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Fandom: Nenhum
Criado: 11/06/2026
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RomanceDramaAngústiaFatias de VidaDor/ConfortoPsicológicoCiúmesRealismoEstudo de PersonagemHistória DomésticaGravidez Não Planejada/IndesejadaFofuraMedicina ImprecisaRomance
Entre Agulhas e Incertezas
O cheiro de antisséptico do hospital sempre deixava Emanuel com os nervos à flor da pele. Ele estava sentado em uma das poltronas desconfortáveis da ala pediátrica, observando o movimento frenético de enfermeiros. Ao seu lado, Sara cruzava as pernas cobertas por uma calça de couro justa, balançando um scarpin de salto agulha com uma impaciência que beirava a agressividade. No colo dela, a pequena Valentina, de apenas oito meses, parecia herdar a pose da mãe: mesmo com o rosto levemente corado pela febre, a bebê mantinha um ar de superioridade, recusando-se a chorar como as outras crianças, apenas soltando resmungos curtos e autoritários.
— Eu já disse, Emanuel, se tivéssemos vindo no carro que eu sugeri, não teríamos pego aquele engarrafamento — disparou Sara, a voz carregada de um sarcasmo cortante. Ela ajeitou os fios loiros perfeitamente platinados, a maquiagem impecável mesmo após horas de estresse. — Mas não, o grande mestre das tatuagens sempre acha que sabe o melhor caminho.
Emanuel suspirou fundo, fechando os olhos por um momento. A tensão em seus ombros era quase visível através da camiseta preta básica. Ele era um homem que comandava impérios de tinta, lidava com celebridades e gerenciava milhões, mas, naquele momento, sentia-se um mediador de um campo de batalha doméstico.
— Sara, a Valentina está com febre. Podemos focar no que importa em vez de transformar tudo em uma disputa de quem tem razão? — A voz dele era baixa, firme, mas tingida pelo cansaço.
— Eu estou focada, querido. Tanto que já mandei três e-mails para o setor financeiro do estúdio de Londres enquanto esperávamos essa enfermeira incompetente aparecer — ela retrucou, ajeitando o busto siliconado sob o decote generoso da blusa de seda. — Eu sou prática. Diferente de certas pessoas que você conhece que provavelmente estariam chorando num canto agora.
Emanuel não respondeu. Ele sabia que Sara estava alfinetando Eduarda, mesmo sem citar o nome dela. Era a dinâmica deles: Sara era a força motriz, a mulher que entendia os negócios e dividia o teto e a responsabilidade de uma filha com ele. Ela era necessária, competente e ele a amava por sua garra, mesmo que a vulgaridade dela às vezes o fizesse querer se isolar em silêncio.
Enquanto isso, alguns andares abaixo, na recepção da emergência geral, o cenário era outro. Eduarda estava encolhida em um banco de plástico, as mãos pequenas apertando a alça de uma bolsa de lona com estampas de flores. Ela usava um vestido de algodão leve e um cardigã bege, parecendo muito mais jovem do que seus vinte anos. O olhar doce estava nublado pela preocupação enquanto observava a irmã mais nova, Luísa, sendo atendida por causa de um corte no joelho após uma queda boba.
— Vai ficar tudo bem, Duda — disse a mãe delas, uma mulher jovem e de aparência moderna, tocando o ombro da filha. — Foi só um susto.
— Eu sei, mãe... é que eu odeio ver alguém que eu amo sofrendo — sussurrou Eduarda, a voz mansa e melódica.
Ela sentiu uma súbita onda de carência. Nessas horas, o que ela mais queria era o abraço pesado de Emanuel, o cheiro de tinta e perfume caro que emanava da pele dele, a sensação de ser protegida por aquele homem que parecia um carvalho inabalável. Ela pegou o celular, pensando em mandar uma mensagem, mas hesitou. Sabia que ele estava ocupado com Valentina e Sara. Eduarda aceitava sua posição, não por falta de amor-próprio, mas porque sua natureza sensível a impedia de querer causar conflitos. Ela amava Emanuel com uma pureza quase infantil, e o fato de ele manter outra família era uma dor que ela guardava em um compartimento fechado do coração.
