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Fandom: Nenhum

Criado: 09/06/2026

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O Equilíbrio Frágil Entre o Caos e a Doçura

O estúdio fotográfico improvisado na sala de estar da cobertura de Emanuel parecia um campo de batalha decorado com tons pastéis. O cheiro de talco, o brilho dos refletores e o som estridente do choro de um bebê criavam uma sinfonia de estresse que testava até mesmo a lendária paciência do tatuador.

Emanuel passou a mão pelos cabelos curtos, sentindo a tensão latejar em suas têmporas. Ele era um homem acostumado com a precisão das agulhas e o controle absoluto de seus estúdios ao redor do mundo, mas ali, entre as três mulheres de sua vida e suas duas filhas, a lógica parecia uma ferramenta inútil.

— Emanuel, pelo amor de Deus, segura essa criança! — Sara exclamou, ajeitando o decote do vestido justo de seda vermelha que moldava suas curvas. Ela estava impecável, como sempre, com o cabelo loiro platinado perfeitamente ondulado e uma maquiagem que desafiava o calor das luzes.

Ela segurava Ágata no colo. A pequena, de apenas oito meses, parecia uma extensão em miniatura da mãe: usava um vestido de grife, um laço gigante na cabeça e olhava para a câmera com uma expressão de tédio superior que beirava o cômico. Ágata não chorava; ela apenas observava o caos com desdém, pronta para sua próxima pose de "mini diva".

— Eu estou tentando, Sara — Emanuel respondeu, a voz grave e contida, enquanto tentava ninar Maya no outro braço.

Maya, a gêmea de cabelos castanhos, era o oposto da irmã. Ela soluçava, o rosto vermelhinho e as mãos pequenas agarradas à camisa de Emanuel. Ela era sensível, manhosa e parecia absorver toda a ansiedade do ambiente. Para Sara, a personalidade de Maya era um mistério irritante; ela via na filha a mesma fragilidade que tanto a provocava em Eduarda.

— Ela não vai parar enquanto não sentir o cheiro da Duda — Sara comentou, revirando os olhos e soltando um riso irônico. — É impressionante como você conseguiu fazer uma filha que é a cópia cuspida e escarrada da sua outra namorada. Onde está a garota, afinal?

— Ela está na cozinha pegando água, Sara. Tenha paciência — Emanuel retrucou, o tom de aviso na voz.

Nesse momento, Eduarda entrou na sala. Ela caminhava com passos leves, vestindo um vestido de linho cru e os cabelos castanhos presos em um coque frouxo que deixava alguns fios caírem sobre o rosto delicado. Aos 20 anos, a estudante de História da Arte exalava uma aura de paz que contrastava violentamente com a energia elétrica de Sara.

Ao ver Eduarda, Maya parou de chorar quase instantaneamente. A bebê esticou os bracinhos, soltando um som sôfrego de desejo.

— Oh, meu amor... venha cá com a Duda — Eduarda murmurou com sua voz doce, aproximando-se e pegando a bebê do colo de Emanuel.

O silêncio que se seguiu foi quase milagroso. Maya enterrou o rosto no pescoço de Eduarda, suspirando fundo e relaxando o corpinho esguio. Eduarda começou a balançar suavemente, cantarolando algo inaudível, enquanto beijava o topo da cabeça da menina.

— Viu só? — Sara cruzou as pernas, sentando-se no sofá de couro enquanto o fotógrafo ajustava as lentes. — É um grude que eu não entendo. Às vezes eu acho que você deu à luz a Maya por telepatia, Eduarda. Ela é igualzinha a você: chorona e carente.

Eduarda sentiu o rosto esquentar. Ela sempre ficava intimidada pela presença vibrante e, por vezes, vulgar de Sara, mas não conseguia revidar. Ela apenas apertou Maya um pouco mais forte.

— Ela só é sensível, Sara — Eduarda disse baixinho, sem olhar diretamente para a outra. — Ela precisa de calma.

