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Como Eu Vejo Você

Fandom: Romance

Criado: 14/06/2026

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DramaAngústiaTragédiaPsicológicoEstudo de PersonagemCiúmesMorte do ProtagonistaRealismoDor/Conforto
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Sombras sob o Refletor

O silêncio do casarão em Malibu era interrompido apenas pelo som rítmico das ondas quebrando na encosta, um barulho que Sophia Carson antes considerava relaxante, mas que agora soava como uma contagem regressiva. Sentada na poltrona de veludo creme da biblioteca, ela segurava o caderno de capa azul contra o peito. Seus dedos longos e pálidos traçavam o relevo do couro, buscando algum tipo de âncora em um mundo que, desde o diagnóstico, parecia feito de vidro prestes a estilhaçar.

Sophia olhou para a câmera analógica sobre a mesa de centro. Havia um filme ali, metade exposto, com fotos que ela tirou de Ethan no jardim e de Malia rindo durante um jantar de domingo. Ela se perguntava se aquelas seriam as últimas imagens felizes que registraria. Seus olhos verdes, que os críticos de cinema descreviam como "janelas para a alma", estavam agora nublados por uma exaustão que maquiagem nenhuma conseguiria esconder.

O diagnóstico de glioblastoma multiforme havia chegado como um roteiro mal escrito que ela fora forçada a protagonizar. Sem cura. Sem tempo. E, fiel à sua natureza reservada, sem plateia. Sophia havia cancelado três contratos de filmes, alegando "motivos pessoais de saúde", e se retirado para a casa de praia, afastando-se de flashes, tapetes vermelhos e, gradualmente, de seu próprio marido.

A porta da biblioteca rangeu levemente. Ethan Buck entrou, a postura impecável mesmo em um momento de intimidade doméstica. Ele usava um suéter de cashmere cinza que realçava o azul de seus olhos, mas havia uma tensão em seus ombros que nem mesmo o corte clássico de suas roupas podia ocultar.

— Você não desceu para o almoço, Mia — disse ele, parando a alguns passos de distância.

Sophia forçou um sorriso, aquele que costumava iluminar as telas, mas que agora parecia apenas uma máscara cansada.

— Eu não estava com fome, Ethan. O livro estava interessante demais para ser interrompido.

— Você não está lendo, está abraçada a esse caderno de novo — ele observou, a voz carregada de uma frustração contida. — O médico disse que você precisa manter a rotina. Nutrição, ar fresco...

— O médico disse que eu vou morrer, Ethan — interrompeu ela, a voz baixa, mas cortante. — Não acho que pular uma salada de quinoa vá acelerar o processo.

Ethan desviou o olhar, o rosto endurecendo. Ele odiava a falta de controle. Para um homem que construiu uma carreira organizando produções cinematográficas milionárias em planilhas e agendas, a morte era uma variável que ele não sabia como gerenciar.

— Malia ligou — ele mudou de assunto, pegando o celular no bolso. — Ela está vindo para cá. Disse que tem os documentos da fundação para você assinar, mas acho que ela só quer te ver.

Sophia sentiu uma pontada de culpa. Malia Jones era sua âncora desde a faculdade. Se havia alguém no mundo que conhecia a Sophia real — a garota que colecionava câmeras velhas e tinha medo de ser esquecida —, era Malia.

— Ela é boa para você, Ethan — comentou Sophia, quase num sussurro, observando o marido. — Ela sabe como lidar com as crises que eu não consigo mais resolver.

— Ela é sua melhor amiga, Mia. Ela está apenas ajudando enquanto você se recupera.

— Nós dois sabemos que não há recuperação — Sophia disse, fechando os olhos. — Por favor, me deixe descansar um pouco antes de ela chegar.

Ethan assentiu silenciosamente e saiu. No corredor, ele parou por um momento, encostando a testa na parede fria. O peso daquela casa estava se tornando insuportável. O cheiro de maresia e doença parecia impregnar tudo.