— Ele te ligou hoje? — perguntou a mãe, com uma naturalidade que só pais modernos e liberais poderiam ter.
— Ele mandou um "bom dia" — Eduarda sorriu fraco, lembrando-se das palavras curtas e protetoras dele. — Ele quer que eu me mude para a casa nova. De novo.
— E por que você não vai, filha? Emanuel adora você. Ele te daria o mundo.
— Eu não estou pronta, mãe... — Eduarda baixou a cabeça, os cabelos castanhos caindo sobre o rosto fino. — A Sara mora lá. Eu me sinto... pequena perto dela. E tem a Valentina. Eu sinto que estaria invadindo um espaço que não me pertence totalmente.
No andar de cima, a consulta de Valentina finalmente terminou. Era apenas uma virose comum, mas o estresse acumulado entre o casal não havia diminuído. Enquanto caminhavam em direção ao elevador, Emanuel segurava a bolsa da bebê, enquanto Sara carregava a filha como se fosse um acessório de luxo, embora o cuidado com a pequena fosse inegável.
— Vamos logo, Emanuel. Eu tenho uma reunião por videoconferência em trinta minutos com a equipe de marketing — disse Sara, apertando o botão do elevador com força.
— Eu preciso passar na farmácia do térreo primeiro para pegar o antitérmico — Emanuel respondeu, o tom de voz começando a endurecer. — Você pode ir para o carro se estiver com tanta pressa.
— Ah, claro! E deixar você sozinho para ficar suspirando pelos cantos? Eu conheço esse seu olhar de quem quer fugir da realidade — ela provocou, rindo de forma irônica.
As portas do elevador se abriram no térreo. O saguão estava lotado. Emanuel caminhou em direção à farmácia interna, com Sara logo atrás, atraindo olhares de todos os lados devido ao seu visual impactante e ao barulho de seus saltos no piso de granito.
Foi nesse momento que o mundo de Emanuel pareceu entrar em câmera lenta. Perto da saída, de costas para eles, estava uma figura esguia e delicada que ele reconheceria em qualquer lugar do mundo. O modo como ela inclinava a cabeça, a leveza de sua postura... era Eduarda.
Seu coração deu um solavanco. A proteção que ele sentia por ela era algo visceral, quase um instinto animal. Ele queria correr até ela, envolvê-la nos braços e tirá-la daquele ambiente frio, mas o peso da presença de Sara ao seu lado e de Valentina no colo dela o ancorava à realidade.
Sara, cujos olhos eram como os de uma águia, percebeu a mudança imediata na postura de Emanuel. Ela seguiu o olhar dele e viu a garota. Um sorriso de canto de boca surgiu em seus lábios perfeitamente pintados de vermelho. Ela não odiava Eduarda; na verdade, achava a menina quase "fofa", como um animal de estimação que Emanuel insistia em manter. Para Sara, Eduarda nunca seria uma ameaça real ao seu posto de "primeira-dama" do império de Emanuel, pois faltava à garota a malícia e a força que Sara possuía de sobra.
— Olha só quem temos aqui — disse Sara, a voz alta o suficiente para ser ouvida, mas com um tom de falsa surpresa. — A princesinha da História da Arte decidiu sair do castelo?
Emanuel travou o maxilar.
— Sara, não.
Mas já era tarde. Eduarda se virou ao ouvir a voz estridente. Seus olhos grandes e expressivos se arregalaram ao encontrar o trio. A palidez de seu rosto acentuou-se, e ela instintivamente deu um passo para trás, buscando o apoio da parede.
— Emanuel? — a voz dela saiu quase como um sopro.
Emanuel ignorou o protesto silencioso de Sara e caminhou até Eduarda, parando a uma distância curta, seus olhos percorrendo o rosto dela com uma preocupação genuína que ele raramente demonstrava em público.
