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Dois
Fandom: Origem
Criado: 13/06/2026
Tags
HorrorHorror de SobrevivênciaDramaDor/ConfortoRomanceHorror PsicológicoPós-ApocalípticoHistória Doméstica
Onde o Medo Não nos Alcança
O som era rítmico, quase hipnótico, se não fosse absolutamente aterrorizante. *Toc. Toc. Toc.* Não era a batida de alguém que pedia permissão, mas o de algo que simulava uma cortesia humana para esconder a fome ancestral que carregava. Do lado de fora da casa de madeira, as criaturas sorridentes caminhavam calmamente pela grama alta de Township, vestidas com suas roupas de outras épocas, esperando apenas um deslize, uma janela destrancada ou um talismã que caísse.
Gi apertou os olhos, sentindo o corpo estremecer cada vez que o som se repetia na porta da frente. Ela estava sentada no sofá velho, as mãos entrelaçadas sobre os joelhos. Sua paciência estava no limite, não com as pessoas da casa, mas com aquela situação interminável. Ela queria gritar, queria abrir a porta e dizer para aquelas coisas irem para o inferno, mas sua natureza compreensiva a mantinha ali, firme, sendo o porto seguro que todos precisavam.
— Eles parecem mais insistentes hoje — comentou Randall, encostado na parede perto da janela, as mãos nos bolsos da jaqueta. Ele não olhava para fora — ninguém era louco o suficiente para encarar aqueles rostos por muito tempo —, mas sua postura era de puro desafio.
Randall era o tipo de homem que parecia pronto para brigar com o próprio destino. Ele detestava as regras de Boyd, detestava a passividade da cidade e, acima de tudo, detestava sentir-se encurralado.
— Não dê atenção a eles, Randall — disse Gi, com a voz suave, embora um pouco trêmula. — Se você focar no barulho, eles vencem.
— Eles já venceram no momento em que a gente ficou preso nessa droga de lugar, Gi — Randall retrucou, o tom amargo e marrento de sempre. — Estamos aqui brincando de casinha enquanto aquelas coisas decidem quem vai ser o jantar de amanhã.
Kenny, que estava verificando as trancas da cozinha pela terceira vez, aproximou-se do grupo. O distintivo de xerife assistente brilhava fracamente sob a luz das lamparinas. Ele parecia exausto, mas seus olhos transmitiam aquela coragem silenciosa que Gi tanto admirava. Kenny não precisava de gritos ou de arrogância; ele apenas fazia o que precisava ser feito para manter todos vivos.
— O talismã está no lugar, Randall. A casa está protegida — Kenny afirmou, colocando uma mão reconfortante no ombro de Gi por um breve momento. — Só precisamos passar por mais uma noite. Como todas as outras.
— Mais uma noite de merda — murmurou Randall, mas ele se afastou da janela, sentando-se na poltrona oposta a Gi.
O silêncio que se seguiu foi preenchido novamente pelos sussurros vindos de fora. "Deixe-nos entrar, Gi... Está tão frio aqui fora... Temos um presente para você."
Gi sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ela era uma pessoa alegre, gostava de música, de cores e de conversas que não envolvessem a morte, mas a cidade de Origem estava drenando sua luz. Ela olhou para Kenny, que a observava com uma atenção profunda, quase como se pudesse ler seus pensamentos.
— Vou buscar um pouco de chá — disse ela, levantando-se. — Precisamos de algo para acalmar os nervos.
— Eu ajudo você — Kenny prontificou-se imediatamente.
Randall soltou um som de desdém, fechando os olhos e inclinando a cabeça para trás.
— Vão lá, pombinhos. Eu fico aqui vigiando a porta, caso algum monstro decida que sabe usar uma chave mestra.
Na cozinha pequena e sombria, o calor do fogão a lenha trazia um conforto momentâneo. Gi começou a mexer nas xícaras, mas suas mãos tremeram, e o som da porcelana batendo na madeira soou como um tiro no silêncio da casa. Kenny aproximou-se por trás, envolvendo-a em um abraço protetor.
— Ei — sussurrou ele, o hálito quente contra o pescoço dela. — Você está bem. Estamos seguros.
Gi virou-se nos braços dele, escondendo o rosto em seu peito. A coragem de Kenny era o que a impedia de desmoronar.
— Eu só queria que o barulho parasse, Kenny. Eu queria acordar e ver o sol sem ter que contar quem sobreviveu à noite.
— Eu sei — respondeu ele, afastando uma mecha de cabelo do rosto dela. — Eu também queria.