Cerca de uma hora depois, o som de um motor potente anunciou a chegada de Malia. Ela estacionou seu SUV preto com a precisão de quem sempre sabia exatamente onde deveria estar. Ao sair do carro, Malia ajustou o blazer de alfaiataria bege e verificou o reflexo no retrovisor. Os cabelos pretos estavam perfeitamente alinhados. Ela exalava competência e uma calma que era, em grande parte, uma construção social.

Ethan a encontrou no hall de entrada.

— Ela está na biblioteca — disse ele, mas não fez menção de levá-la até lá.

Malia deu um passo à frente e tocou o braço de Ethan. Foi um gesto rápido, quase imperceptível para quem olhasse de longe, mas carregado de uma familiaridade que ultrapassava os limites da amizade compartilhada.

— Como ela está hoje? — perguntou Malia, a voz suave e persuasiva.

— Intransigente. Amarga. Ela se recusa a lutar, Malia.

— Ela está processando, Ethan. Dê tempo a ela.

— Tempo é a única coisa que não temos — rebateu ele, olhando nos olhos castanhos de Malia.

Houve um silêncio denso entre os dois. Malia reduziu a distância, sua mão deslizando do braço para a mão de Ethan, entrelaçando os dedos nos dele por um breve segundo antes de se afastar.

— Eu vou falar com ela. Depois... podemos conversar sobre o cronograma da imprensa? Precisamos manter a narrativa sob controle.

— No meu escritório — respondeu Ethan, com um aceno de cabeça.

Malia entrou na biblioteca e encontrou a amiga cercada por sombras. Sophia parecia menor do que na semana anterior, a pele clara quase translúcida sob a luz filtrada pelas cortinas.

— Mia, querida — Malia caminhou com elegância e sentou-se no braço da poltrona. — Você parece uma heroína de um romance gótico trágico hoje.

— É o papel da minha vida, não é? — Sophia sorriu, desta vez com um toque de ironia real. — Onde está o contrato que eu preciso assinar?

— Pode esperar. Como você está se sentindo? De verdade?

Sophia suspirou e abriu o caderno azul, folheando as páginas cheias de caligrafia apressada e pensamentos desconexos.

— Sinto como se eu estivesse sendo apagada, Mal. Como se cada dia eu perdesse um pedaço da Sophia que as pessoas amam, e sobrasse apenas essa... casca. Tenho medo de que, quando eu for, ninguém se lembre de quem eu era quando as câmeras estavam desligadas.

Malia sentiu um aperto no peito, mas sua habilidade de esconder emoções era sua maior ferramenta de sobrevivência. Ela acariciou o cabelo de Sophia.

— Eu me lembro. Eu lembro de quando você chorou porque quebrou sua primeira Leica. Eu lembro de quando você odiava usar salto alto. Você é real para mim, Mia. Sempre será.

— Prometa que não vai deixar o Ethan se perder — Sophia pediu, segurando a mão de Malia com uma força inesperada. — Ele não lida bem com o caos. Ele precisa de alguém que seja... estável. Como você.

Malia desviou o olhar por um milésimo de segundo, o suficiente para que a culpa a atingisse como uma onda gelada.

— Ele tem a mim, Mia. Eu cuido de tudo. Você sabe disso.

Após uma hora de conversa suave e assinaturas de documentos, Malia deixou a biblioteca. Ela não foi para o carro. Em vez disso, caminhou para o escritório de Ethan no final do corredor, uma sala repleta de prêmios de cinema e agendas meticulosamente organizadas.

Ela entrou sem bater. Ethan estava em pé diante da janela, olhando para o mar.

— Ela assinou tudo — disse Malia, fechando a porta atrás de si.

— Obrigado. Eu não sei o que faria sem você para gerenciar esses detalhes. Eu sinto que estou desmoronando, Malia. Cada vez que olho para ela, vejo o que estou perdendo e o que não posso consertar.

Ethan se virou, e a vulnerabilidade em seu rosto era algo que ele jamais mostraria a Sophia. Ele precisava ser o pilar para a esposa, mas aquele pilar estava rachado.

