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Fandom: Record of ragnarok

Criado: 11/06/2026

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O Eco de Ouro e o Trono de Cinzas

A sala do Valhalla nunca esteve tão silenciosa. O ar, outrora pesado com a tensão das lutas do Ragnarok, agora parecia carregado por uma melancolia divina que nem mesmo o ego de Zeus conseguia dissipar. No centro do grande salão, uma projeção etérea — uma memória extraída das profundezas de Helheim — revelava a verdade que todos, deuses e humanos, desconheciam.

Qin Shi Huang não era apenas o Primeiro Imperador da China. Ele não era apenas um humano que desafiou o destino.

— Ele... ele brilhava como o sol — murmurou Héracles, seus olhos fixos na imagem de um Qin diferente, vestido em ornamentos de ouro puro que pareciam pulsar com a própria essência da criação. — Ele era um de nós?

— Ele era mais do que um de nós — retrucou Hades, sua voz soando como o quebrar de gelo antigo. O Rei do Submundo estava sentado em seu trono improvisado, os dedos apertando o cabo de seu bidente. Seus olhos, normalmente calmos e analíticos, transbordavam uma dor que milênios não conseguiram apagar. — Ele era o início.

As imagens na projeção mudaram. Mostravam Qin e Hades nos jardins de Helheim, em um tempo onde a guerra entre deuses e homens era um conceito absurdo. Qin ria, um som cristalino, e seus olhos — o lendário Olho Reverso — brilhavam com uma sabedoria terrível. No sentido horário, o mundo era mantido; no anti-horário, ele subvertia a realidade, transformando ameaças em pó e inimigos em conceitos inofensivos.

— Ele era o meu amante — continuou Hades, atraindo os olhares chocados de Poseidon e Beelzebub. — Estávamos prestes a unir nossos reinos permanentemente.

— E o que aconteceu? — perguntou Nikola Tesla, ajustando seus óculos, a curiosidade científica lutando contra o peso emocional da cena. — Como um deus de tal magnitude acabou naquela arena, lutando como um mortal?

A imagem na projeção escureceu. Mostrou o momento da traição. Qin, relaxado após um desafio que provara sua supremacia, virou o rosto ao ouvir o chamado de Hades. Mas não foi um beijo que o recebeu. Uma lâmina celestial, movida por uma maldição tecida nas sombras por aqueles que temiam a união de dois reis tão poderosos, desceu.

O choque na sala foi coletivo. Jack, o Estripador, deixou sua xícara de chá tremer levemente. Ver a cabeça de Qin Shi Huang cair aos pés de Hades, o sangue dourado manchando o mármore, era uma visão que nem o mais cruel dos deuses suportava com facilidade.

— A maldição da reencarnação — explicou Brunhilde, sua voz falhando. — Ele foi condenado a esquecer. A cair na mortalidade. A sofrer a cegueira e a dor.

— Cem anos para um deus é um suspiro — disse Shiva, quatro braços cruzados, a expressão séria. — Mas para ele, foi o início de um ciclo de agonia.

Hades fechou os olhos, lembrando-se da primeira vez que o reencontrou.

— A primeira morte foi a pior — sussurrou o Rei do Submundo. — Eu o encontrei em uma vila humilde. Ele era cego, tateando o ar com as mãos que outrora moldaram o ouro. Quando ele ouviu minha voz, ele soube. O reconhecimento brilhou naqueles olhos nublados. Corremos um para o outro... e o chão simplesmente se abriu. Ele caiu no abismo diante dos meus olhos.

— Você não tentou salvá-lo? — perguntou Leônidas I, o tom áspero escondendo uma ponta de empatia.

— Eu tentei — Hades abriu os olhos, e neles havia um brilho de fúria. — Mas a maldição é absoluta. Se ele lembra, ele morre. O universo se dobra para garantir que o encontro seja fatal.

As imagens continuaram a passar como um carrossel de horrores. A segunda morte, a terceira... Na sétima, Qin morreu engasgado com o próprio sangue ao tentar dizer o nome de Hades. Na décima segunda, uma tempestade repentina trouxe um raio que o incinerou no momento do toque.

— Ele recuperava a visão aos poucos, não era? — perguntou Buda, mastigando um doce com menos entusiasmo que o habitual. — Mas cada vida deixava uma cicatriz.

— Sim — respondeu Hades. — A cada retorno, ele via um pouco mais do mundo, mas o defeito em seus olhos permanecia como um lembrete de sua queda. Ele era um imperador entre os homens, mas um prisioneiro do destino.

A projeção chegou à vigésima morte. O cenário era um campo de batalha lamacento. Qin, já com a postura de rei que a humanidade conheceu no Ragnarok, estava caído, o peito perfurado por uma lança comum. Hades o segurava, as lágrimas do deus caindo sobre o rosto do homem.

