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Fandom: Record of ragnarok

Criado: 09/06/2026

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O Espelho Quebrado da Realeza

A sala de projeção, um espaço místico criado pelas Valquírias para que os combatentes do Ragnarok pudessem revisar táticas e momentos cruciais, estava mergulhada em um silêncio sepulcral. Deuses e humanos, outrora inimigos mortais em uma arena de sangue, agora ocupavam poltronas de veludo, os olhos fixos na enorme tela que flutuava no centro do salão. No entanto, o que passava ali não era uma batalha. Não era o tilintar de espadas ou o brilho de poderes divinos. Era algo muito mais íntimo, e infinitamente mais cruel.

Qin Shi Huang, o Imperador da China, estava sentado na primeira fila, sua postura habitualmente arrogante e ereta agora parecia rígida como pedra. Ao seu lado, Hades, o Rei do Submundo, mantinha uma expressão de serena antecipação, esperando ver algum momento cotidiano de seu amado imperador enquanto ele estivera fora em uma breve viagem diplomática por Helheim.

A gravação começou.

A imagem mostrava os aposentos luxuosos de Qin. O Imperador estava animado, vestindo suas túnicas de seda, os olhos vendados, mas um sorriso radiante nos lábios. Ele esperava por Hades. Na tela, a porta se abriu e uma figura idêntica ao Rei do Submundo entrou. A aura, o porte, as vestes... tudo era perfeito.

— Você voltou cedo, meu querido — disse o Qin da tela, levantando-se com a elegância de um cisne e caminhando em direção à figura.

Hades, assistindo da plateia, franziu o cenho. Ele não se lembrava de ter chegado naquela hora. Ele se lembrava de ter tido um atraso nas fronteiras de Helheim. Um frio súbito percorreu sua espinha divina.

Na tela, o impostor não disse nada, apenas envolveu Qin em um abraço. A cena cortou, avançando no tempo por uma questão de decoro da projeção, mas o que veio a seguir destruiu o clima de qualquer um na sala. O "Hades" falso saiu do quarto com um sorriso de escárnio, transformando sua aparência em um deus menor, cujo rosto era desconhecido para a maioria, mas cujo prazer em enganar o Imperador era evidente.

Segundos depois, o Qin da tela, ainda na cama, tateou em busca de seu celular. Uma notificação brilhou.

"Hades: Meu imperador, perdoe o atraso. Houve um problema nas almas rebeldes. Chegarei em duas horas. Mal posso esperar para vê-lo."

O silêncio na sala de projeção tornou-se ensurdecedor. O barulho de um estalo ecoou: Hades tinha quebrado o braço de sua poltrona de mármore. Suas pupilas estavam dilatadas, o rosto pálido.

Na tela, o mundo de Qin Shi Huang desmoronou.

O Imperador, o homem que dizia que o caminho era onde ele pisava, deixou o celular cair. Ele não gritou. Ele não rugiu. Ele simplesmente começou a tremer. A câmera da gravação o seguiu enquanto ele cambaleava em direção ao banheiro.

O que se seguiu foi uma sequência de desespero visceral. Qin ligou o chuveiro no máximo. Ele entrou de roupas e tudo, caindo de joelhos sob a água. Ele começou a esfregar a própria pele com uma força que parecia querer arrancar o próprio couro. Suas unhas deixavam marcas vermelhas nos braços, no peito, no pescoço.

— Sai... sai de mim... — soluçava o Qin da tela, a voz sufocada pela água e pelo choro que ele tentava, em vão, conter. — Sujo... eu estou sujo...

Os humanos na sala estavam em choque. Adão cerrou os punhos, os olhos brilhando com uma fúria paterna. Jack, o Estripador, perdeu o sorriso cínico, sua visão de cores focada inteiramente no cinza profundo e doloroso que emanava de Qin. Nikola Tesla abaixou a cabeça, incapaz de olhar para a ciência daquela dor.

— Aquele desgraçado... — rosnou Leônidas, a voz rouca de ódio. — Quem foi o covarde?

Hades não conseguia falar. Ele sentia como se o próprio bidente estivesse atravessando seu peito. Ele olhou para o Qin real, sentado ao seu lado. O Imperador não se movia. Ele estava com os olhos fixos na tela, revivendo cada segundo daquela violação emocional e física.

Na gravação, Qin saiu do banho depois do que pareceram horas. Sua pele estava em carne viva, vermelha pelo atrito e pela água quente. Ele estava apenas de toalha, os cabelos úmidos colados ao rosto pálido. Ele se sentou na beira da cama, os ombros curvados, a imagem da derrota.

Nesse momento, o celular dele tocou. Era uma chamada de vídeo de Hades.

O Qin da tela respirou fundo. Ele limpou as lágrimas com movimentos bruscos, forçou os músculos do rosto a se contraírem no sorriso que ele usava para governar nações. Ele atendeu.

— Hades! — disse o Qin da tela, a voz levemente trêmula, mas carregada de uma falsa alegria que enganaria até o mais atento dos observadores. — Você está atrasado, sabia? Onde está o meu presente?

— Perdoe-me, meu rei — respondeu a voz de Hades através do aparelho na gravação. — Estou quase chegando. Você parece cansado... está tudo bem?

— Tudo perfeitamente bem! — Qin riu, um som que agora soava para todos na sala como vidro quebrando. — Eu só tomei um banho longo para te esperar. Venha logo, o trono está frio sem você.

A gravação terminou com o Qin da tela desligando o celular e desabando novamente em prantos assim que a imagem sumiu, abraçando os próprios joelhos no escuro do quarto.

