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Fandom: Record of ragnarok

Criado: 09/06/2026

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O Trono das Cinzas e o Silêncio do Submundo

A luz que filtrava pelas janelas do palácio destinado aos representantes da humanidade no Ragnarok era dourada, mas para Qin Shi Huang, ela parecia opaca. O Primeiro Imperador da China estava sentado em uma poltrona que ele mesmo havia designado como seu trono temporário, as pernas cruzadas com uma elegância que beirava o insulto. Seus olhos, cobertos pela venda que protegia sua visão e sua alma da dor alheia, pareciam fitar o nada.

Hades estava fora. Uma viagem diplomática às profundezas mais obscuras de Helheim, algo que nem mesmo o Rei do Submundo poderia evitar. E Qin, em sua arrogância característica, havia declarado que o palácio estava "tedioso" sem a presença da única divindade que ele considerava minimamente digna de sua atenção.

Quando a porta do salão se abriu, o cheiro de sândalo e a aura fria, porém acolhedora, preencheram o recinto. Qin sorriu, um sorriso que raramente mostrava aos seus "súditos" humanos como Lu Bu ou o barulhento Okita.

— Finalmente você retornou — disse Qin, levantando-se com a fluidez de um predador. — Onde quer que este Imperador esteja, é o centro do mundo, mas admito que o silêncio de Helheim faz falta.

O homem que atravessou a porta vestia as roupas de Hades, carregava o mesmo porte aristocrático e o olhar sereno, embora algo parecesse ligeiramente... deslocado. Mas Qin, empolgado pela rara sensação de companhia que não o sobrecarregava com dores empáticas, não questionou. O "Hades" à sua frente apenas acenou negativamente com a cabeça, como se estivesse exausto demais para falar, e estendeu a mão.

O que se seguiu foi um borrão de intimidade que, para Qin, era um refúgio. Eles foram para os aposentos privados. O Imperador, sempre tão independente e dono de si, permitiu-se ser guiado. No entanto, havia uma aspereza nos toques, uma urgência que não condizia com a nobreza estratégica e o carinho contido do verdadeiro Rei do Submundo. Quando o ato terminou e a figura se retirou silenciosamente, alegando precisar relatar-se a Zeus, Qin sentiu um calafrio que não vinha do frio de Helheim.

Ele esticou a mão para a mesa de cabeceira, pegando seu dispositivo de comunicação — uma tecnologia que Tesla insistira que todos tivessem. Havia uma notificação. Uma mensagem enviada há apenas cinco minutos.

"Meu Imperador, os assuntos em Helheim se prolongaram devido a uma revolta nas prisões de Tártaro. Devo chegar ao palácio em duas horas. Guarde o meu lugar ao seu lado."

O mundo de Qin Shi Huang desmoronou em um silêncio ensurdecedor.

O dispositivo caiu da sua mão, batendo no tapete sem ruído. Se Hades estava a caminho... quem estava ali agora pouco?

A sinestesia toque-espelho de Qin, aquela maldição que o fazia sentir a dor dos outros, de repente se voltou contra ele de uma forma psicológica. Ele sentiu a sujeira. Não era uma dor física, mas uma violação da sua soberania, do seu corpo, da sua dignidade como Rei. Um Deus menor, um metamorfo, um aproveitador... alguém havia usado a imagem do único ser que ele respeitava para profaná-lo.

Qin levantou-se da cama como se os lençóis estivessem em chamas. Seus movimentos eram erráticos, desprovidos da graça imperial que costumava exibir diante de Brunhilde ou dos outros deuses.

Ele correu para o banheiro privativo.

A água estava fervendo, mas ele não se importou. Ele entrou sob o chuveiro com roupas e tudo, antes de rasgá-las e jogá-las para longe como se fossem pele morta.

— Saia... saia de mim... — sussurrou, a voz embargada, algo que ninguém jamais ouvira do homem que unificou a China.

Ele esfregava a pele com uma força devastadora. Suas unhas deixavam marcas vermelhas nos braços, no peito, no estômago. Ele sentia o toque daquele impostor como se fossem vermes rastejando sob sua derme. Qin Shi Huang, o homem que desafiou o destino e a morte, estava encolhido no chão do box, enquanto a água levava embora suas lágrimas e o rastro de um crime que ele mal conseguia processar.

Ele tomou um banho, depois outro, e um terceiro. A pele estava em carne viva, mas o sentimento de impureza permanecia.

— Eu sou o Rei... — ele murmurava para as paredes de mármore, tentando recuperar a armadura emocional que construíra desde a infância, quando era apenas um órfão odiado em terras estrangeiras. — Eu sou... o único...

