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Meu admirador não tão secreto
Fandom: Original history
Criado: 13/06/2026
Tags
RomanceFicção CientíficaÓpera EspacialDramaAngústiaEstudo de PersonagemLinguagem Explícita
Equações de Atrito e Outras Conspirações
Um, dois, três... quatro.
Apertei o botão da cafeteira quatro vezes, embora soubesse que bastava uma. O zumbido da máquina era o único som que preenchia a pequena copa do escritório da Agência Espacial, pelo menos até que o som de passos pesados e decididos ecoasse pelo corredor de metal. Eu não precisava me virar para saber quem era. O cheiro de baunilha — doce demais, invasivo demais — sempre chegava antes dele.
— O café dessa repartição parece chorume, não acha, nerd?
A voz de Douglas era como uma lixa sobre veludo. Eu respirei fundo, sentindo o calor subir pelas minhas bochechas. Não era raiva, ou pelo menos, não era *apenas* raiva. Era aquela irritação familiar que ele provocava em mim desde que fomos designados como rivais diretos para a coordenação da Missão Éden.
— Se não gosta, Douglas, sinta-se à vontade para trazer o seu de casa. Ou talvez possa usar sua energia para terminar o relatório de propulsão que está atrasado há três dias — respondi, sem desviar os olhos do fluxo escuro de café.
— Relatório é o caralho — ele rosnou, aproximando-se o suficiente para que eu sentisse o calor do seu corpo. — Eu estava ocupado com coisas mais importantes. Como pensar em como esse uniforme fica apertado demais nos seus ombros.
Senti um solavanco no peito. Douglas era impossível. Ele era agressivo, falava palavrões como se fossem vírgulas e parecia ter prazer em me desestabilizar. Voltei-me para ele, tentando manter minha expressão de frieza lógica, mas encontrei aqueles olhos castanhos claros fixos em mim com uma intensidade que me fez querer recuar.
— Você é um idiota — murmurei, desviando o olhar.
— Um idiota que você não consegue parar de olhar — ele rebateu, com um sorriso de canto que era puro veneno e convite.
Caminhei em direção à nossa sala compartilhada, tentando ignorar a forma como meu coração martelava contra as costelas. Douglas era meu oposto em tudo. Eu vivia de números, de lógica, de silêncio. Ele era ruído, cores abstratas e uma impulsividade que beirava o perigoso. Éramos os melhores da agência, mas trabalhávamos como se estivéssemos em uma guerra fria constante.
Ao chegar à minha mesa, notei um pequeno envelope de papel pardo sob o meu teclado. Meu estômago deu um nó. Era a quarta carta esta semana.
Eu sabia que era ele. Douglas achava que era sutil, mas eu era um superdotado; padrões eram minha especialidade. A caligrafia apressada, o papel levemente manchado de tinta de canetinha que ele usava em seus desenhos... era óbvio. Mas o que me chocava não era a identidade do remetente, e sim o conteúdo. Nas cartas, o homem que me chamava de "nerd" e chutava as cadeiras do escritório se transformava em alguém que descrevia a curvatura dos meus cílios com uma precisão poética que me deixava sem ar.
— Outra cartinha do seu fã? — Douglas perguntou, jogando-se na cadeira dele, do outro lado da sala. Ele cruzou as pernas sobre a mesa, a postura desleixada desafiando cada regra de conduta do prédio.
— Não é da sua conta — respondi, guardando o envelope na gaveta sem abrir.
— Porra, Takahashi, você é todo certinho, mas aposto que morre de curiosidade de saber quem está querendo te levar para a cama — ele disse, a voz subindo um tom, carregada de um escárnio que parecia esconder outra coisa. — Ou será que você já sabe e está apenas se fazendo de difícil?
— Eu estou tentando trabalhar, Douglas. Algo que, claramente, você não entende o conceito.
— Eu entendo muito bem de conceitos — ele se levantou, caminhando até a minha mesa com aquela ginga predatória. Ele se inclinou sobre a superfície de madeira, invadindo meu espaço pessoal. — Entendo o conceito de que você é inteligente pra caralho, mas é um covarde quando o assunto não é matemática.
— Eu não sou covarde — retruquei, sentindo o rosto arder. — Eu apenas não perco meu tempo com... com exibições desnecessárias de testosterona.
— Ah, é? — Ele riu, um som seco. — Então por que suas mãos estão tremendo?
