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Fandom: Nenhum
Criado: 10/06/2026
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RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoPsicológicoSombrioCiúmesEstudo de PersonagemNoirRealismoRomanceHistória DomésticaFatias de VidaOmegaversoGótico Sulista
O Peso de Dois Mundos
O som da máquina de tatuagem era o hino constante da vida de Emanuel. No estúdio principal, localizado em uma cobertura luxuosa no centro da cidade, ele finalizava um fechamento de costas. Cada traço era preciso, fruto de anos de dedicação que o transformaram em um dos nomes mais influentes do mercado mundial. Aos vinte e cinco anos, ele tinha tudo: dinheiro, prestígio e uma mulher que, aos seus olhos, era a definição de poder e desejo.
— Emanuel, querido, os relatórios de Londres chegaram. A logística da nova unidade está um caos, mas eu já dei um jeito. — A voz de Sara preencheu a sala antes mesmo de sua figura imponente aparecer.
Ela encostou-se no batente da porta, segurando um tablet. Sara era o tipo de mulher que não passava despercebida; os cabelos loiros platinados estavam perfeitamente alinhados, o vestido vermelho justo realçava cada curva de seu corpo esculpido por cirurgias e academia, e o perfume doce e caro parecia marcar território. Embora muitos a vissem como alguém vulgar pelo excesso de confiança e roupas provocantes, Emanuel via nela uma parceira leal e uma administradora implacável.
— Obrigado, Sara. Você sabe que eu não teria paciência para lidar com esses burocratas — respondeu Emanuel, limpando o excesso de tinta da pele do cliente.
— Eu sei. É por isso que você me tem. — Ela caminhou até ele, depositando um beijo possessivo em seu pescoço, ignorando o cliente ali presente. — E não se esqueça: hoje é o jantar na casa dos seus pais. Aquele assunto... o "acordo".
Emanuel sentiu um nó no estômago. O acordo. Desde criança, seus pais e os de uma tal Eduarda haviam selado um compromisso de casamento por conveniência familiar. Emanuel sempre considerou aquilo uma barbárie medieval. Ele amava Sara. Eles moravam juntos há dois anos. Ele não precisava de uma desconhecida para completar sua vida.
— Eu vou acabar com isso hoje, Sara. Não vou permitir que decidam meu futuro. Eu amo você e é você quem está ao meu lado.
Sara sorriu, uma expressão de triunfo brilhando em seus olhos pintados. Ela sabia do casamento prometido, mas nunca se sentiu ameaçada. Para ela, uma garota escolhida pelos pais de Emanuel seria, no máximo, uma boneca de porcelana sem sal, incapaz de competir com sua presença vibrante.
— Ótimo. Estarei pronta às oito. Vamos mostrar a eles quem manda na sua vida.
***
O jantar na mansão dos Albuquerque exalava formalidade. O lustre de cristal iluminava a mesa posta com porcelana fina, um contraste gritante com as tatuagens que subiam pelo pescoço de Emanuel sob o terno sob medida. Sara estava ao seu lado, usando um decote profundo que claramente incomodava a mãe de Emanuel, mas ela parecia se deliciar com o desconforto alheio.
— Isso é ridículo, pai — Emanuel disse, a voz baixa e carregada de tensão, antes mesmo de os convidados chegarem. — Eu sou um homem feito. Tenho meus negócios, tenho a Sara. Eu não vou me casar com uma estranha.
— Você não a conhece, Emanuel — rebateu o pai, firme. — É uma questão de honra entre as famílias. Os pais dela estão chegando. Comporte-se.
A campainha tocou, e o coração de Emanuel acelerou, não de expectativa, mas de raiva. Ele estava pronto para ser rude, para deixar claro que aquela união jamais aconteceria.
Então, ela entrou na sala.