Mas a voz falhava. O trauma da infância, o desprezo e o abuso que sofrera antes de encontrar a luz com Chun Yan, ressurgiram como fantasmas famintos.

Horas depois, a porta principal dos aposentos rangeu.

Hades entrou, retirando as luvas brancas, os ombros levemente caídos pelo cansaço de lidar com as burocracias do Submundo. Ele esperava encontrar Qin sentado em algum lugar improvável, como em cima da mesa ou no parapeito da janela, com aquele sorriso confiante e irritante.

Em vez disso, encontrou o silêncio.

— Qin? — chamou Hades, sua voz profunda ecoando pelo quarto luxuoso. — Peço desculpas pelo atraso. Os portões do Tártaro exigiram minha presença física.

Não houve resposta. Hades franziu o cenho, sua intuição de governante alertando-o de que algo estava errado. Ele caminhou em direção ao quarto e parou abruptamente.

Qin estava sentado na beira da cama. Ele usava apenas uma toalha enrolada na cintura, seus cabelos negros estavam empastados e úmidos. Mas o que parou o coração de Hades foi a postura do Imperador. Ele não estava ereto. Seus ombros estavam curvados, e ele tremia. A venda estava caída sobre o pescoço, revelando olhos que, naquele momento, não brilhavam com orgulho, mas estavam nublados por um desespero profundo e silencioso.

— Qin... o que aconteceu? — Hades deu um passo à frente, mas parou quando Qin recuou violentamente, um soluço seco escapando de sua garganta.

— Não toque... não me toque agora — a voz de Qin era um fio, desprovida de qualquer majestade.

Hades sentiu uma fúria fria começar a borbulhar em seu sangue divino. Ele olhou para o chão e viu as roupas rasgadas, o dispositivo de comunicação jogado e a pele de Qin, que estava assustadoramente vermelha, quase em carne viva de tanto ser esfregada.

— Quem esteve aqui? — perguntou Hades, sua voz baixando para um tom perigoso que costumava fazer os demônios de Helheim se ajoelharem de terror.

Qin não respondeu. Ele apenas cobriu o rosto com as mãos, os soluços finalmente quebrando a barreira de seu orgulho. Ele chorava como a criança que um dia foi, a criança que sentia a dor do mundo e não tinha ninguém para protegê-la.

Hades, percebendo a gravidade da situação, não se aproximou com força. Ele se ajoelhou no chão, a uma distância respeitável, mantendo o nível de seus olhos abaixo dos de Qin — um gesto de submissão que o Rei do Submundo nunca fizera a ninguém.

— Alguém usou o meu rosto — deduziu Hades, a inteligência estratégica conectando os pontos com uma clareza dolorosa. — Alguém ousou usar a minha imagem para ferir o que é meu.

Qin Shi Huang olhou para ele através dos dedos, os olhos vermelhos e inchados.

— Eu... eu achei que era você — Qin engasgou. — Eu sou um tolo. Onde eu me sento é o meu trono... mas hoje... hoje eu não tenho lugar nenhum.

— Você é o Imperador de onde quer que deseje estar — disse Hades, sua voz agora suave, carregada de uma promessa de retribuição divina. — E você ainda é o homem que me enfrentou no Ragnarok com uma vontade de ferro. O que aconteceu hoje não diminui sua coroa, Qin. Foi uma covardia dos deuses, não uma falha sua.

Hades estendeu a mão lentamente, esperando o consentimento. Qin hesitou, a memória do toque impostor lutando contra a necessidade de conforto. Finalmente, o Imperador inclinou-se para frente, desabando contra o peito de Hades.

O Rei do Submundo o envolveu em um abraço protetor, sentindo a pele febril de Qin contra a sua.

— Eu vou encontrar quem fez isso — sussurrou Hades no ouvido de Qin, e o poder em sua voz fez as paredes do palácio tremerem. — E eu farei com que eles supliquem pela morte, mas a morte é o meu domínio, e eu não lhes concederei esse favor.

Qin Shi Huang, o homem que unificou o mundo, agarrou-se à túnica de Hades como se fosse sua única âncora em um mar de cinzas. Ele ainda era o Rei, mas naquela noite, ele se permitiu ser apenas um homem que precisava ser cuidado.

— Banhe-me de novo — pediu Qin, a voz abafada pelo peito de Hades. — Mas desta vez... use suas mãos. Tire o rastro dele de mim.

Hades fechou os olhos, uma lágrima solitária de ódio e compaixão escorrendo por seu rosto nobre.

— Com todo o cuidado do mundo, meu Imperador.

Naquela noite, o Submundo sentiu o peso da fúria de seu senhor, mas dentro daquele quarto, havia apenas o som da água e o esforço silencioso de um rei tentando reconstruir o outro.
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