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Fandom: Nenhum
Criado: 12/06/2026
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RomanceDramaAngústiaPsicológicoEstudo de PersonagemCiúmesRealismoNovelaDor/ConfortoHistória DomésticaGótico SulistaNoir GóticoSombrio
Tinta, Seda e o Destino na Estrada
A chuva batia com uma insistência monótona contra o para-brisa do SUV de luxo, transformando a estrada de terra em um lamaçal traiçoeiro. No interior do veículo, o clima não era muito diferente: uma mistura de luxo, cansaço e a tensão característica que emanava de Emanuel. Ele apertava o volante com força, os nós dos dedos brancos, enquanto tentava enxergar um palmo à frente.
Ao seu lado, Sara conferia o reflexo no espelho do quebra-sol pela décima vez. O batom vermelho perfeitamente aplicado contrastava com seu cabelo loiro platinado, impecavelmente alinhado, apesar das horas de viagem. O decote generoso do vestido justo de seda parecia deslocado naquela escuridão rural, mas Sara nunca foi mulher de passar despercebida, nem mesmo para as árvores da beira da estrada.
— Emanuel, querido, se a gente passar mais dez minutos nesse fim de mundo, eu vou começar a achar que fomos sequestrados pelo cenário de um filme de terror — ela comentou, a voz carregada de seu sarcasmo habitual. — Eu disse que devíamos ter vindo com o motorista.
— O motorista não faria o motor parar de engasgar, Sara — ele respondeu, a voz rouca e firme, tentando manter o controle que tanto prezava. — O carro está morrendo.
Como se para confirmar suas palavras, o motor deu um último suspiro metálico e silenciou. Emanuel soltou um palavrão baixo, encostando o veículo no acostamento gramado. A escuridão era quase absoluta, exceto por uma luz amarelada e acolhedora que brilhava a uns duzentos metros de distância, no topo de uma pequena colina.
— Ótimo. Simplesmente maravilhoso — Sara bufou, pegando sua bolsa de grife. — Espero que quem quer que more ali tenha um bar decente ou, no mínimo, sinal de Wi-Fi.
Emanuel não respondeu. Ele apenas desceu do carro, sentindo a chuva fina molhar seu rosto cansado. Ele era um homem de negócios, um artista que construiu um império com agulhas e tinta, mas ali, diante da imensidão escura, sentia-se estranhamente vulnerável. Ele ajudou Sara a descer, protegendo-a com um guarda-chuva enquanto caminhavam em direção à propriedade.
Ao chegarem à varanda da casa de campo, o som de risadas e o cheiro inebriante de comida caseira os receberam antes mesmo de baterem à porta. Era uma construção antiga, mas bem cuidada, exalando um calor que Emanuel não sentia há muito tempo.
A porta foi aberta por um homem de aparência jovem e descontraída, vestindo jeans e uma camiseta de banda. Era o pai de Eduarda, que, com um sorriso hospitaleiro, logo os convidou para entrar ao ouvir sobre o carro quebrado.
— Imaginem só, que azar! Entrem, entrem. Sou o Marcos. A casa está cheia, mas sempre cabe mais dois.
Ao cruzarem o limiar, o contraste foi imediato. Sara, com sua beleza agressiva e artificial, parecia uma alienígena em um ninho de conforto. Ela olhava ao redor com uma sobrancelha erguida, analisando a decoração rústica com um ar de superioridade que Emanuel conhecia bem. Ele, por outro lado, sentiu o estresse acumulado de meses começar a baixar... até que a viu.
Sentada em um sofá de veludo gasto, cercada por livros de arte e cadernos de desenho, estava uma jovem que parecia ter sido pintada por um mestre renascentista. Eduarda tinha os cabelos castanhos caindo suavemente sobre os ombros, a pele clara como porcelana e um olhar que transmitia uma doçura quase dolorosa. Ela usava um cardigã oversized de cor creme e meias grossas.
Emanuel sentiu um soco no estômago. Não foi apenas atração física; foi um reconhecimento espiritual. Algo nele, o homem prático e racional, quebrou.
— Eduarda, querida, pegue mais alguns pratos — pediu a mãe dela, uma mulher igualmente moderna e vibrante, que passava em direção à cozinha.
Eduarda levantou-se com uma graça tímida, seus olhos encontrando os de Emanuel por um breve segundo antes de se desviarem, envergonhados.
