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Mente e coração
Fandom: O mentalista
Criado: 13/06/2026
Tags
RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoDetetiveCrimeEstudo de PersonagemCenário Canônico
O Silêncio entre as Notas de Chá
A sede da CBI estava mergulhada naquele burburinho constante de teclados e conversas em tom baixo, mas para Patrick Jane, o mundo parecia se resumir ao movimento das mãos de Clara enquanto ela organizava alguns arquivos sobre a mesa de Lisbon. Clara não era como as outras agentes. Ela tinha curvas acentuadas, um rosto gentil que escondia uma inteligência afiada e uma paciência que desafiava a lógica de qualquer um que convivesse com um homem tão difícil quanto Jane.
Eles tinham uma história. Uma história que ninguém no escritório ousava comentar abertamente, mas que todos sentiam nas trocas de olhares. Após a tragédia que levou a esposa e a filha de Jane, Clara foi a única fresta de luz que ele permitiu entrar. Eles se envolveram de uma forma que Jane nunca imaginou ser possível novamente — romântica e sexualmente —, mas o peso do passado dele era uma âncora. Patrick era fechado, um cofre cujos segredos eram guardados por traumas e charadas. Meses atrás, Clara decidiu que não dava mais. Ela o amava, mas não podia lutar contra o fantasma de uma mulher morta e o silêncio ensurdecedor de um homem que se recusava a se abrir completamente.
Jane a observava agora. Ele notava como ela puxava levemente a barra da blusa para baixo, um gesto inconsciente que ela fazia sempre que se sentia observada. Ele sabia que Clara era insegura com o próprio corpo, embora, para ele, cada curva dela fosse um mapa de conforto e desejo que ele ainda desejava percorrer.
— Você está encarando de novo, Jane — murmurou Lisbon, sem tirar os olhos do relatório. — É falta de educação.
— Eu não estou encarando — mentiu ele, dando um gole em seu chá. — Estou observando a linguagem corporal. Clara está tensa. O ombro esquerdo está dois centímetros mais alto que o direito.
— Ela está tensa porque você está respirando no pescoço dela sem nem sair do sofá — rebateu Lisbon, finalmente olhando para ele. — Deixe-a em paz.
Jane deu um sorriso enigmático e se levantou. Ele caminhou até a mesa de Clara, que agora revisava um depoimento.
— Café? — perguntou ele, inclinando-se levemente.
Clara levantou os olhos. Eram olhos cansados, mas ainda brilhantes.
— Acabei de tomar, Patrick. E tenho trabalho.
— O trabalho pode esperar cinco minutos por uma análise detalhada sobre por que o suspeito do caso Miller está mentindo sobre o álibi do relógio — ele provocou, tentando usar seu charme habitual.
— Eu já sei por que ele está mentindo — disse ela, fechando a pasta com um estalo seco. — E não preciso de uma palestra sua para confirmar. Com licença.
Ela se levantou e saiu em direção à sala de descanso. Jane sentiu aquela pontada familiar no peito. O distanciamento dela era a única coisa que ele não conseguia manipular ou prever com precisão.
Minutos depois, Jane estava na sala de interrogatório com Cho. O suspeito era um homem arrogante, um herdeiro de uma fortuna imobiliária que achava que podia comprar a saída daquela sala. Jane, em um de seus momentos de impaciência e brilhantismo perigoso, começou a brincar com os limites da legalidade.
— Sabe, se eu derrubar este copo de água no seu terno de três mil dólares, você provavelmente vai tentar me processar — disse Jane, equilibrando o copo perigosamente perto da borda. — Mas se eu disser que vi você escondendo a arma no duto de ventilação, o processo vai ser o menor dos seus problemas.
— Você não pode fazer isso — rosnou o suspeito.
— Eu posso fazer muita coisa — Jane sorriu, aquele sorriso que beirava a insanidade.
Cho, mantendo sua expressão de pedra, interveio.
