Fanfy
.studio
Imagem de fundo

Timebomb

Fandom: Arcane

Criado: 11/06/2026

Tags

DramaAngústiaDor/ConfortoPsicológicoDistopiaUso de DrogasEstudo de PersonagemCiberpunk
Índice

O Peso do Silêncio e o Gosto de Ferro

O esconderijo de Ekko nunca pareceu tão silencioso. O som distante da água pingando nas tubulações de Zaun ditava um ritmo fúnebre, enquanto ele permanecia sentado em um sofá de couro gasto, as costas encostadas na parede fria. Em seus braços, Jinx parecia pequena demais, uma boneca de porcelana cujas rachaduras haviam sido coladas de qualquer jeito.

Ele a segurava com uma delicadeza que beirava o medo, um braço sob os joelhos dela e o outro sustentando suas costas, como se ela fosse um bebê que pudesse se quebrar ao menor movimento brusco. A respiração de Jinx era superficial, entrecortada, e sua pele tinha uma palidez doentia que Ekko conhecia bem demais. Ele sabia o que causava aquilo. Sabia do "leite" à noite, das "vitaminas" pela manhã. Sabia que a mãe dela a mantinha em um ciclo perpétuo de névoa e fraqueza, transformando a garota que um dia foi um furacão em um fantasma trêmulo.

Ekko afastou uma mecha de cabelo azul do rosto dela. Os dedos dele roçaram um hematoma arroxeado na têmpora de Jinx — um presente recente da mãe dela, aproveitando-se da vulnerabilidade que ela mesma fabricava. O ódio queimava no peito de Ekko, mas ele o engoliu. Agora, o que importava era o peso dela em seu colo.

As pálpebras de Jinx tremeram. Ela soltou um gemido baixo, a cabeça pendendo levemente para o lado antes de os olhos se abrirem. Por um momento, eles estavam nublados, as pupilas dilatadas lutando para encontrar o foco.

— Ekko? — A voz dela era um sussurro rouco, quase inaudível.

— Estou aqui, Powder. — Ele usou o nome antigo, o nome que guardava para os momentos em que o mundo parecia pesado demais para ela carregar. — Está tudo bem. Você está segura.

Jinx piscou devagar, tentando afastar a letargia química que ainda corria em suas veias. Ela tentou se levantar, mas seus músculos falharam, e ela desabou de volta contra o peito dele.

— Meus braços... parecem feitos de chumbo — murmurou ela, fechando os olhos novamente com uma careta de dor.

— É o remédio. Ele ainda está saindo do seu sistema — explicou Ekko, apertando o abraço. — Não tente se forçar. Eu seguro você.

O silêncio retornou, mas dessa vez era menos opressor. Jinx descansou a bochecha no ombro dele, sentindo o calor do corpo de Ekko. Por alguns minutos, o mundo lá fora — a mãe abusiva, a cidade cruel, a dependência — não existia.

O bipe rítmico do dispositivo de comunicação de Jinx rompeu o momento. Com mãos trêmulas, ela tateou o bolso até encontrar o aparelho. Ekko a ajudou a segurá-lo para que ela pudesse ler a tela.

— É a Vi — disse ela, a voz ganhando um fio de clareza.

A mensagem era curta: "Falei com a mamãe que a gente decidiu ficar em um hotel hoje para aproveitar o dia. Ela concordou. Temos o dia inteiro só para nós, maninha! Me avisa quando acordar que eu te encontro."

Jinx soltou um suspiro que pareceu esvaziar todo o seu corpo.

— Ela não sabe — sussurrou Jinx, os olhos fixos na tela. — Ela acha que... que a mamãe é perfeita. Que eu sou apenas 'delicada'.

— Vi vê o que quer ver, Jinx — disse Ekko, o tom de voz carregado de uma amargura que ele tentava esconder. — Ela mora longe, ela é tratada como a filha de ouro. Ela não vê as vitaminas que te deixam assim. Ela não vê as mãos que te batem quando você não consegue nem ficar de pé.

Jinx guardou o aparelho, as mãos ainda tremendo.