— Ah, sim, claro — ela murmurou, a voz suave e melodiosa. — A lasanha da tia já deve estar pronta. Eu estava só... revisando a matéria para a prova de segunda.
Ela parecia tão alheia ao impacto que causara que Emanuel se sentiu tonto. Ele sentiu a mão de Sara apertar seu braço, um gesto possessivo que ele geralmente apreciava, mas que agora parecia estranhamente pesado.
— Nossa, que gracinha — Sara disse, o tom beirando a condescendência enquanto examinava Eduarda de cima a baixo. — Você estuda o quê, querida? História da Arte? Combina com o seu... estilo.
Eduarda sorriu amarelo, sentindo a energia dominante de Sara.
— Sim, História da Arte. Eu gosto muito.
— Administração é o que move o mundo, mas arte é bom para o espírito, eu suponho — Sara deu de ombros, virando-se para o pai de Eduarda. — Onde podemos colocar nossas coisas? E, por favor, me diga que vocês têm um vinho tinto que não seja de garrafão.
Enquanto Sara se envolvia em uma conversa vibrante e levemente invasiva com os donos da casa, Emanuel permaneceu estático. Seus olhos seguiam Eduarda enquanto ela se movia pela sala de jantar, colocando os talheres com mãos delicadas. Ele notou como ela era esguia, como seus gestos eram lentos e cuidadosos, o oposto exato da eficiência ruidosa de Sara.
— Você está bem, Emanuel? — Sara perguntou, voltando-se para ele e notando seu silêncio. — Parece que viu um fantasma.
— Só estou cansado, Sara — ele mentiu, sua voz saindo mais rígida do que o pretendido. — O estresse do estúdio de Londres ainda não passou.
— Relaxa, gato. Amanhã resolvemos o carro — ela disse, passando a mão pelo rosto dele com uma confiança inabalável.
Sara não via Eduarda como uma ameaça. Para ela, a garota era apenas uma "camponesa" bonitinha e sem sal. Sara era a parceira de Emanuel, a mulher que entendia seus negócios, que dividia sua cama e sua ambição. Ela era a rainha do império que ele construíra.
Mas, durante o jantar, Emanuel não conseguia parar de observar a "outra". Ele via como Eduarda buscava a proximidade dos primos, como ela se encolhia um pouco quando a conversa ficava alta demais, buscando conforto no silêncio. Ele sentiu um desejo avassalador de protegê-la, de envolvê-la em seus braços e garantir que o mundo nunca a machucasse.
Era uma loucura. Ele amava Sara. Amava a inteligência dela, a competência administrativa que mantinha seus estúdios nos trilhos, a paixão desenfreada que compartilhavam. Ele não queria deixar Sara. Mas, ao mesmo tempo, sentia que precisava de Eduarda como um homem no deserto precisa de água. Uma era o fogo que o mantinha aceso; a outra era a paz que ele nem sabia que procurava.
Após o jantar, a família se dispersou. Alguns foram para o andar de cima, outros para a varanda. Eduarda aproveitou o momento para escapar para a cozinha, querendo um pouco de paz para terminar sua leitura.
Ela estava debruçada sobre uma mesa de madeira maciça, lendo sobre o chiaroscuro de Caravaggio, quando sentiu uma presença. O ar na sala pareceu mudar, ficando mais denso, mais carregado.
— Caravaggio — a voz profunda de Emanuel ecoou no ambiente pequeno. — Ele sabia como usar a sombra para destacar a luz de uma forma que ninguém mais conseguiu.
Eduarda deu um pequeno salto, o coração disparando. Ela olhou para cima e encontrou o olhar intenso do tatuador. Ele estava encostado no batente da porta, os braços cruzados, a postura exalando uma autoridade que a intimidava e, ao mesmo tempo, a atraía de uma forma desconhecida.
— Sim — ela sussurrou, fechando o livro devagar. — Ele mostra que a beleza nem sempre precisa estar na luz plena.
Emanuel deu um passo à frente. O cheiro de perfume caro e tabaco suave que emanava dele preencheu o espaço de Eduarda.
— Você é muito observadora, Eduarda.
— Eu... eu tento — ela disse, levantando-se e tentando passar por ele. — Vou dormir agora, com licença.