Emanuel observava as duas. Ele amava Sara pela sua competência, pela força e pela forma como ela administrava seus negócios com punho de ferro. Mas ele precisava de Eduarda para respirar. Eduarda era o seu porto seguro, a doçura que ele buscava após um dia lidando com egos e contratos milionários. O fato de ela ainda morar com os pais era o seu maior ponto de frustração.

— Duda — Emanuel começou, aproximando-se dela e colocando a mão em sua cintura, atraindo-a para perto. — Você viu como a casa fica mais completa quando você está aqui? Maya precisa de você. Eu preciso de você. Por que não traz suas coisas de uma vez?

Eduarda olhou para ele com aqueles olhos expressivos e úmidos, que sempre pareciam prestes a contar um segredo emocional.

— Emanuel, nós já conversamos... eu ainda não me sinto pronta. Meus pais são maravilhosos, mas eu sinto que preciso de um pouco mais de tempo para essa transição. Morar aqui, com a Sara, com as meninas... é uma mudança muito grande.

Emanuel fechou os olhos por um segundo, a mandíbula contraída.

— Você tem vinte anos, Eduarda. Já é adulta. Eu tenho espaço, tenho recursos, e quero minhas duas mulheres sob o mesmo teto. A Sara já concordou, não é, Sara?

Sara, que retocava o batom vermelho vibrante no reflexo do celular, deu de ombros.

— Por mim, tanto faz. Se ela vier, pelo menos ela cuida da Maya quando a menina resolver entrar em crise existencial. Eu tenho mais o que fazer, os relatórios do estúdio de Londres não vão se conferir sozinhos.

— Não fale assim, Sara — Emanuel repreendeu, embora soubesse que a competência dela era o que mantinha parte de sua engrenagem funcionando.

— Falo a verdade, querido — Sara levantou-se, caminhando até eles com um andar provante. Ela parou na frente de Eduarda e tocou o ombro da mais nova com uma unha longa e bem feita. — Você é bonitinha, Duda. É doce. Mas precisa crescer um pouco. O Emanuel não vai ter essa paciência toda para sempre. Aproveita que eu não te vejo como ameaça e aceita logo o convite. Seria divertido ter uma "esposa de step" para cuidar do que eu não tenho saco.

Eduarda encolheu os ombros, sentindo-se pequena sob o olhar predatório de Sara. Para Sara, Eduarda era quase como um animal de estimação exótico: inofensiva, fofa, mas sem a "fibra" necessária para o mundo real. Sara se sentia a rainha do castelo, a namorada principal, a mãe da herdeira "perfeita" Ágata.

— Vamos logo com essas fotos — Emanuel interrompeu, percebendo o desconforto de Eduarda. — O fotógrafo está esperando.

O ensaio recomeçou. Ágata posava como uma profissional, sentada entre almofadas de veludo, enquanto Maya só aceitava ficar no cenário se Eduarda estivesse ao alcance de sua visão. Em um momento, o fotógrafo pediu uma foto de Emanuel com as duas bebês.

Quando Emanuel pegou Maya, a menina começou a choramingar novamente, procurando por Eduarda.

— Pelo amor de Deus, Maya! — Sara exclamou, perdendo a paciência. — Deixa seu pai tirar a foto! Parece que você não tem sangue nas veias, só açúcar.

— Sara, chega! — Emanuel explodiu, o tom de voz fazendo o fotógrafo recuar um passo. — Ela é um bebê. Se ela quer a Eduarda, a Eduarda fica na foto também.

— O quê? — Sara arqueou uma sobrancelha. — Esse é o ensaio de mesversário das *minhas* filhas, Emanuel.

— Nossas filhas — ele corrigiu, firme. — E a Eduarda faz parte da nossa vida. Duda, por favor, sente-se ali.

Eduarda hesitou, olhando de Emanuel para Sara. Ela detestava conflitos. Sua vontade era correr para o quarto e se esconder, mas o olhar de súplica de Emanuel e o choro de Maya a venceram. Ela se aproximou timidamente e sentou-se no tapete de pele sintética, ao lado de Emanuel.

