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Entre tapas e beijos.

Fandom: Flowers (TV serie) e Original Character

Criado: 11/06/2026

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RomanceDramaFatias de VidaEstudo de PersonagemHistória DomésticaRealismoCiúmes
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Vinagre, Couro e Outras Notas de Amargor

A chuva batia contra as janelas de vidro do apartamento nos Jardins com uma insistência melancólica, o tipo de clima que Gabriele considerava perfeito para um conhaque, um livro de capa dura e o silêncio absoluto de sua própria companhia. No entanto, ao cruzar a soleira da porta, o que encontrou foi o oposto do paraíso. O aroma de café fresco misturava-se a um cheiro de pão de queijo aquecido, e o som de vozes animadas já ecoava pelo corredor.

Gabriele suspirou, fechando seu guarda-chuva com uma precisão cirúrgica. Ela vestia um conjunto de alfaiataria cinza-chumbo que parecia recém-saído da vitrine, e seu corte chanel não tinha um fio fora do lugar, apesar da umidade.

— Ana, por favor, me diga que eu entrei no andar errado — disse Gabriele, sem elevar o tom de voz, mas carregando-o com aquele desdém refinado que era sua marca registrada.

Ana apareceu na porta da cozinha, secando as mãos em um avental.

— Ah, Gabi, você chegou! Não faça essa cara. Eu avisei na terça-feira que o grupo de escrita viria hoje. O tempo virou e decidimos fazer o encontro aqui.

— "Pessoas que criam histórias" — Gabriele desdenhou, deixando sua bolsa sobre o aparador de jacarandá. — Um eufemismo para gente que passa tempo demais imaginando vidas que não têm. Mirtes já está estressada, veja só.

A gata persa, tão ranzinza quanto a dona, soltou um miado baixo de cima do sofá, encarando o movimento com olhos semicerrados.

— Deixe de ser chata — Ana riu, aproximando-se da amiga. — Vai lá, toma um banho, coloca algo confortável e vem participar. A Amanda trouxe a namorada nova.

— Confortável? Ana, eu não possuo "roupas de ficar em casa" que não sejam apresentáveis. E não tenho o menor interesse na vida amorosa da Amanda. Aquela menina é um caos em forma de pessoa.

— Gabriele, seja uma boa amiga pelo menos uma vez por década. Por mim?

Gabriele revirou os olhos, mas o brilho de resignação em seu olhar denunciava que ela cederia. Meia hora depois, ela ressurgiu. Tinha trocado o conjunto cinza por uma calça de seda preta e um cardigã de cashmere pérola. Ainda parecia pronta para um jantar na embaixada, mas era o seu máximo de "desleixo".

Ao entrar na sala, o caos já estava instalado. Amanda — ou Amy, como ela insistia em ser chamada para "soar mais artística" — estava sentada no tapete, gesticulando freneticamente. Ao lado dela, ocupando a poltrona favorita de Gabriele, estava uma figura que parecia ter vindo de um universo paralelo.

Cabelos curtos e grisalhos, uma jaqueta de couro gasta sobre os ombros e braços cobertos por tatuagens que espreitavam sob as mangas. A mulher tinha uma presença densa, magnética, mas seus olhos, quando encontraram os de Gabriele, revelaram uma timidez inesperada, quase um desconforto.

— Tia Gabi! — Amy gritou, com aquela energia maníaca de quem tinha esquecido de tomar — ou tomado demais — seus remédios. — Você chegou! Vem, senta aqui no chão com a gente. A gente está discutindo se o tropo de "inimigos que se amam" é clichê ou essencial.

Gabriele parou diante da poltrona, ignorando o convite para o chão. Ela olhou para a mulher sentada em seu lugar como se estivesse observando uma mancha de óleo em um tapete persa.

— "Tia" é um termo que reservamos para parentes ou para pessoas que desistiram da dignidade, Amy. Eu não sou nenhum dos dois — Gabriele disparou, fria. — E você está no meu lugar.

A mulher de jaqueta de couro piscou, processando a grosseria. Ela se levantou lentamente, revelando-se um pouco mais alta que Gabriele. Sua postura era defensiva, mas havia um sorriso de canto, meio de lado, que parecia desafiador.

— Peço desculpas. A Ana disse que eu podia sentar em qualquer lugar — disse a mulher. Sua voz era rouca, profunda. — Sou a Hylda.

Gabriele não estendeu a mão. Apenas ajeitou a almofada que Hylda acabara de desocupar antes de se sentar com uma elegância rígida.

— Gabriele. E a Ana tem uma inclinação lamentável para a hospitalidade indiscriminada.

— Nossa, que recepção calorosa — Hylda comentou, voltando a se sentar, mas agora em um banco de madeira perto da mesa de centro. — Você sempre é assim ou eu ganhei um bônus por ser namorada da Amy?