Emanuel não se moveu. Ele bloqueou o caminho dela, não de forma agressiva, mas com uma firmeza silenciosa.
— Por que está fugindo? — ele perguntou, a voz baixa, quase um segredo.
— Eu não estou fugindo. Só estou cansada. E sua namorada deve estar esperando por você.
— Sara está ocupada convencendo seu pai a investir em criptomoedas — ele deu um sorriso de lado, um gesto raro que suavizou suas feições severas. — E você ainda não respondeu à minha pergunta.
Eduarda sentiu as bochechas esquentarem. Ela era sensível, intuitiva, e conseguia sentir a eletricidade que emanava dele. Era perigoso. Ele era um homem de outro mundo, um homem que pertencia àquela mulher loira e poderosa.
— O senhor é um convidado — ela disse, tentando manter a voz firme, embora suas mãos tremessem levemente. — E eu sou apenas a neta dos donos da casa. Não há motivo para essa conversa.
— Há todos os motivos do mundo — Emanuel rebateu, dando mais um passo, diminuindo a distância entre eles até que ela pudesse sentir o calor do corpo dele. — Eu não sou de acreditar em destino, Eduarda. Eu acredito em controle. Mas, desde que entrei nesta casa, sinto que perdi o controle de tudo.
Eduarda olhou para cima, seus olhos expressivos revelando todo o seu medo e sua fascinação.
— Por favor... me deixe passar.
Emanuel estendeu a mão, hesitando por um segundo antes de tocar uma mecha do cabelo dela. O toque foi leve, quase um suspiro, mas fez Eduarda estremecer da cabeça aos pés.
— Você é tão delicada — ele murmurou, a racionalidade lutando uma batalha perdida contra o instinto. — Como algo que deveria estar em um museu, protegida por um vidro.
— Eu não sou uma obra de arte — ela disse, recuperando um pouco de sua força. — Sou uma pessoa. E você tem uma mulher lá fora.
— Eu sei o que eu tenho — a voz dele ficou mais rígida, a possessividade começando a aflorar. — Mas eu também sei o que eu quero. E eu nunca deixo de conseguir o que eu quero, Eduarda.
— Emanuel? — a voz de Sara ecoou do corredor, alta e impaciente. — Onde você se meteu? Achei um baralho, vamos jogar alguma coisa!
Emanuel fechou os olhos por um breve momento, a tensão voltando a seus ombros. Ele se afastou de Eduarda, mas não antes de se inclinar e sussurrar perto do ouvido dela:
— Isso não acabou. Você pode tentar fugir para seus livros e para suas sombras, mas eu vou encontrar você.
Ele se virou e saiu da cozinha antes que Eduarda pudesse responder. Ela ficou ali, parada, o coração batendo contra as costelas como um pássaro enjaulado. Ela olhou para o livro de arte sobre a mesa, mas as palavras pareciam ter perdido o sentido.
Lá na sala, ela ouviu a risada de Sara, uma risada confiante de quem possuía o mundo. Eduarda sentiu uma onda de insegurança. Como ela, uma estudante tímida e comum, poderia competir com aquela presença monumental? E pior, como poderia resistir ao olhar de um homem que parecia querer devorar sua alma e protegê-la ao mesmo tempo?
Emanuel voltou para o lado de Sara, aceitando a taça de vinho que ela lhe oferecia. Ele a beijou na frente de todos, um beijo marcado por uma intensidade que fez Sara sorrir de satisfação, achando que era apenas a adrenalina da viagem. Mas os olhos de Emanuel, por cima do ombro de Sara, estavam fixos na porta da cozinha.
Ele era um homem que acumulava sucessos, estúdios e riquezas. Ele era prático e lógico. E a lógica dizia que Sara era a mulher ideal para sua vida pública e para seus negócios. Mas seu coração, aquele órgão que ele tentava silenciar há anos, gritava que Eduarda era a peça que faltava em sua vida privada, na sua essência de artista.
A chuva continuava a cair lá fora, isolando a casa de campo do resto do mundo. E, naquela noite, Emanuel tomou uma decisão silenciosa sob o teto de estranhos: ele não escolheria. Ele teria as duas. A força e a suavidade. O fogo e a paz.