— Jane, pare com isso. Você vai comprometer a evidência.
— Oh, Cho, não seja tão quadrado. Ele vai confessar em três, dois...
— Jane — Cho o interrompeu com uma voz fria. — Eu vou chamar a Clara. Vou dizer a ela exatamente o que você está tentando fazer aqui.
O efeito foi instantâneo. Jane parou de balançar o copo. Sua expressão de deboche murchou, substituída por algo que parecia uma mistura de culpa e desconforto. Ele colocou o copo de volta no centro da mesa, ajeitou o colete e deu um passo para trás.
— Não há necessidade de ser dramático, Cho — murmurou Jane. — Eu estava apenas... testando os reflexos dele.
Ele saiu da sala de interrogatório sob o olhar vitorioso de Cho. No corredor, Rigsby e Van Pelt trocaram sorrisos.
— Funciona todas as vezes — cochichou Rigsby. — Ele aguenta a Lisbon gritando no ouvido dele por uma hora, mas se a Clara franzir a testa, o homem desmorona.
Jane caminhou até a cozinha, onde encontrou Clara lavando sua caneca. Ele se encostou no batente da porta, observando-a. O silêncio entre eles não era mais aquele silêncio confortável de outrora; era carregado de coisas não ditas.
— O Cho disse que ia me contar alguma coisa — disse ela, sem se virar.
— O Cho é um fofoqueiro — respondeu Jane, aproximando-se lentamente.
— Ele só se preocupa com o caso. E eu me preocupo com o fato de você ainda achar que as regras não se aplicam a você.
— As regras são sugestões, Clara. Você sabe disso.
Clara se virou, secando as mãos no pano de prato. Ela o encarou, e Jane viu a insegurança que ela tentava esconder sob a fachada profissional. Ela cruzou os braços sobre o peito, um gesto defensivo clássico.
— Por que você faz isso? — perguntou ela em voz baixa.
— Faço o quê?
— Isso. Esse jogo. Você sabe que eu não gosto quando você se coloca em risco ou coloca o departamento em risco. Você para quando mencionam meu nome porque sabe que eu sou a única que realmente vai embora se você passar do limite. De novo.
Jane deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal dela. Ele podia sentir o perfume de baunilha que ela sempre usava.
— Eu não quero que você vá embora — disse ele, a voz perdendo o tom lúdico. — Eu já perdi você uma vez, daquela maneira que dói todos os dias. Não quero perder sua amizade ou... o que quer que tenhamos agora.
Clara soltou um riso amargo, desviando o olhar para o próprio reflexo na janela da cozinha.
— O que temos agora é um consultor brilhante e uma agente que não sabe onde se enfiar quando você olha para ela desse jeito. Patrick, eu não sou a Angela. Eu não sou uma lembrança perfeita de um passado dourado. Eu sou... eu. Com todas as minhas falhas e esse corpo que eu sei que você observa para encontrar defeitos.
Jane sentiu um aperto no coração. Ele estendeu a mão, tocando o queixo dela e forçando-a a olhá-lo.
— Você acha mesmo que eu procuro defeitos? — a voz dele era um sussurro carregado de sinceridade. — Clara, eu passei anos lendo pessoas. Eu vejo cada microexpressão, cada mentira, cada insegurança. E quando eu olho para você, eu não vejo falhas. Eu vejo a única pessoa que conseguiu fazer meu coração bater sem ser por vingança.
Ela tentou recuar, mas ele não deixou.
— Você se fechou, Patrick — disse ela, com os olhos marejados. — Depois daquela noite que passamos juntos, depois de meses de algo que parecia real... você se trancou. Você não me deixava entrar na sua mente, e eu não podia ficar apenas com o seu corpo. Eu precisava do homem, não do enigma.
— Eu tenho medo — confessou ele, e as palavras pareciam arrancar pedaços de sua alma. — Se eu abrir a porta completamente, e você vir o que sobrou de mim... você pode não gostar do que vai encontrar.