— Não conta pra ela, Ekko. Por favor. Se ela souber... ela vai tentar consertar. E se ela tentar consertar, tudo vai explodir. Eu só quero... um dia normal.

Ekko olhou para ela, sentindo uma dor aguda no coração. Como ela podia pedir normalidade quando estava sendo envenenada lentamente em sua própria casa? Mas ele assentiu. Ele faria qualquer coisa por aquele vislumbre de paz nos olhos dela.

— Tudo bem. Hoje é o nosso dia. A Vi acha que você está no hotel, então você fica aqui comigo.

O dia passou como um sonho febril. Ekko não a deixou caminhar muito; ele a carregava de um lado para o outro no esconderijo, ou a ajudava a se sentar em almofadas macias enquanto ele trabalhava em algumas peças de metal. Jinx, por sua vez, tentava ser a Jinx de sempre. Ela fazia piadas desconexas, mexia em seus inventários e, por breves momentos, o brilho maníaco e criativo voltava aos seus olhos.

Mas a fragilidade estava sempre lá. Em um momento, enquanto tentavam montar um pequeno autômato de sucata, as mãos de Jinx falharam. Uma mola saltou e o brinquedo se desfez.

Ela parou. Seus ombros começaram a tremer.

— Eu não consigo... — a voz dela quebrou. — Eu não consigo nem segurar uma pinça, Ekko.

— Ei, está tudo bem. É só um brinquedo — disse ele, aproximando-se rapidamente.

— Não é o brinquedo! — Ela gritou, embora o grito tenha saído fraco. — É tudo! Eu me sinto... oca. Como se ela estivesse sugando tudo o que eu sou e colocando esse... esse lodo no lugar. Eu sinto falta de sentir meu corpo, Ekko. Eu sinto falta de não estar cansada.

As lágrimas começaram a descer, pesadas e silenciosas, lavando a sujeira e a maquiagem borrada em seu rosto. Jinx se encolheu, escondendo o rosto nas mãos, os soluços sacudindo seu corpo magro.

Ekko não disse nada. Ele apenas a puxou para um abraço apertado, deixando que ela chorasse em seu peito. Ele sentia os ossos dela sob a pele, a prova física do quanto aquela rotina de remédios e abusos a estava consumindo.

— Eu odeio ela — soluçou Jinx contra a camisa dele. — Eu odeio o gosto daquele leite. Eu odeio como ela sorri para a Vi e depois me olha como se eu fosse... um erro que ela precisa esconder.

— Você não é um erro, Powder — disse Ekko, a voz firme, embora seus próprios olhos estivessem úmidos. — Você é a pessoa mais forte que eu conheço. Ninguém mais conseguiria aguentar o que você aguenta e ainda conseguir sorrir de vez em quando.

Ele começou a embalá-la lentamente, um movimento de vaivém que parecia acalmá-la.

— Um dia — continuou ele, sussurrando perto do ouvido dela —, eu vou tirar você de lá. Não para um hotel, não para um esconderijo temporário. Eu vou te levar para algum lugar onde não existam vitaminas, nem remédios, nem mãos que machucam.

Jinx se afastou um pouco, olhando para ele com os olhos vermelhos e inchados.

— Você jura?

— Pelas luzes de Zaun, eu juro.

Ela encostou a testa na dele, fechando os olhos. Por um momento, a dependência química parecia um ruído distante. O carinho de Ekko, o modo como ele segurava sua mão como se ela fosse preciosa, era o único remédio que realmente funcionava.

— Fica assim... só mais um pouco — pediu ela, a voz voltando a ficar sonolenta.

— Eu não vou a lugar nenhum — prometeu Ekko.

Ele continuou ali, sentado no chão do esconderijo entre as sombras e as máquinas, segurando a garota que o mundo tentava apagar, enquanto o relógio na parede marcava as horas de um dia que eles desejavam que nunca terminasse. Ali, Jinx não era uma arma, nem uma viciada, nem uma vítima. Ela era apenas Powder, e ela estava em casa.
Índice

Quer criar seu próprio fanfic?

Cadastre-se na Fanfy e crie suas próprias histórias!

Criar meu fanfic