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Fandom: Nenhum

Criado: 11/06/2026

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RomanceDramaAngústiaFatias de VidaDor/ConfortoHistória DomésticaEstudo de PersonagemCiúmesPsicológicoGravidez Não Planejada/IndesejadaRealismoSobrevivência
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Entre a Tinta e o Veludo

O zumbido baixo da máquina de tatuagem costumava ser o som favorito de Emanuel, o único ritmo capaz de acalmar sua mente hiperativa. Mas hoje, nem mesmo o estúdio de luxo no topo do edifício comercial, com sua vista privilegiada de São Paulo, conseguia aplacar a tensão em seus ombros. Ele limpou o excesso de tinta preta da pele do cliente, os olhos escuros fixos no desenho geométrico, mas seus pensamentos estavam a quilômetros dali, divididos entre duas mulheres que eram os polos opostos de sua vida.

Emanuel soltou um suspiro pesado, ajeitando a postura firme. Aos vinte e cinco anos, ele construíra um império. Seus estúdios eram referência mundial, sua conta bancária era vasta, mas o controle que ele exercia sobre seus negócios parecia escorrer por entre os dedos quando o assunto era sua vida doméstica.

A porta do estúdio se abriu com um estalo decidido. Sara entrou, o som de seus saltos agulha ecoando pelo piso de porcelanato cinza. Ela usava um vestido vermelho justo que deixava pouco para a imaginação, realçando cada curva moldada por cirurgias plásticas e horas de academia. O cabelo loiro platinado estava impecavelmente escovado, caindo em ondas sobre o busto generoso.

— Terminando, querido? — Sara perguntou, a voz carregada de uma ironia natural, enquanto se encostava na mesa de materiais, ignorando o olhar de reprovação do assistente de Emanuel. — A equipe de administração já revisou os contratos de Miami. Está tudo pronto para a nossa ida na semana que vem.

Emanuel não desviou os olhos do trabalho.

— Falamos sobre isso no carro, Sara.

— Ah, não seja tão rígido — ela retrucou, analisando as próprias unhas longas e decoradas. — Eu fiz a minha parte. Os estúdios lá vão ser um sucesso. Só falta a "bonequinha de porcelana" decidir se vai ou não sair da saia da mãe.

Emanuel parou a máquina. O silêncio que se seguiu foi denso. Ele terminou o curativo no cliente, despediu-se com a educação ríspida de sempre e, assim que ficaram a sós, encarou Sara.

— O nome dela é Eduarda. E você sabe que ela é sensível.

Sara revirou os olhos, soltando uma risada anasalada.

— Ela tem vinte anos, Emanuel. Vinte! E ainda pede permissão para respirar. Eu não a odeio, você sabe disso. Ela é até... fofinha, de um jeito irritante. Mas essa hesitação dela está atrasando a nossa vida. Eu moro com você, eu trabalho com você. Por que ela ainda insiste em morar com aqueles pais "moderninhos" dela?

— Porque ela não é como você, Sara — Emanuel disse, guardando o material com movimentos bruscos, a irritação começando a transbordar. — Ela precisa de tempo. Mas eu estou perdendo a paciência. Eu quero as duas na mesma casa. Eu quero a minha família sob o meu teto.

— Então resolva — Sara se aproximou, passando as mãos pelo peito dele, o perfume doce e forte inundando os sentidos de Emanuel. — Eu já aceitei dividir você. Já aceitei que ela seja a sua "preferida" para os momentos de carinho. Mas eu não vou deixar de viajar para Miami porque ela tem medo de avião ou de ficar longe da mamãe.

Emanuel fechou os olhos por um segundo, sentindo o peso da responsabilidade. Ele amava Sara pela sua competência, pela sua audácia e pelo fogo que ela trazia para sua rotina. Mas ele precisava de Eduarda para respirar. Eduarda era a calmaria, o toque macio, o olhar que não o cobrava resultados, apenas presença.

***

Mais tarde naquela noite, o ambiente mudou drasticamente. Emanuel estacionou seu SUV em frente à casa de estilo contemporâneo dos pais de Eduarda. O lugar exalava uma liberdade que o sufocava um pouco. Os pais dela eram jovens, artistas que tratavam a filha mais como uma amiga do que como subordinada, o que só incentivava o desejo de Eduarda de permanecer naquele ninho confortável.

Quando ele entrou, Eduarda estava sentada no sofá, cercada por livros de História da Arte. Ela usava um cardigã de tricô cor de creme e meias grossas. O cabelo castanho estava preso em um coque frouxo, e alguns fios caíam sobre seu rosto de traços finos e delicados.