— Eu já vi o pior de você — rebateu ela. — Eu vi você manipulando suspeitos, vi você chorando em silêncio no sótão, vi você sendo o homem mais arrogante da Califórnia. E eu ainda estava lá. O que me afastou não foi o que eu vi, foi o que você escondeu.
Jane suspirou, encostando a testa na dela. Ele percebia tudo o que ela sentia: o medo de não ser o suficiente, o desejo de ser amada por quem era, a mágoa de ter sido mantida à distância de um braço.
— Cho e os outros... eles sabem — disse Jane, tentando mudar levemente o foco para aliviar a tensão. — Eles usam você como meu freio de emergência. Eles sabem que eu não suporto a ideia de decepcionar você. Com a Lisbon, eu discuto. Com o Cho, eu ignoro. Mas com você...
— Comigo você tem que ser real — completou ela.
— Sim.
Clara relaxou os ombros, a defesa caindo por um momento.
— Eu ainda me sinto insegura, Patrick. Olhar para as mulheres que você costuma analisar, todas tão... perfeitas. E depois olhar no espelho.
Jane deslizou as mãos para a cintura dela, apertando-as com firmeza, sentindo a maciez e a realidade daquela mulher.
— A perfeição é um truque de mágica, Clara. É uma ilusão que eu vendo para as pessoas todos os dias. Você não é uma ilusão. Você é sólida, é quente, é a única coisa que me ancora neste mundo de mentiras. Se eu não sou bom em dizer o que sinto, é porque passei tempo demais fingindo ser outra pessoa. Mas com você, eu não quero fingir.
— Então pare de fazer burradas no interrogatório só para me ver aparecer — disse ela, com um pequeno sorriso surgindo nos lábios.
— Eu não prometo nada — ele sorriu de volta, aquele sorriso travesso que ela tanto amava. — Mas prometo tentar ser menos... "fechado". Talvez possamos começar com um chá. Um chá de verdade, fora daqui.
Clara olhou para as mãos dele em sua cintura e depois para os olhos azuis que pareciam ler sua alma. Ela sabia que ele não mudaria da noite para o dia, mas o fato de ele reconhecer suas inseguranças e, mais do que isso, validar sua importância em sua vida, era um começo.
— Um chá — aceitou ela. — Mas se o Cho vier me dizer que você tentou hipnotizar outro suspeito para confessar um crime que ele não cometeu, eu cancelo o encontro.
— Justo — disse Jane, depositando um beijo casto na testa dela. — Embora eu deva dizer, a hipnose é uma ferramenta muito subestimada.
— Patrick!
— Brincadeira. Ou quase.
Ele a soltou quando ouviu os passos de Lisbon se aproximando. Clara rapidamente voltou a organizar as canecas, o rosto levemente corado. Jane voltou ao seu habitual ar de desinteresse, pegando sua caneca de chá vazia.
Lisbon entrou na sala, olhando de um para o outro com desconfiança.
— O suspeito está pronto para falar, Jane. E o Cho disse que você se comportou. O que você fez com ele, Clara?
Clara olhou para Jane, captando o brilho cúmplice em seus olhos.
— Eu apenas lembrei a ele o que acontece quando ele não segue as regras — disse ela, com uma confiança que não sentia há muito tempo.
Jane deu uma piscadela para ela antes de seguir Lisbon. Ele sabia que o caminho de volta para o que eles tinham seria longo e cheio de obstáculos, principalmente os que ele mesmo criara. Mas, pela primeira vez em anos, Patrick Jane não estava apenas observando o futuro; ele estava ansioso por ele.
Enquanto caminhava pelo corredor, ele ouviu Rigsby perguntar a Cho:
— E aí, ele parou quando você falou o nome dela?
— Na mesma hora — respondeu Cho, sem emoção. — É o calcanhar de Aquiles dele.
