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The voice
Fandom: Ocs
Criado: 11/06/2026
Tags
DramaAngústiaPsicológicoFantasiaSombrioHorrorEstudo de PersonagemHorror PsicológicoNoir Gótico
O Reflexo no Vidro Embaçado
O silêncio do quarto de Cristia Nagome não era um silêncio comum; era denso, quase tátil, como se as paredes estivessem prendendo a respiração junto com ela. O relógio digital na mesa de cabeceira marcava 03:14 da manhã, os números vermelhos cortando a penumbra como pequenas fendas de sangue. Cristia estava deitada de lado, os cabelos pretos espalhados pelo travesseiro como manchas de tinta nanquim sobre o lençol pálido.
Ela acordou de repente, não por um pesadelo, mas por uma sensação de deslocamento. O ar no quarto parecia ter esfriado dez graus em um segundo. Suas mãos, pálidas e magras, apertaram a borda do cobertor. Cristia sempre fora o que os vizinhos chamavam de "estranha" ou "difícil", mas ela preferia os termos que usava para si mesma: invisível, quebrada, protegida.
— Cristia...
A voz era um sussurro ríspido, como o deslizar de papel de lixa sobre veludo. Não vinha de fora, mas também não parecia vir de dentro de sua mente. Era uma vibração que ressoava nos seus ossos.
Cristia congelou. O medo, um velho conhecido, subiu por sua espinha, travando seus músculos. Ela fechou os olhos com força, desejando que fosse apenas mais uma manifestação de sua ansiedade crônica, um subproduto do isolamento que ela mesma cultivara.
— Cristia, abra os olhos. Não seja tão previsível.
— Vá embora — sussurrou Cristia, sua voz saindo rouca e trêmula. — Você não é real. Eu estou cansada. Só quero dormir.
— O sono é para os que não têm nada a observar — a voz respondeu, agora mais próxima, vinda do canto escuro onde ficava o espelho de corpo inteiro. — E você, minha querida, é o objeto de estudo mais fascinante que encontrei em décadas.
Cristia reuniu uma coragem que não sabia que possuía e se sentou na cama, os olhos disparando em direção ao espelho. No início, viu apenas o seu próprio reflexo: uma garota de pele alva, olheiras profundas e uma expressão de pavor. Mas, lentamente, a imagem no espelho começou a se distorcer.
Uma silhueta se desprendeu da moldura de madeira escura. Não era uma sombra, mas uma presença física que parecia desafiar as leis da luz. A figura que se materializou diante dela tinha a mesma idade que Cristia, mas havia algo de profundamente errado em sua simetria. Ela era bela de uma forma predatória, com olhos que pareciam conter galáxias mortas e um sorriso que nunca alcançava o olhar.
— Quem é você? — Cristia perguntou, a voz falhando.
A entidade inclinou a cabeça, observando Cristia com uma curiosidade quase clínica. Ela deu um passo à frente, seus pés descalços não emitindo som algum contra o assoalho de madeira.
— Pode me chamar de Lucy — disse a garota, estendendo uma mão pálida que parecia oscilar entre a solidez e a fumaça. — Embora nomes sejam rótulos tão limitantes para algo como eu.
— Você é... um fantasma? — Cristia recuou até que suas costas batessem na cabeceira da cama. — Ou eu finalmente perdi o juízo de vez?
Lucy soltou uma risada curta e cristalina, que ecoou de forma não natural pelo quarto.
— Talvez ambos. Talvez nenhum. A sanidade é uma construção social para pessoas que não conseguem aguentar o peso da verdade. — Ela caminhou até a escrivaninha de Cristia, tocando um de seus cadernos de desenho com as pontas dos dedos. — Você é diferente, Cristia. Eu vi o que você faz quando ninguém está olhando. Como você se retrai, como você observa o mundo como se fosse uma estranha em sua própria pele.
— Por que está aqui? — Cristia sentiu uma pontada de raiva superando o medo. — Para me assombrar? Para rir de mim?
— Rir? Não. — Lucy se virou, seus olhos fixos nos de Cristia. — Eu quero entender. O que faz alguém como você desistir da luz e abraçar as sombras de forma tão voluntária? O que acontece dentro dessa mente tão cheia de cicatrizes?
— Eu não escolhi isso — Cristia rebateu, as mãos tremendo. — As coisas... as coisas simplesmente aconteceram. Pessoas vão embora, Lucy. O mundo machuca. É mais seguro aqui.
— Segurança é apenas outra palavra para estagnação — Lucy comentou, agora sentada na beira da cama de Cristia, a centímetros de distância. — Mas o seu isolamento criou algo único. Uma frequência. Foi isso que me atraiu. Você brilha no escuro, Cristia Nagome.