Eduarda parecia ter saído de uma pintura renascentista que Emanuel estudara em seus tempos de aprendizagem artística. Ela usava um vestido de seda azul-claro, leve e fluido, que parecia flutuar ao redor de suas pernas esguias. O cabelo castanho escuro caía em ondas naturais sobre os ombros delicados. Ela não tinha a maquiagem pesada de Sara, nem sua postura predatória. Eduarda mantinha os olhos baixos, as mãos pequenas entrelaçadas à frente do corpo, exalando uma fragilidade que atingiu Emanuel como um soco no peito.
— Boa noite — murmurou ela, a voz tão suave que ele precisou se inclinar levemente para ouvir.
Quando ela finalmente levantou o olhar, Emanuel ficou mudo. Os olhos de Eduarda eram expressivos, carregados de uma timidez doce e uma intuição profunda. Ela parecia ler o ambiente, sentindo a tensão elétrica entre Emanuel e Sara.
— Emanuel, esta é Eduarda — apresentou a mãe dele, com um sorriso vitorioso ao notar o choque no rosto do filho.
— Prazer — conseguiu dizer Emanuel, sua voz saindo mais rouca do que o pretendido.
Sara, sentindo a mudança súbita na energia do namorado, apertou o braço dele. Ela analisou Eduarda de cima a baixo. "Uma menina", pensou Sara com desdém. "Bonitinha, mas sem fogo".
— Olá, querida! Eu sou a Sara, namorada do Emanuel. — Sara estendeu a mão, o tom de voz carregado de uma simpatia forçada e superior. — Você deve ser a noiva por contrato. Que situação engraçada, não é?
Eduarda estremeceu levemente com a abordagem direta e o tom irônico de Sara. Ela apertou a mão da loira com delicadeza.
— É um prazer conhecer você, Sara. Eu... eu sinto muito se minha presença causa algum desconforto.
— Desconforto? Imagina! — Sara riu, sentando-se à mesa. — Emanuel e eu não temos segredos. A gente até se diverte com essas histórias da carochinha dos seus pais.
Durante o jantar, Emanuel mal conseguiu tocar na comida. Ele estava em um estado de confusão mental absoluto. Pela lógica, ele deveria estar ignorando Eduarda e reafirmando seu compromisso com Sara. Mas seus olhos não conseguiam deixar a figura à sua frente. Eduarda falava pouco, mas quando falava, mencionava seus estudos em História da Arte, sua paixão por museus e pela tranquilidade. Ela era o oposto do caos vibrante que era a vida de Emanuel.
Em certo momento, o pé de Eduarda esbarrou acidentalmente no dele sob a mesa. Ela se retraiu instantaneamente, o rosto ganhando um tom de rosa profundo.
— Desculpe — sussurrou ela, olhando para ele com uma expressão tão manhosa e vulnerável que Emanuel sentiu um instinto de proteção avassalador despertar.
— Tudo bem, Eduarda. Não foi nada — respondeu ele, e pela primeira vez na noite, seu tom de voz foi suave, perdendo a rigidez que mantinha com Sara.
Sara percebeu. Ela era inteligente demais para não notar como o olhar de Emanuel havia mudado. A confiança dela não foi abalada — ela ainda se considerava a "namorada principal", a mulher que ele amava —, mas uma centelha de competitividade se acendeu.
***
Após o jantar, enquanto os pais conversavam na biblioteca, os três ficaram sozinhos no jardim de inverno. O silêncio era pesado. Eduarda estava sentada em um banco de ferro, observando as flores, parecendo querer desaparecer.
— Então, Eduarda — começou Sara, caminhando até ela com um copo de vinho na mão —, o que uma menina de vinte anos pretende fazer da vida casada com um homem que já tem uma mulher?
— Sara, chega — interveio Emanuel, embora sua voz não tivesse a agressividade usual.
— Eu só estou sendo prática, querido! — Sara deu de ombros, sorrindo para Eduarda. — Você é fofa, de verdade. Parece um bichinho de estimação. Eu não me importo que você se case com ele, sabe? Contratos são contratos. Mas o Emanuel mora comigo. O coração dele, o corpo dele... tudo isso pertence à loira aqui.