Jane sorriu para si mesmo. Se ser amado por Clara e respeitá-la era sua fraqueza, então ele aceitava ser o homem mais fraco do mundo. Pois no silêncio entre as notas de chá e nas conversas não ditas, ele finalmente encontrara um lugar onde não precisava ser o Mentalista. Ele precisava apenas ser Patrick. E, para Clara, isso sempre fora o suficiente.
Eles tinham uma história. Uma história que ninguém no escritório ousava comentar abertamente, mas que todos sentiam nas trocas de olhares. Após a tragédia que levou a esposa e a filha de Jane, Clara foi a única fresta de luz que ele permitiu entrar. Eles se envolveram de uma forma que Jane nunca imaginou ser possível novamente — romântica e sexualmente —, mas o peso do passado dele era uma âncora. Patrick era fechado, um cofre cujos segredos eram guardados por traumas e charadas. Meses atrás, Clara decidiu que não dava mais. Ela o amava, mas não podia lutar contra o fantasma de uma mulher morta e o silêncio ensurdecedor de um homem que se recusava a se abrir completamente.
Jane a observava agora. Ele notava como ela puxava levemente a barra da blusa para baixo, um gesto inconsciente que ela fazia sempre que se sentia observada. Ele sabia que Clara era insegura com o próprio corpo, embora, para ele, cada curva dela fosse um mapa de conforto e desejo que ele ainda desejava percorrer.
— Você está encarando de novo, Jane — murmurou Lisbon, sem tirar os olhos do relatório. — É falta de educação.
— Eu não estou encarando — mentiu ele, dando um gole em seu chá. — Estou observando a linguagem corporal. Clara está tensa. O ombro esquerdo está dois centímetros mais alto que o direito.
— Ela está tensa porque você está respirando no pescoço dela sem nem sair do sofá — rebateu Lisbon, finalmente olhando para ele. — Deixe-a em paz.
Jane deu um sorriso enigmático e se levantou. Ele caminhou até a mesa de Clara, que agora revisava um depoimento.
— Café? — perguntou ele, inclinando-se levemente.
Clara levantou os olhos. Eram olhos cansados, mas ainda brilhantes.
— Acabei de tomar, Patrick. E tenho trabalho.
— O trabalho pode esperar cinco minutos por uma análise detalhada sobre por que o suspeito do caso Miller está mentindo sobre o álibi do relógio — ele provocou, tentando usar seu charme habitual.
— Eu já sei por que ele está mentindo — disse ela, fechando a pasta com um estalo seco. — E não preciso de uma palestra sua para confirmar. Com licença.
Ela se levantou e saiu em direção à sala de descanso. Jane sentiu aquela pontada familiar no peito. O distanciamento dela era a única coisa que ele não conseguia manipular ou prever com precisão.
Minutos depois, Jane estava na sala de interrogatório com Cho. O suspeito era um homem arrogante, um herdeiro de uma fortuna imobiliária que achava que podia comprar a saída daquela sala. Jane, em um de seus momentos de impaciência e brilhantismo perigoso, começou a brincar com os limites da legalidade.
— Sabe, se eu derrubar este copo de água no seu terno de três mil dólares, você provavelmente vai tentar me processar — disse Jane, equilibrando o copo perigosamente perto da borda. — Mas se eu disser que vi você escondendo a arma no duto de ventilação, o processo vai ser o menor dos seus problemas.
— Você não pode fazer isso — rosnou o suspeito.
— Eu posso fazer muita coisa — Jane sorriu, aquele sorriso que beirava a insanidade.
Cho, mantendo sua expressão de pedra, interveio.
— Jane, pare com isso. Você vai comprometer a evidência.
— Oh, Cho, não seja tão quadrado. Ele vai confessar em três, dois...
— Jane — Cho o interrompeu com uma voz fria. — Eu vou chamar a Clara. Vou dizer a ela exatamente o que você está tentando fazer aqui.