Eduarda, em seu quarto, abraçava o travesseiro, sentindo-se pequena e vulnerável. Ela não sabia que tinha se tornado o objeto de desejo de um homem que desconhecia a palavra "impossível". Ela só sabia que, pela primeira vez, a prova de segunda-feira era a menor das suas preocupações. O perigo não estava na estrada de terra lá fora, mas nos olhos escuros e observadores do homem que agora dormia no quarto ao lado.
Ao seu lado, Sara conferia o reflexo no espelho do quebra-sol pela décima vez. O batom vermelho perfeitamente aplicado contrastava com seu cabelo loiro platinado, impecavelmente alinhado, apesar das horas de viagem. O decote generoso do vestido justo de seda parecia deslocado naquela escuridão rural, mas Sara nunca foi mulher de passar despercebida, nem mesmo para as árvores da beira da estrada.
— Emanuel, querido, se a gente passar mais dez minutos nesse fim de mundo, eu vou começar a achar que fomos sequestrados pelo cenário de um filme de terror — ela comentou, a voz carregada de seu sarcasmo habitual. — Eu disse que devíamos ter vindo com o motorista.
— O motorista não faria o motor parar de engasgar, Sara — ele respondeu, a voz rouca e firme, tentando manter o controle que tanto prezava. — O carro está morrendo.
Como se para confirmar suas palavras, o motor deu um último suspiro metálico e silenciou. Emanuel soltou um palavrão baixo, encostando o veículo no acostamento gramado. A escuridão era quase absoluta, exceto por uma luz amarelada e acolhedora que brilhava a uns duzentos metros de distância, no topo de uma pequena colina.
— Ótimo. Simplesmente maravilhoso — Sara bufou, pegando sua bolsa de grife. — Espero que quem quer que more ali tenha um bar decente ou, no mínimo, sinal de Wi-Fi.
Emanuel não respondeu. Ele apenas desceu do carro, sentindo a chuva fina molhar seu rosto cansado. Ele era um homem de negócios, um artista que construiu um império com agulhas e tinta, mas ali, diante da imensidão escura, sentia-se estranhamente vulnerável. Ele ajudou Sara a descer, protegendo-a com um guarda-chuva enquanto caminhavam em direção à propriedade.
Ao chegarem à varanda da casa de campo, o som de risadas e o cheiro inebriante de comida caseira os receberam antes mesmo de baterem à porta. Era uma construção antiga, mas bem cuidada, exalando um calor que Emanuel não sentia há muito tempo.
A porta foi aberta por um homem de aparência jovem e descontraída, vestindo jeans e uma camiseta de banda. Era o pai de Eduarda, que, com um sorriso hospitaleiro, logo os convidou para entrar ao ouvir sobre o carro quebrado.
— Imaginem só, que azar! Entrem, entrem. Sou o Marcos. A casa está cheia, mas sempre cabe mais dois.
Ao cruzarem o limiar, o contraste foi imediato. Sara, com sua beleza agressiva e artificial, parecia uma alienígena em um ninho de conforto. Ela olhava ao redor com uma sobrancelha erguida, analisando a decoração rústica com um ar de superioridade que Emanuel conhecia bem. Ele, por outro lado, sentiu o estresse acumulado de meses começar a baixar... até que a viu.
Sentada em um sofá de veludo gasto, cercada por livros de arte e cadernos de desenho, estava uma jovem que parecia ter sido pintada por um mestre renascentista. Eduarda tinha os cabelos castanhos caindo suavemente sobre os ombros, a pele clara como porcelana e um olhar que transmitia uma doçura quase dolorosa. Ela usava um cardigã oversized de cor creme e meias grossas.
Emanuel sentiu um soco no estômago. Não foi apenas atração física; foi um reconhecimento espiritual. Algo nele, o homem prático e racional, quebrou.
— Eduarda, querida, pegue mais alguns pratos — pediu a mãe dela, uma mulher igualmente moderna e vibrante, que passava em direção à cozinha.
Eduarda levantou-se com uma graça tímida, seus olhos encontrando os de Emanuel por um breve segundo antes de se desviarem, envergonhados.
— Ah, sim, claro — ela murmurou, a voz suave e melodiosa. — A lasanha da tia já deve estar pronta. Eu estava só... revisando a matéria para a prova de segunda.