Cristia sentiu um calafrio. Lucy não parecia benevolente, mas também não exalava a malícia pura que se esperaria de um monstro de filme de terror. Ela era ambígua, uma observadora fria que parecia estar dissecando a alma de Cristia com cada olhar.
— Você vai me machucar? — perguntou Cristia, sua vulnerabilidade exposta.
Lucy esticou a mão e, por um momento, Cristia achou que seria tocada. Mas a mão da entidade parou a milímetros de seu rosto, o ar entre elas vibrando com uma energia estática.
— A dor é um dado interessante, mas eu prefiro a reação — disse Lucy, com um brilho enigmático nos olhos. — Eu não sou sua amiga, Cristia. Mas eu sou a única que vai realmente ver você. Cada pensamento sombrio, cada desejo proibido de pertencer a algum lugar. Eu serei sua sombra e seu espelho.
— Eu não pedi por isso — murmurou Cristia, sentindo lágrimas de frustração arderem em seus olhos.
— As melhores coisas na vida nunca são pedidas — Lucy levantou-se e começou a flutuar ao redor do quarto, como se estivesse inspecionando uma galeria de arte. — Elas simplesmente se impõem.
Cristia observou a figura de Lucy. Ela usava roupas que lembravam as suas — tons escuros, rendas gastas, um estilo gótico que Cristia usava como armadura contra o mundo. Era como se Lucy fosse uma versão destilada de todas as suas inseguranças e traumas, manifestada em uma forma física e imprevisível.
— O que você quer de mim agora? — perguntou Cristia, limpando uma lágrima solitária.
— Agora? — Lucy parou diante da janela, olhando para a rua deserta lá fora. — Agora você vai tentar voltar a dormir. E amanhã, quando você for para aquela escola cheia de pessoas vazias e sorrisos falsos, eu estarei lá.
— Você vai aparecer na frente de todo mundo? — Cristia sentiu o pânico subir novamente. Se as pessoas já a achavam louca, ver uma entidade fantasmagórica ao seu lado seria o fim.
— Só você pode me ver, a menos que eu decida o contrário — Lucy sorriu, e desta vez o sorriso foi quase cruel. — Mas eu falarei com você. Vou sussurrar as verdades que você tenta esconder. Vou observar como você lida com o peso da minha presença.
— Por que eu? — Cristia insistiu, a voz pequena. — Existem tantas pessoas no mundo. Pessoas mais interessantes, pessoas mais felizes...
— Pessoas felizes são entediantes — Lucy interrompeu, voltando para o lado de Cristia em um piscar de olhos. — Elas são como livros de colorir já preenchidos. Você, Cristia... você é uma tela em branco manchada de cinza e preto. Eu quero ver que cores vão surgir quando eu começar a apertar as suas feridas.
Cristia sentiu um aperto no peito. O medo ainda estava lá, mas havia algo mais. Uma curiosidade mórbida. Pela primeira vez em anos, ela não se sentia completamente sozinha, mesmo que a companhia fosse uma entidade potencialmente perigosa e mentalmente instável.
— Você não vai me deixar em paz, vai? — Cristia perguntou, já sabendo a resposta.
— Paz é um conceito superestimado — Lucy disse, sua forma começando a se tornar mais translúcida à medida que a luz da lua mudava de ângulo. — Tente dormir, pequena observada. O experimento está apenas começando.
Lucy desapareceu em um sussurro de vento que nem sequer moveu as cortinas. Cristia ficou sentada na cama por um longo tempo, o coração batendo forte contra as costelas. Ela olhou para o espelho, mas agora via apenas a si mesma — pálida, gótica, solitária.
No entanto, o frio no quarto permanecia. E, no fundo de sua mente, ela podia jurar que ouvia uma risada suave e distante, como se Lucy estivesse sentada em um canto de sua consciência, esperando o próximo ato.
Cristia deitou-se novamente, puxando as cobertas até o queixo. O mundo parecia o mesmo, mas tudo havia mudado. Ela fechou os olhos, sabendo que, a partir daquela madrugada, o silêncio nunca mais seria absoluto.
— Eu estou ficando louca — sussurrou para a escuridão.
— A loucura é apenas o início da compreensão — a voz de Lucy ecoou, desta vez vinda de debaixo da cama, num tom brincalhão e sinistro.
Cristia apertou os olhos com força. O sol nasceria em algumas horas, e com ele, uma nova rotina. Mas agora, ela carregava um segredo que não pertencia a este mundo. Ela era o estudo de caso de uma entidade sem nome, e a incerteza do que viria a seguir era a coisa mais aterrorizante e, estranhamente, a mais viva que ela já sentira.