O efeito foi instantâneo. Jane parou de balançar o copo. Sua expressão de deboche murchou, substituída por algo que parecia uma mistura de culpa e desconforto. Ele colocou o copo de volta no centro da mesa, ajeitou o colete e deu um passo para trás.
— Não há necessidade de ser dramático, Cho — murmurou Jane. — Eu estava apenas... testando os reflexos dele.
Ele saiu da sala de interrogatório sob o olhar vitorioso de Cho. No corredor, Rigsby e Van Pelt trocaram sorrisos.
— Funciona todas as vezes — cochichou Rigsby. — Ele aguenta a Lisbon gritando no ouvido dele por uma hora, mas se a Clara franzir a testa, o homem desmorona.
Jane caminhou até a cozinha, onde encontrou Clara lavando sua caneca. Ele se encostou no batente da porta, observando-a. O silêncio entre eles não era mais aquele silêncio confortável de outrora; era carregado de coisas não ditas.
— O Cho disse que ia me contar alguma coisa — disse ela, sem se virar.
— O Cho é um fofoqueiro — respondeu Jane, aproximando-se lentamente.
— Ele só se preocupa com o caso. E eu me preocupo com o fato de você ainda achar que as regras não se aplicam a você.
— As regras são sugestões, Clara. Você sabe disso.
Clara se virou, secando as mãos no pano de prato. Ela o encarou, e Jane viu a insegurança que ela tentava esconder sob a fachada profissional. Ela cruzou os braços sobre o peito, um gesto defensivo clássico.
— Por que você faz isso? — perguntou ela em voz baixa.
— Faço o quê?
— Isso. Esse jogo. Você sabe que eu não gosto quando você se coloca em risco ou coloca o departamento em risco. Você para quando mencionam meu nome porque sabe que eu sou a única que realmente vai embora se você passar do limite. De novo.
Jane deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal dela. Ele podia sentir o perfume de baunilha que ela sempre usava.
— Eu não quero que você vá embora — disse ele, a voz perdendo o tom lúdico. — Eu já perdi você uma vez, daquela maneira que dói todos os dias. Não quero perder sua amizade ou... o que quer que tenhamos agora.
Clara soltou um riso amargo, desviando o olhar para o próprio reflexo na janela da cozinha.
— O que temos agora é um consultor brilhante e uma agente que não sabe onde se enfiar quando você olha para ela desse jeito. Patrick, eu não sou a Angela. Eu não sou uma lembrança perfeita de um passado dourado. Eu sou... eu. Com todas as minhas falhas e esse corpo que eu sei que você observa para encontrar defeitos.
Jane sentiu um aperto no coração. Ele estendeu a mão, tocando o queixo dela e forçando-a a olhá-lo.
— Você acha mesmo que eu procuro defeitos? — a voz dele era um sussurro carregado de sinceridade. — Clara, eu passei anos lendo pessoas. Eu vejo cada microexpressão, cada mentira, cada insegurança. E quando eu olho para você, eu não vejo falhas. Eu vejo a única pessoa que conseguiu fazer meu coração bater sem ser por vingança.
Ela tentou recuar, mas ele não deixou.
— Você se fechou, Patrick — disse ela, com os olhos marejados. — Depois daquela noite que passamos juntos, depois de meses de algo que parecia real... você se trancou. Você não me deixava entrar na sua mente, e eu não podia ficar apenas com o seu corpo. Eu precisava do homem, não do enigma.
— Eu tenho medo — confessou ele, e as palavras pareciam arrancar pedaços de sua alma. — Se eu abrir a porta completamente, e você vir o que sobrou de mim... você pode não gostar do que vai encontrar.
— Eu já vi o pior de você — rebateu ela. — Eu vi você manipulando suspeitos, vi você chorando em silêncio no sótão, vi você sendo o homem mais arrogante da Califórnia. E eu ainda estava lá. O que me afastou não foi o que eu vi, foi o que você escondeu.