Ela parecia tão alheia ao impacto que causara que Emanuel se sentiu tonto. Ele sentiu a mão de Sara apertar seu braço, um gesto possessivo que ele geralmente apreciava, mas que agora parecia estranhamente pesado.
— Nossa, que gracinha — Sara disse, o tom beirando a condescendência enquanto examinava Eduarda de cima a baixo. — Você estuda o quê, querida? História da Arte? Combina com o seu... estilo.
Eduarda sorriu amarelo, sentindo a energia dominante de Sara.
— Sim, História da Arte. Eu gosto muito.
— Administração é o que move o mundo, mas arte é bom para o espírito, eu suponho — Sara deu de ombros, virando-se para o pai de Eduarda. — Onde podemos colocar nossas coisas? E, por favor, me diga que vocês têm um vinho tinto que não seja de garrafão.
Enquanto Sara se envolvia em uma conversa vibrante e levemente invasiva com os donos da casa, Emanuel permaneceu estático. Seus olhos seguiam Eduarda enquanto ela se movia pela sala de jantar, colocando os talheres com mãos delicadas. Ele notou como ela era esguia, como seus gestos eram lentos e cuidadosos, o oposto exato da eficiência ruidosa de Sara.
— Você está bem, Emanuel? — Sara perguntou, voltando-se para ele e notando seu silêncio. — Parece que viu um fantasma.
— Só estou cansado, Sara — ele mentiu, sua voz saindo mais rígida do que o pretendido. — O estresse do estúdio de Londres ainda não passou.
— Relaxa, gato. Amanhã resolvemos o carro — ela disse, passando a mão pelo rosto dele com uma confiança inabalável.
Sara não via Eduarda como uma ameaça. Para ela, a garota era apenas uma "camponesa" bonitinha e sem sal. Sara era a parceira de Emanuel, a mulher que entendia seus negócios, que dividia sua cama e sua ambição. Ela era a rainha do império que ele construíra.
Mas, durante o jantar, Emanuel não conseguia parar de observar a "outra". Ele via como Eduarda buscava a proximidade dos primos, como ela se encolhia um pouco quando a conversa ficava alta demais, buscando conforto no silêncio. Ele sentiu um desejo avassalador de protegê-la, de envolvê-la em seus braços e garantir que o mundo nunca a machucasse.
Era uma loucura. Ele amava Sara. Amava a inteligência dela, a competência administrativa que mantinha seus estúdios nos trilhos, a paixão desenfreada que compartilhavam. Ele não queria deixar Sara. Mas, ao mesmo tempo, sentia que precisava de Eduarda como um homem no deserto precisa de água. Uma era o fogo que o mantinha aceso; a outra era a paz que ele nem sabia que procurava.
Após o jantar, a família se dispersou. Alguns foram para o andar de cima, outros para a varanda. Eduarda aproveitou o momento para escapar para a cozinha, querendo um pouco de paz para terminar sua leitura.
Ela estava debruçada sobre uma mesa de madeira maciça, lendo sobre o chiaroscuro de Caravaggio, quando sentiu uma presença. O ar na sala pareceu mudar, ficando mais denso, mais carregado.
— Caravaggio — a voz profunda de Emanuel ecoou no ambiente pequeno. — Ele sabia como usar a sombra para destacar a luz de uma forma que ninguém mais conseguiu.
Eduarda deu um pequeno salto, o coração disparando. Ela olhou para cima e encontrou o olhar intenso do tatuador. Ele estava encostado no batente da porta, os braços cruzados, a postura exalando uma autoridade que a intimidava e, ao mesmo tempo, a atraía de uma forma desconhecida.
— Sim — ela sussurrou, fechando o livro devagar. — Ele mostra que a beleza nem sempre precisa estar na luz plena.
Emanuel deu um passo à frente. O cheiro de perfume caro e tabaco suave que emanava dele preencheu o espaço de Eduarda.
— Você é muito observadora, Eduarda.
— Eu... eu tento — ela disse, levantando-se e tentando passar por ele. — Vou dormir agora, com licença.
Emanuel não se moveu. Ele bloqueou o caminho dela, não de forma agressiva, mas com uma firmeza silenciosa.
— Por que está fugindo? — ele perguntou, a voz baixa, quase um segredo.
— Eu não estou fugindo. Só estou cansada. E sua namorada deve estar esperando por você.