Eu as escondi debaixo da mesa imediatamente. Um, dois, três, quatro, cinco... contei mentalmente, tentando recuperar o controle.
— Douglas, saia de perto de mim.
— E se eu não sair? — Ele desafiou. Sua voz baixou, tornando-se um sussurro rouco que arrepiou cada pelo do meu corpo. — O que o pequeno gênio vai fazer? Me dar uma advertência por escrito? Ou vai admitir que gosta quando eu chego perto assim?
A tensão na sala tornou-se quase física. Havia um peso no ar, uma eletricidade que parecia preceder uma tempestade. Eu o odiava. Odiava como ele me tratava, odiava sua falta de modos e sua agressividade. Mas, ao mesmo tempo, havia um desejo traidor que florescia no meu baixo ventre toda vez que ele me olhava daquela maneira. Eu era gay, e embora Douglas não fosse o tipo de homem que eu consideraria para um relacionamento — ele era instável demais, bruto demais —, meu corpo parecia não se importar com a lógica.
— Você é um narcisista — eu disse, a voz falhando levemente.
— E você é um mentiroso — ele rebateu. — Você lê aquelas cartas e fica imaginando o que aquele cara faria com você. Eu vejo nos seus olhos, Takahashi. Você fica todo molhado só de pensar que alguém te deseja tanto assim.
— Chega! — Gritei, levantando-me bruscamente. A cadeira arrastou no chão com um guincho estridente. — Você não tem o direito de falar assim comigo. Você é grosseiro, desrespeitoso e...
— E eu quero foder você até você esquecer como se conta até dez! — Douglas disparou, a sinceridade da frase me atingindo como um soco físico.
Eu congelei. Meus olhos se arregalaram, e minha boca se abriu, mas nenhum som saiu. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Douglas, que geralmente sustentava qualquer olhar com arrogância, subitamente desviou o rosto. Notei, para meu absoluto espanto, que as pontas de suas orelhas e suas bochechas estavam ficando de um vermelho profundo, quase da cor de seu cabelo.
— Você... o quê? — Consegui gaguejar.
— Você ouviu, porra — ele resmungou, chutando o pé da minha mesa, mas sem olhar para mim. — Eu não aguento mais essa merda. Você fica aí, com esse ar de superioridade, agindo como se fosse um robô, enquanto eu... eu estou quase tendo um infarto toda vez que você morde o lábio para pensar.
— Douglas...
— Não começa com a lógica, Akira! — Ele voltou a olhar para mim, e havia uma vulnerabilidade crua em seus olhos castanhos que me desarmou completamente. — Eu sei que sou um desgraçado. Eu sei que eu grito e que eu sou agressivo, mas é a única forma que eu conheço de não pular em cima de você na frente de todo mundo.
Senti meu coração falhar uma batida. A sinceridade dele era desarmante, quase violenta em sua honestidade. Douglas era um homem de extremos, e descobrir que sua agressividade era uma fachada para o desejo era algo que minha mente superdotada ainda estava tentando processar.
— As cartas... — comecei, minha voz mal passando de um sussurro. — Por que as cartas? Se você é tão... direto?
Ele soltou uma risada nervosa, passando a mão pelo cabelo ruivo.
— Porque eu sou um merda, Akira. No papel, eu consigo ser o homem que você merece. Alguém que aprecia sua mente, que não te xinga. Mas quando eu chego perto... eu perco o controle. Você me irrita porque você é perfeito demais e eu sou um desastre.
Aproimei-me dele lentamente. Pela primeira vez, eu não senti medo da sua agressividade. Senti uma curiosidade que queimava.
— Você escreveu que meus olhos lembram o abismo de uma nebulosa — citei, vendo-o fechar os olhos com força, envergonhado. — E que queria saber se o meu gosto é tão doce quanto o perfume que eu uso.
— Para com isso — ele pediu, a voz embargada. — Você já descobriu que sou eu, parabéns, nerd. Agora pode rir da minha cara e me denunciar para o RH.
Em vez de rir, eu fiz algo que desafiava toda a minha natureza reservada. Estendi a mão e toquei seu braço. Os músculos dele estavam tensos como cordas de piano.
— Eu não vou rir — eu disse suavemente. — E eu não vou te denunciar.
Douglas abriu os olhos, encarando-me com uma mistura de choque e esperança que me fez perder o fôlego.
— Por que não?