A madrugada continuou, mas o sono de Cristia foi povoado por visões de espelhos quebrados e olhos que brilhavam como estrelas moribundas. Ela não estava mais sozinha. E esse era o seu maior alívio e o seu pior pesadelo.
Ela acordou de repente, não por um pesadelo, mas por uma sensação de deslocamento. O ar no quarto parecia ter esfriado dez graus em um segundo. Suas mãos, pálidas e magras, apertaram a borda do cobertor. Cristia sempre fora o que os vizinhos chamavam de "estranha" ou "difícil", mas ela preferia os termos que usava para si mesma: invisível, quebrada, protegida.
— Cristia...
A voz era um sussurro ríspido, como o deslizar de papel de lixa sobre veludo. Não vinha de fora, mas também não parecia vir de dentro de sua mente. Era uma vibração que ressoava nos seus ossos.
Cristia congelou. O medo, um velho conhecido, subiu por sua espinha, travando seus músculos. Ela fechou os olhos com força, desejando que fosse apenas mais uma manifestação de sua ansiedade crônica, um subproduto do isolamento que ela mesma cultivara.
— Cristia, abra os olhos. Não seja tão previsível.
— Vá embora — sussurrou Cristia, sua voz saindo rouca e trêmula. — Você não é real. Eu estou cansada. Só quero dormir.
— O sono é para os que não têm nada a observar — a voz respondeu, agora mais próxima, vinda do canto escuro onde ficava o espelho de corpo inteiro. — E você, minha querida, é o objeto de estudo mais fascinante que encontrei em décadas.
Cristia reuniu uma coragem que não sabia que possuía e se sentou na cama, os olhos disparando em direção ao espelho. No início, viu apenas o seu próprio reflexo: uma garota de pele alva, olheiras profundas e uma expressão de pavor. Mas, lentamente, a imagem no espelho começou a se distorcer.
Uma silhueta se desprendeu da moldura de madeira escura. Não era uma sombra, mas uma presença física que parecia desafiar as leis da luz. A figura que se materializou diante dela tinha a mesma idade que Cristia, mas havia algo de profundamente errado em sua simetria. Ela era bela de uma forma predatória, com olhos que pareciam conter galáxias mortas e um sorriso que nunca alcançava o olhar.
— Quem é você? — Cristia perguntou, a voz falhando.
A entidade inclinou a cabeça, observando Cristia com uma curiosidade quase clínica. Ela deu um passo à frente, seus pés descalços não emitindo som algum contra o assoalho de madeira.
— Pode me chamar de Lucy — disse a garota, estendendo uma mão pálida que parecia oscilar entre a solidez e a fumaça. — Embora nomes sejam rótulos tão limitantes para algo como eu.
— Você é... um fantasma? — Cristia recuou até que suas costas batessem na cabeceira da cama. — Ou eu finalmente perdi o juízo de vez?
Lucy soltou uma risada curta e cristalina, que ecoou de forma não natural pelo quarto.
— Talvez ambos. Talvez nenhum. A sanidade é uma construção social para pessoas que não conseguem aguentar o peso da verdade. — Ela caminhou até a escrivaninha de Cristia, tocando um de seus cadernos de desenho com as pontas dos dedos. — Você é diferente, Cristia. Eu vi o que você faz quando ninguém está olhando. Como você se retrai, como você observa o mundo como se fosse uma estranha em sua própria pele.
— Por que está aqui? — Cristia sentiu uma pontada de raiva superando o medo. — Para me assombrar? Para rir de mim?
— Rir? Não. — Lucy se virou, seus olhos fixos nos de Cristia. — Eu quero entender. O que faz alguém como você desistir da luz e abraçar as sombras de forma tão voluntária? O que acontece dentro dessa mente tão cheia de cicatrizes?
— Eu não escolhi isso — Cristia rebateu, as mãos tremendo. — As coisas... as coisas simplesmente aconteceram. Pessoas vão embora, Lucy. O mundo machuca. É mais seguro aqui.
— Segurança é apenas outra palavra para estagnação — Lucy comentou, agora sentada na beira da cama de Cristia, a centímetros de distância. — Mas o seu isolamento criou algo único. Uma frequência. Foi isso que me atraiu. Você brilha no escuro, Cristia Nagome.
Cristia sentiu um calafrio. Lucy não parecia benevolente, mas também não exalava a malícia pura que se esperaria de um monstro de filme de terror. Ela era ambígua, uma observadora fria que parecia estar dissecando a alma de Cristia com cada olhar.