Eduarda sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ela era sensível, intuitiva, e a crueza de Sara a machucava, embora não a surpreendesse. Ela olhou para Emanuel, buscando algum apoio.
— Eu não quero causar problemas — disse Eduarda, a voz trêmula. — Eu também não escolhi isso, Emanuel. Meus pais dizem que é o melhor para mim, que você é um homem honrado...
Emanuel caminhou até ela. Sem pensar, ele colocou a mão no ombro de Eduarda. A pele dela era fria e macia, e o toque pareceu enviar uma descarga elétrica pelo braço dele.
— Eduarda, olhe para mim.
Ela obedeceu. O olhar dela era de uma entrega tão absoluta, de uma necessidade de proteção tão latente, que Emanuel sentiu sua racionalidade ruir. Ele sempre fora o porto seguro de todos, o homem que controlava impérios de tatuagem e negócios complexos. Mas ali, diante daquela fragilidade, ele se sentiu necessário de uma forma que Sara nunca permitiu. Sara era sua igual, sua parceira de guerra. Eduarda era algo que ele precisava guardar, cuidar, esconder do mundo.
— Eu não vou deixar ninguém te machucar — afirmou Emanuel, esquecendo-se por um segundo de que Sara estava logo atrás deles. — Nem mesmo as palavras da Sara.
Sara arqueou uma sobrancelha, um sorriso irônico brincando em seus lábios.
— Ora, ora... o cavaleiro andante apareceu. Cuidado, Emanuel, ou vou começar a achar que você está gostando da ideia de ter duas mulheres em casa.
Emanuel virou-se para Sara, a tensão acumulada brilhando em seus olhos.
— Sara, suba para o carro. Eu preciso terminar de falar com Eduarda a sós.
— Vai me dar ordens agora? — Ela riu, mas viu que ele falava sério. Sara não tinha medo dele, mas sabia quando recuar para manter o controle depois. — Tudo bem. Não demore. Temos muito o que "conversar" quando chegarmos em casa.
Ela saiu, o som de seus saltos estalando no mármore, deixando para trás um rastro de perfume forte e um Emanuel confuso.
Ele voltou sua atenção para Eduarda. Ela parecia ainda mais pequena agora.
— Você está bem? — perguntou ele, a voz baixa.
— Ela é muito bonita — disse Eduarda, ignorando a pergunta. — E ela parece te conhecer muito bem.
— Ela conhece. Estamos juntos há muito tempo.
— Você a ama? — Eduarda perguntou, os olhos expressivos fixos nos dele, buscando a verdade.
Emanuel hesitou. A resposta lógica era "sim". Ele amava a energia de Sara, a cumplicidade, o sexo selvagem, a forma como ela geria seus negócios. Mas, ao olhar para Eduarda, ele sentiu algo que não era paixão ardente, era algo mais profundo, mais antigo. Era uma conexão que ele não sabia explicar.
— Eu achava que sim — ele confessou, a honestidade escapando antes que ele pudesse filtrá-la. — Mas agora, olhando para você... eu sinto que o mundo ficou muito mais complicado do que eu planejei.
Eduarda deu um passo à frente, aproximando-se dele. O cheiro dela era de sabonete de flores e algo puramente natural. Ela se apoiou levemente no peito dele, um gesto de carinho e busca por abrigo que era natural de sua personalidade manhosa.
— Eu não quero te tirar nada, Emanuel. Eu só... eu sempre soube que você existia. Eu cresci ouvindo seu nome. Na minha cabeça, eu já era sua antes mesmo de te ver.
Emanuel fechou os olhos, sentindo o peso daquela declaração. Ele era um homem racional, prático. O plano era simples: casar-se no papel com Eduarda para satisfazer os pais, mantê-la em uma casa separada e continuar sua vida com Sara. Mas, ao sentir o corpo leve de Eduarda contra o seu, ele soube que não conseguiria mantê-la à distância.
