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Fandom: Nenhum

Criado: 10/06/2026

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Entre o Instinto e a Eternidade

O ar no escritório de Emanuel era denso, carregado com o cheiro de couro, tinta de tatuagem e o perfume caro e cítrico de Sara. Ele estava sentado atrás de sua mesa de carvalho maciço, os olhos fixos em uma planilha de custos de sua nova unidade em Tóquio. Como Alfa, sua presença emanava uma autoridade natural, um peso que fazia o ambiente parecer menor do que realmente era.

Sara estava sentada de forma desleixada na poltrona à frente dele, cruzando as pernas longas e torneadas. O vestido vermelho curto e justo realçava cada curva de seu corpo escultural, e o brilho do silicone sob o tecido fino era um testamento de sua confiança inabalável. Ela retocava o batom, olhando-se no reflexo de um espelho de mão.

— Esses fornecedores da Europa estão tentando nos passar a perna, Manu — disse ela, a voz carregada de uma ironia cortante. — Eles acham que, porque você é um artista, não entende de números. Mal sabem eles que eu reviso cada centavo antes de você assinar.

Emanuel levantou os olhos, a expressão séria e cansada. Ele amava a audácia de Sara. Ela era uma loba Beta, forte, feroz e leal. Sua competência na administração era inegável, mesmo que seu estilo fosse, por vezes, considerado vulgar por quem não a conhecia. Para ele, ela era a tempestade que ele aprendera a navegar.

— Eu sei, Sara. Por isso confio essa parte a você — ele respondeu, a voz rouca. — Mas hoje a reunião não é sobre os estúdios de tatuagem. É sobre a expansão imobiliária no setor leste. Os proprietários do terreno vizinho à galeria vêm pessoalmente.

Sara bufou, guardando o espelho na bolsa de grife.

— Outros investidores chatos? Espero que não demorem. Temos aquela festa na alcateia hoje à noite e eu pretendo chegar parando tudo.

Antes que Emanuel pudesse responder, a porta se abriu. O secretário anunciou a chegada da família proprietária. Foi nesse instante que o mundo de Emanuel, regido pela lógica e pelo instinto de lobo, sofreu um abalo sísmico.

Eduarda entrou na sala logo atrás de seu pai. Ela parecia uma visão de outro tempo, uma criatura deslocada da realidade brutal em que Emanuel vivia. Vestia um vestido de seda em tom pastel, leve e fluido, que mal tocava sua silhueta esguia. A pele era de um pálido quase translúcido, e os olhos castanhos, grandes e expressivos, brilhavam com uma timidez que beirava o medo.

Emanuel sentiu o cheiro dela antes mesmo de processar sua imagem. Não era o cheiro de sangue vivo e pulsante que os lobos costumavam caçar. Era algo mais sutil, como flores noturnas e baunilha, com um fundo metálico e frio que denunciava sua natureza: uma vampira.

Ele se levantou automaticamente, os instintos de Alfa gritando em seu peito. Mas não era um grito de agressão. Era algo possessivo, avassalador.

— Boa tarde — a voz de Eduarda saiu como um sussurro, doce e trêmula. Ela se encolheu levemente atrás do ombro do pai, buscando proteção.

Sara, percebendo a mudança na postura de Emanuel, estreitou os olhos. Ela avaliou a garota de cima a baixo. Para Sara, Eduarda parecia uma boneca de porcelana que quebraria com um sopro. Não sentiu ameaça; sentiu uma mistura de curiosidade e uma leve simpatia superior.

— Então vocês são os vizinhos? — Sara perguntou, sem se levantar, a voz carregada de sua confiança habitual. — Achei que vampiros preferissem reuniões à noite.

— Nós... nós não temos problemas com a luz filtrada — respondeu Eduarda, olhando para Emanuel por apenas um segundo antes de desviar o olhar, corando levemente.

Emanuel não conseguia parar de olhar para ela. A fragilidade de Eduarda o atingiu de uma forma que ele nunca experimentou. Ele estava acostumado com a força de Sara, com a disputa de controle, com a energia bruta dos lobos. Eduarda era o oposto. Ela era o silêncio, a suavidade, a necessidade de proteção encarnada.

A reunião prosseguiu, mas Emanuel mal ouvia os termos contratuais discutidos pelo pai de Eduarda. Seus olhos seguiam cada movimento da jovem. Ela brincava com os dedos, visivelmente desconfortável com o ambiente carregado. Quando seus olhares se cruzaram novamente, Emanuel viu uma intuição emocional profunda nela. Ela parecia ler o estresse dele, a tensão acumulada em seus ombros.

— Você está bem? — ela sussurrou, tão baixo que apenas a audição aguçada dos lobos na sala captou.

Emanuel sentiu um aperto no peito.

— Sim — ele respondeu, a voz mais suave do que o normal. — Apenas um dia longo.

Sara soltou uma risadinha irônica, cruzando os braços sobre os seios fartos.

— O Manu vive estressado, docinho. Ele precisa de mãos firmes para mantê-lo na linha.

Eduarda olhou para Sara com uma admiração tímida.

— Você parece muito forte — disse Eduarda, com uma sinceridade que desarmou até mesmo a acidez de Sara. — Eu admiro isso. Eu sou... um pouco desastrada com negócios. Prefiro a História da Arte.

Sara sorriu, um sorriso genuíno, embora tingido de arrogância.