— O que você está fazendo aqui, pequena? Aconteceu alguma coisa? Você está ferida? — As perguntas saíram rápidas, e ele estendeu a mão para tocar o rosto dela, mas se conteve ao lembrar que Sara estava a poucos metros de distância.
— Minha irmã... ela caiu — Eduarda explicou, a voz trêmula. Ela olhou para Sara, que agora se aproximava com uma expressão de tédio misturada com diversão. — Oi, Sara.
— Oi, querida. Você parece péssima, precisa de um pouco mais de cor nessas bochechas — Sara disse, sem qualquer filtro, enquanto ajeitava Valentina no colo. — Veja, Valentina, é a sua tia Duda. Diga oi para ela, embora ela pareça mais assustada que você com a febre.
A bebê Valentina olhou para Eduarda com um olhar frio, quase analítico, e depois desviou o rosto, enterrando-o no ombro da mãe.
— Ela está com febre? — Eduarda perguntou, esquecendo sua própria timidez por um momento, a empatia falando mais alto. — Coitadinha...
— Ela vai ficar bem, Eduarda — Emanuel disse, tentando retomar o controle da situação. Ele sentia a pressão de dois mundos colidindo. De um lado, a mulher que era seu pilar administrativo e mãe de sua filha; do outro, a menina que era seu refúgio emocional e sua doçura. — Por que você não me ligou? Eu poderia ter resolvido tudo para sua irmã.
— Eu não quis incomodar... eu sei que vocês estavam ocupados — ela respondeu, baixando o olhar para os sapatos de Emanuel.
— Você nunca incomoda — ele afirmou, a voz ficando mais rígida, uma nota de irritação surgindo. — Mas isso é exatamente o que acontece por você morar longe de mim. Se estivesse na minha casa, eu saberia o que está acontecendo em tempo real.
Sara soltou uma risada curta e seca.
— Deixe a menina, Emanuel. Ela gosta de brincar de casinha com os pais. Nem todo mundo nasceu para a vida real e para as responsabilidades de uma casa grande.
— Sara, chega — Emanuel rosnou, o estresse acumulado do dia finalmente transbordando.
Eduarda sentiu os olhos marejarem. O confronto, mesmo que velado, a machucava. Ela não gostava da forma como Emanuel ficava tenso perto dela quando Sara estava presente, e odiava sentir que era um fardo ou um motivo de discussão.
— Eu preciso ir — disse Eduarda, a voz embargada. — A mamãe está esperando. Melhoras para a Valentina.
Ela começou a se afastar, mas Emanuel segurou seu pulso com firmeza, mas sem machucar. Foi um gesto possessivo, um reflexo de sua necessidade de controle.
— Eu te ligo mais tarde. E nós vamos terminar aquela conversa sobre a mudança. Eu não vou aceitar um "não" dessa vez, Eduarda.
Ela apenas assentiu, sem olhar para trás, e caminhou apressadamente em direção à saída. Emanuel ficou parado, observando-a partir, sentindo um vazio estranho no peito que nem mesmo a presença vibrante de Sara conseguia preencher.
— Que drama — murmurou Sara, revirando os olhos e começando a caminhar em direção à saída oposta. — Vamos, Emanuel. Eu tenho uma empresa para gerenciar e uma filha que precisa de banho. Deixe para ser o cavaleiro andante daquela ali quando eu não estiver por perto.
Emanuel respirou fundo, fechando os punhos. Ele olhou para a farmácia, para a filha no colo da mulher impetuosa à sua frente, e para a porta por onde a sua pequena Eduarda havia acabado de sair. Ele era um homem de sucesso, rico e poderoso, mas, naquele corredor de hospital, sentia que estava perdendo uma guerra invisível contra os próprios sentimentos.
— Eu vou pegar o remédio — disse ele, a voz fria e decidida. — Me espera no carro. E não diga mais uma palavra sobre ela, Sara. Nem mais uma.