Kenny a olhou com uma intensidade que fez o coração de Gi acelerar. Ali, entre o medo da morte e a incerteza do amanhã, o desejo florescia como uma forma de rebeldia. Era a única coisa que os monstros não podiam tocar.
Ele a beijou. Foi um beijo urgente, carregado de uma necessidade de sentir-se vivo. Gi correspondeu com a mesma intensidade, suas mãos subindo para a nuca de Kenny, puxando-o para mais perto. O beijo tornou-se quente, uma chama que tentava queimar toda a angústia das horas anteriores. Por alguns segundos, os sussurros do lado de fora e as batidas na porta desapareceram. Não havia monstros, não havia floresta, não havia talismãs. Havia apenas o sabor de Kenny e a solidez de seu corpo contra o dela.
Eles se separaram ofegantes, as testas encostadas.
— A gente não devia... — Gi começou, com um sorriso fraco e meigo surgindo nos lábios.
— A gente deve tudo o que nos faz esquecer este lugar — Kenny a interrompeu, acariciando sua bochecha.
— Que lindo — a voz sarcástica de Randall veio da entrada da cozinha.
Os dois se afastaram rapidamente, embora Kenny permanecesse perto de Gi, protetor. Randall estava encostado no batente da porta, um meio sorriso cínico no rosto, mas seus olhos não tinham a malícia de costume; pareciam apenas vazios.
— Desculpe interromper o momento "o amor vence tudo", mas o vovô lá fora resolveu começar a arranhar a parede do quarto. Acho que ele quer atenção.
Kenny suspirou, recompondo sua postura de autoridade.
— Ele não pode entrar, Randall. Você sabe disso.
— Eu sei que ele não pode entrar — Randall deu um passo à frente, a agressividade voltando ao tom de voz. — Mas eu estou cansado de ouvir. Estou cansado de ficar trancado como um rato. Por que a gente não sai e acaba com um deles de uma vez?
— Porque você morreria em três segundos — Kenny retrucou, firme. — E eu não vou deixar ninguém se sacrificar por causa de um impulso idiota.
— Idiota é ficar aqui esperando a morte chegar por osmose! — Randall bateu a mão na mesa.
Gi deu um passo à frente, colocando-se entre os dois. Sua paciência havia retornado, mas agora temperada com uma autoridade mansa.
— Randall, por favor — disse ela, olhando-o nos olhos. — Eu sei que você está com raiva. Todos estamos. Mas brigar entre nós é exatamente o que o lugar quer. Você é corajoso, nós sabemos disso. Mas agora, a sua coragem precisa ser usada para aguentar o silêncio, não para correr para a escuridão.
Randall sustentou o olhar dela por um longo tempo. Gi tinha esse efeito nas pessoas; era difícil continuar sendo um idiota quando ela olhava para você com tanta compreensão e bondade. Ele desviou o olhar, bufando.
— Você é muito boazinha para o seu próprio bem, Gi.
— E você é muito marrento para o seu — ela rebateu com um sorrisinho, desarmando-o.
O resto da noite passou de forma lenta. Eles se acomodaram na sala novamente. Gi acabou pegando no sono com a cabeça apoiada no ombro de Kenny, que permanecia alerta, uma mão segurando a dela e a outra descansando perto de sua lanterna. Randall, apesar de toda a sua pose, acabou cochilando na poltrona, embora acordasse sobressaltado a cada estalo da madeira da casa.
Lá fora, as criaturas continuavam sua vigília. Elas sorriam para as janelas fechadas, sussurrando promessas de paz em troca de um único convite. Mas dentro daquela casa, protegida por um pedaço de pedra entalhada e pelo calor de três pessoas que, à sua maneira, cuidavam umas das outras, a escuridão não conseguia entrar.
Quando os primeiros raios de sol começaram a atravessar as frestas das cortinas, os sons na floresta cessaram. O silêncio da manhã em Township era diferente — era um silêncio de alívio, mas também de luto pelo tempo perdido.
Gi acordou primeiro, sentindo o calor de Kenny ao seu lado. Ela olhou para Randall, que já estava de pé, observando a rua pela fresta da cortina com uma expressão ilegível.
— Eles se foram — disse Randall, sem se virar. — Por enquanto.
Kenny despertou, passando a mão pelo rosto e bocejando.
— Mais um dia — comentou ele, olhando para Gi com um carinho renovado.
— Mais um dia — ela concordou, levantando-se e esticando o corpo. — Vou fazer o café. E desta vez, Randall, sem reclamações sobre o gosto da água.
— Não prometo nada — ele respondeu, mas havia um brilho menos hostil em seus olhos.