Ele a queria. Queria a força e a agressividade de Sara, o brilho da loira que o desafiava e o ajudava a construir seu império. Mas ele também desejava desesperadamente a paz que Eduarda emanava, a doçura de cuidar de alguém que o via como um herói, e não apenas como um sócio ou amante.
— Esse casamento vai acontecer — disse Emanuel, sua voz agora firme, assumindo o controle da situação. — Mas as coisas não serão como nossos pais planejaram. E nem como a Sara imagina.
— O que você quer dizer? — perguntou Eduarda, olhando para cima.
Emanuel tocou o rosto dela, o polegar acariciando a pele sedosa da bochecha.
— Quero dizer que eu não vou escolher entre vocês duas. Sara é minha vida, meu braço direito. Mas você... você é algo que eu não sabia que precisava até este momento.
Ele a puxou para um abraço apertado. Eduarda se aninhou nele, fechando os olhos, sentindo-se finalmente segura.
Lá fora, no carro, Sara retocava o batom vermelho no espelho. Ela não estava brava. Ela estava excitada com o desafio. Ela sabia que Emanuel estava sendo fisgado, mas em sua mente, ela era a rainha do tabuleiro. Se Eduarda queria entrar no jogo, teria que aprender as regras de Sara.
Emanuel, no entanto, sentia a tensão crescer em seus ombros. Ele sabia que estava entrando em um caminho perigoso. O controle que ele tanto prezava estava escorrendo por seus dedos. Ele tinha uma mulher que era puro fogo e outra que era pura água. E, pela primeira vez em sua vida, ele estava disposto a se queimar e a se afogar ao mesmo tempo.
— Vamos entrar — disse ele para Eduarda. — Temos que oficializar os termos.
Ao caminhar de volta para a sala, Emanuel sentiu o peso dos olhares de seus pais e o fantasma da presença de Sara lá fora. Ele era um tatuador; ele sabia que certas marcas eram permanentes. E ele acabara de decidir que queria as marcas de ambas em sua alma, não importava o preço que teria que pagar por esse egoísmo.
A vida de Emanuel Albuquerque nunca mais seria simples. E, no fundo, enquanto sentia a mão pequena de Eduarda segurando a sua, ele percebeu que a simplicidade era um preço pequeno demais a pagar pela possessão total daquelas duas mulheres tão distintas. O caos estava apenas começando.
— Emanuel, querido, os relatórios de Londres chegaram. A logística da nova unidade está um caos, mas eu já dei um jeito. — A voz de Sara preencheu a sala antes mesmo de sua figura imponente aparecer.
Ela encostou-se no batente da porta, segurando um tablet. Sara era o tipo de mulher que não passava despercebida; os cabelos loiros platinados estavam perfeitamente alinhados, o vestido vermelho justo realçava cada curva de seu corpo esculpido por cirurgias e academia, e o perfume doce e caro parecia marcar território. Embora muitos a vissem como alguém vulgar pelo excesso de confiança e roupas provocantes, Emanuel via nela uma parceira leal e uma administradora implacável.
— Obrigado, Sara. Você sabe que eu não teria paciência para lidar com esses burocratas — respondeu Emanuel, limpando o excesso de tinta da pele do cliente.
— Eu sei. É por isso que você me tem. — Ela caminhou até ele, depositando um beijo possessivo em seu pescoço, ignorando o cliente ali presente. — E não se esqueça: hoje é o jantar na casa dos seus pais. Aquele assunto... o "acordo".
Emanuel sentiu um nó no estômago. O acordo. Desde criança, seus pais e os de uma tal Eduarda haviam selado um compromisso de casamento por conveniência familiar. Emanuel sempre considerou aquilo uma barbárie medieval. Ele amava Sara. Eles moravam juntos há dois anos. Ele não precisava de uma desconhecida para completar sua vida.
— Eu vou acabar com isso hoje, Sara. Não vou permitir que decidam meu futuro. Eu amo você e é você quem está ao meu lado.