Ao vê-lo, os olhos dela brilharam com uma doçura que instantaneamente desarmou parte da tensão de Emanuel.

— Manu! — Ela se levantou e correu para os braços dele, enterrando o rosto em seu peito. — Você parece cansado.

— Estou exausto, Duda — ele murmurou, descansando o queixo no topo da cabeça dela, sentindo o cheiro de lavanda e papel antigo. — Mas vim te ver.

Eles se sentaram, e Eduarda se aninhou contra o lado dele, buscando aquela proximidade física que era sua marca registrada. Ela era manhosa, tateando a mão dele para que ele fizesse carinho em seu cabelo.

— A Sara me ligou — Eduarda disse baixinho, a voz carregada de uma insegurança latente. — Ela falou da viagem.

Emanuel travou o maxilar.

— Ela não deveria ter te pressionado. Mas, Duda, eu preciso que você vá. São só duas semanas. Eu quero você lá comigo.

— Miami é tão... barulhenta — ela murmurou, desviando o olhar para os livros. — E eu tenho as provas da faculdade. Além disso, meus pais estão planejando aquela exposição nova e eu queria ajudar...

— Eduarda, olhe para mim — Emanuel pediu, a voz soando mais rígida do que pretendia. — Até quando?

Ela estremeceu levemente com o tom dele, os olhos grandes e expressivos começando a brilhar com lágrimas não derramadas.

— Até quando o quê?

— Até quando eu vou ter que implorar para você viver a sua vida comigo? Eu pedi para você se mudar para o meu apartamento no mês passado. Você disse que não estava pronta. Agora, uma viagem simples parece um sacrifício. Eu sustento tudo, eu cuido de tudo, eu só quero você por perto.

— Você tem a Sara — ela sussurrou, uma ponta de mágoa na voz. — Ela é perfeita para essas coisas. Ela sabe administrar, ela sabe se vestir, ela sabe falar com as pessoas... Eu sou só eu.

— Eu não quero outra Sara — ele exclamou, levantando-se e começando a andar pela sala, a aura de controle se estilhaçando. — Se eu quisesse apenas o que a Sara oferece, eu não estaria aqui. Eu quero a sua doçura, Eduarda. Eu quero chegar em casa e encontrar você. Mas eu estou cansado de viver em duas casas diferentes, de mediar as alfinetadas dela e a sua passividade.

Eduarda encolheu-se no sofá, abraçando os próprios joelhos. Ela detestava conflitos. O tom de voz elevado de Emanuel a fazia querer desaparecer.

— Eu só... eu tenho medo de não me encaixar no mundo de vocês — ela disse, a voz trêmula. — Vocês dois são tão fortes, tão decididos. Eu sinto que, se eu for com vocês, vou acabar sendo apenas uma sombra.

Emanuel parou na frente dela. Sua natureza protetora lutava contra a frustração. Ele se ajoelhou entre as pernas dela, segurando seu rosto com as mãos grandes, marcadas por tatuagens que contavam sua própria história de luta.

— Você nunca será uma sombra. Você é o que me mantém humano, Duda. Mas eu não posso ser o único a lutar por isso. Eu preciso que você dê um passo.

— E se eu não conseguir? — perguntou ela, uma lágrima finalmente escorrendo.

— Você vai conseguir — ele afirmou, embora internamente sentisse que a corda estava prestes a arrebentar. — Eu vou te dar até amanhã para decidir sobre Miami. Se você não for, eu vou... mas não garanto que as coisas continuem iguais quando eu voltar.

O ultimato pairou no ar como fumaça pesada. Emanuel se levantou e saiu, deixando para trás o silêncio que Eduarda tanto amava, mas que agora parecia ensurdecedor e solitário.

***

No dia seguinte, o escritório central de Emanuel estava um caos. Sara comandava a equipe de logística com uma eficiência feroz, gritando ordens ao telefone enquanto revisava planilhas. Ela era o motor que ajudava a manter a parte burocrática dos estúdios funcionando, e Emanuel sabia que, sem ela, seu estresse seria triplicado.

— Ela mandou mensagem? — Sara perguntou, sem tirar os olhos do monitor, assim que Emanuel entrou na sala.

— Ainda não — ele respondeu, jogando-se na cadeira de couro.