— Eu sou assim com qualquer um que traga o cheiro de asfalto e rebeldia tardia para dentro da minha sala de estar — Gabriele cruzou as pernas, pegando uma xícara de chá que Ana lhe ofereceu com um olhar de reprovação.

— Rebeldia tardia? — Hylda soltou uma risada curta, sem graça, mas seus olhos brilharam com uma faísca de irritação. — Eu trabalho em uma fábrica, Gabriele. O cheiro é de graxa e de quem acorda às cinco da manhã, não de rebeldia.

— Ah, uma operária — Gabriele deu um gole no chá. — Que pitoresco. Explica as tatuagens. Imagino que cada uma delas tenha uma história trágica de superação que você conta em bares de baixa categoria.

— Gabi, chega! — Ana interveio, sentindo a tensão subir. — Hylda é uma pessoa maravilhosa, ela ajuda muita gente na comunidade. É quase uma santa, se você quer saber.

— Uma santa de jaqueta de couro — Gabriele destilou o veneno. — Que imagem fascinante para uma fanfiction, não é, Amy? A "criança encapetada" e sua protetora grisalha.

Amy, que até então estava rindo da interação, fez um biquinho.

— Eu não sou encapetada, tia! Eu sou incompreendida. A Hylda me entende porque ela também é meio estragada por dentro.

Hylda suspirou, passando a mão pelos cabelos curtos. Ela parecia estar fazendo um esforço hercúleo para não mandar Gabriele para algum lugar bem longe dali. Ela olhou fixamente para Gabriele, observando a pele impecável da outra, o brilho arrogante nos olhos castanhos e a forma como ela segurava a xícara como se fosse um objeto sagrado.

— Você fala muito para quem parece ter medo de um grão de poeira, Gabriele — Hylda disse, a voz agora mais baixa e firme. — A Amy pode ser intensa, mas ela tem mais vida em um dedo do que você parece ter nesse apartamento inteiro.

— Vida? — Gabriele arqueou uma sobrancelha. — Se você chama instabilidade emocional e falta de etiqueta de "vida", então sim, estou morta e enterrada. Prefiro minha "poeira" ao caos que vocês duas representam.

— Engraçado — Hylda inclinou-se para frente, diminuindo a distância entre as duas. O cheiro de couro e de um perfume amadeirado e barato, mas estranhamente atraente, atingiu o nariz de Gabriele. — Para alguém que detesta tanto o caos, você está olhando muito para mim.

Gabriele sentiu o rosto esquentar — uma reação que ela não permitia a si mesma há décadas.

— Estou apenas monitorando a integridade dos meus móveis — rebateu Gabriele, embora sua voz tenha falhado minimamente.

— Sei — Hylda sorriu de verdade agora, um sorriso que iluminou seu rosto cansado e a deixou irritantemente bonita aos olhos de Gabriele. — Você é do tipo que morde porque tem medo que alguém chegue perto o suficiente para fazer carinho.

— Não seja ridícula. Eu não sou um dos seus projetos de caridade da fábrica.

A discussão foi interrompida pela porta se abrindo bruscamente. Gustaf entrou, sacudindo um sobretudo molhado e espalhando gotas de água por todo o hall.

— Cheguei para salvar a noite! — Gustaf exclamou, com seu habitual ar de malandro desajeitado. — Gabriele, querida, por que essa cara? Parece que engoliu um limão... Ah, vejo que temos visitas interessantes.

Ele caminhou até Gabriele e plantou um beijo em sua bochecha. Ela apenas revirou os olhos.

— Gustaf, por favor, não molhe o tapete.

— Sempre tão amável — Gustaf piscou para Hylda. — Sou o Gustaf, o ex-namorado que ela não consegue esquecer, embora ela tente me apagar da história toda vez que toma dois cálices de vinho.

— Ex-namorado de um erro de percurso na juventude — corrigiu Gabriele. — Hoje, apenas um colega de trabalho que eu tolero.

— Ela me ama — Gustaf disse para Hylda, pegando um pão de queijo. — E você, quem é? A nova vítima da língua afiada dela?

— Hylda. E não se preocupe, eu tenho a pele grossa — Hylda respondeu, mas seus olhos voltaram rapidamente para Gabriele.

A noite prosseguiu em um clima de guerra fria. O grupo de escrita começou a discutir enredos, e Gabriele fazia questão de criticar cada ideia com uma precisão literária devastadora. Amy falava sobre uma história de amor proibido entre uma princesa e uma ladra, ao que Gabriele comentou que "a ladra provavelmente roubaria as joias e deixaria a princesa falando sozinha, o que seria um final muito mais realista".