— Sara está ocupada convencendo seu pai a investir em criptomoedas — ele deu um sorriso de lado, um gesto raro que suavizou suas feições severas. — E você ainda não respondeu à minha pergunta.
Eduarda sentiu as bochechas esquentarem. Ela era sensível, intuitiva, e conseguia sentir a eletricidade que emanava dele. Era perigoso. Ele era um homem de outro mundo, um homem que pertencia àquela mulher loira e poderosa.
— O senhor é um convidado — ela disse, tentando manter a voz firme, embora suas mãos tremessem levemente. — E eu sou apenas a neta dos donos da casa. Não há motivo para essa conversa.
— Há todos os motivos do mundo — Emanuel rebateu, dando mais um passo, diminuindo a distância entre eles até que ela pudesse sentir o calor do corpo dele. — Eu não sou de acreditar em destino, Eduarda. Eu acredito em controle. Mas, desde que entrei nesta casa, sinto que perdi o controle de tudo.
Eduarda olhou para cima, seus olhos expressivos revelando todo o seu medo e sua fascinação.
— Por favor... me deixe passar.
Emanuel estendeu a mão, hesitando por um segundo antes de tocar uma mecha do cabelo dela. O toque foi leve, quase um suspiro, mas fez Eduarda estremecer da cabeça aos pés.
— Você é tão delicada — ele murmurou, a racionalidade lutando uma batalha perdida contra o instinto. — Como algo que deveria estar em um museu, protegida por um vidro.
— Eu não sou uma obra de arte — ela disse, recuperando um pouco de sua força. — Sou uma pessoa. E você tem uma mulher lá fora.
— Eu sei o que eu tenho — a voz dele ficou mais rígida, a possessividade começando a aflorar. — Mas eu também sei o que eu quero. E eu nunca deixo de conseguir o que eu quero, Eduarda.
— Emanuel? — a voz de Sara ecoou do corredor, alta e impaciente. — Onde você se meteu? Achei um baralho, vamos jogar alguma coisa!
Emanuel fechou os olhos por um breve momento, a tensão voltando a seus ombros. Ele se afastou de Eduarda, mas não antes de se inclinar e sussurrar perto do ouvido dela:
— Isso não acabou. Você pode tentar fugir para seus livros e para suas sombras, mas eu vou encontrar você.
Ele se virou e saiu da cozinha antes que Eduarda pudesse responder. Ela ficou ali, parada, o coração batendo contra as costelas como um pássaro enjaulado. Ela olhou para o livro de arte sobre a mesa, mas as palavras pareciam ter perdido o sentido.
Lá na sala, ela ouviu a risada de Sara, uma risada confiante de quem possuía o mundo. Eduarda sentiu uma onda de insegurança. Como ela, uma estudante tímida e comum, poderia competir com aquela presença monumental? E pior, como poderia resistir ao olhar de um homem que parecia querer devorar sua alma e protegê-la ao mesmo tempo?
Emanuel voltou para o lado de Sara, aceitando a taça de vinho que ela lhe oferecia. Ele a beijou na frente de todos, um beijo marcado por uma intensidade que fez Sara sorrir de satisfação, achando que era apenas a adrenalina da viagem. Mas os olhos de Emanuel, por cima do ombro de Sara, estavam fixos na porta da cozinha.
Ele era um homem que acumulava sucessos, estúdios e riquezas. Ele era prático e lógico. E a lógica dizia que Sara era a mulher ideal para sua vida pública e para seus negócios. Mas seu coração, aquele órgão que ele tentava silenciar há anos, gritava que Eduarda era a peça que faltava em sua vida privada, na sua essência de artista.
A chuva continuava a cair lá fora, isolando a casa de campo do resto do mundo. E, naquela noite, Emanuel tomou uma decisão silenciosa sob o teto de estranhos: ele não escolheria. Ele teria as duas. A força e a suavidade. O fogo e a paz.
Eduarda, em seu quarto, abraçava o travesseiro, sentindo-se pequena e vulnerável. Ela não sabia que tinha se tornado o objeto de desejo de um homem que desconhecia a palavra "impossível". Ela só sabia que, pela primeira vez, a prova de segunda-feira era a menor das suas preocupações. O perigo não estava na estrada de terra lá fora, mas nos olhos escuros e observadores do homem que agora dormia no quarto ao lado.