Sara deu de ombros, indiferente à ameaça. Ela sabia que, no final do dia, era para a cama dela que ele voltava. Mas Emanuel, enquanto caminhava para o balcão da farmácia, só conseguia pensar no olhar de mágoa de Eduarda. Ele a traria para perto dele, por bem ou por mal. Ele precisava daquela paz, daquela doçura, para não sufocar na própria vida que havia construído.
A noite estava apenas começando, e o peso de suas escolhas nunca pareceu tão esmagador.
— Eu já disse, Emanuel, se tivéssemos vindo no carro que eu sugeri, não teríamos pego aquele engarrafamento — disparou Sara, a voz carregada de um sarcasmo cortante. Ela ajeitou os fios loiros perfeitamente platinados, a maquiagem impecável mesmo após horas de estresse. — Mas não, o grande mestre das tatuagens sempre acha que sabe o melhor caminho.
Emanuel suspirou fundo, fechando os olhos por um momento. A tensão em seus ombros era quase visível através da camiseta preta básica. Ele era um homem que comandava impérios de tinta, lidava com celebridades e gerenciava milhões, mas, naquele momento, sentia-se um mediador de um campo de batalha doméstico.
— Sara, a Valentina está com febre. Podemos focar no que importa em vez de transformar tudo em uma disputa de quem tem razão? — A voz dele era baixa, firme, mas tingida pelo cansaço.
— Eu estou focada, querido. Tanto que já mandei três e-mails para o setor financeiro do estúdio de Londres enquanto esperávamos essa enfermeira incompetente aparecer — ela retrucou, ajeitando o busto siliconado sob o decote generoso da blusa de seda. — Eu sou prática. Diferente de certas pessoas que você conhece que provavelmente estariam chorando num canto agora.
Emanuel não respondeu. Ele sabia que Sara estava alfinetando Eduarda, mesmo sem citar o nome dela. Era a dinâmica deles: Sara era a força motriz, a mulher que entendia os negócios e dividia o teto e a responsabilidade de uma filha com ele. Ela era necessária, competente e ele a amava por sua garra, mesmo que a vulgaridade dela às vezes o fizesse querer se isolar em silêncio.
Enquanto isso, alguns andares abaixo, na recepção da emergência geral, o cenário era outro. Eduarda estava encolhida em um banco de plástico, as mãos pequenas apertando a alça de uma bolsa de lona com estampas de flores. Ela usava um vestido de algodão leve e um cardigã bege, parecendo muito mais jovem do que seus vinte anos. O olhar doce estava nublado pela preocupação enquanto observava a irmã mais nova, Luísa, sendo atendida por causa de um corte no joelho após uma queda boba.
— Vai ficar tudo bem, Duda — disse a mãe delas, uma mulher jovem e de aparência moderna, tocando o ombro da filha. — Foi só um susto.
— Eu sei, mãe... é que eu odeio ver alguém que eu amo sofrendo — sussurrou Eduarda, a voz mansa e melódica.
Ela sentiu uma súbita onda de carência. Nessas horas, o que ela mais queria era o abraço pesado de Emanuel, o cheiro de tinta e perfume caro que emanava da pele dele, a sensação de ser protegida por aquele homem que parecia um carvalho inabalável. Ela pegou o celular, pensando em mandar uma mensagem, mas hesitou. Sabia que ele estava ocupado com Valentina e Sara. Eduarda aceitava sua posição, não por falta de amor-próprio, mas porque sua natureza sensível a impedia de querer causar conflitos. Ela amava Emanuel com uma pureza quase infantil, e o fato de ele manter outra família era uma dor que ela guardava em um compartimento fechado do coração.
— Ele te ligou hoje? — perguntou a mãe, com uma naturalidade que só pais modernos e liberais poderiam ter.
— Ele mandou um "bom dia" — Eduarda sorriu fraco, lembrando-se das palavras curtas e protetoras dele. — Ele quer que eu me mude para a casa nova. De novo.