A composição era estranha e, ao mesmo tempo, fascinante. De um lado, Sara, exuberante e dominante, segurando Ágata que olhava para a câmera com um brilho de superioridade. No centro, Emanuel, a figura de autoridade tentando manter as peças unidas. E do outro lado, Eduarda, com Maya aninhada em seu colo, ambas transmitindo uma fragilidade serena e uma conexão profunda.

— Isso... mantenham assim — disse o fotógrafo, disparando os flashes.

Por um breve momento, a tensão pareceu se dissipar. Maya sorriu, um sorriso banguela e doce, enquanto agarrava o dedo de Eduarda. Emanuel relaxou os ombros e permitiu-se um meio sorriso, observando a cena. Ele tinha tudo o que queria: a força de Sara e a delicadeza de Eduarda. O problema era que o preço para manter esse equilíbrio era uma corda bamba constante.

Após o término das fotos, Sara pegou Ágata e saiu em direção ao quarto, reclamando que precisava tirar aquela maquiagem pesada. O fotógrafo começou a desmontar o equipamento.

Emanuel e Eduarda ficaram sozinhos na sala com Maya, que agora dormia calmamente no colo da jovem.

— Ela te ama tanto — Emanuel sussurrou, sentando-se no chão ao lado de Eduarda e passando o braço por seus ombros. — Você é a mãe que o lado sensível dela precisa, Duda.

Eduarda encostou a cabeça no ombro dele, sentindo o perfume amadeirado e o calor de seu corpo.

— Eu também a amo, Emanuel. Mas a Sara... ela me faz sentir como se eu estivesse sobrando.

— Você nunca sobra — ele disse com convicção, beijando a testa dela. — A Sara é... a Sara. Ela é barulhenta, ela quer o controle, mas ela sabe que eu preciso de você para não enlouquecer. Fica hoje? Por favor.

Eduarda olhou para o relógio. Seus pais, embora modernos e compreensivos sobre o relacionamento poliamoroso de Emanuel, ainda esperavam que ela voltasse para jantar. Mas o peso de Maya em seus braços e o olhar cansado de Emanuel a desarmaram.

— Eu fico — ela cedeu, sentindo a habitual onda de culpa e desejo misturarem-se. — Mas você tem que prometer que não vai deixar a Sara ser tão dura com a Maya. Ela é só um bebê, Emanuel. Ela não é um acessório de moda.

Emanuel suspirou, sentindo a pressão de ser o mediador de dois mundos tão distintos.

— Eu prometo. Eu vou falar com ela.

Nesse momento, a voz de Sara ecoou do corredor:

— Emanuel! Onde está o relatório da filial de Tóquio? Eu preciso revisar isso antes de dormir!

Emanuel soltou um riso seco e sem humor.

— O dever chama. A rainha não descansa.

Ele se levantou, mas antes de sair, inclinou-se e deu um beijo demorado em Eduarda, um beijo que carregava toda a sua possessividade e necessidade.

— Eu já volto para você — ele prometeu.

Eduarda ficou sozinha na penumbra da sala, observando o rosto tranquilo de Maya. Ela sabia que, para o mundo lá fora, aquela dinâmica era incompreensível. Uma namorada que era a força motriz dos negócios e a mãe biológica, e outra que era o refúgio emocional e a mãe de alma.

Ela sabia que Emanuel era um homem que acumulava poder e pessoas, e que sua necessidade de controle era o que mantinha tudo de pé. Mas, enquanto sentia o coração de Maya batendo contra o seu, Eduarda se perguntava por quanto tempo aquele equilíbrio frágil resistiria antes que a força de Sara ou a sua própria insegurança fizessem tudo desmoronar.

Por enquanto, porém, havia apenas o silêncio da cobertura luxuosa e o peso doce de um bebê que a escolhera como porto seguro. E para Eduarda, naquele momento, isso era o suficiente para abafar o barulho do resto do mundo.
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