— Porque... — senti meu rosto queimar, mas continuei — ...apesar de você ser o homem mais irritante que eu já conheci, eu também pensei em você. Mais do que a lógica permitiria.
O olhar de Douglas mudou instantaneamente. A vergonha foi substituída por uma fome voraz. Ele deu um passo à frente, reduzindo a distância entre nós a quase nada.
— Você está me dizendo que o pequeno gênio japonês tem desejos impuros? — Ele provocou, mas desta vez não havia malícia, apenas uma tensão sexual palpável que fazia o ar vibrar.
— Estou dizendo que você é uma distração constante — respondi, tentando manter a dignidade enquanto meu corpo clamava pelo toque dele. — E que suas cartas são... muito bem escritas.
Douglas soltou um palavrão baixo e, antes que eu pudesse reagir, suas mãos agarraram minha cintura, puxando-me contra ele. O impacto fez meu fôlego escapar. Ele era sólido, quente e cheirava a baunilha e a uma ansiedade que espelhava a minha.
— Eu vou te beijar agora — ele avisou, a voz vibrando contra meus lábios. — E se você não quiser, é melhor me empurrar com toda a sua força, porque eu não vou conseguir parar.
Eu não o empurrei. Em vez disso, fechei os olhos e contei. Um, dois, três...
No quatro, os lábios de Douglas colidiram com os meus.
Não foi um beijo suave. Foi como tudo o que Douglas fazia: agressivo, intenso e desesperado. Ele me beijava como se estivesse tentando reivindicar cada parte da minha alma, e eu respondi com uma urgência que não sabia que possuía. Minhas mãos subiram para o seu pescoço, enterrando-se em seus cabelos ruivos, enquanto ele me prensava contra a mesa, derrubando alguns papéis e canetas no processo.
— Porra, Akira — ele arquejou contra minha boca, interrompendo o beijo por um segundo. Ele parecia exausto, como se um peso tivesse sido tirado de seus ombros. — Você não tem noção do quanto eu esperei por isso.
— Você é muito barulhento — murmurei, embora estivesse sorrindo entre os beijos.
— E você é muito nerd — ele rebateu, apertando minha coxa com uma das mãos. — Mas é o meu nerd.
Voltamos a nos beijar, mas fomos interrompidos pelo som de passos no corredor. Separammo-nos instantaneamente, ambos ofegantes e com os uniformes desalinhados. Douglas rapidamente se sentou na mesa, fingindo analisar um gráfico, enquanto eu me curvei sobre o teclado, meu coração batendo tão forte que eu tinha certeza de que ele podia ouvir do outro lado da sala.
Um colega de trabalho passou pela porta, acenou brevemente e seguiu seu caminho. O silêncio que restou era diferente agora. Não era mais carregado de hostilidade, mas de uma promessa silenciosa.
Douglas olhou para mim, o rosto ainda levemente corado, mas o brilho arrogante estava de volta aos seus olhos.
— Vamos ter que terminar isso na minha casa — ele disse, a voz cheia de uma promessa que me fez estremecer. — Sem relatórios, sem agência, e sem essa porra de uniformes.
— Concordo — eu disse, surpreendendo a mim mesmo com a firmeza da minha voz. — Mas você ainda me deve o relatório de propulsão.
Douglas revirou os olhos e soltou uma gargalhada genuína, algo que eu raramente ouvia.
— Você é inacreditável, Takahashi. Um ditador de óculos.
— E você é um admirador não tão secreto assim — provoquei, sentindo uma leveza que há muito não sentia.
A Missão Éden estava se aproximando. Em breve, estaríamos confinados em uma nave, viajando para os confins do sistema solar em uma missão que eu suspeitava ter camadas muito mais sombrias do que o governo nos dizia. Havia rumores de conspirações, de informações passadas a seres de outros mundos, e de alguém infiltrado para impedir o plano.
Mas, naquele momento, enquanto eu olhava para Douglas e via o brilho de desejo e respeito em seus olhos, a única conspiração que importava era a que havíamos acabado de selar entre nós dois. O mundo lá fora podia estar à beira do caos, mas dentro daquele escritório, entre números e tintas abstratas, eu finalmente tinha encontrado algo que a lógica não conseguia explicar, mas que meu coração entendia perfeitamente.
Um, dois, três... quatro.