Gi caminhou até a cozinha, sentindo o peso do medo diminuir um pouco. Enquanto houvesse alguém para amar, alguém para proteger e até alguém para desafiar as regras, a cidade de Origem não teria vencido totalmente. Ela começou a preparar o café, cantarolando uma melodia antiga que sua avó costumava cantar, uma pequena nota de alegria desafiando o horror que espreitava além das árvores.
Gi apertou os olhos, sentindo o corpo estremecer cada vez que o som se repetia na porta da frente. Ela estava sentada no sofá velho, as mãos entrelaçadas sobre os joelhos. Sua paciência estava no limite, não com as pessoas da casa, mas com aquela situação interminável. Ela queria gritar, queria abrir a porta e dizer para aquelas coisas irem para o inferno, mas sua natureza compreensiva a mantinha ali, firme, sendo o porto seguro que todos precisavam.
— Eles parecem mais insistentes hoje — comentou Randall, encostado na parede perto da janela, as mãos nos bolsos da jaqueta. Ele não olhava para fora — ninguém era louco o suficiente para encarar aqueles rostos por muito tempo —, mas sua postura era de puro desafio.
Randall era o tipo de homem que parecia pronto para brigar com o próprio destino. Ele detestava as regras de Boyd, detestava a passividade da cidade e, acima de tudo, detestava sentir-se encurralado.
— Não dê atenção a eles, Randall — disse Gi, com a voz suave, embora um pouco trêmula. — Se você focar no barulho, eles vencem.
— Eles já venceram no momento em que a gente ficou preso nessa droga de lugar, Gi — Randall retrucou, o tom amargo e marrento de sempre. — Estamos aqui brincando de casinha enquanto aquelas coisas decidem quem vai ser o jantar de amanhã.
Kenny, que estava verificando as trancas da cozinha pela terceira vez, aproximou-se do grupo. O distintivo de xerife assistente brilhava fracamente sob a luz das lamparinas. Ele parecia exausto, mas seus olhos transmitiam aquela coragem silenciosa que Gi tanto admirava. Kenny não precisava de gritos ou de arrogância; ele apenas fazia o que precisava ser feito para manter todos vivos.
— O talismã está no lugar, Randall. A casa está protegida — Kenny afirmou, colocando uma mão reconfortante no ombro de Gi por um breve momento. — Só precisamos passar por mais uma noite. Como todas as outras.
— Mais uma noite de merda — murmurou Randall, mas ele se afastou da janela, sentando-se na poltrona oposta a Gi.
O silêncio que se seguiu foi preenchido novamente pelos sussurros vindos de fora. "Deixe-nos entrar, Gi... Está tão frio aqui fora... Temos um presente para você."
Gi sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ela era uma pessoa alegre, gostava de música, de cores e de conversas que não envolvessem a morte, mas a cidade de Origem estava drenando sua luz. Ela olhou para Kenny, que a observava com uma atenção profunda, quase como se pudesse ler seus pensamentos.
— Vou buscar um pouco de chá — disse ela, levantando-se. — Precisamos de algo para acalmar os nervos.
— Eu ajudo você — Kenny prontificou-se imediatamente.
Randall soltou um som de desdém, fechando os olhos e inclinando a cabeça para trás.
— Vão lá, pombinhos. Eu fico aqui vigiando a porta, caso algum monstro decida que sabe usar uma chave mestra.
Na cozinha pequena e sombria, o calor do fogão a lenha trazia um conforto momentâneo. Gi começou a mexer nas xícaras, mas suas mãos tremeram, e o som da porcelana batendo na madeira soou como um tiro no silêncio da casa. Kenny aproximou-se por trás, envolvendo-a em um abraço protetor.
— Ei — sussurrou ele, o hálito quente contra o pescoço dela. — Você está bem. Estamos seguros.
Gi virou-se nos braços dele, escondendo o rosto em seu peito. A coragem de Kenny era o que a impedia de desmoronar.
— Eu só queria que o barulho parasse, Kenny. Eu queria acordar e ver o sol sem ter que contar quem sobreviveu à noite.
— Eu sei — respondeu ele, afastando uma mecha de cabelo do rosto dela. — Eu também queria.
Kenny a olhou com uma intensidade que fez o coração de Gi acelerar. Ali, entre o medo da morte e a incerteza do amanhã, o desejo florescia como uma forma de rebeldia. Era a única coisa que os monstros não podiam tocar.
