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A Luneta Mágica: O Coração de Américo

Fandom: A Luneta Mágica

Criado: 09/06/2026

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DramaAngústiaPsicológicoFantasiaRealismo MágicoHistóricoEstudo de PersonagemTragédia
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O Reflexo Distorcido no Espelho de Catumbi

A penumbra da sala em Catumbi parecia mais densa naquela tarde de mormaço carioca. Simplício estava sentado em sua poltrona habitual, as mãos tateando o metal frio da luneta que o gênio lhe entregara. Para ele, o mundo era um caleidoscópio de revelações súbitas, um choque constante entre a escuridão absoluta de sua cegueira física e a claridade crua — e por vezes insuportável — que o instrumento lhe proporcionava.

Do outro lado do cômodo, Américo observava o irmão com uma mistura de tédio e uma irritação que ele não sabia bem de onde vinha. Américo sempre fora o pragmático, o homem que via o mundo como um tabuleiro de xadrez onde as peças eram pessoas e o objetivo era o conforto próprio. Para ele, a súbita "visão" de Simplício era uma excentricidade perigosa.

— Você passa tempo demais grudado a esse tubo de metal, Simplício — disse Américo, a voz carregada de um desdém que ele não se esforçava para esconder. — Olhar demais para o que está escondido só traz amargura. O mundo é melhor quando aceitamos as superfícies.

Simplício levou a luneta aos olhos, ajustando o foco para a direção do irmão. No início, ele via apenas o contorno físico de Américo: o terno bem cortado, a postura ereta, o rosto que a sociedade considerava respeitável. Mas, à medida que a magia da luneta operava, as camadas começavam a cair.

— O que você vê agora? — perguntou Américo, aproximando-se com um sorriso cínico. — Vê um santo? Ou vê o vilão que você tanto gosta de imaginar que eu sou nos seus delírios de moralidade?

Simplício hesitou. Através da lente, a aura de Américo não era puramente negra, como ele esperava. Havia tons de um cinza lamacento, uma névoa de ansiedade que envolvia o coração do irmão.

— Vejo um homem que tem medo, Américo — respondeu Simplício, a voz baixa e calma. — Vejo que o seu egoísmo não é fruto de maldade pura, mas de uma fome que nunca se sacia. Você devora as oportunidades e as pessoas porque acha que, se parar, vai desaparecer.

Américo soltou uma risada seca, mas seus olhos desviaram por um segundo.

— Medo? Eu não tenho medo de nada, meu caro irmão. Eu tenho ambição. Algo que você, vivendo nesse mundo de sombras e revelações mágicas, nunca entenderá. O Catumbi é pequeno demais para quem sabe como subir na vida.

— Mas a que custo? — Simplício abaixou a luneta por um momento, esfregando os olhos cansados. — Ontem, quando usei a luneta para observar a transação que você fez no escritório, eu vi os fios negros que se ligavam às suas mãos. Eram fios de mentira, Américo. Você estava enganando aquele viúvo sobre as terras de Minas.

Américo deu um passo à frente, a face subitamente obscurecida pela raiva.

— Aquele homem era um incompetente que perderia o dinheiro de qualquer maneira! — exclamou ele, gesticulando com força. — Eu apenas acelerei o inevitável. E, com aquele lucro, eu mantenho esta casa. Eu mantenho o luxo que você desfruta enquanto brinca de ser o juiz da alma humana.

Simplício suspirou. Ele sentia o peso da luneta em suas mãos. Cada vez que a usava, sentia-se mais sábio, mas também mais solitário. Ver a verdade significava perder a inocência que o protegera durante anos de cegueira.

— Eu não quero ser seu juiz — disse Simplício, voltando a olhar pela luneta. — Eu queria apenas entender por que você escolheu esse caminho. A luneta me mostra que, quando éramos crianças, você não era assim. O que mudou?

Américo parou. A pergunta pareceu atingir um nervo exposto. Ele caminhou até a janela, observando o movimento das carruagens lá fora, o pó levantado pelos cascos dos cavalos no calor do Rio de Janeiro.

— O que mudou foi a fome, Simplício — disse ele, sem se virar. — Você sempre foi o protegido. O "pobre cego" que todos queriam poupar. Eu era o filho que precisava ser o esteio, o que precisava garantir que não voltaríamos à miséria de nossos antepassados.

— Não justifica o mal que você causa — retrucou Simplício.