— E por que você não vai, filha? Emanuel adora você. Ele te daria o mundo.
— Eu não estou pronta, mãe... — Eduarda baixou a cabeça, os cabelos castanhos caindo sobre o rosto fino. — A Sara mora lá. Eu me sinto... pequena perto dela. E tem a Valentina. Eu sinto que estaria invadindo um espaço que não me pertence totalmente.
No andar de cima, a consulta de Valentina finalmente terminou. Era apenas uma virose comum, mas o estresse acumulado entre o casal não havia diminuído. Enquanto caminhavam em direção ao elevador, Emanuel segurava a bolsa da bebê, enquanto Sara carregava a filha como se fosse um acessório de luxo, embora o cuidado com a pequena fosse inegável.
— Vamos logo, Emanuel. Eu tenho uma reunião por videoconferência em trinta minutos com a equipe de marketing — disse Sara, apertando o botão do elevador com força.
— Eu preciso passar na farmácia do térreo primeiro para pegar o antitérmico — Emanuel respondeu, o tom de voz começando a endurecer. — Você pode ir para o carro se estiver com tanta pressa.
— Ah, claro! E deixar você sozinho para ficar suspirando pelos cantos? Eu conheço esse seu olhar de quem quer fugir da realidade — ela provocou, rindo de forma irônica.
As portas do elevador se abriram no térreo. O saguão estava lotado. Emanuel caminhou em direção à farmácia interna, com Sara logo atrás, atraindo olhares de todos os lados devido ao seu visual impactante e ao barulho de seus saltos no piso de granito.
Foi nesse momento que o mundo de Emanuel pareceu entrar em câmera lenta. Perto da saída, de costas para eles, estava uma figura esguia e delicada que ele reconheceria em qualquer lugar do mundo. O modo como ela inclinava a cabeça, a leveza de sua postura... era Eduarda.
Seu coração deu um solavanco. A proteção que ele sentia por ela era algo visceral, quase um instinto animal. Ele queria correr até ela, envolvê-la nos braços e tirá-la daquele ambiente frio, mas o peso da presença de Sara ao seu lado e de Valentina no colo dela o ancorava à realidade.
Sara, cujos olhos eram como os de uma águia, percebeu a mudança imediata na postura de Emanuel. Ela seguiu o olhar dele e viu a garota. Um sorriso de canto de boca surgiu em seus lábios perfeitamente pintados de vermelho. Ela não odiava Eduarda; na verdade, achava a menina quase "fofa", como um animal de estimação que Emanuel insistia em manter. Para Sara, Eduarda nunca seria uma ameaça real ao seu posto de "primeira-dama" do império de Emanuel, pois faltava à garota a malícia e a força que Sara possuía de sobra.
— Olha só quem temos aqui — disse Sara, a voz alta o suficiente para ser ouvida, mas com um tom de falsa surpresa. — A princesinha da História da Arte decidiu sair do castelo?
Emanuel travou o maxilar.
— Sara, não.
Mas já era tarde. Eduarda se virou ao ouvir a voz estridente. Seus olhos grandes e expressivos se arregalaram ao encontrar o trio. A palidez de seu rosto acentuou-se, e ela instintivamente deu um passo para trás, buscando o apoio da parede.
— Emanuel? — a voz dela saiu quase como um sopro.
Emanuel ignorou o protesto silencioso de Sara e caminhou até Eduarda, parando a uma distância curta, seus olhos percorrendo o rosto dela com uma preocupação genuína que ele raramente demonstrava em público.
— O que você está fazendo aqui, pequena? Aconteceu alguma coisa? Você está ferida? — As perguntas saíram rápidas, e ele estendeu a mão para tocar o rosto dela, mas se conteve ao lembrar que Sara estava a poucos metros de distância.
— Minha irmã... ela caiu — Eduarda explicou, a voz trêmula. Ela olhou para Sara, que agora se aproximava com uma expressão de tédio misturada com diversão. — Oi, Sara.
