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Amor por acidente

Fandom: Barraca do Beijo

Criado: 13/06/2026

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Equações Diferenciais e Chuteiras Sujas

A biblioteca da escola estava mergulhada naquele silêncio artificial, interrompido apenas pelo som rítmico do relógio de parede e pelo sussurro das páginas sendo viradas. Rafaella — ou Rafa, como ela fazia questão de ser chamada por qualquer um que não quisesse receber um olhar mortal — batucava a caneta sobre a mesa de carvalho escuro. Ela era a definição de delicadeza em termos estéticos: laços discretos no cabelo, postura ereta e uma caligrafia impecável. No entanto, por trás dos olhos expressivos, havia uma determinação de ferro que intimidava até os veteranos.

E, naquele momento, sua paciência estava por um fio de seda prestes a arrebentar.

— Ele está quinze minutos atrasado — murmurou Rafa para si mesma, ajustando os óculos de leitura. — Quinze minutos de vida que eu nunca vou recuperar.

Como se o universo estivesse esperando o ápice de sua irritação para pregar uma peça, as portas duplas da biblioteca se abriram com um estrondo nada sutil. Augusto entrou no recinto como se fosse o dono do lugar, carregando a mochila pendurada em apenas um ombro e uma bola de futebol debaixo do braço. Ele era o clichê ambulante que a escola adorava idolatrar: o bad boy de jaqueta de couro, cabelos propositalmente bagunçados e um sorriso de canto que desarmava qualquer um. Menos Rafa.

Ele caminhou até a mesa dela, atraindo olhares de todos os cantos. Augusto era o capitão do time, o garoto mais popular e, infelizmente, o seu parceiro no projeto de História que valia metade da nota do semestre.

— E aí, pequena? — disse ele, jogando a mochila na cadeira ao lado e sentando-se com as pernas abertas, exalando uma confiança irritante.

Rafaella fechou o livro com um estalo seco.

— Meu nome é Rafaella. Mas você pode me chamar de Rafa. E "e aí" não justifica o fato de você estar quase vinte minutos atrasado para a nossa primeira reunião de grupo.

Augusto soltou uma risada anasalada, passando a mão pelo cabelo.

— Relaxa, Rafa. O treino acabou mais tarde hoje. O treinador está pegando pesado para o campeonato. Futebol é prioridade, sabe como é?

— Não, eu não sei como é — rebateu ela, a voz baixa, mas carregada de autoridade. — Para mim, prioridade é não reprovar por causa de alguém que acha que a vida acontece dentro de um campo de grama sintética. Agora, abra o livro na página cento e doze. Temos uma análise sobre a Revolução Industrial para entregar.

Augusto suspirou, claramente entediado, mas obedeceu. Nos primeiros quarenta minutos, o clima era de guerra fria. Rafa ditava os pontos principais com uma precisão cirúrgica, enquanto Augusto tentava, sem muito sucesso, manter o foco nas anotações. Ele parecia um leão enjaulado em uma sala de leitura.

— Você sempre é assim? — perguntou ele de repente, interrompendo-a no meio de uma frase sobre máquinas a vapor.

— Assim como? — Rafa arqueou uma sobrancelha.

— Tão... mandona. Tão certinha. Parece que você tem um roteiro para cada segundo do seu dia.

Rafa sentiu o rosto esquentar.

— Eu chamo isso de organização, Augusto. Algo que você claramente desconhece. Se eu não for "mandona", como você diz, nós vamos acabar escrevendo sobre como o futebol influenciou a invenção do tear mecânico.

Augusto riu, e desta vez não foi o sorriso convencido que ele usava nos corredores. Foi uma risada genuína, que fez seus olhos brilharem de uma forma que Rafa nunca tinha notado antes.

— Bom, seria um artigo bem mais interessante de ler — admitiu ele, inclinando-se para frente. — Mas tudo bem, eu me rendo à sua ditadura acadêmica. O que vem a seguir, capitã?

Pela primeira vez naquela tarde, Rafa sentiu a tensão diminuir. Eles trabalharam por mais duas horas. Para a surpresa dela, Augusto não era burro; ele apenas tinha uma preguiça monumental de se esforçar para algo que não envolvesse uma bola nos pés. Ele tinha sacadas inteligentes e uma visão prática que complementava o conhecimento teórico dela.

Quando a biblioteca anunciou que fecharia em dez minutos, eles começaram a guardar o material.

— Olha, não foi tão terrível quanto eu pensei — disse Augusto, fechando o zíper da mochila. — Você até que é legal quando não está tentando me matar com o olhar.

— E você é quase suportável quando decide usar o cérebro — respondeu Rafa, permitindo-se um pequeno sorriso.

— Quase? — Ele fingiu estar ofendido, colocando a mão no peito. — Isso dói, Rafa. Para compensar essa ofensa, você vai ter que ir ao jogo de sexta-feira.

Rafa soltou uma risada curta enquanto caminhavam em direção à saída.

— Eu não gosto de futebol, Augusto. É só um bando de garotos correndo atrás de um objeto esférico.