Desta vez, eu não contei para aliviar o estresse. Contei os segundos até que pudéssemos estar sozinhos novamente. E, pela primeira vez na vida, a matemática parecia secundária diante daquele caos ruivo chamado Douglas Araújo.
Apertei o botão da cafeteira quatro vezes, embora soubesse que bastava uma. O zumbido da máquina era o único som que preenchia a pequena copa do escritório da Agência Espacial, pelo menos até que o som de passos pesados e decididos ecoasse pelo corredor de metal. Eu não precisava me virar para saber quem era. O cheiro de baunilha — doce demais, invasivo demais — sempre chegava antes dele.
— O café dessa repartição parece chorume, não acha, nerd?
A voz de Douglas era como uma lixa sobre veludo. Eu respirei fundo, sentindo o calor subir pelas minhas bochechas. Não era raiva, ou pelo menos, não era *apenas* raiva. Era aquela irritação familiar que ele provocava em mim desde que fomos designados como rivais diretos para a coordenação da Missão Éden.
— Se não gosta, Douglas, sinta-se à vontade para trazer o seu de casa. Ou talvez possa usar sua energia para terminar o relatório de propulsão que está atrasado há três dias — respondi, sem desviar os olhos do fluxo escuro de café.
— Relatório é o caralho — ele rosnou, aproximando-se o suficiente para que eu sentisse o calor do seu corpo. — Eu estava ocupado com coisas mais importantes. Como pensar em como esse uniforme fica apertado demais nos seus ombros.
Senti um solavanco no peito. Douglas era impossível. Ele era agressivo, falava palavrões como se fossem vírgulas e parecia ter prazer em me desestabilizar. Voltei-me para ele, tentando manter minha expressão de frieza lógica, mas encontrei aqueles olhos castanhos claros fixos em mim com uma intensidade que me fez querer recuar.
— Você é um idiota — murmurei, desviando o olhar.
— Um idiota que você não consegue parar de olhar — ele rebateu, com um sorriso de canto que era puro veneno e convite.
Caminhei em direção à nossa sala compartilhada, tentando ignorar a forma como meu coração martelava contra as costelas. Douglas era meu oposto em tudo. Eu vivia de números, de lógica, de silêncio. Ele era ruído, cores abstratas e uma impulsividade que beirava o perigoso. Éramos os melhores da agência, mas trabalhávamos como se estivéssemos em uma guerra fria constante.
Ao chegar à minha mesa, notei um pequeno envelope de papel pardo sob o meu teclado. Meu estômago deu um nó. Era a quarta carta esta semana.
Eu sabia que era ele. Douglas achava que era sutil, mas eu era um superdotado; padrões eram minha especialidade. A caligrafia apressada, o papel levemente manchado de tinta de canetinha que ele usava em seus desenhos... era óbvio. Mas o que me chocava não era a identidade do remetente, e sim o conteúdo. Nas cartas, o homem que me chamava de "nerd" e chutava as cadeiras do escritório se transformava em alguém que descrevia a curvatura dos meus cílios com uma precisão poética que me deixava sem ar.
— Outra cartinha do seu fã? — Douglas perguntou, jogando-se na cadeira dele, do outro lado da sala. Ele cruzou as pernas sobre a mesa, a postura desleixada desafiando cada regra de conduta do prédio.
— Não é da sua conta — respondi, guardando o envelope na gaveta sem abrir.
— Porra, Takahashi, você é todo certinho, mas aposto que morre de curiosidade de saber quem está querendo te levar para a cama — ele disse, a voz subindo um tom, carregada de um escárnio que parecia esconder outra coisa. — Ou será que você já sabe e está apenas se fazendo de difícil?
— Eu estou tentando trabalhar, Douglas. Algo que, claramente, você não entende o conceito.
— Eu entendo muito bem de conceitos — ele se levantou, caminhando até a minha mesa com aquela ginga predatória. Ele se inclinou sobre a superfície de madeira, invadindo meu espaço pessoal. — Entendo o conceito de que você é inteligente pra caralho, mas é um covarde quando o assunto não é matemática.
— Eu não sou covarde — retruquei, sentindo o rosto arder. — Eu apenas não perco meu tempo com... com exibições desnecessárias de testosterona.
— Ah, é? — Ele riu, um som seco. — Então por que suas mãos estão tremendo?
Eu as escondi debaixo da mesa imediatamente. Um, dois, três, quatro, cinco... contei mentalmente, tentando recuperar o controle.