Jane suspirou, encostando a testa na dela. Ele percebia tudo o que ela sentia: o medo de não ser o suficiente, o desejo de ser amada por quem era, a mágoa de ter sido mantida à distância de um braço.
— Cho e os outros... eles sabem — disse Jane, tentando mudar levemente o foco para aliviar a tensão. — Eles usam você como meu freio de emergência. Eles sabem que eu não suporto a ideia de decepcionar você. Com a Lisbon, eu discuto. Com o Cho, eu ignoro. Mas com você...
— Comigo você tem que ser real — completou ela.
— Sim.
Clara relaxou os ombros, a defesa caindo por um momento.
— Eu ainda me sinto insegura, Patrick. Olhar para as mulheres que você costuma analisar, todas tão... perfeitas. E depois olhar no espelho.
Jane deslizou as mãos para a cintura dela, apertando-as com firmeza, sentindo a maciez e a realidade daquela mulher.
— A perfeição é um truque de mágica, Clara. É uma ilusão que eu vendo para as pessoas todos os dias. Você não é uma ilusão. Você é sólida, é quente, é a única coisa que me ancora neste mundo de mentiras. Se eu não sou bom em dizer o que sinto, é porque passei tempo demais fingindo ser outra pessoa. Mas com você, eu não quero fingir.
— Então pare de fazer burradas no interrogatório só para me ver aparecer — disse ela, com um pequeno sorriso surgindo nos lábios.
— Eu não prometo nada — ele sorriu de volta, aquele sorriso travesso que ela tanto amava. — Mas prometo tentar ser menos... "fechado". Talvez possamos começar com um chá. Um chá de verdade, fora daqui.
Clara olhou para as mãos dele em sua cintura e depois para os olhos azuis que pareciam ler sua alma. Ela sabia que ele não mudaria da noite para o dia, mas o fato de ele reconhecer suas inseguranças e, mais do que isso, validar sua importância em sua vida, era um começo.
— Um chá — aceitou ela. — Mas se o Cho vier me dizer que você tentou hipnotizar outro suspeito para confessar um crime que ele não cometeu, eu cancelo o encontro.
— Justo — disse Jane, depositando um beijo casto na testa dela. — Embora eu deva dizer, a hipnose é uma ferramenta muito subestimada.
— Patrick!
— Brincadeira. Ou quase.
Ele a soltou quando ouviu os passos de Lisbon se aproximando. Clara rapidamente voltou a organizar as canecas, o rosto levemente corado. Jane voltou ao seu habitual ar de desinteresse, pegando sua caneca de chá vazia.
Lisbon entrou na sala, olhando de um para o outro com desconfiança.
— O suspeito está pronto para falar, Jane. E o Cho disse que você se comportou. O que você fez com ele, Clara?
Clara olhou para Jane, captando o brilho cúmplice em seus olhos.
— Eu apenas lembrei a ele o que acontece quando ele não segue as regras — disse ela, com uma confiança que não sentia há muito tempo.
Jane deu uma piscadela para ela antes de seguir Lisbon. Ele sabia que o caminho de volta para o que eles tinham seria longo e cheio de obstáculos, principalmente os que ele mesmo criara. Mas, pela primeira vez em anos, Patrick Jane não estava apenas observando o futuro; ele estava ansioso por ele.
Enquanto caminhava pelo corredor, ele ouviu Rigsby perguntar a Cho:
— E aí, ele parou quando você falou o nome dela?
— Na mesma hora — respondeu Cho, sem emoção. — É o calcanhar de Aquiles dele.
Jane sorriu para si mesmo. Se ser amado por Clara e respeitá-la era sua fraqueza, então ele aceitava ser o homem mais fraco do mundo. Pois no silêncio entre as notas de chá e nas conversas não ditas, ele finalmente encontrara um lugar onde não precisava ser o Mentalista. Ele precisava apenas ser Patrick. E, para Clara, isso sempre fora o suficiente.