— Ela não vai vir, Emanuel. Aceite — Sara se virou, cruzando as pernas e deixando a saia curta subir ainda mais. — Eduarda gosta da segurança do quarto dela. Ela gosta de ser a menininha protegida. Miami exige uma mulher, não uma criança.

— Não comece, Sara.

— Eu só sou realista! — Ela se levantou e caminhou até ele, sentando-se na borda da mesa. — Eu cuido de você. Eu organizo sua agenda, eu lido com os seus problemas, eu divido a cama com você todas as noites enquanto ela dorme no berço. Por que você ainda insiste tanto em levar alguém que claramente não quer estar lá?

Emanuel a encarou. Havia uma verdade amarga nas palavras de Sara, mas havia também uma falta de empatia que sempre o incomodava.

— Porque quando eu estou com ela, o mundo para de gritar — ele disse, a voz baixa e cansada. — Com você, eu conquisto o mundo. Com ela, eu tenho paz para aproveitá-lo. Eu preciso das duas.

Sara soltou um suspiro de desdém, mas no fundo, havia uma pontada de ciúme que ela jamais admitiria. Ela não via Eduarda como uma ameaça ao seu posto de "namorada principal", a mulher que estava ao lado dele nos eventos e nos negócios. Mas ela invejava a capacidade da outra de desarmar Emanuel com apenas um olhar.

— Pois bem — Sara disse, ajeitando o decote. — O jato sai às dez da manhã de segunda-feira. Eu vou estar lá. Com ou sem a "paz" que você tanto busca.

O restante do dia foi um borrão de reuniões e tensão acumulada. Emanuel sentia uma dor de cabeça latejante. Ele amava seu poder, amava sua riqueza, mas naquele momento, ele trocaria metade de seus estúdios por uma solução simples para o seu impasse emocional.

Quando a noite caiu, ele voltou para o apartamento que dividia com Sara. O lugar era moderno, frio, decorado com móveis de design e obras de arte caras que Sara escolhera. Ele sentou-se na varanda, observando as luzes da cidade, esperando.

O celular vibrou na mesa de centro.

Emanuel hesitou antes de pegar o aparelho. Era uma mensagem de Eduarda.

"Manu, meus pais disseram que eu deveria ir. Que eu preciso crescer um pouco. Eu estou com medo, muito medo de ser um estorvo para você e para a Sara... mas eu vou. Eu quero tentar ser o que você precisa."

Emanuel soltou o ar que nem sabia que estava prendendo. Um sorriso raro e genuíno surgiu em seu rosto. Ele sentiu um alívio imediato, mas logo a preocupação voltou. Ter as duas em Miami, em um ambiente de trabalho e estresse, seria o teste definitivo para o seu relacionamento triplo.

Sara apareceu na porta da varanda, segurando uma taça de vinho. Ela viu a expressão no rosto dele e imediatamente entendeu.

— Então a boneca vai viajar? — Ela tomou um gole do vinho, a expressão indecifrável.

— Ela vai — Emanuel se levantou e caminhou até Sara, tirando a taça da mão dela e a puxando pela cintura. — E eu quero que você tente, Sara. Pelo menos uma vez, tente não provocar.

Sara deu um sorriso de lado, provocador e confiante.

— Eu vou ser uma dama, querido. Desde que ela não fique no meu caminho enquanto eu estiver trabalhando. Mas não espere que eu segure a mão dela quando ela começar a choramingar por causa do calor.

— Eu seguro a mão dela — Emanuel disse, firme. — E você segura a minha quando o estresse me atingir. É assim que vai funcionar.

Ele a beijou, um beijo possessivo que Sara retribuiu com a intensidade de sempre. Emanuel tinha o que queria: suas duas mulheres sob seu controle, sua proteção e seu teto, mesmo que por apenas duas semanas em um hotel de luxo.

No entanto, enquanto abraçava Sara, seus olhos se perderam no horizonte. Ele sabia que Eduarda estava, naquele momento, arrumando as malas com as mãos trêmulas, sentindo-se vulnerável. E ele sabia que o equilíbrio entre o fogo de Sara e o veludo de Eduarda era uma linha tênue que ele teria que caminhar com cuidado, ou acabaria perdendo ambas no processo.

A viagem para Miami não seria apenas sobre negócios. Seria o campo de batalha onde ele descobriria se o seu império era forte o suficiente para sustentar a complexidade do seu coração. E Emanuel, o homem que nunca perdia o controle, sentia que, pela primeira vez, estava entrando em um território onde a lógica e a razão não teriam poder algum.
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