— História da Arte? É, combina com você. Parece que saiu de um quadro antigo.

Emanuel sentiu uma possessividade estranha queimar em suas veias. Ele olhou para Sara, sua companheira de anos, a mulher que entendia seu lado selvagem. Depois olhou para Eduarda, a criatura que parecia despertar um lado dele que ele nem sabia que existia: um desejo de acolher, de esconder do mundo, de cuidar de cada uma de suas inseguranças.

Ele era um Alfa. Ele era o dono de um império. A lógica dizia que ele já tinha tudo o que precisava com Sara. Mas seu instinto, agora, clamava por algo mais. Ele queria a força de uma e a doçura da outra.

Ao final da reunião, enquanto o pai de Eduarda organizava os papéis, Emanuel se aproximou da jovem vampira. Ele era muito mais alto, sua presença física quase a engolindo. Eduarda olhou para cima, os lábios entreabertos, uma expressão de pura vulnerabilidade.

— Você estuda em qual universidade? — ele perguntou, a voz baixa, quase íntima.

— Na Federal... — ela respondeu, sentindo o calor emanar do corpo dele, algo tão diferente do frio constante de sua própria espécie. — Eu... eu gosto de passar as tardes na biblioteca de artes. É silencioso.

— Eu vou te visitar — Emanuel afirmou. Não foi um pedido, foi uma promessa.

Eduarda estremeceu, um arrepio que não era de medo, mas de uma antecipação desconhecida. Ela buscou apoio emocional no olhar dele, inclinando a cabeça levemente para o lado, um gesto manhoso que fez o lobo dentro de Emanuel uivar.

— Eu gostaria disso — ela murmurou.

Sara se aproximou, passando o braço pela cintura de Emanuel e colando seu corpo ao dele. Ela marcou seu território com a naturalidade de quem sabe que é a rainha.

— Vamos, Manu? Temos muito o que fazer nos estúdios hoje. Tchau, boneca. Tente não se perder no caminho de casa.

Eduarda deu um tchauzinho tímido com a mão e saiu da sala com o pai. Emanuel ficou parado, sentindo o perfume de Sara e o rastro doce de Eduarda no ar.

— Ela é fofa, não é? — Sara comentou, enquanto caminhavam para o elevador privativo. — Uma coisinha de nada. Parece que se eu apertar muito, ela desmancha.

— Ela é diferente — Emanuel disse, sua mente já trabalhando em como integrar aquela nova peça ao seu mundo.

— É, mas não é nosso tipo — Sara continuou, alheia ao turbilhão interno do companheiro. — Vampiros são tão... estáticos. Prefiro o nosso fogo.

Emanuel parou o elevador entre os andares, pressionando Sara contra a parede espelhada. Ele a beijou com uma intensidade feroz, sentindo a resposta imediata e agressiva dela. Sara era seu porto seguro na batalha, sua igual em ambição e desejo.

No entanto, enquanto suas mãos percorriam as curvas de Sara, sua mente trazia a imagem de Eduarda. Ele imaginava a pele pálida da vampira sob suas mãos, a reação que ela teria ao seu toque bruto, o modo como ela se aninharia em seu peito em busca de proteção contra o mundo que a assustava.

Ele era um lobo, e lobos eram caçadores.

— Manu? — Sara ofegou, surpresa com a intensidade repentina dele. — O que foi?

Emanuel encostou a testa na dela, os olhos brilhando em um tom de âmbar que denunciava o lobo vindo à superfície.

— Eu quero tudo, Sara — ele sussurrou contra os lábios dela. — Eu sempre consigo o que eu quero.

Sara riu, achando que ele falava de negócios ou de poder.

— Eu sei que consegue, meu lobo. É por isso que eu estou com você.

Emanuel voltou a ligar o elevador, um sorriso sombrio e determinado brincando em seus lábios. Ele amava Sara com uma paixão visceral. E, a partir daquele momento, ele sabia que protegeria Eduarda com cada fibra de seu ser.

Ele não via conflito naquilo, apenas uma nova ordem. Sara seria sua força, sua parceira nos negócios e na alcateia. Eduarda seria seu refúgio, sua doçura, a criatura que ele mimaria e guardaria em uma redoma de ouro.

A vampira era frágil demais para o mundo lá fora, e ele era o único homem — o único monstro — capaz de dar a ela a segurança que ela tanto buscava.

Naquela noite, enquanto Sara dormia profundamente ao seu lado, Emanuel abriu o notebook e começou a pesquisar sobre a faculdade de História da Arte. Ele viu fotos da biblioteca, dos jardins. Ele já conseguia imaginar Eduarda sentada em um banco de pedra, cercada de livros, esperando por ele.

Ele enviaria flores no dia seguinte. Flores brancas, delicadas como ela. E deixaria claro para quem quisesse ver: Eduarda agora estava sob a proteção do Alfa.

Emanuel fechou os olhos, sentindo o conflito latente entre a racionalidade que sempre o guiara e a nova obsessão emocional que o consumia. Ele sabia que Sara não aceitaria facilmente dividir sua atenção, mas ele também sabia que Sara o amava o suficiente para entender que, no final, a vontade do Alfa era a lei.

Ele teria a loba e a vampira. A tempestade e a calmaria. O império e o santuário.

O jogo estava apenas começando, e Emanuel já tinha decidido o final.
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