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A descoberta do amor

Fandom: Slow burn

Criado: 13/06/2026

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Equação de Segundo Grau e Outras Incertezas

O cheiro de cera de assoalho e perfume barato de adolescente impregnava o corredor principal do Colégio Saint Jude. Para Alice Smith, aquele era o aroma oficial da ansiedade. Ela apertou as alças da mochila contra os ombros, sentindo o peso familiar dos livros didáticos que já havia lido durante as férias. Com 1,65m de altura e uma postura que tentava, sem sucesso, passar despercebida, ela caminhava em direção ao seu novo armário.

Alice era o que muitos chamariam de "nerd de cinema", embora detestasse o clichê. Seus cabelos morenos caíam em ondas bem cuidadas sobre os ombros, e os óculos de armação fina apenas realçavam seus olhos expressivos. Ela era bonita, mas sua timidez agia como um campo de força. Para a maioria, ela era apenas a garota que tirava dez em física; para seus poucos amigos, ela era a dona do sarcasmo mais afiado do segundo ano.

Do outro lado do corredor, a dinâmica era diferente. Mateus Brown atravessava a multidão como se estivesse abrindo caminho em uma quadra de basquete. Com 1,80m, porte atlético e cabelos loiros propositalmente bagunçados, ele era o alvo de todos os olhares. Ser o capitão do time de basquete trazia uma popularidade que ele, honestamente, preferia trocar por uma tarde tranquila de videogame. Mateus odiava a obrigação de ser o centro das atenções.

Ele parou em frente ao armário 114, que, por ironia do destino ou erro administrativo, ficava exatamente ao lado do 115. O armário de Alice.

— Droga de cadeado — resmungou Mateus, lutando com a combinação.

Alice, que já estava organizando seus cadernos por ordem alfabética de matéria, saltou levemente com o susto da voz grave ao seu lado. Ela olhou de soslaio e sentiu o coração dar uma batida errática. Mateus Brown. O garoto que ela observava da arquibancada — puramente por interesse acadêmico na biomecânica dos arremessos, ela dizia a si mesma — estava a trinta centímetros de distância.

— Você está girando para o lado errado — disse Alice, a voz saindo mais baixa do que pretendia.

Mateus parou e olhou para baixo. Ele sorriu, um sorriso genuíno que não costumava mostrar para as líderes de torcida que o seguiam.

— Oi, Alice. É Alice, certo?

Ela sentiu o rosto esquentar instantaneamente.

— É. Sim. Alice. Do clube de robótica. E da aula de cálculo. E da vida em geral.

Mateus soltou uma risada curta e anasalada.

— Eu sei quem você é. Você é a pessoa que salvou minha média no semestre passado com aquela revisão na biblioteca. Eu só não achei que você lembrasse do meu nome.

Alice ajeitou os óculos, recuperando um pouco de sua coragem ácida.

— Difícil esquecer o nome do capitão do time que está em todos os cartazes do corredor, Mateus. E o cadeado... é para a direita primeiro. Duas voltas completas.

Ele seguiu a instrução e, com um estalo satisfatório, o armário se abriu.

— Você é um gênio. Literalmente.

— É o que dizem os meus boletins — respondeu ela, fechando a porta do seu armário com um clique seco. — Mas eles não mencionam que eu também sou ótima em abrir latas de conserva e identificar constelações.

Mateus encostou-se no armário, ignorando os chamados de seus colegas de time que passavam em direção ao ginásio.

— Constelações? Isso parece bem mais interessante do que táticas de zona de defesa.

— Depende do ponto de vista — Alice deu um meio sorriso. — Para o treinador, as estrelas não ganham o campeonato estadual.

— Talvez devessem. Elas parecem menos estressantes.

Houve um silêncio confortável por alguns segundos, quebrado apenas pelo sinal estridente que anunciava a primeira aula. Alice começou a se afastar, mas Mateus a chamou.

— Ei, Alice!

— Sim? — Ela se virou, o coração ainda acelerado.

— Eu... eu andei lendo sobre aquela coisa de astrofísica que você mencionou uma vez. No refeitório. Quer dizer, eu ouvi você falando com a Sarah. É verdade que o tempo passa mais devagar perto de buracos negros?

Alice parou, genuinamente surpresa. Mateus Brown, o garoto cujas notas em ciências eram motivo de orações por parte da diretoria, estava perguntando sobre a Teoria da Relatividade?

— Sim, dilatação temporal. Basicamente, a gravidade deforma o tecido do espaço-tempo. — Ela deu um passo de volta para perto dele. — Por que o interesse?

Mateus coçou a nuca, parecendo subitamente tímido, um contraste bizarro com sua figura imponente.

— Às vezes eu sinto que o ensino médio é um buraco negro. Mas o tempo aqui parece passar devagar demais, e não do jeito legal.

Alice riu, e desta vez foi uma risada aberta, que iluminou seu rosto de uma forma que Mateus nunca tinha visto de perto.

— Bom, nesse caso, é apenas tédio, Mateus. A física não tem cura para o tédio escolar.

— Que pena — disse ele, começando a caminhar ao lado dela. — Eu esperava que você tivesse uma fórmula para isso.

Eles caminharam juntos até a sala de Literatura, sob os olhares confusos de metade do corpo discente. O capitão do time e a nerd prodígio. O clichê estava sendo reescrito diante dos olhos de todos.