Malia se aproximou, deixando de lado a fachada profissional.

— Você não precisa ser perfeito o tempo todo comigo — murmurou ela.

Ethan soltou um suspiro pesado e a puxou para um abraço. No início, era um abraço de conforto, dois amigos compartilhando o peso de uma tragédia iminente. Mas a mão de Ethan subiu para a nuca de Malia, e o contato físico, carregado de meses de tensão, segredos e uma atração proibida que florescera no solo fértil do desespero, mudou de natureza.

Eles se beijaram com uma urgência que beirava a violência. Era um beijo cheio de culpa, mas também de uma necessidade egoísta de sentir algo que não fosse luto. Naquele momento, no escritório trancado, eles não eram o marido leal e a melhor amiga dedicada. Eram duas pessoas fugindo da realidade devastadora que vivia no quarto ao lado.

— Isso é errado — sussurrou Ethan contra os lábios de Malia, sem soltá-la.

— Eu sei — respondeu ela, a respiração ofegante. — Mas eu não consigo parar. Eu não quero parar.

Enquanto isso, na biblioteca, o silêncio foi quebrado pelo som de algo caindo. Sophia havia derrubado sua câmera analógica. Ao se inclinar para pegá-la, uma tontura aguda a atingiu, e ela precisou se apoiar na mesa.

— Ethan? — chamou ela, a voz fraca.

Ninguém respondeu.

Ela tentou se levantar, decidida a encontrar o marido. Caminhou lentamente pelo corredor, seus passos abafados pelo tapete persa. Ela queria dizer a ele que, apesar de tudo, ela o amava por tentar ser forte. Queria dizer que ele estava livre de sua amargura.

Ao se aproximar do escritório, ela ouviu vozes abafadas. O tom não era de negócios. Era um murmúrio baixo, íntimo.

Sophia parou diante da porta entreaberta. Seus olhos verdes, antes expressivos e cheios de vida, fixaram-se na fresta.

Lá dentro, ela viu o brilho do blazer bege de Malia e as mãos de Ethan emoldurando o rosto da amiga. Viu o modo como eles se olhavam — uma mistura de desejo e cumplicidade que ela não via nos olhos de Ethan para com ela há meses.

O mundo de Sophia, que já estava sumindo devido à doença, pareceu desintegrar-se por completo. Ela não gritou. Não entrou na sala para confrontá-los. Ela não tinha energia para o escândalo que sua imagem de celebridade exigiria.

Em vez disso, Sophia recuou lentamente, passo a passo, voltando para a escuridão do corredor. Ela apertou o caderno azul contra o peito, sentindo o papel frio. A traição doía, mas, de uma forma distorcida e cruel, trazia uma clareza que ela não tinha antes.

Ela voltou para a biblioteca e sentou-se novamente em sua poltrona. Pegou a caneta e abriu o caderno na última página escrita. Suas sardas discretas pareciam mais escuras contra a palidez de seu rosto enquanto ela escrevia, com a mão trêmula, mas decidida:

"Eles acham que estão escondendo as sombras de mim. Mas eles esquecem que eu passei a vida inteira aprendendo a ler a luz. O filme acabou antes do que eu esperava, e o final... o final é um clichê que eu nunca aceitaria em um roteiro."

Ela fechou o caderno. A fotografia analógica sobre a mesa agora parecia uma mentira revelada. Sophia Carson, a estrela que o mundo pensava conhecer, estava agora verdadeiramente sozinha. E, pela primeira vez desde o diagnóstico, ela não sentiu medo. Sentiu apenas a fria e cortante necessidade de decidir como seu último ato seria encenado.

Lá fora, as ondas continuavam a bater contra as rochas, indiferentes aos segredos guardados entre as paredes de vidro e traição. Dentro da casa, o silêncio retornou, mas desta vez, era o silêncio que antecede a tempestade que destruiria todas as ilusões de lealdade.
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