— Chega! — A voz de Qin na projeção era um sussurro rouco, mas carregado de uma autoridade que fez até Odin inclinar a cabeça. — Some da minha frente até descobrir como quebrar isso! Toda vez que eu morro, você morre junto por dentro. Não me procura mais!

E então, com um som seco, a cabeça de Qin tombou. Decapitado por uma arma comum, em uma ironia cruel que ecoava sua primeira morte divina. A cabeça rolou, parando exatamente sobre os pés de Hades.

O silêncio na sala do Valhalla era tão denso que podia ser cortado com uma faca. Os humanos olhavam para Qin — o Qin que agora descansava na enfermaria após sua luta contra Hades na arena do Ragnarok — com um novo tipo de reverência. Ele não era apenas o Rei onde se sentava; ele era o Rei que suportou vinte vidas de mortes atrozes para proteger o coração daquele que amava.

— Você sabia — acusou Brunhilde, olhando para Zeus. — Vocês sabiam quem ele era quando o colocaram para lutar contra Hades.

Zeus, pela primeira vez na eternidade, não tinha uma piada pronta. Ele olhou para o irmão.

— Era um teste, Hades. Queríamos ver se a maldição ainda persistia.

— Um teste? — Hades se levantou. A aura de Helheim explodiu ao seu redor, fazendo as paredes do salão tremerem. — Vocês transformaram o amor da minha vida em um peão e o condenaram a um ciclo de sofrimento eterno para "testar" uma maldição que vocês mesmos permitiram que fosse lançada?

— Quem lançou? — perguntou Sasaki Kojiro, sua mão instintivamente indo para o punho de sua espada.

Hades olhou para o horizonte, para além das paredes do Valhalla.

— Eu descobri. A maldição só termina quando o sangue do tecelão for derramado pela minha mão. E eu garanto a vocês... Helheim nunca viu um tormento como o que eu reservo para ele.

— E quanto ao Qin agora? — perguntou Alvitr, a Valquíria que se fundira a ele, aparecendo em sua forma humana. — Ele sobreviveu à luta. Ele venceu. Mas ele ainda não se lembra de tudo.

— Ele não pode lembrar — disse Hades, sua voz suavizando ao pensar no imperador. — Ainda não. Se ele se lembrar de que é um deus, de que fomos quase casados, a maldição o levará novamente. Eu vou mantê-lo como um rei humano. Vou protegê-lo das sombras até que o último traidor seja eliminado.

— Ele é arrogante demais para ser protegido — comentou Raiden com um sorriso triste. — Ele vai querer lutar ao seu lado.

— Eu sei — Hades permitiu-se um pequeno sorriso, o primeiro em séculos. — É por isso que eu o amo. Onde quer que ele se sente, ali é o seu trono. Mesmo que esse trono seja feito de memórias proibidas e dor.

Longe dali, na enfermaria, Qin Shi Huang abriu os olhos. Suas mãos, enfaixadas e doloridas, tatearam o ar. Ele sentiu uma presença familiar, um perfume de flores secas e poeira de estrelas que ele não conseguia identificar, mas que fazia seu coração bater com uma força que nenhuma batalha jamais exigira.

— Hades... — sussurrou Qin, sem saber por que aquele nome parecia uma prece e uma maldição ao mesmo tempo.

Ele tocou a própria nuca, sentindo um calafrio onde, em tantas vidas passadas, a lâmina o encontrara. Ele não se lembrava da divindade, nem do ouro, nem das vinte mortes. Mas a sinestesia toque-espelho, seu dom e seu fardo, o fazia sentir uma dor fantasmagórica no peito. Não era a sua dor. Era a dor de alguém que o observava de longe, um rei que esperava nas sombras para reivindicar seu par.

Qin sorriu, aquele sorriso exuberante que escondia abismos.

— Seja você deus ou demônio — disse o imperador para o quarto vazio —, saiba que este rei não se curva a maldições.

No salão principal, Hades sentiu o eco daquelas palavras. Ele olhou para os outros deuses, sua decisão tomada. O Ragnarok era apenas o começo. Se o céu e o inferno conspiraram para separá-los, Hades simplesmente queimaria ambos até que restasse apenas o ouro de Qin.

— A reunião acabou — declarou Zeus, percebendo que o irmão não aceitaria mais nenhuma interferência.

Os humanos se retiraram em silêncio, processando a grandeza do homem que chamavam de Primeiro Imperador. Lu Bu e Thor trocaram um olhar de respeito mútuo; Adão olhou para o céu, talvez sentindo a conexão familiar com aquele deus que se tornara humano por crueldade alheia.

Hades permaneceu sozinho por um momento, olhando para a projeção desvanecida de Qin Shi Huang.

— Espere por mim, meu amor — murmurou ele para o nada. — Desta vez, não haverá chão que se abra, nem lâmina que nos alcance. Eu vou matar o destino por você.

E, nas sombras do Valhalla, a caçada do Rei do Submundo começou. O ciclo de vinte mortes estava prestes a cobrar seu preço, e o pagamento seria feito em sangue divino.
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