— Oi, querida. Você parece péssima, precisa de um pouco mais de cor nessas bochechas — Sara disse, sem qualquer filtro, enquanto ajeitava Valentina no colo. — Veja, Valentina, é a sua tia Duda. Diga oi para ela, embora ela pareça mais assustada que você com a febre.
A bebê Valentina olhou para Eduarda com um olhar frio, quase analítico, e depois desviou o rosto, enterrando-o no ombro da mãe.
— Ela está com febre? — Eduarda perguntou, esquecendo sua própria timidez por um momento, a empatia falando mais alto. — Coitadinha...
— Ela vai ficar bem, Eduarda — Emanuel disse, tentando retomar o controle da situação. Ele sentia a pressão de dois mundos colidindo. De um lado, a mulher que era seu pilar administrativo e mãe de sua filha; do outro, a menina que era seu refúgio emocional e sua doçura. — Por que você não me ligou? Eu poderia ter resolvido tudo para sua irmã.
— Eu não quis incomodar... eu sei que vocês estavam ocupados — ela respondeu, baixando o olhar para os sapatos de Emanuel.
— Você nunca incomoda — ele afirmou, a voz ficando mais rígida, uma nota de irritação surgindo. — Mas isso é exatamente o que acontece por você morar longe de mim. Se estivesse na minha casa, eu saberia o que está acontecendo em tempo real.
Sara soltou uma risada curta e seca.
— Deixe a menina, Emanuel. Ela gosta de brincar de casinha com os pais. Nem todo mundo nasceu para a vida real e para as responsabilidades de uma casa grande.
— Sara, chega — Emanuel rosnou, o estresse acumulado do dia finalmente transbordando.
Eduarda sentiu os olhos marejarem. O confronto, mesmo que velado, a machucava. Ela não gostava da forma como Emanuel ficava tenso perto dela quando Sara estava presente, e odiava sentir que era um fardo ou um motivo de discussão.
— Eu preciso ir — disse Eduarda, a voz embargada. — A mamãe está esperando. Melhoras para a Valentina.
Ela começou a se afastar, mas Emanuel segurou seu pulso com firmeza, mas sem machucar. Foi um gesto possessivo, um reflexo de sua necessidade de controle.
— Eu te ligo mais tarde. E nós vamos terminar aquela conversa sobre a mudança. Eu não vou aceitar um "não" dessa vez, Eduarda.
Ela apenas assentiu, sem olhar para trás, e caminhou apressadamente em direção à saída. Emanuel ficou parado, observando-a partir, sentindo um vazio estranho no peito que nem mesmo a presença vibrante de Sara conseguia preencher.
— Que drama — murmurou Sara, revirando os olhos e começando a caminhar em direção à saída oposta. — Vamos, Emanuel. Eu tenho uma empresa para gerenciar e uma filha que precisa de banho. Deixe para ser o cavaleiro andante daquela ali quando eu não estiver por perto.
Emanuel respirou fundo, fechando os punhos. Ele olhou para a farmácia, para a filha no colo da mulher impetuosa à sua frente, e para a porta por onde a sua pequena Eduarda havia acabado de sair. Ele era um homem de sucesso, rico e poderoso, mas, naquele corredor de hospital, sentia que estava perdendo uma guerra invisível contra os próprios sentimentos.
— Eu vou pegar o remédio — disse ele, a voz fria e decidida. — Me espera no carro. E não diga mais uma palavra sobre ela, Sara. Nem mais uma.
Sara deu de ombros, indiferente à ameaça. Ela sabia que, no final do dia, era para a cama dela que ele voltava. Mas Emanuel, enquanto caminhava para o balcão da farmácia, só conseguia pensar no olhar de mágoa de Eduarda. Ele a traria para perto dele, por bem ou por mal. Ele precisava daquela paz, daquela doçura, para não sufocar na própria vida que havia construído.
A noite estava apenas começando, e o peso de suas escolhas nunca pareceu tão esmagador.