— Douglas, saia de perto de mim.
— E se eu não sair? — Ele desafiou. Sua voz baixou, tornando-se um sussurro rouco que arrepiou cada pelo do meu corpo. — O que o pequeno gênio vai fazer? Me dar uma advertência por escrito? Ou vai admitir que gosta quando eu chego perto assim?
A tensão na sala tornou-se quase física. Havia um peso no ar, uma eletricidade que parecia preceder uma tempestade. Eu o odiava. Odiava como ele me tratava, odiava sua falta de modos e sua agressividade. Mas, ao mesmo tempo, havia um desejo traidor que florescia no meu baixo ventre toda vez que ele me olhava daquela maneira. Eu era gay, e embora Douglas não fosse o tipo de homem que eu consideraria para um relacionamento — ele era instável demais, bruto demais —, meu corpo parecia não se importar com a lógica.
— Você é um narcisista — eu disse, a voz falhando levemente.
— E você é um mentiroso — ele rebateu. — Você lê aquelas cartas e fica imaginando o que aquele cara faria com você. Eu vejo nos seus olhos, Takahashi. Você fica todo molhado só de pensar que alguém te deseja tanto assim.
— Chega! — Gritei, levantando-me bruscamente. A cadeira arrastou no chão com um guincho estridente. — Você não tem o direito de falar assim comigo. Você é grosseiro, desrespeitoso e...
— E eu quero foder você até você esquecer como se conta até dez! — Douglas disparou, a sinceridade da frase me atingindo como um soco físico.
Eu congelei. Meus olhos se arregalaram, e minha boca se abriu, mas nenhum som saiu. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Douglas, que geralmente sustentava qualquer olhar com arrogância, subitamente desviou o rosto. Notei, para meu absoluto espanto, que as pontas de suas orelhas e suas bochechas estavam ficando de um vermelho profundo, quase da cor de seu cabelo.
— Você... o quê? — Consegui gaguejar.
— Você ouviu, porra — ele resmungou, chutando o pé da minha mesa, mas sem olhar para mim. — Eu não aguento mais essa merda. Você fica aí, com esse ar de superioridade, agindo como se fosse um robô, enquanto eu... eu estou quase tendo um infarto toda vez que você morde o lábio para pensar.
— Douglas...
— Não começa com a lógica, Akira! — Ele voltou a olhar para mim, e havia uma vulnerabilidade crua em seus olhos castanhos que me desarmou completamente. — Eu sei que sou um desgraçado. Eu sei que eu grito e que eu sou agressivo, mas é a única forma que eu conheço de não pular em cima de você na frente de todo mundo.
Senti meu coração falhar uma batida. A sinceridade dele era desarmante, quase violenta em sua honestidade. Douglas era um homem de extremos, e descobrir que sua agressividade era uma fachada para o desejo era algo que minha mente superdotada ainda estava tentando processar.
— As cartas... — comecei, minha voz mal passando de um sussurro. — Por que as cartas? Se você é tão... direto?
Ele soltou uma risada nervosa, passando a mão pelo cabelo ruivo.
— Porque eu sou um merda, Akira. No papel, eu consigo ser o homem que você merece. Alguém que aprecia sua mente, que não te xinga. Mas quando eu chego perto... eu perco o controle. Você me irrita porque você é perfeito demais e eu sou um desastre.
Aproimei-me dele lentamente. Pela primeira vez, eu não senti medo da sua agressividade. Senti uma curiosidade que queimava.
— Você escreveu que meus olhos lembram o abismo de uma nebulosa — citei, vendo-o fechar os olhos com força, envergonhado. — E que queria saber se o meu gosto é tão doce quanto o perfume que eu uso.
— Para com isso — ele pediu, a voz embargada. — Você já descobriu que sou eu, parabéns, nerd. Agora pode rir da minha cara e me denunciar para o RH.
Em vez de rir, eu fiz algo que desafiava toda a minha natureza reservada. Estendi a mão e toquei seu braço. Os músculos dele estavam tensos como cordas de piano.
— Eu não vou rir — eu disse suavemente. — E eu não vou te denunciar.
Douglas abriu os olhos, encarando-me com uma mistura de choque e esperança que me fez perder o fôlego.
— Por que não?
— Porque... — senti meu rosto queimar, mas continuei — ...apesar de você ser o homem mais irritante que eu já conheci, eu também pensei em você. Mais do que a lógica permitiria.