Ele a beijou. Foi um beijo urgente, carregado de uma necessidade de sentir-se vivo. Gi correspondeu com a mesma intensidade, suas mãos subindo para a nuca de Kenny, puxando-o para mais perto. O beijo tornou-se quente, uma chama que tentava queimar toda a angústia das horas anteriores. Por alguns segundos, os sussurros do lado de fora e as batidas na porta desapareceram. Não havia monstros, não havia floresta, não havia talismãs. Havia apenas o sabor de Kenny e a solidez de seu corpo contra o dela.
Eles se separaram ofegantes, as testas encostadas.
— A gente não devia... — Gi começou, com um sorriso fraco e meigo surgindo nos lábios.
— A gente deve tudo o que nos faz esquecer este lugar — Kenny a interrompeu, acariciando sua bochecha.
— Que lindo — a voz sarcástica de Randall veio da entrada da cozinha.
Os dois se afastaram rapidamente, embora Kenny permanecesse perto de Gi, protetor. Randall estava encostado no batente da porta, um meio sorriso cínico no rosto, mas seus olhos não tinham a malícia de costume; pareciam apenas vazios.
— Desculpe interromper o momento "o amor vence tudo", mas o vovô lá fora resolveu começar a arranhar a parede do quarto. Acho que ele quer atenção.
Kenny suspirou, recompondo sua postura de autoridade.
— Ele não pode entrar, Randall. Você sabe disso.
— Eu sei que ele não pode entrar — Randall deu um passo à frente, a agressividade voltando ao tom de voz. — Mas eu estou cansado de ouvir. Estou cansado de ficar trancado como um rato. Por que a gente não sai e acaba com um deles de uma vez?
— Porque você morreria em três segundos — Kenny retrucou, firme. — E eu não vou deixar ninguém se sacrificar por causa de um impulso idiota.
— Idiota é ficar aqui esperando a morte chegar por osmose! — Randall bateu a mão na mesa.
Gi deu um passo à frente, colocando-se entre os dois. Sua paciência havia retornado, mas agora temperada com uma autoridade mansa.
— Randall, por favor — disse ela, olhando-o nos olhos. — Eu sei que você está com raiva. Todos estamos. Mas brigar entre nós é exatamente o que o lugar quer. Você é corajoso, nós sabemos disso. Mas agora, a sua coragem precisa ser usada para aguentar o silêncio, não para correr para a escuridão.
Randall sustentou o olhar dela por um longo tempo. Gi tinha esse efeito nas pessoas; era difícil continuar sendo um idiota quando ela olhava para você com tanta compreensão e bondade. Ele desviou o olhar, bufando.
— Você é muito boazinha para o seu próprio bem, Gi.
— E você é muito marrento para o seu — ela rebateu com um sorrisinho, desarmando-o.
O resto da noite passou de forma lenta. Eles se acomodaram na sala novamente. Gi acabou pegando no sono com a cabeça apoiada no ombro de Kenny, que permanecia alerta, uma mão segurando a dela e a outra descansando perto de sua lanterna. Randall, apesar de toda a sua pose, acabou cochilando na poltrona, embora acordasse sobressaltado a cada estalo da madeira da casa.
Lá fora, as criaturas continuavam sua vigília. Elas sorriam para as janelas fechadas, sussurrando promessas de paz em troca de um único convite. Mas dentro daquela casa, protegida por um pedaço de pedra entalhada e pelo calor de três pessoas que, à sua maneira, cuidavam umas das outras, a escuridão não conseguia entrar.
Quando os primeiros raios de sol começaram a atravessar as frestas das cortinas, os sons na floresta cessaram. O silêncio da manhã em Township era diferente — era um silêncio de alívio, mas também de luto pelo tempo perdido.
Gi acordou primeiro, sentindo o calor de Kenny ao seu lado. Ela olhou para Randall, que já estava de pé, observando a rua pela fresta da cortina com uma expressão ilegível.
— Eles se foram — disse Randall, sem se virar. — Por enquanto.
Kenny despertou, passando a mão pelo rosto e bocejando.
— Mais um dia — comentou ele, olhando para Gi com um carinho renovado.
— Mais um dia — ela concordou, levantando-se e esticando o corpo. — Vou fazer o café. E desta vez, Randall, sem reclamações sobre o gosto da água.
— Não prometo nada — ele respondeu, mas havia um brilho menos hostil em seus olhos.
Gi caminhou até a cozinha, sentindo o peso do medo diminuir um pouco. Enquanto houvesse alguém para amar, alguém para proteger e até alguém para desafiar as regras, a cidade de Origem não teria vencido totalmente. Ela começou a preparar o café, cantarolando uma melodia antiga que sua avó costumava cantar, uma pequena nota de alegria desafiando o horror que espreitava além das árvores.