Sara sorriu, uma expressão de triunfo brilhando em seus olhos pintados. Ela sabia do casamento prometido, mas nunca se sentiu ameaçada. Para ela, uma garota escolhida pelos pais de Emanuel seria, no máximo, uma boneca de porcelana sem sal, incapaz de competir com sua presença vibrante.
— Ótimo. Estarei pronta às oito. Vamos mostrar a eles quem manda na sua vida.
***
O jantar na mansão dos Albuquerque exalava formalidade. O lustre de cristal iluminava a mesa posta com porcelana fina, um contraste gritante com as tatuagens que subiam pelo pescoço de Emanuel sob o terno sob medida. Sara estava ao seu lado, usando um decote profundo que claramente incomodava a mãe de Emanuel, mas ela parecia se deliciar com o desconforto alheio.
— Isso é ridículo, pai — Emanuel disse, a voz baixa e carregada de tensão, antes mesmo de os convidados chegarem. — Eu sou um homem feito. Tenho meus negócios, tenho a Sara. Eu não vou me casar com uma estranha.
— Você não a conhece, Emanuel — rebateu o pai, firme. — É uma questão de honra entre as famílias. Os pais dela estão chegando. Comporte-se.
A campainha tocou, e o coração de Emanuel acelerou, não de expectativa, mas de raiva. Ele estava pronto para ser rude, para deixar claro que aquela união jamais aconteceria.
Então, ela entrou na sala.
Eduarda parecia ter saído de uma pintura renascentista que Emanuel estudara em seus tempos de aprendizagem artística. Ela usava um vestido de seda azul-claro, leve e fluido, que parecia flutuar ao redor de suas pernas esguias. O cabelo castanho escuro caía em ondas naturais sobre os ombros delicados. Ela não tinha a maquiagem pesada de Sara, nem sua postura predatória. Eduarda mantinha os olhos baixos, as mãos pequenas entrelaçadas à frente do corpo, exalando uma fragilidade que atingiu Emanuel como um soco no peito.
— Boa noite — murmurou ela, a voz tão suave que ele precisou se inclinar levemente para ouvir.
Quando ela finalmente levantou o olhar, Emanuel ficou mudo. Os olhos de Eduarda eram expressivos, carregados de uma timidez doce e uma intuição profunda. Ela parecia ler o ambiente, sentindo a tensão elétrica entre Emanuel e Sara.
— Emanuel, esta é Eduarda — apresentou a mãe dele, com um sorriso vitorioso ao notar o choque no rosto do filho.
— Prazer — conseguiu dizer Emanuel, sua voz saindo mais rouca do que o pretendido.
Sara, sentindo a mudança súbita na energia do namorado, apertou o braço dele. Ela analisou Eduarda de cima a baixo. "Uma menina", pensou Sara com desdém. "Bonitinha, mas sem fogo".
— Olá, querida! Eu sou a Sara, namorada do Emanuel. — Sara estendeu a mão, o tom de voz carregado de uma simpatia forçada e superior. — Você deve ser a noiva por contrato. Que situação engraçada, não é?
Eduarda estremeceu levemente com a abordagem direta e o tom irônico de Sara. Ela apertou a mão da loira com delicadeza.
— É um prazer conhecer você, Sara. Eu... eu sinto muito se minha presença causa algum desconforto.
— Desconforto? Imagina! — Sara riu, sentando-se à mesa. — Emanuel e eu não temos segredos. A gente até se diverte com essas histórias da carochinha dos seus pais.
Durante o jantar, Emanuel mal conseguiu tocar na comida. Ele estava em um estado de confusão mental absoluto. Pela lógica, ele deveria estar ignorando Eduarda e reafirmando seu compromisso com Sara. Mas seus olhos não conseguiam deixar a figura à sua frente. Eduarda falava pouco, mas quando falava, mencionava seus estudos em História da Arte, sua paixão por museus e pela tranquilidade. Ela era o oposto do caos vibrante que era a vida de Emanuel.