— O mal é uma palavra forte — Américo virou-se, e através da luneta, Simplício viu uma imagem perturbadora: o coração de Américo parecia cercado por espinhos de gelo. — Eu chamo de sobrevivência. Se eu não for o lobo, serei o cordeiro. E eu decidi, muito cedo, que nunca mais sentiria o frio da privação.

Simplício sentiu uma pontada de tristeza. Ele ajustou a luneta novamente, tentando ver além do gelo. Lá, bem no fundo, havia uma pequena centelha de luz, quase apagada, mas ainda presente. Era a memória de uma bondade que Américo tentara enterrar sob camadas de cinismo.

— Você ainda pode escolher, irmão — disse Simplício, estendendo a mão para o vazio, na direção de onde sentia a presença de Américo. — A luneta me mostra que a maldade humana é, muitas vezes, apenas uma ferida que nunca cicatrizou. Se você pudesse ver o que eu vejo... o peso que essas sombras exercem sobre você...

Américo aproximou-se da mão estendida, mas não a tocou. Ele olhou para o objeto mágico com um misto de desejo e repulsa.

— E o que você vê além das sombras? — perguntou ele, a voz subitamente rouca.

— Vejo que você está cansado — respondeu Simplício com sinceridade. — Vejo que cada moeda que você ganha ilicitamente é um tijolo a mais na parede que te separa de todo mundo. Você está construindo sua própria prisão, Américo, e chama isso de império.

Houve um longo silêncio na sala. O relógio de parede marcava os segundos com uma precisão irritante. Américo parecia lutar contra as palavras do irmão. Por um breve instante, a máscara de frieza vacilou.

— Talvez — admitiu Américo, tão baixo que era quase um sussurro. — Mas é tarde demais para mudar o projeto da construção. A parede já está alta demais.

— Nunca é tarde para derrubar um tijolo — Simplício sorriu tristemente. — A luneta me ensinou que a visão não serve apenas para identificar o mal, mas para encontrar o caminho de volta para a luz.

Américo endireitou o paletó, recuperando sua compostura habitual. O momento de vulnerabilidade passou como uma nuvem rápida escondendo o sol.

— Guarde sua filosofia para os seus devaneios, Simplício — disse ele, caminhando em direção à porta. — Tenho negócios a tratar. Negócios reais, com pessoas reais que não usam lunetas para enxergar o que não lhes diz respeito.

— Américo — chamou Simplício antes que o irmão saísse.

O outro parou na soleira.

— Sim?

— Amanhã eu vou trocar esta luneta por uma nova — disse Simplício. — O gênio me prometeu uma que enxerga ainda mais fundo. Eu espero, sinceramente, que da próxima vez que eu olhar para você, eu veja menos gelo e mais daquele menino que costumava me guiar pelo jardim quando o mundo era apenas escuro.

Américo não respondeu. O som de seus passos ecoou pelo corredor até que a porta da frente se fechou com um baque seco.

Simplício ficou sozinho na sala. Ele guardou a luneta na caixa de veludo, sentindo o cansaço da visão pesar em seus ombros. Ele sabia que a jornada para entender a humanidade estava apenas começando. A maldade de Américo era apenas uma faceta de um poliedro infinito.

— A visão é um fardo — murmurou Simplício para as paredes silenciosas. — Mas a ignorância é uma morte em vida.

Ele se levantou e caminhou até a janela que Américo acabara de deixar. Mesmo sem a luneta, ele conseguia sentir o calor do sol em seu rosto. Ele não enxergava as cores do entardecer carioca, mas, graças ao instrumento, ele agora enxergava as cores das intenções humanas. E, embora o cinza de Américo o entristecesse, a pequena centelha que vira no fundo da alma do irmão lhe dava algo que ele não sentia há muito tempo: esperança.

A evolução de Simplício não era apenas sobre enxergar o mundo, mas sobre aprender a amá-lo apesar do que via. E Américo, em sua busca incessante por poder, era o seu maior desafio e sua lição mais profunda.

— Amanhã — disse ele para si mesmo — as lentes serão mais claras. E talvez, quem sabe, o reflexo no espelho de Catumbi comece a mudar.

Lá fora, a noite começava a cair sobre o Rio de Janeiro, escondendo sob o manto das sombras as virtudes e os pecados de uma sociedade que Simplício, finalmente, estava começando a conhecer de verdade.
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