*
*"Anya Forger parece que vai desmaiar, que estranho..."*
A última voz era a de Damian, mas ela mal conseguia distinguir. A dor explodiu. Era uma agonia física, como se agulhas de gelo estivessem perfurando seu cérebro. Anya levou as mãos à cabeça, cambaleando. O mundo começou a girar, as cores se misturando em um borrão cinzento.
— Anya? — A voz de Damian mudou. O tom de deboche desapareceu, substituído por uma nota de pânico real. — Ei, o que foi? Eu estava brincando, não precisa ficar assim... Anya!
Ela não conseguiu responder. Seus joelhos cederam. O último som que ouviu antes da escuridão total foi o grito de Damian chamando seu nome e o impacto firme de braços segurando-a antes que ela atingisse o chão de mármore.
***
Quando Anya abriu os olhos, o teto branco da enfermaria parecia brilhar com uma intensidade insuportável. A dor de cabeça ainda estava lá, agora como uma pulsação rítmica e pesada.
— Você finalmente acordou — disse uma voz ao lado da cama.
Anya virou a cabeça devagar. Damian estava sentado em uma cadeira de madeira, parecendo desconfortável e visivelmente abalado. Ele tentava manter a postura de herdeiro dos Desmond, mas suas mãos tremiam levemente sobre os joelhos.
— O que... o que aconteceu? — Anya sussurrou. Sua própria voz soava distante.
— Você desmaiou no meio do corredor como uma heroína de drama barato — Damian respondeu, tentando recuperar o sarcasmo, mas falhando miseravelmente. — Eu tive que te carregar até aqui. Você é pesada, sabia?
Anya tentou ler a mente dele, mas o que recebeu foi uma explosão de imagens confusas: a imagem dela caindo, o coração dele disparado, a preocupação sufocante que ele tentava esconder sob camadas de orgulho.
— Obrigada, Damian — ela murmurou, fechando os olhos novamente para fugir da luz.
— Não se acostume. Eu só fiz isso para não causar um escândalo no corredor — ele retrucou rapidamente. — O que você tem? O médico da escola disse que pode ser exaustão, mas você parecia... parecia que estava morrendo.
— É só uma enxaqueca — mentiu ela.
Antes que Damian pudesse questionar mais, a porta da enfermaria se abriu bruscamente. Loid Forger entrou, a expressão de "pai preocupado" perfeitamente calculada, embora Anya pudesse sentir a tensão genuína irradiando dele.
— Anya! — Loid aproximou-se da cama, ignorando por um momento a presença do jovem Desmond. — O colégio me ligou. Como você está se sentindo?
— Oi, papai... — Anya tentou se sentar, mas a cabeça girou.
— Senhor Forger — Damian levantou-se, subitamente formal. — Eu estava apenas... garantindo que ela ficasse bem até o senhor chegar.
— Agradeço imensamente, lorde Desmond — Loid disse com uma breve inclinação de cabeça, o modo espião operando em segundo plano, analisando a situação. — Vou levá-la para casa agora.
Damian abriu a boca para dizer algo, talvez perguntar se ela voltaria no dia seguinte, mas a frieza eficiente de Loid não deu espaço para perguntas. Anya foi ajudada a se levantar e, em poucos minutos, estava sendo conduzida para o carro.
O caminho para casa foi um martírio silencioso. Ou melhor, deveria ter sido silencioso.
Dentro do carro, o espaço confinado amplificava os pensamentos de Loid. Ele estava dirigindo mecanicamente, mas sua mente era um turbilhão de análises táticas e preocupações paternas.
*"A temperatura dela está normal, mas o desmaio foi súbito. Será que é algum efeito tardio dos experimentos do laboratório? Preciso entrar em contato com o contato da WISE para um check-up completo sem levantar suspeitas. E a Operação Strix? Se ela ficar doente, a aproximação com o Desmond pode ser prejudicada... Não, o bem-estar dela vem primeiro. Mas por que ela parece estar com tanta dor agora?"*
Anya estava encolhida no canto do banco de trás, as mãos pressionadas contra os ouvidos, embora soubesse que isso não bloqueava as vozes. Cada pensamento de Loid era como um martelo batendo em um prego dentro de sua cabeça.
— Anya? — Loid olhou pelo retrovisor, a testa franzida. — Você está muito pálida. Quer que eu pare o carro? O que você está sentindo exatamente?
— Estou bem... — ela conseguiu dizer, a voz falhando. — Só... silêncio. Por favor.
Ela fechou os olhos com força. A última vez que sentira algo assim fora aos três anos, naquele lugar frio e branco cheio de homens de jaleco. Naquela época, ela não entendia o que eram aquelas vozes, apenas que elas não paravam nunca. Demorara meses para o barulho diminuir. Agora, estava de volta, e parecia dez vezes mais forte.
Quando chegaram ao apartamento, Yor já os esperava, as mãos juntas ao peito em sinal de angústia.
— Anya! Meu Deus, você está bem? — Yor correu para ajudá-la a sair do carro.
Os pensamentos de Yor eram diferentes dos de Loid; eram mais emocionais, mais rápidos e, naquele momento, carregados de uma culpa esmagadora.
*"Oh, pobre Anya! Será que eu cozinhei algo ruim ontem? Eu sou uma mãe terrível! E se for algo grave? O casamento... o Loid vai achar que eu não cuido bem dela! E o Yuri, ele sempre diz que eu trabalho demais, talvez eu devesse estar mais presente... O que eu faço? Devo preparar um chá de ervas medicinais que aprendi no trabalho? Não, eu posso acabar envenenando ela sem querer!"*
— Quarto... — Anya sussurrou, sentindo uma náusea terrível. — Preciso ir para o meu quarto.