Em certo momento, o pé de Eduarda esbarrou acidentalmente no dele sob a mesa. Ela se retraiu instantaneamente, o rosto ganhando um tom de rosa profundo.
— Desculpe — sussurrou ela, olhando para ele com uma expressão tão manhosa e vulnerável que Emanuel sentiu um instinto de proteção avassalador despertar.
— Tudo bem, Eduarda. Não foi nada — respondeu ele, e pela primeira vez na noite, seu tom de voz foi suave, perdendo a rigidez que mantinha com Sara.
Sara percebeu. Ela era inteligente demais para não notar como o olhar de Emanuel havia mudado. A confiança dela não foi abalada — ela ainda se considerava a "namorada principal", a mulher que ele amava —, mas uma centelha de competitividade se acendeu.
***
Após o jantar, enquanto os pais conversavam na biblioteca, os três ficaram sozinhos no jardim de inverno. O silêncio era pesado. Eduarda estava sentada em um banco de ferro, observando as flores, parecendo querer desaparecer.
— Então, Eduarda — começou Sara, caminhando até ela com um copo de vinho na mão —, o que uma menina de vinte anos pretende fazer da vida casada com um homem que já tem uma mulher?
— Sara, chega — interveio Emanuel, embora sua voz não tivesse a agressividade usual.
— Eu só estou sendo prática, querido! — Sara deu de ombros, sorrindo para Eduarda. — Você é fofa, de verdade. Parece um bichinho de estimação. Eu não me importo que você se case com ele, sabe? Contratos são contratos. Mas o Emanuel mora comigo. O coração dele, o corpo dele... tudo isso pertence à loira aqui.
Eduarda sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ela era sensível, intuitiva, e a crueza de Sara a machucava, embora não a surpreendesse. Ela olhou para Emanuel, buscando algum apoio.
— Eu não quero causar problemas — disse Eduarda, a voz trêmula. — Eu também não escolhi isso, Emanuel. Meus pais dizem que é o melhor para mim, que você é um homem honrado...
Emanuel caminhou até ela. Sem pensar, ele colocou a mão no ombro de Eduarda. A pele dela era fria e macia, e o toque pareceu enviar uma descarga elétrica pelo braço dele.
— Eduarda, olhe para mim.
Ela obedeceu. O olhar dela era de uma entrega tão absoluta, de uma necessidade de proteção tão latente, que Emanuel sentiu sua racionalidade ruir. Ele sempre fora o porto seguro de todos, o homem que controlava impérios de tatuagem e negócios complexos. Mas ali, diante daquela fragilidade, ele se sentiu necessário de uma forma que Sara nunca permitiu. Sara era sua igual, sua parceira de guerra. Eduarda era algo que ele precisava guardar, cuidar, esconder do mundo.
— Eu não vou deixar ninguém te machucar — afirmou Emanuel, esquecendo-se por um segundo de que Sara estava logo atrás deles. — Nem mesmo as palavras da Sara.
Sara arqueou uma sobrancelha, um sorriso irônico brincando em seus lábios.
— Ora, ora... o cavaleiro andante apareceu. Cuidado, Emanuel, ou vou começar a achar que você está gostando da ideia de ter duas mulheres em casa.
Emanuel virou-se para Sara, a tensão acumulada brilhando em seus olhos.
— Sara, suba para o carro. Eu preciso terminar de falar com Eduarda a sós.
— Vai me dar ordens agora? — Ela riu, mas viu que ele falava sério. Sara não tinha medo dele, mas sabia quando recuar para manter o controle depois. — Tudo bem. Não demore. Temos muito o que "conversar" quando chegarmos em casa.
Ela saiu, o som de seus saltos estalando no mármore, deixando para trás um rastro de perfume forte e um Emanuel confuso.
Ele voltou sua atenção para Eduarda. Ela parecia ainda mais pequena agora.
— Você está bem? — perguntou ele, a voz baixa.