O olhar de Douglas mudou instantaneamente. A vergonha foi substituída por uma fome voraz. Ele deu um passo à frente, reduzindo a distância entre nós a quase nada.
— Você está me dizendo que o pequeno gênio japonês tem desejos impuros? — Ele provocou, mas desta vez não havia malícia, apenas uma tensão sexual palpável que fazia o ar vibrar.
— Estou dizendo que você é uma distração constante — respondi, tentando manter a dignidade enquanto meu corpo clamava pelo toque dele. — E que suas cartas são... muito bem escritas.
Douglas soltou um palavrão baixo e, antes que eu pudesse reagir, suas mãos agarraram minha cintura, puxando-me contra ele. O impacto fez meu fôlego escapar. Ele era sólido, quente e cheirava a baunilha e a uma ansiedade que espelhava a minha.
— Eu vou te beijar agora — ele avisou, a voz vibrando contra meus lábios. — E se você não quiser, é melhor me empurrar com toda a sua força, porque eu não vou conseguir parar.
Eu não o empurrei. Em vez disso, fechei os olhos e contei. Um, dois, três...
No quatro, os lábios de Douglas colidiram com os meus.
Não foi um beijo suave. Foi como tudo o que Douglas fazia: agressivo, intenso e desesperado. Ele me beijava como se estivesse tentando reivindicar cada parte da minha alma, e eu respondi com uma urgência que não sabia que possuía. Minhas mãos subiram para o seu pescoço, enterrando-se em seus cabelos ruivos, enquanto ele me prensava contra a mesa, derrubando alguns papéis e canetas no processo.
— Porra, Akira — ele arquejou contra minha boca, interrompendo o beijo por um segundo. Ele parecia exausto, como se um peso tivesse sido tirado de seus ombros. — Você não tem noção do quanto eu esperei por isso.
— Você é muito barulhento — murmurei, embora estivesse sorrindo entre os beijos.
— E você é muito nerd — ele rebateu, apertando minha coxa com uma das mãos. — Mas é o meu nerd.
Voltamos a nos beijar, mas fomos interrompidos pelo som de passos no corredor. Separammo-nos instantaneamente, ambos ofegantes e com os uniformes desalinhados. Douglas rapidamente se sentou na mesa, fingindo analisar um gráfico, enquanto eu me curvei sobre o teclado, meu coração batendo tão forte que eu tinha certeza de que ele podia ouvir do outro lado da sala.
Um colega de trabalho passou pela porta, acenou brevemente e seguiu seu caminho. O silêncio que restou era diferente agora. Não era mais carregado de hostilidade, mas de uma promessa silenciosa.
Douglas olhou para mim, o rosto ainda levemente corado, mas o brilho arrogante estava de volta aos seus olhos.
— Vamos ter que terminar isso na minha casa — ele disse, a voz cheia de uma promessa que me fez estremecer. — Sem relatórios, sem agência, e sem essa porra de uniformes.
— Concordo — eu disse, surpreendendo a mim mesmo com a firmeza da minha voz. — Mas você ainda me deve o relatório de propulsão.
Douglas revirou os olhos e soltou uma gargalhada genuína, algo que eu raramente ouvia.
— Você é inacreditável, Takahashi. Um ditador de óculos.
— E você é um admirador não tão secreto assim — provoquei, sentindo uma leveza que há muito não sentia.
A Missão Éden estava se aproximando. Em breve, estaríamos confinados em uma nave, viajando para os confins do sistema solar em uma missão que eu suspeitava ter camadas muito mais sombrias do que o governo nos dizia. Havia rumores de conspirações, de informações passadas a seres de outros mundos, e de alguém infiltrado para impedir o plano.
Mas, naquele momento, enquanto eu olhava para Douglas e via o brilho de desejo e respeito em seus olhos, a única conspiração que importava era a que havíamos acabado de selar entre nós dois. O mundo lá fora podia estar à beira do caos, mas dentro daquele escritório, entre números e tintas abstratas, eu finalmente tinha encontrado algo que a lógica não conseguia explicar, mas que meu coração entendia perfeitamente.
Um, dois, três... quatro.
Desta vez, eu não contei para aliviar o estresse. Contei os segundos até que pudéssemos estar sozinhos novamente. E, pela primeira vez na vida, a matemática parecia secundária diante daquele caos ruivo chamado Douglas Araújo.