Ao entrarem na sala, o professor Miller já escrevia no quadro. Mateus sentou-se no fundo, onde os atletas costumavam se esconder, e Alice ocupou sua posição estratégica na segunda fileira. Durante toda a aula, Alice sentiu um peso na nuca. Toda vez que ela se virava discretamente para pegar algo na mochila, encontrava os olhos azuis de Mateus fixos nela, antes de ele desviar o olhar rapidamente para o caderno em branco.

No final da aula, enquanto todos se apressavam para o intervalo, Mateus se aproximou da mesa de Alice.

— Alice, eu posso te pedir um favor? — Ele hesitou. — E não é sobre abrir cadeados.

— Se for para eu fazer seu dever de casa de literatura, a resposta é não — disse ela, guardando os estojos. — Eu tenho princípios éticos, sabia? E eles envolvem não resumir "Dom Casmurro" para quem não quer ler.

— Não é isso. — Ele sorriu, mas parecia nervoso. — O treinador disse que se eu não subir minha média em matemática até o fim do mês, eu fico no banco no primeiro jogo da temporada.

Alice cruzou os braços, tentando não parecer afetada pela proximidade dele.

— E você quer que eu seja sua tutora.

— Eu quero que você me ajude a não ser um desastre completo. Eu pago com café. Ou pizza. Ou... sei lá, eu posso te ensinar a arremessar uma bola de três pontos?

Alice soltou uma risadinha.

— Me ensinar a arremessar? Mateus, minha coordenação motora é comparável à de um recém-nascido tentando andar no gelo.

— Eu sou um ótimo professor — insistiu ele, inclinando-se um pouco. — E você é a melhor aluna que eu conheço. É uma troca justa.

Alice olhou para ele, analisando a expressão de expectativa no rosto do loiro. Havia algo de vulnerável em Mateus que a maioria das pessoas não via por trás da jaqueta do time.

— Tudo bem, capitão. Mas aviso logo: eu sou exigente. Se você não souber a diferença entre um cateto e uma hipotenusa na próxima quarta-feira, a pizza vai ter que ser por sua conta e eu vou embora.

Mateus abriu um sorriso radiante, o tipo de sorriso que costumava ser reservado para as vitórias no último segundo de jogo.

— Fechado. Quarta-feira, na biblioteca?

— Na biblioteca — confirmou ela.

— Combinado, Smith. — Ele deu um leve toque no ombro dela ao passar. — Vejo você por aí.

Alice ficou parada por um momento, observando-o sair. Sarah, sua melhor amiga, apareceu do nada, brotando do lado da porta com um olhar malicioso.

— O que foi isso? O "Rei do Baile" acabou de fechar um acordo de paz com a "Rainha da Biblioteca"?

— Ele só precisa de ajuda com matemática, Sarah. Não viaja.

— Sei. E eu sou a próxima ganhadora do Nobel de Química — debochou a amiga. — Alice, ele estava olhando para você como se você fosse a resposta da questão mais difícil da prova.

Alice revirou os olhos, mas não conseguiu esconder o sorriso que brincava nos lábios.

— Ele só está desesperado para não perder a vaga no time.

— Desespero não faz ninguém aprender sobre buracos negros nas férias para ter assunto com uma garota — Sarah pontuou, começando a andar pelo corredor.

Alice parou no meio do caminho.

— Espera, como você sabe que ele estava lendo sobre buracos negros?

— Eu tenho meus métodos. E você tem um encontro de estudos na quarta-feira. Sugiro que use aquela sua blusa azul que combina com seus olhos.

— Não é um encontro! — gritou Alice, mas Sarah já havia sumido na multidão.

O restante do dia passou como um borrão. Alice se pegou desenhando diagramas de força que terminavam, misteriosamente, parecendo o perfil de um jogador de basquete. Ela se sentia ridícula. Ela era Alice Smith, a garota que tinha um plano de dez anos para entrar no MIT. Ela não deveria estar nervosa por causa de Mateus Brown.

No treino de basquete, Mateus estava tendo um desempenho incomum. Ele errou três arremessos livres seguidos, o que rendeu um grito de advertência do treinador. Sua mente não estava na bola, mas na conversa do corredor. Ele sempre admirou Alice de longe — a forma como ela mordia o lábio quando estava concentrada, o jeito como ela defendia suas opiniões nas aulas de história, a risada que ele raramente ouvia.

Para ele, Alice não era apenas "a nerd". Ela era a pessoa mais interessante daquela escola de plástico. E o fato de ela ter aceitado ajudá-lo era a melhor coisa que tinha acontecido em todo o segundo ano, que mal havia começado.

Quando o sinal da última aula tocou, Alice caminhou até o estacionamento. O sol da tarde batia nos carros, criando reflexos ofuscantes. Ela viu Mateus de longe, rodeado por seus amigos, rindo de alguma piada interna. Por um segundo, ela pensou que ele nem a veria.

Mas Mateus levantou os olhos e, ao avistá-la, acenou vigorosamente, ignorando as perguntas curiosas dos outros jogadores.

— Até quarta, Alice! — gritou ele.

Ela apenas acenou de volta, sentindo o rosto queimar novamente, e acelerou o passo em direção ao seu carro antigo.

Ao entrar no veículo, Alice respirou fundo. O segundo ano prometia ser muito mais complicado do que qualquer equação de segundo grau que ela já tivesse resolvido. E, pela primeira vez na vida, ela não tinha certeza se queria saber o resultado final tão cedo. O frio na barriga era uma variável nova, e ela estava começando a gostar de não saber como resolvê-la.
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