Hylda, por outro lado, permanecia em silêncio na maior parte do tempo, mas sempre que Gabriele lançava um comentário ácido, ela devolvia com um olhar pesado, carregado de algo que Gabriele não conseguia identificar. Era aversão? Ou era aquele tipo de curiosidade perigosa que precede um desastre?

Em um certo momento, Amy levantou-se para buscar mais refrigerante e, ao passar por Gabriele, chamou-a novamente de "tia", puxando de leve uma mecha do cabelo da mulher.

— Ai, tia Gabi, você devia escrever sobre uma vilã. Você já tem o figurino e o mau humor!

— Amy, se você me tocar de novo, eu vou garantir que sua próxima história seja escrita em braille, porque eu vou arrancar seus olhos — Gabriele disse, com um sorriso gélido que não chegava aos olhos.

Hylda levantou-se imediatamente. O movimento foi brusco, e a cadeira raspou no chão com um guincho incômodo.

— Já chega, Gabriele — Hylda disse, e o tom de "padre" que Ana mencionara desapareceu, dando lugar a uma autoridade protetora. — Você pode ser amarga o quanto quiser comigo, mas não fale assim com ela. Ela tem vinte e seis anos, mas tem o coração de uma criança. Tenha um pouco de decência.

Gabriele levantou-se também, o cardigã de cashmere caindo perfeitamente sobre seus ombros. Ela se aproximou de Hylda, ficando a poucos centímetros de distância. A tensão na sala tornou-se palpável. Ana e Gustaf trocaram olhares rápidos.

— Decência? — Gabriele sibilou. — Você entra na minha casa, senta na minha poltrona, traz essa... essa criatura indomada para o meu refúgio e quer me dar lições de moral? Você não sabe nada sobre mim, Hylda.

— Eu sei o suficiente — Hylda retrucou, a voz baixando para um tom quase íntimo, mas perigoso. — Eu sei que você está morrendo de medo de que alguém quebre essa sua casca de porcelana. Você é arrogante porque é a única forma que conhece de não ser ignorada.

— Você é uma operária insolente.

— E você é uma mulher solitária que se esconde atrás de livros clássicos porque os personagens não podem te rejeitar.

Gabriele sentiu o impacto das palavras como se fosse um tapa físico. Ela abriu a boca para uma réplica mortal, mas as palavras ficaram presas na garganta. O que ela viu nos olhos de Hylda não era ódio. Era um desafio. E, por baixo disso, uma centelha de desejo que a fez recuar um passo, o coração batendo contra as costelas de uma forma que ela não sentia há anos.

— Eu quero que todos saiam — Gabriele disse, sua voz subitamente fria e cortante como gelo. — Agora.

— Gabi, a chuva ainda está forte... — Ana tentou intervir.

— Agora, Ana! — Gabriele não gritou, mas o comando foi absoluto.

Amy, sentindo que o clima tinha passado do ponto da diversão, pegou sua bolsa rapidamente.

— Vamos, Hylda. A tia Gabi entrou em modo de desintegração atômica.

Hylda não desviou o olhar de Gabriele enquanto pegava sua jaqueta. Ela vestiu-a lentamente, ajeitando a gola. Antes de sair, ela deu um passo na direção de Gabriele, parando perto o suficiente para que apenas ela ouvisse.

— O vinagre é um ótimo conservante, Gabriele — sussurrou Hylda —, mas ninguém quer beber direto da garrafa. Boa noite.

A porta se fechou atrás do grupo, deixando um silêncio pesado no apartamento. Ana olhou para a amiga, que ainda estava parada no meio da sala, as mãos levemente trêmulas escondidas nas mangas do cardigã.

— Aquilo foi... intenso — Ana comentou, cautelosa.

— Aquilo foi um desastre — Gabriele corrigiu, caminhando até a mesa e pegando sua xícara de chá agora fria. — Nunca mais permita que essa mulher entre aqui.

— Qual delas? A Amy?

— A outra — Gabriele disse, sentando-se na poltrona e encarando a chuva lá fora. — A que acha que pode ler as pessoas como se fossem manuais de instrução de fábrica.

Gustaf, que ainda estava terminando seu pão de queijo, soltou uma risadinha.

— Sabe, Gabi... para quem odiou a mulher, você ficou sem ar por um bom tempo.

— Cale a boca, Gustaf.

Gabriele fechou os olhos, mas a imagem de Hylda — o cabelo grisalho, o cheiro de couro e aquele olhar de quem já viu o inferno e voltou — não saía de sua mente. Ela odiava Hylda. Tinha certeza disso. Mas, pela primeira vez em muito tempo, ela não se sentia entediada. E isso, para Gabriele, era o pensamento mais aterrorizante de todos.
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