Loid a ajudou a subir. Ele e Yor ficaram na sala, conversando em tons baixos, mas para Anya, era como se eles estivessem gritando dentro de seu quarto.
Ela se jogou na cama, enterrando o rosto no travesseiro de quimera. Mas não adiantava. As paredes não barravam a telepatia.
Do outro lado da porta, o fluxo de pensamentos continuava.
Loid: *"O padrão de ondas cerebrais que ela descreveu na última vez que teve febre... será que há uma conexão com a atividade solar de hoje? Os registros do Projeto Apple mencionavam sensibilidade extrema em certas condições atmosféricas..."*
Yor: *"Eu devia ter feito aquele curso de primeiros socorros de novo. E se ela precisar de uma cirurgia? Eu posso pedir ao Diretor para... não, não posso usar meus contatos de assassina para isso! Anya, por favor, melhore..."*
Loid: *"As lições de amanhã terão que ser canceladas. Vou precisar inventar uma desculpa para a escola. Talvez uma gripe forte. Mas se o Desmond perguntar..."*
Anya sentiu uma lágrima de dor escorrer. A pressão era insuportável. Era como se sua cabeça fosse explodir em mil pedaços. A cacofonia de preocupações, estratégias e culpas dos dois adultos que ela mais amava estava, literalmente, torturando-a.
Ela se levantou, cambaleando. Suas pernas pareciam feitas de gelatina. Ela alcançou a maçaneta e abriu a porta.
Loid e Yor pararam de falar instantaneamente, virando-se para ela.
— Anya? O que houve? Você deveria estar descansando — Loid disse, dando um passo em direção a ela.
Anya parou no meio do corredor. Sua visão estava turva, o rosto banhado em suor frio. Ela parecia zonza, prestes a desabar novamente.
— Parem... — ela sussurrou, a voz carregada de uma súplica desesperada.
— O quê? — Yor perguntou, confusa. — Quer que paremos de falar? Peço desculpas, querida, estávamos tentando ser silenciosos...
— Não as vozes! — Anya gritou, as mãos cobrindo os ouvidos com força enquanto caía de joelhos. — Os pensamentos! Parem de pensar! Por favor, parem de pensar! Estão me machucando!
O silêncio que se seguiu na sala foi absoluto em termos de som, mas na mente de Loid, o choque foi como uma explosão.
*"O quê? Parem de pensar? Ela não pode estar sugerindo que..."*
— Eu consigo ouvir! — Anya soluçou, olhando para Loid com olhos suplicantes. — Eu ouço tudo, o tempo todo! O papai sendo espião, a mamãe sendo... sendo o que ela faz com as facas! Eu ouço os planos, as lições, as preocupações... mas hoje está doendo demais! Por favor, façam as cabeças de vocês ficarem quietas!
Loid ficou estático. Sua mente, treinada para processar informações em milissegundos, travou por um instante.
*"Ela está delirando devido à febre. É impossível. Telepatia é um conceito de ficção científica..."*
— Não é brincadeira! — Anya gritou, respondendo ao pensamento dele antes mesmo que ele pudesse verbalizar. — Você acabou de pensar que eu estou delirando e que telepatia é ficção! E a mamãe está pensando se eu fiquei louca ou se é uma maldição de família!
Yor levou a mão à boca, os olhos arregalados. Loid sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ele nunca havia dito a palavra "ficção científica" em voz alta.
— Anya... — Loid começou, sua voz tremendo de uma forma que ele nunca permitira como Twilight. — Você está dizendo que... desde o começo?
— Desde o orfanato — ela disse, respirando com dificuldade, as lágrimas escorrendo livremente. — Eu escolhi você porque você pensou que precisava de uma criança inteligente. Eu tentei ajudar... eu tentei fazer a Operação Strix dar certo... mas agora eu só preciso que vocês parem. Minha cabeça... parece que vai quebrar.
Loid Forger, o mestre dos disfarces, o homem que sempre tinha um plano B, sentiu-se completamente impotente. Ele olhou para a filha — não para a ferramenta da sua missão, mas para a menina que ele criara por anos — e viu o sofrimento real gravado em cada linha de seu rosto.
Ele se ajoelhou na frente dela, ignorando o turbilhão de perguntas éticas e táticas que ameaçavam inundar sua mente. Ele percebeu que, se ela realmente podia ouvi-lo, o melhor que ele podia fazer era tentar o impossível: o vácuo mental.
— Tudo bem, Anya. Tudo bem — ele disse suavemente, estendendo os braços para segurá-la. — Eu vou tentar.
Loid fechou os olhos e usou uma técnica de meditação profunda de seu treinamento de inteligência, focando apenas em uma tela branca vazia, tentando suprimir cada pensamento lógico. Yor, vendo a seriedade da situação, aproximou-se e abraçou os dois, tentando focar apenas no sentimento de amor e proteção, sem palavras, sem frases, apenas na sensação de calor.
Por alguns segundos, a pressão na mente de Anya diminuiu. Não desapareceu, mas o rugido tornou-se um sussurro.
— Obrigada... — ela murmurou, desfalecendo nos braços de Loid.
Ele a pegou no colo, sentindo o peso leve da filha. Ele olhou para Yor, e pela primeira vez em anos, não houve máscaras entre eles. O segredo fora revelado da maneira mais dolorosa possível.
— Precisamos conversar — Loid disse em voz baixa, sua mente ainda lutando para se manter em silêncio. — Mas primeiro, vamos cuidar dela.
Anya adormeceu em meio ao silêncio forçado de seus pais, sabendo que, quando acordasse, o mundo — e a família Forger — nunca mais seria o mesmo. Os segredos haviam caído, e a verdadeira missão estava apenas começando.