— Ela é muito bonita — disse Eduarda, ignorando a pergunta. — E ela parece te conhecer muito bem.
— Ela conhece. Estamos juntos há muito tempo.
— Você a ama? — Eduarda perguntou, os olhos expressivos fixos nos dele, buscando a verdade.
Emanuel hesitou. A resposta lógica era "sim". Ele amava a energia de Sara, a cumplicidade, o sexo selvagem, a forma como ela geria seus negócios. Mas, ao olhar para Eduarda, ele sentiu algo que não era paixão ardente, era algo mais profundo, mais antigo. Era uma conexão que ele não sabia explicar.
— Eu achava que sim — ele confessou, a honestidade escapando antes que ele pudesse filtrá-la. — Mas agora, olhando para você... eu sinto que o mundo ficou muito mais complicado do que eu planejei.
Eduarda deu um passo à frente, aproximando-se dele. O cheiro dela era de sabonete de flores e algo puramente natural. Ela se apoiou levemente no peito dele, um gesto de carinho e busca por abrigo que era natural de sua personalidade manhosa.
— Eu não quero te tirar nada, Emanuel. Eu só... eu sempre soube que você existia. Eu cresci ouvindo seu nome. Na minha cabeça, eu já era sua antes mesmo de te ver.
Emanuel fechou os olhos, sentindo o peso daquela declaração. Ele era um homem racional, prático. O plano era simples: casar-se no papel com Eduarda para satisfazer os pais, mantê-la em uma casa separada e continuar sua vida com Sara. Mas, ao sentir o corpo leve de Eduarda contra o seu, ele soube que não conseguiria mantê-la à distância.
Ele a queria. Queria a força e a agressividade de Sara, o brilho da loira que o desafiava e o ajudava a construir seu império. Mas ele também desejava desesperadamente a paz que Eduarda emanava, a doçura de cuidar de alguém que o via como um herói, e não apenas como um sócio ou amante.
— Esse casamento vai acontecer — disse Emanuel, sua voz agora firme, assumindo o controle da situação. — Mas as coisas não serão como nossos pais planejaram. E nem como a Sara imagina.
— O que você quer dizer? — perguntou Eduarda, olhando para cima.
Emanuel tocou o rosto dela, o polegar acariciando a pele sedosa da bochecha.
— Quero dizer que eu não vou escolher entre vocês duas. Sara é minha vida, meu braço direito. Mas você... você é algo que eu não sabia que precisava até este momento.
Ele a puxou para um abraço apertado. Eduarda se aninhou nele, fechando os olhos, sentindo-se finalmente segura.
Lá fora, no carro, Sara retocava o batom vermelho no espelho. Ela não estava brava. Ela estava excitada com o desafio. Ela sabia que Emanuel estava sendo fisgado, mas em sua mente, ela era a rainha do tabuleiro. Se Eduarda queria entrar no jogo, teria que aprender as regras de Sara.
Emanuel, no entanto, sentia a tensão crescer em seus ombros. Ele sabia que estava entrando em um caminho perigoso. O controle que ele tanto prezava estava escorrendo por seus dedos. Ele tinha uma mulher que era puro fogo e outra que era pura água. E, pela primeira vez em sua vida, ele estava disposto a se queimar e a se afogar ao mesmo tempo.
— Vamos entrar — disse ele para Eduarda. — Temos que oficializar os termos.
Ao caminhar de volta para a sala, Emanuel sentiu o peso dos olhares de seus pais e o fantasma da presença de Sara lá fora. Ele era um tatuador; ele sabia que certas marcas eram permanentes. E ele acabara de decidir que queria as marcas de ambas em sua alma, não importava o preço que teria que pagar por esse egoísmo.
A vida de Emanuel Albuquerque nunca mais seria simples. E, no fundo, enquanto sentia a mão pequena de Eduarda segurando a sua, ele percebeu que a simplicidade era um preço pequeno demais a pagar pela possessão total daquelas duas mulheres tão distintas. O caos estava apenas começando.