— É muito mais que isso. É estratégia, é paixão. — Ele parou na frente dela quando chegaram ao estacionamento. O sol estava se pondo, pintando o céu de laranja e violeta. — Vai por mim. Se você for e não gostar, eu faço a parte difícil da pesquisa sobre a Era Vitoriana sozinho.

Rafa o encarou, avaliando a proposta. O vento bagunçou uma mecha do cabelo dela, e antes que ela pudesse reagir, Augusto estendeu a mão e a colocou atrás da orelha dela. O toque foi leve, mas pareceu eletrizar o ar entre eles.

— Fechado — disse ela, a voz um pouco mais trêmula do que gostaria. — Mas se eu me entediar, você vai ter que ler três capítulos de literatura russa para mim.

— É um risco que estou disposto a correr — ele piscou, subindo em sua moto. — Até amanhã, Rafa.

Nos dias que se seguiram, algo mudou. Nos corredores da escola, eles não eram mais apenas a "menina nerd" e o "astro do futebol". Quando se cruzavam, havia um aceno de cabeça, um sorriso cúmplice ou um comentário rápido sobre o trabalho. As amigas de Rafa não paravam de perguntar o que estava acontecendo, mas ela apenas dava de ombros, embora seu coração desse um pequeno salto toda vez que via a jaqueta do time dele se aproximando.

A sexta-feira chegou mais rápido do que o esperado. As arquibancadas estavam lotadas, o cheiro de pipoca e o som da banda da escola preenchiam o ar. Rafa sentou-se em um canto mais afastado, sentindo-se um peixe fora d'água com seu livro de poesias no colo, caso a promessa de tédio se cumprisse.

Mas então o jogo começou. E ela viu um Augusto que não conhecia.

No campo, ele era pura energia e foco. A arrogância dava lugar a uma liderança nata. Ele corria com uma graça atlética que era hipnotizante. Rafa se pegou fechando o livro e se inclinando para frente, acompanhando cada lance. Quando ele marcou o primeiro gol, a torcida explodiu. Augusto não correu para as líderes de torcida ou para o centro do campo; ele correu em direção à parte da arquibancada onde ela estava e apontou em sua direção, com um sorriso radiante no rosto.

Rafa sentiu suas bochechas queimarem, mas não conseguiu evitar o sorriso que se abriu em seus lábios.

Após o jogo, com a vitória garantida, ela o esperou perto da saída do vestiário. Ele apareceu com o cabelo úmido, o uniforme sujo de grama e uma alegria contagiante.

— E então? — perguntou ele, aproximando-se. — Literatura russa ou eu ganhei a aposta?

— Eu admito — disse ela, olhando para os próprios pés antes de encarar os olhos castanhos dele. — Foi... emocionante. Você joga muito bem, Augusto.

— Só "muito bem"? — Ele deu um passo para mais perto, invadindo o espaço pessoal dela. O cheiro de sabonete e adrenalina era inebriante.

— Ok, você foi incrível — confessou Rafa, a voz sumindo.

Augusto inclinou a cabeça, observando-a com uma intensidade que a fez esquecer como se respirava.

— Sabe, Rafa... eu passei a semana toda pensando no nosso trabalho. Mas não na Revolução Industrial.

— Não? — sussurrou ela.

— Não. Eu passei a semana pensando em como você fica bonita quando está concentrada. E em como eu queria te convidar para sair, mas tive medo de você me dar um fora épico na frente de todo mundo.

Rafa riu, a personalidade forte voltando à tona.

— O grande Augusto, com medo de uma menina delicada?

— Você é delicada como uma granada, Rafaella — disse ele, rindo também. — Mas eu gosto do perigo.

Ele estendeu a mão, e desta vez Rafa não recuou. Ela entrelaçou seus dedos nos dele.

— Então, onde o capitão do time leva uma garota que prefere livros a estádios? — perguntou ela.

— Conheço um lugar que faz o melhor milkshake da cidade e tem uma jukebox que só toca clássicos. O que me diz?

— Eu digo que você está começando a me convencer de que não é apenas um bad boy sem conteúdo.

Eles começaram a caminhar pelo estacionamento agora vazio, sob a luz dos postes. O trabalho de História ainda precisava ser terminado, e as diferenças entre eles ainda eram vastas como um oceano. Mas, naquele momento, entre o barulho das chuteiras no asfalto e o silêncio confortável que se formou entre eles, Rafa percebeu que algumas das melhores histórias não são escritas em livros, mas sim nos encontros improváveis que a vida proporciona.

— Ei, Augusto? — chamou ela, parando por um momento.

— Sim?

— Se você se atrasar para o nosso encontro, eu ainda vou te fazer ler a literatura rusa.

Augusto soltou uma gargalhada que ecoou pela noite.

— Pode deixar, Rafa. Eu estarei lá dez minutos antes. Promessa de capitão.

E enquanto se afastavam, Rafa soube que aquele trabalho de escola tinha sido, sem dúvida, a melhor nota que ela já tiraria na vida. Não pelo conteúdo acadêmico, mas pelo que estava começando a florescer entre uma menina que amava a ordem e um garoto que encontrava sua paz no caos do jogo. No final das contas, a química entre eles era a única matéria que realmente importava.
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