— Você vai me machucar? — perguntou Cristia, sua vulnerabilidade exposta.
Lucy esticou a mão e, por um momento, Cristia achou que seria tocada. Mas a mão da entidade parou a milímetros de seu rosto, o ar entre elas vibrando com uma energia estática.
— A dor é um dado interessante, mas eu prefiro a reação — disse Lucy, com um brilho enigmático nos olhos. — Eu não sou sua amiga, Cristia. Mas eu sou a única que vai realmente ver você. Cada pensamento sombrio, cada desejo proibido de pertencer a algum lugar. Eu serei sua sombra e seu espelho.
— Eu não pedi por isso — murmurou Cristia, sentindo lágrimas de frustração arderem em seus olhos.
— As melhores coisas na vida nunca são pedidas — Lucy levantou-se e começou a flutuar ao redor do quarto, como se estivesse inspecionando uma galeria de arte. — Elas simplesmente se impõem.
Cristia observou a figura de Lucy. Ela usava roupas que lembravam as suas — tons escuros, rendas gastas, um estilo gótico que Cristia usava como armadura contra o mundo. Era como se Lucy fosse uma versão destilada de todas as suas inseguranças e traumas, manifestada em uma forma física e imprevisível.
— O que você quer de mim agora? — perguntou Cristia, limpando uma lágrima solitária.
— Agora? — Lucy parou diante da janela, olhando para a rua deserta lá fora. — Agora você vai tentar voltar a dormir. E amanhã, quando você for para aquela escola cheia de pessoas vazias e sorrisos falsos, eu estarei lá.
— Você vai aparecer na frente de todo mundo? — Cristia sentiu o pânico subir novamente. Se as pessoas já a achavam louca, ver uma entidade fantasmagórica ao seu lado seria o fim.
— Só você pode me ver, a menos que eu decida o contrário — Lucy sorriu, e desta vez o sorriso foi quase cruel. — Mas eu falarei com você. Vou sussurrar as verdades que você tenta esconder. Vou observar como você lida com o peso da minha presença.
— Por que eu? — Cristia insistiu, a voz pequena. — Existem tantas pessoas no mundo. Pessoas mais interessantes, pessoas mais felizes...
— Pessoas felizes são entediantes — Lucy interrompeu, voltando para o lado de Cristia em um piscar de olhos. — Elas são como livros de colorir já preenchidos. Você, Cristia... você é uma tela em branco manchada de cinza e preto. Eu quero ver que cores vão surgir quando eu começar a apertar as suas feridas.
Cristia sentiu um aperto no peito. O medo ainda estava lá, mas havia algo mais. Uma curiosidade mórbida. Pela primeira vez em anos, ela não se sentia completamente sozinha, mesmo que a companhia fosse uma entidade potencialmente perigosa e mentalmente instável.
— Você não vai me deixar em paz, vai? — Cristia perguntou, já sabendo a resposta.
— Paz é um conceito superestimado — Lucy disse, sua forma começando a se tornar mais translúcida à medida que a luz da lua mudava de ângulo. — Tente dormir, pequena observada. O experimento está apenas começando.
Lucy desapareceu em um sussurro de vento que nem sequer moveu as cortinas. Cristia ficou sentada na cama por um longo tempo, o coração batendo forte contra as costelas. Ela olhou para o espelho, mas agora via apenas a si mesma — pálida, gótica, solitária.
No entanto, o frio no quarto permanecia. E, no fundo de sua mente, ela podia jurar que ouvia uma risada suave e distante, como se Lucy estivesse sentada em um canto de sua consciência, esperando o próximo ato.
Cristia deitou-se novamente, puxando as cobertas até o queixo. O mundo parecia o mesmo, mas tudo havia mudado. Ela fechou os olhos, sabendo que, a partir daquela madrugada, o silêncio nunca mais seria absoluto.
— Eu estou ficando louca — sussurrou para a escuridão.
— A loucura é apenas o início da compreensão — a voz de Lucy ecoou, desta vez vinda de debaixo da cama, num tom brincalhão e sinistro.
Cristia apertou os olhos com força. O sol nasceria em algumas horas, e com ele, uma nova rotina. Mas agora, ela carregava um segredo que não pertencia a este mundo. Ela era o estudo de caso de uma entidade sem nome, e a incerteza do que viria a seguir era a coisa mais aterrorizante e, estranhamente, a mais viva que ela já sentira.
A madrugada continuou, mas o sono de Cristia foi povoado por visões de espelhos quebrados e olhos que brilhavam como estrelas moribundas. Ela não estava mais sozinha. E esse era o seu maior alívio e o seu pior pesadelo.