A tela se apagou. A luz da sala voltou lentamente, mas ninguém se moveu.

Hades virou-se lentamente para Qin. Suas mãos tremiam, algo que nenhum deus jamais pensou ver no Rei do Submundo.

— Qin... — a voz de Hades era um sussurro quebrado. — Por que... por que você não me contou? Por que você sorriu para mim naquele dia como se nada tivesse acontecido?

Qin Shi Huang não respondeu de imediato. Ele se levantou, ajeitando a túnica com a elegância habitual, mas seus dedos ainda tremiam levemente. Ele olhou para os outros deuses — Zeus, Poseidon, Beelzebub — e para seus companheiros humanos.

— Um rei não sobrecarrega os outros com suas feridas — disse Qin, sua voz soando distante, como se viesse de outra era. — Um rei protege seu povo. Naquele momento, Hades... você era o meu povo. Eu não queria que você carregasse o peso da minha vergonha.

— Vergonha? — Hades levantou-se, a aura de Helheim explodindo ao seu redor em uma onda de poder negro e violeta. — A única vergonha aqui é a existência desse verme que ousou tocar em você usando a minha face! Qin, você foi violado, enganado... e você se preocupou com o meu peso?

— Eu sou o Imperador — Qin virou-se para ele, os olhos brilhando por trás da venda. — Eu decido o que me fere e o que não me fere. Mas...

Sua voz falhou. A fachada de arrogância vacilou por um milésimo de segundo, o suficiente para que Hades visse o mesmo homem desesperado do vídeo.

— Mas eu não conseguia tirar o toque dele de mim — sussurrou Qin, tão baixo que apenas Hades ouviu. — Por mais que eu lavasse... eu ainda sentia.

Hades não se importou com a plateia. Ele não se importou com a dignidade de um rei ou com os olhares surpresos de seus irmãos. Ele deu um passo à frente e envolveu Qin em um abraço protetor, apertando-o contra o peito como se quisesse protegê-lo de todo o universo.

— Eu vou matá-lo — prometeu Hades, a voz fria como o gelo mais profundo de Cocytus. — Eu vou caçar cada rastro da essência dele. Ele implorará por uma morte que eu nunca darei.

Zeus, que geralmente fazia piadas ou mantinha um ar de superioridade, estava com uma expressão sombria. Ele olhou para Hermes, que prontamente se aproximou.

— Descubra quem foi — ordenou Zeus, sem um pingo de sua habitual brincadeira. — Agora.

Poseidon, o Deus dos Mares, estava de pé, segurando seu tridente com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Ele não disse uma palavra, mas a pressão hidrostática na sala começou a subir. Para Poseidon, a honra da família era absoluta, e ver alguém usar a imagem de seu irmão mais velho para tal ato era um insulto que só poderia ser lavado com a extinção total da alma do culpado.

Buda levantou-se, jogando o palito de seu pirulito no chão.

— Isso não foi nada "iluminado" — disse ele, os olhos sérios. — Se precisarem de ajuda para encontrar o rato, eu estou dentro.

Qin, ainda nos braços de Hades, sentiu o calor do corpo do Rei do Submundo. Pela primeira vez desde aquele dia, o toque não parecia uma invasão. Ele respirou fundo, o cheiro de incenso e morte que emanava de Hades servindo como um bálsamo para sua alma ferida.

— Eu limpei o quarto depois — Qin murmurou, o rosto escondido no ombro de Hades. — Troquei os lençóis. Queimei as roupas. Eu achei que se eu fizesse tudo desaparecer, a memória também iria embora.

— Você não precisava passar por isso sozinho — disse Hades, afastando-se apenas o suficiente para segurar o rosto de Qin entre as mãos. — Nunca mais. Eu sou o Rei do Submundo, Qin. Eu governo o sofrimento e a dor. Deixe-me levar isso de você.

Sasaki Kojiro, observando de longe, limpou uma lágrima solitária.

— A força de um rei é admirável — comentou o espadachim para Lu Bu —, mas a dor que eles carregam em silêncio é uma carga que homem nenhum deveria suportar.

Lu Bu apenas assentiu, o olhar fixo no teto, respeitando o momento de um guerreiro que, mesmo sem armas, lutou uma das batalhas mais difíceis de sua vida dentro de um banheiro, tentando recuperar sua própria identidade.

Hades virou-se para a sala, seus olhos brilhando com uma promessa de destruição.

— A projeção acabou — declarou ele, a voz ecoando como um trovão. — Quem quer que tenha feito isso, saiba: não há lugar no céu, na terra ou no inferno onde você possa se esconder de mim.

Qin Shi Huang endireitou os ombros. Ele ainda sentia o eco daquela dor, mas agora, rodeado pelos deuses que o respeitavam e pelos humanos que o viam como seu maior representante, ele não era mais apenas o homem que chorava debaixo do chuveiro.

— Hao — disse Qin, recuperando um pouco de sua arrogância característica, embora sua mão ainda estivesse entrelaçada na de Hades. — Vamos encontrar esse impostor. Afinal, só existe um trono neste mundo, e ninguém usa a coroa do meu marido impunemente.

A sala se esvaziou rapidamente, cada um movido por um propósito diferente, mas todos unidos por uma fúria silenciosa. O Ragnarok poderia ser uma luta pela sobrevivência da humanidade, mas ali, naquele momento, a guerra era pessoal. E o Rei do Submundo, junto ao Imperador da China, estava prestes a mostrar ao universo o que acontece quando se tenta quebrar o espírito de um rei.

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